Terrorismo, crime, ou doença mental?

Autora: Annie Machon, 12/06/2016. Tradução: Anders Bateva.

Nesta manhã, eu fui convidada para a RT a fim de dar uma entrevista sobre a notícia de última hora sobre um tiroteio em massa na última noite, ocorrido em uma boate (Pulse) Em Orlando, Flórida, EUA. Você sem dúvida já viu as manchetes, a essa altura – o maior tiroteio em massa na história moderna dos Estados Unidos.

Naquele momento, quando a notícia ainda era de última hora, eu estava de certa forma confusa a respeito de como eu poderia contribuir – certamente este foi apenas mais um massacre horrendo pelos loucos armados que os EUA parecem gerar tão regularmente? Afinal de contas, parece que a Segunda Emenda é o último direito ainda de pé advindo da Constituição dos EUA, após todos os outros terem sido estraçalhados como resultado da “guerra ao terror” e a fricção social causada pelo derretimento financeiro da economia dos EUA?

Porém, com um pouco de pensamento em um calmo domingo europeu, eu pude ver um número de linhas reunindo-se, que eu explorei durante a entrevista. Eu gostaria de desenvolver algumas delas além neste artigo.

No momento em que fui entrevistada, poucos fatos concretos tinham sido confirmados a respeito do tiroteio – meramente uma estimativa conservadora do número de mortos e feridos, e o fato de que o atirador foi morto. Tudo o mais era pura especulação. Isto não evitou que a maioria da mídia ocidental pulasse para conclussões – de que isto deve ter sido um ataque inspirado pelo Estado Islâmico e portanto terrorismo islâmico, de acordo com nossa atual definição ocidental.

Eu tenho um problema com este uso atual. Quando eu trabalhava como oficial de inteligência no MI5 na década de 1990 – no alto da guerra civil religiosa que estava sendo lutada entre os protestantes e os católicos na Irlanda do Norte, nossa definição funcional era de que “terrorismo” era o uso de violência para alcançar objetivos políticos. Então “terrorismo” nunca foi puramente um conceito originado no Islã, não importando quão os EUA tenha decidido definir desde o ataque às Torres Gêmeas.

A razão pela qual estou fazendo este de outra forma óbvio argumento, é que os EUA particularmente sempre deram origem a grupos “terroristas” domésticos bem questionáveis, motivados por fanatismo cristão ou de alguma seita – pense nos Branch Davidians, ou nos fundamentalistas cristãos matando doutores e explodindo clínicas de aborto, ou supremacistas brancos aterrorizando comunidades negras ou explodindo escritórios do FBI como no atentado a bomba de Oklahoma em 1995, que foi inicialmente atribuído a terrorismo do Oriente Médio. Se isto não é o uso de violência para alcançar objetivos políticos, então nossas agências de inteligência precisam mudar a definição de terrorismo.

Como o tiroteiro na boate Pulse na Flórida tinham por alvo especificamente o público LGBT, é tão possível que o atirador tivesse crenças fundamentalistas cristãs que causavam-lhe o sentimento de necessidade de ter como alvo esta comunidade, quanto fosse um jihadi inspirado pelo Estado Islâmico. Afinal de contas, nós vimos ataques similares no Reino Unido, com o atacante em Londres que usava bombas de pregos e tinha por alvo boates gay em 1999.

Ainda assim, este último é, até hoje, visto amplamente como um assassinato em massa, um “atirador descontrolado” ou louco, e tratado como criminoso, aonde um islâmico cometendo os mesmos atos por ações similarmente intolerantes é automaticamente tido como um terrorista. E nós sabemos que “terrorismo” é uma forma única de “vilania” que imediatamente expõe o suspeito a penalidades maiores, no mínimo, e assassinato no pior cenário, seja cidadão dos EUA ou não.

Terrorismo é um crime – pura e simplesmente – e ele deve ser tratado como um crime. Suspeitos islâmicos de tais crimes não devem ser sequestrados, torturados, mantidos em isolação por anos, ou sujeitos a tribunais militares sem nenhum real direito à defesa, não mais do quê cristãos, ateus, ou outros suspeitos deveriam ser. Nem deveria especificamente terrorismo “islâmico” ser a desculpa para arrancar todos os direitos humanos e liberdades cívicas tão duramente conquistadas em nossos próprios países, e ainda assim, é isso que tem acontecido na “guerra ao terror” sem fim.

