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Anders Bateva

Clippings / recortes de não-ficção: prospecções literárias, de tudo um pouco.

Anders Bateva

Clippings / recortes de não-ficção: prospecções literárias, de tudo um pouco.

Tolstói: opor-se ao mal sem violência

Fonte: Leon Tolstói. Biblioteca do Pensamento Vivo - 16: O Pensamento Vivo de Tolstoi, apresentado por Stefan Zweig. Livraria Martins Editora. Quinta parte, seção "Três parábolas", parábola I.

O joio começou a brotar no prado.

Para se livrar dele, os donos do prado puseram-se a ceifá-lo, e, como era de esperar, nasceu ainda mais espesso. Ora, um bom e sábio proprietário da vizinhança, visitando os donos do prado, deu-lhes muito conselhos e lhes ensinou que deviam, não ceifar o joio, pois isto só serviria para propagá-lo, mas arrancá-lo pela raiz.

Os proprietários do prado, por não terem notado, dentre os conselhos do vizinho, o que se referia à necessidade de extirpar o joio, em vez de ceifá-lo; por não o terem compreendido, ou por não se conformarem com isso, devido a cálculos pessoais, continuaram a ceifar o joio e, consequentemente, a multiplicá-lo.

Nos anos seguintes, mais de uma pessoa lembraram-lhes o conselho do bom sábio vizinho, porém eles não escutaram e continuaram a agir como dantes. A ceifa do joio brotado tornou-se não somente um hábito, mas também até mesmo, uma tradição sagrada, e o campo se ia obstruindo cada vez mais.

Chegou finalmente o momento em que, no prado, só havia joio. Os proprietários se lamentavam e procuravam um remédio para a situação. Havia um, somente um: o que lhes indicara o bom e sábio vizinho. Continuaram, porém, sem querer aplicá-lo.

Nos últimos tempos, um transeunte, penalizado de ver devastado um campo tão bonito, procurou as instruções deixadas pelo sábio proprietário e esquecidas a um canto, em busca de uma que fosse apropriada à situação. Descobriu então a que dizia que o joio não deve ser ceifado, mas arrancado pela raiz. Mostrou aos proprietários do campo que tinham sido imprevidentes e lembrou-lhes que, havia muito tempo, um bom e sábio proprietário lhes chamara a atenção para isso.

Em vez de verificar a veracidade do que dizia o homem e, caso fosse exato, deixar de ceifar o joio, ou caso contrário, provar onde estava o erro, ou ainda aceitar incontinenti o conselho do sábio e bom proprietário, os donos do prado se decidiram pelo quarto alvitre e, mostrando-se ofendidos com o apelo que lhes fazia à memória o transeunte, puseram-se a invectivá-lo.

Uns qualificavam-no de orgulhoso, por pensar que fosse o único no mundo a compreender as instruções do bom proprietário. Outros chamavam-no falso intérprete, traidor, caluniador. Outros ainda, sem perceber que ele nada dissera de si, mas simplesmente lembrara os conselhos dum homem admirado por todos, afirmavam ser ele um indivíduo nocivo, desejoso de ver o joio a tal ponto multiplicado que o campo ficasse completamente perdido.

Ele pretende que não se ceife o joio - gritavam. Mas se não o destruírmos, ele se reproduzirá sempre e adeus campo! Então, foi-nos ele dado para que nele cultivássemos a erva má?

Intencionalmente calavam que o homem aconselhara, não que se poupasse o joio, mas que se arrancasse pela raiz, em vez de ceifá-lo.

A opinião de que o homem era um insensato, um intérprete mentiroso, um monstro desejoso do mal de outrem, de tal modo se firmou, que quem não zombava dele cumulava-o de injúrias. A despeito de todas as explicações de que não desejava a multiplicação do joio, mas achava que destruí-lo é um dos principais deveres do dono da terra, compreendendo esta destruição do mesmo modo que o bom e sábio proprietário e somente lembrando os conselhos deste, não obstante tudo o que pudesse dizer, ninguém o escutou. Já ficara definitivamente decidido que ele estava louco de orgulho, que era um traidor à palavra do sábio e bom proprietário e um celerado tão negro, a ponto de convidar os outros a não mais destruir a erva má, antes a cuidá-la e favorecer sua reprodução.

