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Anders Bateva

Nonfiction Litblog. Fichamentos / clippings / recortes de não-ficção. Prospecções literárias em: Ciências Sociais; Informática; e Ciências Ambientais.

Anders Bateva

Nonfiction Litblog. Fichamentos / clippings / recortes de não-ficção. Prospecções literárias em: Ciências Sociais; Informática; e Ciências Ambientais.

Assexualidade 🆚 expectativas alheias

Autora: Pegasus, em 31/05/2014. Tradução: Anders Bateva.

Nós vivemos em uma sociedade onde ser sexual é a norma. A vasta maioria das pessoas considera óbvio que, quando duas pessoas estão em um relacionamento, elas estarão fazendo sexo. Mesmo da perspectiva mais socialmente conservadora, é esperado que casais farão sexo.

A possibilidade de que uma pessoa saudável poderia simplesmente não querer sexo é raramente levada em conta em discussões de sexualidade. E modelos de relacionamentos felizes, de sucesso, sem sexo, são largamente ausentes na mídia e na educação sexual. Se a ausência de vontade sexual é mencionada na cultura popular, é inevitavelmente associada a problemas psicológicos, abuso, desequilíbrios hormonais, ou necessidade de Viagra.

Este é o ambiente no qual assexuais têm de entender sua assexualidade, descobrir o que querem em matéria de intimidade, e navegar através de seus primeiros relacionamentos. Nós até podemos ter progredivo como sociedade quando a frase não é não torna-se familiar à maioria das pessoas (mesmo que nem sempre seja levada a sério), e quando a ideia mais positiva do sim é sim, de consentimento estusiasmado ganha espaço. Mas nestes casos, a opção de dizer nunca para o sexo com um(a) parceiro(a) raramente ganha séria atenção.

A respeito disto, até mesmo a ideia de sentar-se junto de um(a) parceiro(a) ou potencial parceiro(a) e discutir os desejos, necessidades, e limites de cada um(a) em matéria de sexo e intimidade, é somente posta em prática por uma minoria. A maioria de nós simplesmente segue a ideia de que falar de sexo é esquisito, embaraçoso, e simplesmente não-sexy. Sexo e intimidade é tido como algo que resolve-se sozinho, e negociar de verdade é geralmente deixado na mão da telepatia e da adivinhação.

Isto, com uma frequência demasiadamente grande, deixa os/as assexuais sem uma maneira simples de dizer o que querem ou não, devido à expectativa de comportarem-se sexualmente em um relacionamento. Para sermos claros, não estou falando da pressão que um(a) parceiro(a) faz para que se aja sexualmente - isto é uma questão à parte. Estou falando da pressão que vem da mídia e de nossa cultura para conformarmo-nos a um estilo sexual específico de relacionarmo-nos. Isto pode manifestar-se na forma de uma pessoa ter medo de não ser capaz de encontrar um(a) parceiro(a) se não estiver disposto(a) a fazer sexo. Ou internalizar a ideia de que existe algo de errado consigo se não estiver querendo fazer sexo. Ou, até mesmo, acreditar que o(a) parceiro(a) tem um direito inerente de fazer sexo, e devido a isto sentir-se culpado(a) quando sente vontade de dizer não (ou nunca) para o sexo.

Mesmo se um(a) assexual entender seus sentimentos a respeito do sexo, e tiver certeza suficiente para declarar o que quer e o que não quer sexualmente, ainda terá de disputar com outras pessoas que presumem por padrão que o(a) assexual não é assexual. Por exemplo, se alguém tem interesse em iniciar um relacionamento com um(a) assexual - ou deus que me livre, um(a) assexual flertar com alguém - o ônus da prova sempre recai no(a) assexual, que tem então de se revelar e explicar seu posicionamento sobre sexo. Caso não faça isto, corre o risco de ser acusado(a) de estar enrolando, brincando com os sentimentos alheios, ou até pior. Allosexuais (pessoas interessadas em sexo) não enfrentam este tipo de expectativa de serem transparentes a respeito do que esperam ou não sexualmente - as expectativas-padrão da sociedade, sem serem ditas, são o suficiente para preencher as lacunas.

Este padrão duplo de tratamento deposita sobre os(as) assexuais uma pressão para que assumam-se para quem tiver interesse neles(as), querendo ou não se assumir, e também, o estresse de determinar quando e como fazê-lo. Isto deposita inteiramente o fardo de discutir compatibilidade sexual, ou rejeitar tentativas, na pessoa assexual. Por outro lado, uma pessoa assexual é capaz de não precisar proferir seus desejos e expecativas sexuais, e simplesmente seguir o fluxo do que é norma (seguindo o roteiro-padrão determinado pela sociedade para encontros sexuais), deixando a negociação explícita como um extra opcional.

Similarmente, existe uma pressão para assexuais evitarem flertar, ou de qualquer outra maneira darem qualquer sinal que possa ser interpretado equivocamente como sendo sexual. A prática-padrão da sociedade de não ser transparente a respeito do que nós queremos ou esperamos sexualmente significa que flertar, beijar, dançar, comprar uma bebida, ou até mesmo simplesmente conversar podem ser entendidos (em contextos específicos) como um código informal de querer sexo. Assexuais (e qualquer um) que queiram beijar, flertar, ou dançar sem que isto signifique qualquer outra coisa além de querer beijar, flertar, ou dançar, não têm muita opção. São forçados(as) a escolher entre ignorar estes desejos, ou arriscar ter seus comportamentos interpretados equivocamente como brincar com os sentimentos alheios.

