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Anders Bateva

Nonfiction Litblog. Fichamentos / clippings / recortes de não-ficção. Prospecções literárias em: Ciências Sociais; Informática; e Ciências Ambientais.

Anders Bateva

Nonfiction Litblog. Fichamentos / clippings / recortes de não-ficção. Prospecções literárias em: Ciências Sociais; Informática; e Ciências Ambientais.

O 👑 poder corrompe / Lutzenberger

José Lutzenberger. Ecologia: do Jardim ao Poder (Coleção Universidade Livre). L&PM Editores, 1985, 10ª edição. Capítulo "A tragédia do poder".

Ouvem-se muitas vezes discussões com base na pressuposição de que haveria uma diferença fundamental entre uma empresa e um governo, uma vez que a empresa persegue lucro e o governo não. Isso é uma perigosa ilusão. A empresa não persegue o lucro pelo lucro. O lucro é para a empresa um meio para alcançar certos alvos implícitos. [...] O alvo que o executivo persegue é a manutenção e ampliação de seu poder. [...] Toda burocracia, estatal ou empresarial, é estrutura de poder. Os intrumentos de poder de que cada uma se serve podem variar enormemente. Pouco importa que a respectiva burocracia fabrique aço ou automóveis, gere eletricidade em reator nuclear, venda bombons ou preservativos, ou que administre um governo, uma autarquia ou sindicato. Quer seja em esquema democrático ou totalitário, o que toda burocracia persegue é a sua própria sobrevivência e ampliação. Realmente não interessa que ela se chame General Motors ou Partido Comunista Soviético, ou mesmo Igreja Católica ou federação mundial do voodoo.

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Se os governos não perseguem lucro, é porque realmente não necessitam. Eles têm força para sugar impostos e aumentá-los como e quando lhes convêm e, afinal, o dinheiro quem faz são eles. Um governo pode até, tranquila e legalmente, emitir dinheiro falso. A inflação é isso mesmo, é dinheiro sem fundo emitido pelo próprio governo. Quando, então, alguém procura se defender do logro aumentando seus preços, a administração pública facilmente o acusa de especulador e não hesita mesmo em aplicar punições severas. Portanto, se as grandes corporações são perigosas e precisam ser controladas, quanto mais os governos, cujo poder está submetido a muito menos controles! São ainda poucos os casos em que grandes firmas tenham conseguido colocar em campo de concentração ou executar seus opositores, mas quem lê jornal e estuda História sabe que este tipo de atividade é perfeitamente normal para inúmeros governos e de todas as colorações ideológicas.

Os alvos explícitos do governo são sempre humanitários. Não poderiam deixar de sê-lo. Todo chefe, legítimo ou não, deseja a fé dos governados, mas ele deseja muito mais manter-se no poder. Faz então o que considera necessário para tanto, mesmo que isso signifique perda de popularidade ou o cultivo da grande mentira. Acaba sempre acreditanto na legitimidade dos meios que usa. Quanto mais irrestrito for seu poder, a mais extremos estará disposto. É preciso ser muito simplório, estar possuído de fé muito cega, para acreditar, como acreditam alguns revolucionários abnegados, na incorruptibilidade da pessoa no poder. Quanto mais envolvente e fanática for a ideologia, mais ela se presta a desmandos. Giordano Bruno foi queimado vivo em nome de uma religião que professa o ama o próximo como a ti mesmo.

Por que será que tantos movimentos de libertação, com ideologias aparentemente tão humanas, desembocam tão frequentemente em ditaduras ferozes e sangrentas?

Acontece que os ideólogos destes movimentos caem quase sempre na mesma armadilha. Postula-se que, estanto a sociedade ou o grupo em questão oprimidos por pequeno grupo de aproveitadores ou mesmo tirano solitário, basta acabar com os maus e substituí-los por um dos bons -- haja vista a ideia da "ditadura do proletariado" -- e estará iniciado o Milênio, isto é, o fim da História. A humanidade seria feliz e não mais teria problemas. Protótipo deste pensamento simplório é o filme de mocinho. No início da história, o heroi bom, idealista, honesto, injustamente perseguido, se vê rodeado de bandidos. À medida que o enredo se desenrola, ele os vai matando um a um. Quando, após mil peripécias, liquida o último, lá está o mocinho, supremo, glorioso. Agora termina o filme. Não há mais nada para contar. Mas aqui deveria recomeçar, pois agora sobra um só bandido, mandão, solitário. Será que ele vai saber se comportar sem oprimir ninguém?