* * *

O mesmo me aconteceu quando pleiteei a favor do preceito do Evangelho que recomenda não combater o mal pela violência. Esta regra foi dada por Cristo e todos os discípulos depois dele a repetiram, em todos os tempos e em todos os lugares. Seja por não a terem notado ou por não a terem compreendido, seja ainda por ter parecido muito difícil agir de acordo com ela, mais passa o tempo, mais é ela negligenciada e mais a disposição de vida dos homens dela se afasta. Enfim, aconteceu o que hoje verificamos: esta regra começa a parecer, aos olhos do mundo, como uma coisa nova, desconhecida, senão estranha e mesmo insensata.

Deu-se comigo o mesmo que com aquele transeunte que lembrava aos donos do prado a antiga prescrição do bom e sábio proprietário, segundo a qual não convém ceifar a erva má e sim arrancá-la pela raiz. Os donos do campo propositadamente silenciaram que a prescrição recomendava, não que conservassem o joio, mas que não o destruíssem desarrazoadamente, e declaravam: Este homem é um insensato; aconselha-nos a não ceifar o joio, mas a replantá-lo, ou pouco falta para isso. Também quando afirmei que, para abolir o mal, tínhamos de nos adaptar ao preceito de Cristo, que nos ensina a não opor violência ao mal, mas a extirpá-lo pelo amor, gritaram: Não escutemos este insensato que nos induz a não lutar contra o mal, para que o mal nos sufoque.

Dizia que, segundo a doutrina cristã, o mal não será desenraizado pelo mal; que lutar contra o mal pela violência é simplesmente aumentar a sua força; que Jesus formalmente declarou que o mal se extirpa com o bem. Abençoai os que vos amaldiçoam, rezai pelos que vos ofendem, amai vossos inimigos e não tereis um inimigo. (Ensinamentos dos doze Apóstolos). Mostrava que o Evangelho afirma ser toda a vida do homem uma luta contra o mal, que é pela espiritualidade e pelo amor que o homem vence o mal, que, de todas as armas a usar contra o mal, Cristo exclui esta arma imprudente da violência, a luta contra o mal pelo mal.

Dessas palavras minhas se concluiu que eu atribuía a Cristo uma doutrina pela qual não se deve resistir ao mal... Todos aqueles cuja vida se baseia na violência e a quem, por conseguinte, a violência é cara, acorreram a adotar esta falsa interpretação das minhas palavras e mesmo das de Jesus, a proclamar que a doutrina que manda não opor a violência ao mal é uma doutrina mentirosa, insensata, sacrílega e nociva.

E os homens, a pretexto de destruir o mal, continuam tranquilamente a reproduzi-lo e a multiplicá-lo.

Debian 9: como instalar TL-WN823N v2 (TP-LINK)

300Mbps Mini Wireless N USB Adapter
Marca: TP-LINK
Modelo: TL-WN823N(EU)
Versão:2.0

Neste tutorial, ensinarei como instalar este dongle USB para wireless no Debian 9. Mas não simplesmente entregar um passo-a-passo, eu quero que você entenda o que está fazendo, e seus conhecimentos expandam-se, consequentemente.

O problema

O manual do produto diz que há suporte oficial para o Linux, pela TP-LINK, porém não existe suporte de verdade pela TP-LINK, e eu penei um bocado para fazê-lo funcionar. Trago então minha solução para você!

O driver oficial, do site da TP-LINK, está obsoleto! O que há ali é o código, a partir do qual você deve compilar (produzir) o driver especificamente para seu sistema, não é só dar 2 cliques. Mas para compilar, você precisa ter o ambiente adequado, isto é, seu sistema tem de possuir algumas características específicas. A característica crucial nesse caso é o kernel do Linux: o site oficial diz que o driver é compatível com as versões 2.6.18 até a 3.10.10. Legal, mas o suporte para a versão 3.10 acabou em novembro de 2017, e já estamos em 2018... O Debian que uso, segundo o comando lsb_release -r é a 9.5, e o kernel, segundo o comando uname -r, é o 4.9.0-7-amd64 (suportado até janeiro de 2019). Então este driver não dá suporte ao Debian 9, apenas versões mais antigas...

Obtendo o firmware

Os repositórios oficiais do Debian 9 incluem o pacote firmware-realtek, que por sua vez inclui o firmware do chipset Realtek rtl8192eu, que é o que está dentro do dongle. Os repositórios do Debian 8 incluem um pacote de mesmo nome (firmware-realtek), que porém, não dá suporte ao chipset em questão (rtl8192eu). Então faça um upgrade do seu sistema, se ainda não estiver usando a versão 9.

