O poder corrompe

Fonte: José Lutzenberger, em Coleção Universidade Livre: Ecologia – Do Jardim ao Poder. 10ª edição. Capítulo “A tragédia do poder”.


Ouvem-se muitas vezes discussões com base na pressuposição de que haveria uma diferença fundamental entre uma empresa e um governo, uma vez que a empresa persegue lucro e o governo não. Isso é uma perigosa ilusão. A empresa não persegue o lucro pelo lucro. O lucro é para a empresa um meio para alcançar certos alvos implícitos. […] O alvo que o executivo persegue é a manutenção e ampliação de seu poder. […] Toda burocracia, estatal ou empresarial, é estrutura de poder. Os intrumentos de poder de que cada uma se serve podem variar enormemente. Pouco importa que a respectiva burocracia fabrique aço ou automóveis, gere eletricidade em reator nuclear, venda bombons ou preservativos, ou que administre um governo, uma autarquia ou sindicato. Quer seja em esquema democrático ou totalitário, o que toda burocracia persegue é a sua própria sobrevivência e ampliação. Realmente não interessa que ela se chame General Motors ou Partido Comunista Soviético, ou mesmo Igreja Católica ou federação mundial do voodoo.

Se os governos não perseguem lucro, é porque realmente não necessitam. Eles têm força para sugar impostos e aumentá-los como e quando lhes convêm e, afinal, o dinheiro quem faz são eles. Um governo pode até, tranquila e legalmente, emitir dinheiro falso. A inflação é isso mesmo, é dinheiro sem fundo emitido pelo próprio governo. Quando, então, alguém procura se defender do logro aumentando seus preços, a administração pública facilmente o acusa de especulador e não hesita mesmo em aplicar punições severas. Portanto, se as grandes corporações são perigosas e precisam ser controladas, quanto mais os governos, cujo poder está submetido a muito menos controles! São ainda poucos os casos em que grandes firmas tenham conseguido colocar em campo de concentração ou executar seus opositores, mas quem lê jornal e estuda História sabe que este tipo de atividade é perfeitamente normal para inúmeros governos e de todas as colorações ideológicas.

Os alvos explícitos do governo são sempre humanitários. Não poderiam deixar de sê-lo. Todo chefe, legítimo ou não, deseja a fé dos governados, mas ele deseja muito mais manter-se no poder. Faz então o que considera necessário para tanto, mesmo que isso signifique perda de popularidade ou o cultivo da grande mentira. Acaba sempre acreditanto na legitimidade dos meios que usa. Quanto mais irrestrito for seu poder, a mais extremos estará disposto. É preciso ser muito simplório, estar possuído de fé muito cega, para acreditar, como acreditam alguns revolucionários abnegados, na incorruptibilidade da pessoa no poder. Quanto mais envolvente e fanática for a ideologia, mais ela se presta a desmandos. Giordano Bruno foi queimado vivo em nome de uma religião que professa o “ama o próximo como a ti mesmo”.

Por que será que tantos movimentos de libertação, com ideologias aparentemente tão humanas, desembocam tão frequentemente em ditaduras ferozes e sangrentas?

Acontece que os ideólogos destes movimentos caem quase sempre na mesma armadilha. Postula-se que, estanto a sociedade ou o grupo em questão oprimidos por pequeno grupo de aproveitadores ou mesmo tirano solitário, basta acabar com os maus e substituí-los por um dos bons — haja vista a ideia da “ditadura do proletariado” — e estará iniciado o Milênio, isto é, o fim da História. A humanidade seria feliz e não mais teria problemas. Protótipo deste pensamento simplório é o filme de mocinho. No início da história, o heroi bom, idealista, honesto, injustamente perseguido, se vê rodeado de bandidos. À medida que o enredo se desenrola, ele os vai matando um a um. Quando, após mil peripécias, liquida o último, lá está o mocinho, supremo, glorioso. Agora termina o filme. Não há mais nada para contar. Mas aqui deveria recomeçar, pois agora sobra um só bandido, mandão, solitário. Será que ele vai saber se comportar sem oprimir ninguém?