Todo poder corrompe, por melhores que sejam as intenções, nem que seja só pelo servilismo dos subalternos ou pelo imobilismo e a esclerose do mecanismo burocrático. As burocracias facilmente degeneram em burrocracias. Esta tendência é diretamente proporcional ao crescimento em tamanho e centralização administrativa. É melhor, ou traz um mal menor, o poder dividido entre muitos bandidos do que o poder na mão de um só jesus cristo. É sabido que os piores estragos podem ser causados por gente muito bem intencionada, disposta inclusive a sacrifícios extremos. O missionário, na melhor das intenções e com grande engajamento pessoal, acaba destruindo culturas de sabedoria milenar. Sempre que o poder estiver em uma só mão, por mais virtuosa que seja, todo aquele que tiver ideias e alvos diferentes inevitavelmente sofrerá. Distribuído entre muitos detentores, mesmo mal intencionados, o poder se torna menos envolvente, deixa muitas frestas, e os diferentes centros de poder se combatem ou se freiam mutuamente. É so por isso, não porque nossos mandatários sejam mais humanos, que temos um pouco mais de liberdade pessoal, liberdade de expressão e informação, nas democracias ocidentais e mesmo em certas semiditaduras capitalistas, do que nas burocracias totalitárias que se dizem comunistas ou democracias populares. Do nosso lado, o poder está mais fracionado. Temos os governos em seus níveis municipal, estadual ou provincial e central, com os poderes executivo, legislativo e judiciário, as empresas, grandes e pequenas ou multinacionais, os particulares, clubes, fundações, sindicatos, autarquias, meios de comunicação, entidades de ação comunitária, etc, etc.

As grandes injustiças acontecem sempre naqueles lugares e naquelas circunstâncias onde uma só entidade ou indivíduo tem poder predominante. A propaganda dos governos comunistas gosta de falar do "capitalismo monopolista". Ora, este temos se aplica perfeitamente a eles. Os países capitalistas são oligopolistas, um mal apenas um pouco menor que o capitalismo de monopólio total do Estado.

As grandes empresas e mesmo multinacionais são tidas por alguns como empresas "privadas", como se elas fossem propriedade particular de alguém. Elas são estruturas de poder como são os governos. Quem já trabalhou em grandes empresas e em organismos estatais sabe que não há diferença. Apenas o âmbito de ação difere de uma burocracia para outra, mas há muita superposição e entrosamento. Daí a inevitável desilusão após as estatizações. Isto porque a estatização não destroi, não desmantela o poder, apenas o transfere. Em geral, a transferência se faz de um centro menor para um maior, que se torna então ainda mais poderoso. Por isso, a perda de liberdade e de alternativas para o indivíduo é pior depois do que antes da estatização. Não é por nada, não obstante toda legislação antitruste (quase sempre hipocritamente aplicada), que os grandes trustes procuram fusionar-se sempre mais.

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Ideal seria uma sociedade sem governo, sem polícia, uma sociedade autogovernada, onde cada indivíduo se comportasse de acordo com o bem comum. Esta é a situação dos remanescentes intactos de tribos indígenas, e esta parece ter sido a situação normal do Homem durante a Idade da Pedra, nas comunidades caçadoras-coletoras. Isto é, durante mais de dois milhões de anos, pelo menos 99,5% de nossa história. [...]

Em termos cibernéticos, o poder é um processo que tem retroação positiva: quanto mais poder, mais fácil sua ampliação. Por isso, o poder acaba invadindo áreas onde nenhuma função legítima teria. À medida que aumentamos e complicamos nossas estruturas tecnológicas e administrativas, surgem estruturas de poder sempre mais centralizadas e envolventes. Com isso, damos sempre mais chance a indivíduos egoístas, insensíveis, cínicos, sedentos de poder. O grave inconveniente de toda estrutura de poder é que o crivo da seleção para ascenção dos chefes tem sinal inverso ao do crivo da seleção natural. Na seleção natural é propiciado o que convém à estabilidade, à harmonia, e ao aperfeiçoamento do sistema. Nas estruturas burocráticas, entretanto, verifica-se uma seleção que propicia os traços mais indesejáveis. Na pirâmide do poder, quem sobe mais rápido e mais alto não é o mais apto, decente, honesto, menos ambicioso. É todo o contrário. Por isso, a tragédia dos esquemas anarquistas em sociedades humanas é que, abrindo vácuos de poder, estes são logo aproveitados por tiranos potenciais, e a sociedade se encontra desarmada diante deles.

Parece-me que o problema central de toda sociedade humana é como conseguir controle efetivo do poder, como evitar sua usurpação. É certo que, dentro de certa medida, o poder é um mal necessário. Mas devemos sempre colocar ênfase no mal, não no necessário.

