Edward Snowden: Vida, Liberdade, e Objetivo

Autor: Sander Venema. Tradução: Anders Bateva.

Há 237 anos [considerando 2013], 56 traidores de seu Rei e país assinaram um documento em quê era esboçada uma nova filosofia, de que que todos os homens são criados iguais, que eles são fornecidos naturalmente pelo seu criador com certos Direitos inalienáveis. Entre estes, estão a Vida, a Liberdade, e a Busca da Felicidade. Isto fez nascer uma nova nação, os Estados Unidos da América.

Engraçado como sua percepção pode mudar, dependendo de seu ponto de vista e conhecimentos prévios, não? Em 1776, estes 56 signatários da Declaração de Independência dos Estados Unidos fizeram algo muito valente, de fato. Eles se posicionaram contra o Império no qual o sol nunca se põe, o Império Britânico, pois ele falhou em incorporar e representar o que eles acreditavam: de que deveria ser a tarefa do governo assegurar os direitos acima, e que os governos derivam seus justos poderes do consentimento dos governados. E, sempre que o governo torne-se destrutivo destes fins, é direito das pessoas alterá-lo ou aboli-lo.

Estes homens são considerados patriotas por muitos estadunidenses, pois, ao desafiarem o Rei da Grã-Bretanha em 1776, eles fundaram os Estados Unidos da América, a nação uma vez concebida sobre estes nobres princípios. Uma nação que, infelizmente, não mais adere à filosofia assentada em sua Declaração de Independência. Se a história tivesse se saído diferente, eles homens poderiam ter sido julgados por alta traição, e então enforcados, afogados, e esquartejados. Estes homens correram um grande risco pessoal, baseados no que eles pessoalmente acreditavam. Você deve se lembrar que, em 1776, o Império Britânico era um super-poder, bem similarmente aos papeis que os Estados Unidos, Rússia e China desempenham hoje. Mas a história é escrita pelos vencedores, como se diz.

Snowden

Agora [2013], Snowden delatou porquê ele reconheceu que o governo falhou em defender os direitos do povo, falhou em incorporar o espírito em que ele foi fundado há 237 anos atrás [considerando 2013]. Esta é uma coisa incrivelmente valente de se fazer. Apenas pense a respeito disto: ele teve de largar pra trás seus amigos e família, e sua vida inteira, e provavelmente nunca visitará seus amigos e família novamente, pois ele fez o que considerou ser o certo: expor os crimes cometidos pelo governo dos EUA. Para muitos, ele é agora indicado como traidor, similarmente a como aqueles 56 signatários foram vistos por uma porção do povo britânico naquela época. Eu sinceramente espero que Snowden permaneça seguro.

Uma das coisas que me surpreendeu ao seguir a história do Snowden é que as rotativas da imprensa estão a todo vapor, tentando sujar tanto Edward Snowden quanto o jornalista que publicou a história no The Guardian: Glenn Greenwald. O objetivo, é claro, é lentamente fazer a mídia mudar seu foco para longe da história principal, indo para pequenos detalhes ao invés disto, tal qual a obsessão pela namorada do Snowden, ou se Greenwald deveria ser penalizado por algum crime ou não. O objetivo destes manipuladores por detrás das cenas é descreditar a fonte que tem vazado estas informações secretas, mas vitalmente importantes, de formas que eventualmente as pessoas começarão a não mais acreditar nele. Ao descreditarem o delator, esperam também descreditar sua história.

Eles não percebem? Não percebem que transparência, supervisão democrática, checagens e contrapesos, são o que todo governo que diz ser do povo, pelo povo, e para o povo desesperadamente necessita? Precisamente estas coisas estão agora absolutamente em falta. Ao ter cidadãos inteligentes e informados, nós aumentamos a segurança geral e nacional. Nós não fazemos nossas nações nem um pouco mais seguras assustando nossos cidadãos e forçando-os a se submeter. Mas, ultimamente, o cassetete é usado no lugar da conversação, mais e mais.

Enquanto isto, na Europa…

Aqui na Europa, nós vimos políticos finalmente tomarem um posicionamento contra o programa PRISM da NSA, mas infelizmente, apenas porquê foi do interesse próprio deles fazer isto. Não foi antes do Snowden liberar os documentos provando que os Estados Unidos tem espionado diplomatas europeus em Washington, Nova York e Bruxelas, como publicado no Der Spiegel em 1º de julho, que nós finalmente tivemos uma linguagem forte de alguns líderes europeus, com François Hollande até ameaçado de suspender as conversas de acordos comerciais com os EUA. Esta reação retardatária pelos políticos europeus parece enviar um recado para os cidadãos europeus de que é, ao que parece, perfeitamente OK espiar em cidadãos europeus (os políticos daqui estavam absurdamente quietos quando a história estourou), desde que os estadunidenses não espionem nossos diplomatas e políticos.

Ah, e se você ouviu as histórias da NSA sobre metadados, e você está se perguntando o que “inofensivos metadados” realmente significam, assegure-se de checar seis meses de registros telefônicos do Malte Spitz (membro do Partido Verde da Alemanha), traçados sobre um mapa. É uma experiência bem humilhante… 🙂

Atualização: desde que eu escrevi este artigo, em 2 de julho de 2013, as coisas mudaram ainda mais dramaticamente, conforme princípios diplomáticos estabelecidos há muito tempo na lei internacional foram grosseiramente violados, ao negar-se, ao avião do presidente Evo Morales, da Bolívia, acesso ao espaço aéreo Francês, Espanhol, Italiano e Português, forçando-o a mudar a rota para Vienna (Áustria) quando estava de volta para casa após uma conferência de líderes em Moscou (Rússia). Claro, isto causou imensa raiva na América Latina. O problema real que nós temos na Europa são líderes submissos. Nós temos nossos cérebros, e nossa soberania. Comecemos a usá-la já…

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Baseado no trabalho disponível em Sander Venema.

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