O Reino Unido atravessou este debate nas décadas de 1980 e 1990 – no alto dos bombardeios pelo Reuno Unido realizados pelo IRA Provisional e pelos paramilitares leais à coroa – que foi outra guerra terrorista baseada na religião, como eu mencionei antes. Ela também – ao menos do lado do IRA Provisional, recebeu o grosso de seu financiamento a partir da diáspora irlandesa nos EUA. De fato, apesar do processo de paz na Irlanda do Norte ter sido assinado em 1998 no Acordo da Sexta-Feira Santa, este financiamento dos EUA somente secou por fim no pós atentado às Torres Gêmeas.

E o terceiro ponto no título – a questão de saúde mental? Eu mencionei isto porquê houve um recente caso em Londres de um homem armado com faca atacando descontroladamente passageiros em uma estação de metrô no último ano. A reportagem da época declarou que ele estava gritando “isto é pela Síria” – conforme ele atacava seus colegas viajantes. Na época, todos assumiram que ele era outro jihadi radicalizado executando um ataque de lobo solitário. De fato, mesmo pessoas na cena pareceram convencidas. Uma testemunha gritou “Você não é islâmico, bruv“, um sentimento carregado que viralizou nas mídias sociais.

Esta história foi manchete de notícias no Reino Unido, na época. O julgamento recentemente alcançou sua conclusão, e agora parece que o perpetrador tinha sérios problemas de saúde mental. Ele pode até ter usado terminologia jihadi, mas a motivação não era terrorística.

O cara provavelmente precisava de uma intervenção mais cedo por profissionais de saúde, mas ele escorregou por entre os dedos. Isto não faz dele um terrorista, porém – não importa o que ele disse durante os ataques – e ainda assim esta conclusão certamente não teve as mesmas manchetes de página inicial que o ataque inicial recebeu.

Vejamos também os tais ataques de “lobo solitário” (como têm sido chamados), que ocorreram nos países ocidentais nos últimos poucos anos – no Canadá, Londres, Austrália, EUA, Dinamarca – bem como nos ataques de Paris e Bruxelas. Muitos dos protagonistas já estavam no radar das agências de inteligência ocidentais, mas por elas estarem se afogando em um tsunami de informação recolhida pela vigilância em massa de todos nós, estes pequenos pedaços cruciais de inteligência real passaram despercebidos.

Ainda pior, parece que muitas das pessoas subsequentemente ficaram apontando culpados sendo que as agências de inteligência já tinham se aproximado dos perpetradores reais, como parece ser o caso na Flórida também.

Então, como tudo isso junta-se? Não há dúvida que os genuínos psicopatas ou sádicos são atraídos pelo terrorismo bem como pelas gangues criminosas, para darem vazão completa de suas tendências – o Estado Islâmico é um exemplo absolutamente horrificante disto. Mas a ideologia de tais grupos também pode atrair de certa distância os mentalmente frágeis, que podem se tornar idiotas úteis ou seguidores iludidos, ou indivíduos vulneráveis que podem ser manipulados por órgãos de aplicação da lei. Adicione na mistura fundamentalismo religioso, culto, ou crenças de supremacia racial, e tudo isto torna-se muito bagunçado muito rápido.

E ainda assim… todos estes grupos usam o terror para alcançar seus objetivos, mas apenas alguns poucos são tidos como terroristas ao invés de criminosos – e nós todos sabemos que qualquer um etiquetado como terrorista encara penalidades muito maiores do quê aqueles de outras categorias de crime.

As agências de inteligência estão aí para protegerem nossa segurança nacional – isto é, a integridade da nossa nação e sua própria existência. Como eu tenho dito por muitos anos já, tais ameaças incluem iminente invasão, como a Grã-Bretanha encarou durante a Segunda Guerra Mundial, ou aniquilação global como todos nós encaramos durante a Guerra Fria.

Os ataques aleatórios de terroristas – ou grupos criminosos, ou pessoas mentalmente doentes – causam trauma ao país e às comunidades onde eles ocorrem, mas eles não ameaçam a sobrevivência do nosso país.

Nós precisamos clarificar nosso pensar urgentemente, tanto ao redor das definições aplicadas para tais crimes, quanto à proporcionalidade da resposta que damos. Isto irá permitir-nos preservar e fortalecer o conceito do domínio da lei e a noção de democracia que todos nós temos esperança de viver.

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Baseado no trabalho disponível no blog de Annie Machon.

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