E-mail sem criptografia? Que rude!

Autora: Annie Machon, em 15/04/2015. Tradução por Anders Bateva.

Publicado originalmente no RT Op-Edge.

Hoje me dei conta de que, quando envio e-mails a novos contatos, por instinto checo se estão usando criptografia PGP. Um número surpreendentemente feliz o fazem, hoje em dia, mas a maioria das pessoas provavelmente considerariam meu círculo de amigos e conhecidos como eclético, no mínimo, se não logo excêntrico, mas é provavelmente por isto mesmo que gosto deles.

Porém, ainda há alarmante números que não estão usando PGP, e isto é alarmante particularmente nos círculos jornalísticos, e preciso admitir que, quando isto ocorre, sinto-me um tanto incomodada, como se alguma cortesia básica da modernidade estivesse sendo infringida.

Não é que eu espere que todos usem criptografia – ainda -, é só que eu prefiro ter a opção de usá-la, e ser capaz de ter privacidade de minhas próprias comunicações ao menos considerada. Afinal de contas, eu sou velha o bastante para lembrar-me da era das cartas escritas, e eu sempre dei preferência a um envelope selado do quê um cartão postal.

E antes que vocês todos saltem sobre mim com gritos de “usar apenas PGP não é garantia de segurança…”: eu sei que precisa-se de um conjunto de ferramentas para ter uma chance razoável de privacidade real, nesta era saturada de NSA: software de código aberto, PGP, TOR, Tails, OTR, hardware antigo, você escolhe. Mas eu penso que a adoção generalizada de PGP define um bom exemplo, e faz mais pessoas pensarem sobre estes problemas mais amplos. Talvez, mais de nós deveríamos inistir nisto, antes de continuarmos comunicando-nos.

Porquê isto está na minha mente neste momento? Bem, eu estou atualmente trabalhando com um velho amigo, Simon Davies, fundador da Privacy International e do Big Brother Awards. Ele criou sua primeira chave PGP em 2000, mas então largou-a para apodrecer ao relento. Como estamos no processo de definir uma nova iniciativa de privacidade chamada Code Red, pareceu-me imperativo para ele dar um bom exemplo, e “começar a usar” outra vez.

De qualquer forma, com a ajuda de um dos padrinhos das criptoparties de Berlim, tenho a alegria de anunciar que o pai do movimento da privacidade agora pode garantir sua privacidade, se você desejar comunicar-se com ele.

Tenho orgulho de declarar que minha consciência sobre o PGP vem desde muito tempo antes: a primeira vez que ouvi falar do conceito foi em 1998, enquanto eu estava morando em um esconderijo, em uma remota fazenda na região central da França, em fuga do MI5, com o meu então parceiro, David Shayler.

Nossos únicos meios de comunicação com o mundo exterior era um computador e uma conexão discada, e o David tomou uma curva de aprendizado íngreme sobre todas as coisas geeks que pudessem garantir um nível de privacidade. Ele construiu seu próprio website (posteriormente hackeado, presumivelmente pelo GCHQ ou a NSA, já que foi um ataque sofisticado para os padrões da época), e também instalou o recentemente disponível PGP. As pessoas reclamam agora das dificuldades de instalar criptografia, mas naquele tempo, era o equivalente a escalar o Monte Everest após um passeio no parque para aquecer. Mas ele conseguiu.

Agora, é claro, é relativamente fácil, especialmente se você tomar tempo para comparecer a uma Cryptoparty – e inevitavelmente haverá uma ocorrendo próxima à sua casa, em breve.

As cryptoparties começaram no fim de 2012, pela iniciativa de Asher Wolf, na Austrália. O conceito espalhou-se rapidamente, e após Snowden revelar-se em maio de 2013, acelerou-se globalmente. De fato, houveram vários reportes sobre o “Efeito Snowden“. Na semana passada mesmo, houve um artigo no The Guardian dizendo que 72% dos adultos britânicos agora estão preocupados sobre privacidade online. Eu espero que os 72% estejam se beneficiando destes encontros geeks…

O comediante baseado nos EUA, John Oliver, também recentemente disponibilizou uma entrevista com Edward Snowden. Enquanto isto foi ligeiramente doloroso para assistir, para qualquer delator – Oliver fez uma consulta popular em Nova York que ele mostrou a Snowden, onde a maioria dos entrevistados parecia desconhecê-lo e não se importarem com suas privacidades – houve uma perceptível mudança de opinião quando o assunto era, digamos, “fotos de natureza sensível” sendo interceptadas.

Oficialmente, este programa de espionagem é chamado Optic Nerve, uma questão que muitos de nós estivemos discutindo, com algum efeito, no último ano. Na entrevista de Oliver, isto metamorfoseou-se no “programa das fotos do pau”. Bem, que seja, se é isto que vai transmitir o recado efetivamente…. e transmitiu.

Todos nós temos coisas que preferimos manter privadas – sejam fotos do pau, contas bancárias, fazer cocô, conversar com nosso médico, nossas vidas sexuais, ou mesmo contar a fofoca de família pelo telefone. Isto não é algo que alguém tenha de esconder, mas a maioria de nós tem um conceito inato de privacidade acerca de nossos problemas e atos pessoais, e tudo foi tomado de nós, como Edward Snowden deixou às claras.

Como eu disse antes, há implicações sociais mais amplas também – se sentirmos que estamos sendo observados naquilo que nós assistimos, lemos, dizemos, escrevemos, organizamos, e como conduzimos nossas relações, então começamos a praticar auto-censura. E isto é de fato já outro dos efeitos Snowden quantificados. Isto é deletério para o livre fluxo de informação, e o correto funcionamento de sociedades democráticas. Isto é precisamente o porquê o direito de privacidade ser um dos princípios centrais da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948.

Lições precisaram ser apendidas a partir das queimas de livros pelos nazistas e pela espionagem estatal Gestapo, e a privacidade foi reconhecida como pré-requisito de democracia aberta. Ainda assim, nós vemos políticos veteranos e supostamente bem informados, reivindicando que se implemente o equivalente moderno de queimas de livros, e falhando e frearem os abusos globais da NSA.

Quão rápido as lições da história podem ser esquecidas, e quão descuidadamente nós jogamos de lado direitos duramente conquistados de nossos ancestrais!

Edward Snowden, a grande risco pessoal, deu-nos a informação necessária para elaborar uma reação. No mínimo, nós deveríamos ter suficiente respeito pelos sacrifícios que ele fez, e pelos direitos de nossos colegas seres humanos, e tomar pequenos passos no caminho da proteção de nossa própria privacidade, e da deles.

Então, por favor, comece a usar criptografia de código-aberto, no mínimo. Seria rude não fazê-lo.

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Baseado no trabalho disponível no blog de Annie Machon.

2 comentários

  • Revisão: toda a parte sobre PGP é tolice. Eu já tentei usá-lo durante um ano, mas ninguém deu bola além de mim, então desisti. Não recomendo a ninguém. Mas a perspectiva sobre privacidade, mas abaixo, é interessante!

    Eu gostaria de cortar fora o começo do artigo, porém, a licença da autora não permite derivações… Eu poderia pedir a ela permissão, mas acho que não deve valer a pena para um texto desse, que provavelmente tem poucos acessos em média.

    Vou então conferir quantos acessos este post costuma ter. Se tiver um bom número, contacto-a. Se tiver um número fraco, deleto-o diretamente.