China: agricultura sustentável

Fonte: Roberto Giansanti. “O Desafio do Desenvolvimento Sustentável” – 6ª edição – 1998 – Atual Editora. Capítulo 6: O uso sustentável dos recursos; seção “Sistemas agrícolas sustentáveis”.


Uma experiência de uso sustentável dos recursos em comunidades agrícolas foi desenvolvida na China. Nesse país, a revolução socialista de 1949 colocou o desafio de alimentar a enorme população, hoje na casa de 1,1 bilhão de habitantes. Foram implementadas então comunas agrícolas auto-suficientes. Não obstante as dificuldades impostas pela rigidez do regime político, muitas delas puderam desenvolver práticas sustentáveis.

Em comunas de até 90 mil habitantes situadas nas planícies orientais do país, foram criados sistemas integrados de culturas agrícolas, pecuária, psicultura e formas renováveis de energia. Cada equipe de produção, composta em média por 90 famílias, produz toda a energia, os alimentos e os fertilizantes necessários, colocando o excedente nas cidades vizinhas. Nada é desperdiçado: folhas de bananeira e fibras de cana-de-açúcar servem de alimento para os peixes e de combustível para estufas de gás biológico; as estufas e os biodigestores, que funcionam com excrementos humanos e do gado e com vegetais (como os jacintos aquáticos), decompõem a matéria orgânica, gerando o gás metano, utilizado na cozinha e na geração de energia elétrica.

Essa opção energética diminuiu a pressão sobre as matas nativas e as plantadas para a obtenção de lenha. Desde 1968, uma rede de 90 mil miniusinas hidrelétricas complementam a demanda de energia no país. De custo relativamente mais baixo, dispensam as redes de distribuição da energia elétrica produzida e são ideais para abastecer indústrias rurais, escolas e hospitais.

A criação de peixes é realizada em tanques com espécies que se alimentam de plantas aquáticas, folhas de cana, ervas e algas, na parte superficial, e outras que absorvem resíduos, na parte inferior. Esse pequeno ecossistema funciona em águas residuais, usando-se o limo resultante como fertilizante. O sistema rende, em média, cerca de 4,5 toneladas de peixes ao ano por hectare, com índice de proteínas cinco vezes maior do que a pesca convencional. Já nas culturas agrícolas, a suficiência da mão-de-obra permite o cultivo em fileiras alternadas, com benefícios simbióticos para as plantas e para o solo. Algumas leguminosas, por exemplo, suprem o nitrogênio exigido pela cultura de trigo.

O sistema de comunas, se não permitiu uma superabundância, propiciou níveis razoáveis de alimentação para a gigantesca população da China. Graças ao sistema de irrigação construído, o país é responsável por um terço da produção mundial de arroz, o equivalente à produção conjunta da Índia, Indonésia, Bangladesh, Japão e Tailândia. Os chineses produzem 2 milhões de toneladas de peixes de água doce ao ano, em 6 milhões de toneladas anuais no mundo.

Assim, mesmo considerando a eventual perspectiva de desestruturação do sistema de comunas pela abertura econômica da China (com a criação das Zonas Econômicas Especiais, que demandam mão-de-obra), permanece a importante experiência de uso sustentável dos recursos. Enfatizando o uso intensivo da mão-de-obra, o país dispensa a maquinaria cara e inacessível. Ao optar por fontes alternativas de energia, elimina a dependência dos combustíveis fósseis. Os chineses desenvolveram também outras práticas sustentáveis, como a seleção de variedades de sementes para o cultivo, o controle biológico de pragas e o terraceamento para conservação dos solos.

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