Assexualidade: FAQ

Elisabete Regina Baptista de Oliveira em Seminário Internacional Fazendo Gênero 10, 2013. Artigo Saindo do armário: a assexualidade na perspectiva da AVEN–Asexual Visibility and Education Network

Introdução

Assim como outras orientações sexuais, a assexualidade – ou a falta de desejo sexual não patológica -, sempre existiu, mas diferentemente da homossexualidade, por exemplo, nunca foi ilegal, imoral ou controversa. Até o advento da internet, os indivíduos assexuais relatam ter vivido em seu isolamento demográfico, desconhecendo a existência de outras pessoas que, como eles/as, travavam uma luta consigo mesmos/as e com a sociedade por serem diferentes da maioria. A partir do início do século XXI, a popularidade das redes sociais na internet facilitou a formação de comunidades construídas em torno de identidades assexuais.

As considerações preliminares sobre assexualidade apresentadas neste artigo – fundamentadas na perspectiva da AVEN – Asexual Visibility and Education Network -, mostram o baixo grau de visibilidade no qual vivem os indivíduos que não têm interesse na prática do sexo, assim como seus esforços no sentido de construir uma identidade sexual que seja legitimada, reconhecida e aceita pela sociedade.

O objetivo deste artigo é descrever e analisar a assexualidade – aqui compreendida como a sexualidade dos indivíduos que não têm interesse pela prática do sexo-, conforme apresentada pela comunidade assexual norte-americana AVEN – Asexual Visibility and Education Network, a partir do estudo do material contido no sítio virtual da organização.

A AVEN – Asexual Visibility and Education Network foi fundada em 2001 pelo jovem norte-americano David Jay, o qual relata que, desde sua adolescência nos anos 1990, sentia-se diferente de seus pares, não compartilhando suas expectativas em relação à atividade sexual e aos relacionamentos amorosos. A partir da percepção de sua falta de interesse por sexo e da falta de interlocutores sobre o assunto, decidiu, iniciar um fórum virtual de discussão sobre a falta de desejo sexual, buscando, desta forma, agregar outras pessoas que se sentissem como ele. Para sua surpresa, descobriu que eram muitas as pessoas que não se identificavam com os modelos de sexualidade existentes na sociedade. E, assim, nasceu a AVEN, que viria a se tornar, nos anos seguintes, a maior e mais importante comunidade de assexuais do mundo.

FAQ

Segundo a AVEN:

  • celibato: assexualidade e celibato são conceitos diferentes. Para a AVEN e seus membros, celibato é a escolha consciente pela abstinência sexual. Na assexualidade, porém, não existe a atração sexual por outras pessoas, portanto não há repressão ao desejo. Os/as assexuais fazem questão de enfatizar que a assexualidade não é uma escolha, sendo a falta de interesse por sexo uma característica do sujeito assexual, daí o caráter reivindicado de orientação sexual semelhante à heterossexualidade, à homossexualidade ou à bissexualidade.
  • sexo e masturbação: a assexualidade não diz respeito ao comportamento do indivíduo assexual – lembrando que os/as assexuais são perfeitamente capazes de engajar-se em atividade sexual, mesmo sem atração -, mas refere-se exclusivamente à existência ou não de interesse por atividade sexual com parceiro/a. Neste sentido, a masturbação, por tratar-se de prática autoerótica, não entra em conflito com a definição de assexualidade proposta pela AVEN. Sabe-se que parte dos/as assexuais pratica a masturbação, sem que haja a necessidade ou a vontade de evoluir para a prática sexual com parceiro/a. Outros/as a praticam como alívio a uma necessidade fisiológica, sem estabelecer uma associação entre a prática da masturbação e o contexto mais amplo da sexualidade com parceiro/a.
  • amor: os/as assexuais da AVEN fazem distinção muito clara entre amor e sexo. Parte dos/as assexuais sente interesse amoroso e deseja estar em relacionamentos românticos, preferencialmente sem atividade sexual; porém, também existem aqueles/as que não têm interesse nem mesmo por parcerias amorosas. A AVEN chama de românticos/as os assexuais que desejam um relacionamento amoroso, e de arromânticos/as, aqueles/as que não desejam. Outra constatação entre os membros da AVEN, é que alguns/mas assexuais românticos/as estão envolvidos/as em relacionamentos com pessoas não assexuais, surgindo a necessidade de negociação da existência ou frequência da atividade sexual, ou da formação de relacionamentos não monogâmicos.
    A atração afetiva dos/as assexuais românticos/as pode ser direcionada ao mesmo sexo, a sexo diferente, a qualquer dos sexos, ou ser independente de sexo ou identidade de gênero; em relação ao alvo de interesse romântico, a AVEN classifica os assexuais como homorromânticos/as, heterorromânticos/as, birromânticos/as ou panromânticos/as, respectivamente. Foi necessária a criação de um novo vocabulário para descrever as experiências assexuais. Essas experiências parecem mostrar que existe uma orientação afetiva adicionalmente à orientação (as)sexual. Isso coloca assexuais homorromânticos/as e birromânticos/as na mesma arena de disputa por direitos do movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros), e também os/as transforma em alvo da mesma discriminação que esse grupo experimenta.
    Além da experiência da homofobia relatada por assexuais de orientação afetiva diferente da heteronormativa nos fóruns da AVEN, mesmo os/as assexuais classificados como heterorromânticos/as relatam experiências de discriminação, pois a eles/as é atribuída socialmente uma homossexualidade presumida, por conta da não conformidade com os padrões heterossexuais dominantes na sociedade, sobretudo os padrões de masculinidade. Assexuais transexuais também relatam experiências de transfobia. Essas experiências discriminatórias têm na escola seu lócus privilegiado. Muitos dos relatos nos fóruns de discussão da AVEN apontam a escola como a primeira instituição na qual jovens e adolescentes assexuais tomam consciência de sua diferença em relação aos pares, bem como local da ocorrência de episódios de discriminação homofóbica e transfóbica.