Dado que o pacote firmware-realtek não é software livre, é necessário alterar sua lista de repositórios para "tornar visíveis" os pacotes de software proprietário:

  1. em um terminal root, abra a lista de repositórios no editor de texto nano: nano /etc/apt/sources.list;
  2. adicione non-free (com um espaço antes) após cada linha escrita no arquivo;
  3. salve as alterações com ^O (CTRL+O), e depois feche o editor de texto com ^X (CTRL+X);
  4. atualize sua lista de fontes de software com apt update, e instale o firmware com apt install firmware-realtek;
  5. reinicie o computador, para que o firmware seja carregado na próxima inicialização do sistema e entre em ação.

Encontrando redes sem-fio

Após reiniciar, você já deve ser capaz de encontrar as redes sem-fio das redondezas. Por exemplo, se você tiver o network-manager-gnome instalado, o nm-applet (um ícone na barra de aplicativos que exibe informações de rede) deve mostrar-lhe uma lista de redes wireless disponíveis, se você clicar nele. Se você consegue essa geração de lista de redes, você tem o firmware adequado para o seu dongle, e o passo-a-passo anterior teve sucesso em seu objetivo.

Escanear o ar buscando redes sem fio é necessário, mas não suficiente. Tente conectar-se a alguma, mesmo uma sem senha e sem segurança - se não tiver uma assim por perto, você pode configurar seu roteador para tal. O nm-applet roda, roda, mas não conecta? Então ainda tem algo errado.

Conectando-se a redes sem segurança, e WEP

Buscando na internet, vi quais configurações adicionais devem ser feitas:

  1. abra um terminal root;
  2. desabilite o modo de economia de energia do wifi, e também a auto-suspensão do USB com echo "options 8192eu rtw_power_mgnt=0 rtw_enusbss=0" | tee /etc/modprobe.d/8192eu.conf. Estas duas opções geram falha de comunicação do sistema com o dongle;
  3. digite echo "blacklist rtl8xxxu" | tee /etc/modprobe.d/rtl8xxxu.conf;
  4. reinicie o computador. Se ainda assim não funcionar, dê modprobe rtl8xxxu no terminal.

Após configurar o dispositivo assim, tente novamente se conectar a uma rede sem senha e sem segurança, ou com segurança WEP. Conseguiu? Ótimo. Mas e as conexões WPA, WPA2, e WPA-WPA2, funcionam? Se não, siga adiante o tutorial.

Conectando-se a redes WPA, WPA2, e WPA-WPA2

As proteções WPA, WPA2 e WPA-WPA2 são mais recentes que a WEP, já obsoleta devido à falta de segurança. Por isto mesmo, funcionam diferente e exigem configuração adicional.

Conferindo nos logs do sistema (comando nano /var/log/messages como root), constatei que existem quatro "apertos de mão" (4-way handshake) entre o dongle e o roteador sem fio, compondo uma etapa de negociação. É esta etapa que falha e impede e a conexão, registrando no log, após a troca de mensagens "eapol", que a autenticação falhou pela "razão 15". O protocolo do "eapol" é uma inovação das tecnologias WPA e WPA2 (não existiam na WEP). E a razão 15 significa que o handshake estourou o tempo-limite.

O que faz o handshake falhar é a aleatorização do endereço MAC do dongle, pelo que pesquisei. Esse recurso é importante para previnir que clientes wireless sejam identificados pessoalmente quando usarem wifis públicos: a cada conexão, um endereço MAC diferente é usado pelo aparelho, dando certa privacidade. Mas isso não funciona bem com o dongle TL-WN823N(EU) v2.0, e o recurso precisa ser desabilitado. Isso é simples de resolver:

  1. abra um terminal root, e edite o gerenciador de redes no editor de textos nano, com nano /etc/NetworkManager/NetworkManager.conf;
  2. adicione as linhas ao arquivo:[device]wifi.scan-rand-mac-address=no
  3. salve as alterações com ^O (CTRL+O), e depois feche o editor de texto com ^X (CTRL+X);
  4. reinicie o computador.

Voilà! Resolvido. Agora o dongle deve funcionar perfeitamente. Se para você, ainda assim não estiver dando certo, deixe um comentário neste post explicando o que deu errado, e talvez eu possa lhe ajudar.

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