Amor e sexo: diferenças qualitativas

Fonte: Flávio Gikovate – “Vício dos Vícios: um estudo sobre a vaidade humana”, MG Editores Associados, 1987. Capítulo VII – A vaidade e o amor.


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O objetivo da reconstrução do vínculo dual [perdido com o nascimento] é, pois, a recuperação da paz, da harmonia interior, da serenidade. A sensação derivada do se perceber sozinho é terrível e a palavra que tenho usado para descrevê-la é desamparo. Não são poucas as pessoas que experimentam estas sensações dolorosas do desamparo quando se reconhecem sem companhia mesmo nas fases adultas da vida; nestas condições, costumam usar o termo solidão. Mesmo para aqueles que aprendem a conviver bem consigo mesmos e a suportar a dor do desamparo – que, ao longo dos anos, para elas se atenua – sobra o desejo de reconstrução de um vínculo, de um elo especial com uma outra criatura. Devido às conhecidas dificuldades práticas inerentes aos vínculos afetivos adultos, algumas pessoas optam por uma vida individual; e isto tem sido cada vez mais frequente. Mas o sonho de algum tipo de relacionamento capaz de gerar aconchego existe em todas as pessoas que tive oportunidade de conhecer.

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O amor busca a paz, a harmonia; o encontro deste estado depende desde o início da aproximação com outra pessoa, sendo portanto um fenômeno essencialmente interpessoal; esta outra pessoa é sempre uma criatura muito específica, um objetivo definido do desejo. O sexo busca a excitação, o movimento; este estado se obtém, ao menos nos primeiros anos de vida, através da manipulação de certas partes do corpo, sendo pois uma manifestação essencialmente pessoal; mesmo nas trocas de carícias e nos prazeres exibicionistas, o parceiro ou observador é indefinido e, até certo ponto, indiscriminado. É tudo bem diferente; acredito mesmo que se possa pensar em amor e sexo como impulsos, em muitos instantes, antagônicos. Ternura é a manifestação física do amor; são abraços, beijos, tudo enfim muito parecido com os gestos eróticos; mas a sensação subjetiva é completamente diferente. Ternura é aconchego; tesão é inquietação e tem, com frequência, até mesmo uma pitada de violência.

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O pavor do desamparo persiste mesmo quando se atinge a auto-suficiência [durante a transição de criança para adulto] e, de certo modo, nos persegue como resíduo, cicatriz do que já foi vivido, ao longo da vida adulta. Se sentir tratado com ternura, olhado com carinho, persiste como o grande atenuador do nosso desamparo.

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O pavor da rejeição de deixarmos de ser objeto do amor de determinada pessoa que nos é muito significativa e especial, nos acompanhará ao longo de toda a vida a menos que sejamos capazes de tolerar melhor o desamparo que é próprio de nossa condição. É só nestas condições que poderemos nos livrar daquelas pessoas que usam nossa fraqueza sentimental como meio de nos tiranizar. O esforço é enorme e os obstáculos difíceis de serem ultrapassados, uma vez que a grande maioria de nós foi educado para ser fraco e dependente.

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No envolvimento amoroso, por exemplo, se estabelece uma importante dependência psíquica. O abandono e o desamparo que nos acompanha, como sensação ou como fato, desde o nascimento, encontram na realização deste impulso um importante atenuador, nos sentimos aconchegados quando estamos amando e sendo amados; e isto é bom, apaziguante. Quanto maior nossa incompetência para suportar a sensação de desamparo, maior será nossa dependência do vínculo amoroso. Nestas condições, uma eventual ruptura determinará enorme dor; dor da morte. Experimentaremos enorme depressão, de longa duração. A lembrança dos momentos de aconchego nos acompanhará em quase todas as horas e a consciência de que ele não existe trará de volta a dor. O processo só será menos dramático se, por sorte, se constituir um novo vínculo afetivo, que tratá de volta a sensação apaziguante de harmonia. Quanto maior a dependência que uma pessoa tem deste afeto, mais ela agirá de modo estabanado e mais será apavorada com a rejeição sempre temida; agirá de modo exageradamente possessivo e com isto estará mais sujeita a decepcionar o amado; como regra, é justamente para quem não suporta a ruptura amorosa que ela se torna mais frequente em virtude dos erros cometidos pela própria pessoa.

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