Todo poder corrompe, por melhores que sejam as intenções, nem que seja só pelo servilismo dos subalternos ou pelo imobilismo e a esclerose do mecanismo burocrático. As burocracias facilmente degeneram em burrocracias. Esta tendência é diretamente proporcional ao crescimento em tamanho e centralização administrativa. É melhor, ou traz um mal menor, o poder dividido entre muitos bandidos do que o poder na mão de um só jesus cristo. É sabido que os piores estragos podem ser causados por gente muito bem intencionada, disposta inclusive a sacrifícios extremos. O missionário, na melhor das intenções e com grande engajamento pessoal, acaba destruindo culturas de sabedoria milenar. Sempre que o poder estiver em uma só mão, por mais virtuosa que seja, todo aquele que tiver ideias e alvos diferentes inevitavelmente sofrerá. Distribuído entre muitos detentores, mesmo mal intencionados, o poder se torna menos envolvente, deixa muitas frestas, e os diferentes centros de poder se combatem ou se freiam mutuamente. É so por isso, não porque nossos mandatários sejam mais humanos, que temos um pouco mais de liberdade pessoal, liberdade de expressão e informação, nas democracias ocidentais e mesmo em certas semiditaduras capitalistas, do que nas burocracias totalitárias que se dizem comunistas ou democracias populares. Do nosso lado, o poder está mais fracionado. Temos os governos em seus níveis municipal, estadual ou provincial e central, com os poderes executivo, legislativo e judiciário, as empresas, grandes e pequenas ou multinacionais, os particulares, clubes, fundações, sindicatos, autarquias, meios de comunicação, entidades de ação comunitária, etc, etc.

As grandes injustiças acontecem sempre naqueles lugares e naquelas circunstâncias onde uma só entidade ou indivíduo tem poder predominante. A propaganda dos governos comunistas gosta de falar do “capitalismo monopolista”. Ora, este temos se aplica perfeitamente a eles. Os países capitalistas são oligopolistas, um mal apenas um pouco menor que o capitalismo de monopólio total do Estado.

As grandes empresas e mesmo multinacionais são tidas por alguns como empresas “privadas”, como se elas fossem propriedade particular de alguém. Elas são estruturas de poder como são os governos. Quem já trabalhou em grandes empresas e em organismos estatais sabe que não há diferença. Apenas o âmbito de ação difere de uma burocracia para outra, mas há muita superposição e entrosamento. Daí a inevitável desilusão após as estatizações. Isto porque a estatização não destroi, não desmantela o poder, apenas o transfere. Em geral, a transferência se faz de um centro menor para um maior, que se torna então ainda mais poderoso. Por isso, a perda de liberdade e de alternativas para o indivíduo é pior depois do que antes da estatização. Não é por nada, não obstante toda legislação antitruste (quase sempre hipocritamente aplicada), que os grandes trustes procuram fusionar-se sempre mais.

Ideal seria uma sociedade sem governo, sem polícia, uma sociedade autogovernada, onde cada indivíduo se comportasse de acordo com o bem comum. Esta é a situação dos remanescentes intactos de tribos indígenas, e esta parece ter sido a situação normal do Homem durante a Idade da Pedra, nas comunidades caçadoras-coletoras. Isto é, durante mais de dois milhões de anos, pelo menos 99,5% de nossa história. […]

Em termos cibernéticos, o poder é um processo que tem retroação positiva: quanto mais poder, mais fácil sua ampliação. Por isso, o poder acaba invadindo áreas onde nenhuma função legítima teria. À medida que aumentamos e complicamos nossas estruturas tecnológicas e administrativas, surgem estruturas de poder sempre mais centralizadas e envolventes. Com isso, damos sempre mais chance a indivíduos egoístas, insensíveis, cínicos, sedentos de poder. O grave inconveniente de toda estrutura de poder é que o crivo da seleção para ascenção dos chefes tem sinal inverso ao do crivo da seleção natural. Na seleção natural é propiciado o que convém à estabilidade, à harmonia, e ao aperfeiçoamento do sistema. Nas estruturas burocráticas, entretanto, verifica-se uma seleção que propicia os traços mais indesejáveis. Na pirâmide do poder, quem sobe mais rápido e mais alto não é o mais apto, decente, honesto, menos ambicioso. É todo o contrário. Por isso, a tragédia dos esquemas anarquistas em sociedades humanas é que, abrindo vácuos de poder, estes são logo aproveitados por tiranos potenciais, e a sociedade se encontra desarmada diante deles.

Parece-me que o problema central de toda sociedade humana é como conseguir controle efetivo do poder, como evitar sua usurpação. É certo que, dentro de certa medida, o poder é um mal necessário. Mas devemos sempre colocar ênfase no mal, não no necessário.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

*