NSA: consequências econômicas da vigilância

Autor: Sander Venema, 17 de novembro de 2013. Licença: CC-BY-NC 4.0. Tradução: Anders Bateva.

Nos últimos 6 meses aproximadamente [(segundo semestre de 2013, considerando a data de publicação do artigo)], Edward Snowden, um ex-contratado da NSA, chegou trazendo revelações sobre a NSA, revelando um bocado dos programas de vigilância da agência, e revelando que a agência tem o mais gritante desrespeito pelos direitos civis e espia sobre tudo e todos, em todo o mundo, em uma maneira meio Pokémon “Temos que pegar todos!”. A ações da NSA também estão tendo um efeito real na economia dos Estados Unidos.

Falemos sobre as consequências econômicas que os programas de vigilância da NSA terão na economia dos Estados Unidos, e, mais especificamente, em sua indústria tecnológica. As ações da administração dos EUA, e mais especificamente o que a NSA está fazendo com seus programas de vigilância, estão tendo um grande impacto na economia dos EUA, especialmente no Vale do Silício. Porquê eu guardaria meus dados em servidores nos Estados Unidos, onde estes dados são facilmente acessíveis pela NSA, entre outros, se eu posso tão facilmente guardá-los na Europa ou algum outro lugar, mais seguro?

Clima favorável a investimentos

Para entender a hegemonia dos EUA sobre companhias e serviços de tecnologia da informação, é bom dar uma olhada na história do clima de investimentos. Porquê estas companhias surgiram nos Estados Unidos? Porquê o Google não foi inventado, digamos, na Alemanha ou Finlândia?

A razão de muitos destes serviços de armazenagem “nas nuvens”, e companhias de internet, surgirem no Vale do Silício, em oposição a, digamos, a Europa, é devido ao clima de investimento nos Estados Unidos, que tornou muito mais fácil iniciar uma companhia de internet nos Estados Unidos. Grandes investidores institucionais, capitalistas de risco, são menos propensos a investir numa startup na Europa. Também, as leis de falência são muito mais relaxadas nos EUA, em oposição à Europa. Ao passo que, nos EUA, você pode estar de pé novamente em aproximadamente um ano após falir, na Europa, isto é geralmente um processo muito mais longo. De acordo com o Economist, isso leva no mínimo 2 anos na Espanha, 6 anos na Alemanha, e impressionantes 9 anos na França. Em meu próprio país, a Holanda, leva 3 anos para estar livre de dívidas novamente após uma falência; mas se você falir em Paris, boa sorte: você acaba de arruinar o seu futuro. Isto faz ser muito mais arriscado tentar coisas novas e abrir lojas na Europa, pois as consequências caso as coisas deem errado são muito piores.

Infelizmente, isto deixou a nós europeus na posição de que nós realmente não podemos, atualmente, ter um Vale do Silício europeu; nós não temos um monte de alternativas viáveis e fáceis de usar, e estas precisam desesperadamente ser desenvolvidas. Nós dependemos demais em companhias dos EUA, atualmente, e eu penso que é bom se nós diversificarmos mais, de formas que tenhamos um mercado saudável com abundância de boas alternativas, ao invés do que temos agora: um monopólio dos EUA em webmail (Gmail/Hotmail etc.), redes sociais (Facebook, Twitter, LinkedIn, Foursquare, etc.), busca na internet (Google), armazenagem “nas nuvens” (Dropbox, Microsoft, Amazon), e outras coisas. Desde já, provedores de armazenagem “nas nuvens” no Vale do Silício atualmente veem grandes quedas em seus rendimentos por causa das revelações de Snowden. Porquê deveríamos armazenar nossos dados do outro lado do Atlântico? Esta é a questão central e está tendo reais consequências econômicas para os Estados Unidos.