🌱 Agricultura sustentável ∈ 🇨🇳 China

Roberto Giansanti. "O Desafio do Desenvolvimento Sustentável" - 6ª edição - 1998 - Atual Editora. Capítulo 6: O uso sustentável dos recursos; seção "Sistemas agrícolas sustentáveis".

Uma experiência de uso sustentável dos recursos em comunidades agrícolas foi desenvolvida na China. Nesse país, a revolução socialista de 1949 colocou o desafio de alimentar a enorme população, hoje na casa de 1,1 bilhão de habitantes. Foram implementadas então comunas agrícolas auto-suficientes. Não obstante as dificuldades impostas pela rigidez do regime político, muitas delas puderam desenvolver práticas sustentáveis.

Em comunas de até 90 mil habitantes situadas nas planícies orientais do país, foram criados sistemas integrados de culturas agrícolas, pecuária, psicultura e formas renováveis de energia. Cada equipe de produção, composta em média por 90 famílias, produz toda a energia, os alimentos e os fertilizantes necessários, colocando o excedente nas cidades vizinhas. Nada é desperdiçado: folhas de bananeira e fibras de cana-de-açúcar servem de alimento para os peixes e de combustível para estufas de gás biológico; as estufas e os biodigestores, que funcionam com excrementos humanos e do gado e com vegetais (como os jacintos aquáticos), decompõem a matéria orgânica, gerando o gás metano, utilizado na cozinha e na geração de energia elétrica.

Essa opção energética diminuiu a pressão sobre as matas nativas e as plantadas para a obtenção de lenha. Desde 1968, uma rede de 90 mil miniusinas hidrelétricas complementam a demanda de energia no país. De custo relativamente mais baixo, dispensam as redes de distribuição da energia elétrica produzida e são ideais para abastecer indústrias rurais, escolas e hospitais.

A criação de peixes é realizada em tanques com espécies que se alimentam de plantas aquáticas, folhas de cana, ervas e algas, na parte superficial, e outras que absorvem resíduos, na parte inferior. Esse pequeno ecossistema funciona em águas residuais, usando-se o limo resultante como fertilizante. O sistema rende, em média, cerca de 4,5 toneladas de peixes ao ano por hectare, com índice de proteínas cinco vezes maior do que a pesca convencional. Já nas culturas agrícolas, a suficiência da mão-de-obra permite o cultivo em fileiras alternadas, com benefícios simbióticos para as plantas e para o solo. Algumas leguminosas, por exemplo, suprem o nitrogênio exigido pela cultura de trigo.

O sistema de comunas, se não permitiu uma superabundância, propiciou níveis razoáveis de alimentação para a gigantesca população da China. Graças ao sistema de irrigação construído, o país é responsável por um terço da produção mundial de arroz, o equivalente à produção conjunta da Índia, Indonésia, Bangladesh, Japão e Tailândia. Os chineses produzem 2 milhões de toneladas de peixes de água doce ao ano, em 6 milhões de toneladas anuais no mundo.

Assim, mesmo considerando a eventual perspectiva de desestruturação do sistema de comunas pela abertura econômica da China (com a criação das Zonas Econômicas Especiais, que demandam mão-de-obra), permanece a importante experiência de uso sustentável dos recursos. Enfatizando o uso intensivo da mão-de-obra, o país dispensa a maquinaria cara e inacessível. Ao optar por fontes alternativas de energia, elimina a dependência dos combustíveis fósseis. Os chineses desenvolveram também outras práticas sustentáveis, como a seleção de variedades de sementes para o cultivo, o controle biológico de pragas e o terraceamento para conservação dos solos.