Consciência acerca da assexualidade está aumentando lentamente, o que sem dúvida irá tornar mais fácil a vida dos(as) assexuais e de qualquer pessoa incerta acerta de sua assexualidade. Mas, no fim das contas, até que nós enquanto sociedade possamos de fato discutir rotineiramente o sexo e o desejo sexual abertamente - sem precisarmos depender de normas não-ditas de comunicação sobre sexo - qualquer pessoa que não deseja os estilos de relacionamentos sexuais "típicos" estarão em desvantagem perante o que socialmente presume-se por padrão para sexo, relacionamentos, e expectativas sexuais.

Licença Creative CommonsEste post de Anders Bateva está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.Baseado no trabalho disponível em Beyond the Rainbow.

Amor e sexo: diferenças qualitativas

Flávio Gikovate - "Vício dos Vícios: um estudo sobre a vaidade humana", MG Editores Associados, 1987. Capítulo VII - A vaidade e o amor.

O objetivo da reconstrução do vínculo dual [perdido com o nascimento] é, pois, a recuperação da paz, da harmonia interior, da serenidade. A sensação derivada do se perceber sozinho é terrível e a palavra que tenho usado para descrevê-la é desamparo. Não são poucas as pessoas que experimentam estas sensações dolorosas do desamparo quando se reconhecem sem companhia mesmo nas fases adultas da vida; nestas condições, costumam usar o termo solidão. Mesmo para aqueles que aprendem a conviver bem consigo mesmos e a suportar a dor do desamparo - que, ao longo dos anos, para elas se atenua - sobra o desejo de reconstrução de um vínculo, de um elo especial com uma outra criatura. Devido às conhecidas dificuldades práticas inerentes aos vínculos afetivos adultos, algumas pessoas optam por uma vida individual; e isto tem sido cada vez mais frequente. Mas o sonho de algum tipo de relacionamento capaz de gerar aconchego existe em todas as pessoas que tive oportunidade de conhecer.

[...]

O amor busca a paz, a harmonia; o encontro deste estado depende desde o início da aproximação com outra pessoa, sendo portanto um fenômeno essencialmente interpessoal; esta outra pessoa é sempre uma criatura muito específica, um objetivo definido do desejo. O sexo busca a excitação, o movimento; este estado se obtém, ao menos nos primeiros anos de vida, através da manipulação de certas partes do corpo, sendo pois uma manifestação essencialmente pessoal; mesmo nas trocas de carícias e nos prazeres exibicionistas, o parceiro ou observador é indefinido e, até certo ponto, indiscriminado. É tudo bem diferente; acredito mesmo que se possa pensar em amor e sexo como impulsos, em muitos instantes, antagônicos. Ternura é a manifestação física do amor; são abraços, beijos, tudo enfim muito parecido com os gestos eróticos; mas a sensação subjetiva é completamente diferente. Ternura é aconchego; tesão é inquietação e tem, com frequência, até mesmo uma pitada de violência.

[...]

O pavor do desamparo persiste mesmo quando se atinge a auto-suficiência [durante a transição de criança para adulto] e, de certo modo, nos persegue como resíduo, cicatriz do que já foi vivido, ao longo da vida adulta. Se sentir tratado com ternura, olhado com carinho, persiste como o grande atenuador do nosso desamparo.

[...]

O pavor da rejeição de deixarmos de ser objeto do amor de determinada pessoa que nos é muito significativa e especial, nos acompanhará ao longo de toda a vida a menos que sejamos capazes de tolerar melhor o desamparo que é próprio de nossa condição. É só nestas condições que poderemos nos livrar daquelas pessoas que usam nossa fraqueza sentimental como meio de nos tiranizar. O esforço é enorme e os obstáculos difíceis de serem ultrapassados, uma vez que a grande maioria de nós foi educado para ser fraco e dependente.

[...]

No envolvimento amoroso, por exemplo, se estabelece uma importante dependência psíquica. O abandono e o desamparo que nos acompanha, como sensação ou como fato, desde o nascimento, encontram na realização deste impulso um importante atenuador, nos sentimos aconchegados quando estamos amando e sendo amados; e isto é bom, apaziguante. Quanto maior nossa incompetência para suportar a sensação de desamparo, maior será nossa dependência do vínculo amoroso. Nestas condições, uma eventual ruptura determinará enorme dor; dor da morte. Experimentaremos enorme depressão, de longa duração. A lembrança dos momentos de aconchego nos acompanhará em quase todas as horas e a consciência de que ele não existe trará de volta a dor. O processo só será menos dramático se, por sorte, se constituir um novo vínculo afetivo, que tratá de volta a sensação apaziguante de harmonia. Quanto maior a dependência que uma pessoa tem deste afeto, mais ela agirá de modo estabanado e mais será apavorada com a rejeição sempre temida; agirá de modo exageradamente possessivo e com isto estará mais sujeita a decepcionar o amado; como regra, é justamente para quem não suporta a ruptura amorosa que ela se torna mais frequente em virtude dos erros cometidos pela própria pessoa.