Provedores de serviços “nas nuvens” dos EUA encaram consequências econômicas

Provedores “nas nuvens” sediados nos EUA estavam experienciando significante queda de lucros quando as revelações sobre a NSA foram tornadas públicas. Pessoas fora dos EUA repentinamente começaram a questionar se seus dados sensíveis estavam seguros e solo estadunidense. Todas essas companhias são sujeitas ao Ato PATRIOTA, que lhes requer entregar quaisquer informações e dados que tiverem sobre seus consumidores, e eles são proibidos pelo governo dos EUA de dizer a seus consumidores sobre isto. Então, a conclusão pode ser bem definitivamente que não, seus dados não podem ser confiados como estando seguros, se você enviá-los através dos Estados Unidos, ao usar ‘convenientes’ serviços “nas nuvens” como Dropbox, Amazon, entre outros.

Este é o critério crítico. Não importa que a companhia diga-lhe que eles usam a criptografia de mais alto nível-militar, não importa que eles tenham pensado em uma solução técnica interessante para tentar e burlar a vigilância, não importa que eles escrevam posts de blog brilhantes jurando solenemente não entregar seus dados… Tudo que importa é que trata-se de uma companhia dos EUA, requerida a obedecer à lei dos EUA, e requerida a entregar seus dados. Poucas companhias terão a capacidade de resistir à pressão, e abdicar todo o modelo de negócio delas para proteger sua privacidade.

Isto também é o que me parece tão engraçado quando leio sobre grandes companhias tecnológicas dos EUA, como Google, Apple, e Microsoft, que descobriram que suas conexões servidor-a-servidor estavam sendo interceptadas pela NSA. Estas conexões intra-servidores não eram criptografadas, enviadas a claro, provavelmente através de algum cabo privado de fibra ótica. Claro que isso poderia ser interceptado, dada a competência técnica da NSA. Então, agora essas companhias estão tentando realmente forte vender a história, para seus consumidores do além-mar, que suas comunicações intra-servidores agora são totalmente criptografadas. Esta é uma tentativa raquítica de tentar prevenir que alguns de seus consumidores mudem para outras alternativas (as quais não são muitas, infelizmente), já que essas companhias ainda são companhias dos EUA, com escritórios e infraestrutura nos EUA, e a necessidade de obedecer às leis de lá. Então, é totalmente irrelevante que estas companhias de tecnologia estejam agora criptografando suas comunicações intra-servidores, já que o governo dos EUA pode simplesmente requisitar os dados através de outros meios, mais oficiais.

Mas estas companhias não estão apenas promovendo medidas irrelevantes, elas estão ativamente agindo contra nossos interesses. Após as revelações feitas pelo Edward Snowden, o Facebook está tornando [em 2013] mais fácil a entrega de dados para as autoridades dos EUA (totalmente automatizada, sem supervisão judicial). O Facebook também está juntando-se [em 2013] com a polícia para fazer os protestos mais difíceis de organizar. E ainda assim, nós insistimos em usar sua rede social. Estes são instrumentos de controle e vigilância. Nós não somos seus consumidores, nós somos o produto sendo vendido. Nós temos uma distinta falta de alternativas viáveis que não são baseadas nos EUA, e é importante lembrar-se que as redes sociais têm um aspecto social. Não é o bastante para você mudar para um competidor, você tem de convencer seus amigos para mudar, também. Isto é o que mantém as redes sociais seguindo com força própria por tanto tempo, pois isto é de fato, muito difícil de fazer.

Marcha para a irrelevância

Em outubro de 2013, o congresso elevou o teto de dívida novamente, o que dará mais algum tempo até janeiro de 2014. Então, eles irão ter exatamente o mesmo problema. Os Estados Unidos está estruturalmente gastando mais dinheiro do que ele tem disponível, e a atual dívida nacional dos EUA (US$17 trilhões de dólares) nunca poderá ser paga de volta. Eles estão muito já em situação de calote. Mas, já que o sistema financeiro é baseado em confiança e ouvi-dizer, em técnicas de ilusão, leva um tempo para as pessoas encararem a realidade, acordarem e pararem de se iludir. Ponto no qual os Estados Unidos será uma irrelevante relíquia do passado.

Aqui na Europa, nós precisamos os interesses de nossos próprios cidadãos, e começar a desenvolver alternativas viáveis para a hegemonia dos EUA, pois a hegemonia dos EUA vai acabar algum dia.

Uma versão deste artigo também foi publicada na Consortium News.

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