ENEM 1998 – Viver e Aprender

Esta é uma redação escrita segundo orientação da prova do ENEM de 1998. O texto foi produzido em 09/09/2012 como parte de minha simulação da prova, para que fizesse depois a prova de fato de 2012.

Para viver como animais, é preciso aprender pouco, por observação de outros indivíduos da espécie. Para viver em sociedade (o quê de certa forma continua sendo “como animais”), o aprendizado pela observação é complementado pela transmissão oral de informações. Entretanto, a atual sociedade capitalista requer muito mais: saber ler, escrever e ter passado décadas nas escolas. Entretanto, o aprendizado escolar não parece destinado a “ensinar a viver”…

A vida das pessoas costuma se resumir a comer, gastar água e eletricidade, trabalhar, locomover-se, dormir e utilizar alguma diversão eletrônica. Nenhuma destas ações requer conhecimento dos nomes das capitanias hereditárias, da tabela periódica, da sexualidade das minhocas e demais abobrinhas citadas na música “Estudo Errado” de Gabriel, O Pensador. Mesmo que o estudante torne-se historiador, por exemplo, ele não precisa de ter decorado os nomes das capitanias. E muitos poucos tornam-se, o quê tira a justificativa de colocar algo do tipo nos programas de todas as escolas.

Capa do livro "A Reprodução: Elementos para uma Teoria do Sistema de Ensino".

Capa do livro “A Reprodução: Elementos para uma Teoria do Sistema de Ensino”.
© Livraria Atualidades do Direito.

Mas se as escolas não servem de nada às pessoas – privadas – humanas nem às pessoas – públicas – trabalhadoras (utilizando a dicotomia apresentada por Karl Marx em seus Manuscritos Econômicos-Filosóficos), porquê continuam existindo? Interessante observar que as empresas cobram cada vez mais escolaridade para cargos de ações simples que, como expus anteriormente, não requerem nenhum daqueles conhecimentos inúteis. Pierre Bourdieu, em seu livro “A Reprodução: Elementos para uma Teoria do Sistema de Ensino” deixa claro o objetivo das escolas: com o menor custo, realizar um trabalho pedagógico que inculque de forma durável o arbitrário cultural dominante (o único tido como legítimo) nos alunos.

Dito de outra forma: a escola serve para reprogramar os alunos com a ideologia das classes dominantes. Porém, os alunos costumam não ser das classes dominantes. Para os que são, ótimo; mas os que não são acabam condenados a pensar de forma incompatível com a que a realidade que os cerca requer. Com isto surge o absurdo de alguém que precisa de energia elétrica, ao invés de construir em sua casa uma pequena usina termelétrica de aquecimento solar, ir trabalhar em uma usina nuclear para pagar com seu salário o consumo da hidrelétrica. Dois patrões lucram, ao invés de nenhum.

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