Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Anders Bateva

Nonfiction Litblog. Fichamentos / clippings / recortes de não-ficção. Prospecções literárias em: Ciências Sociais; Informática; e Ciências Ambientais.

Anders Bateva

Nonfiction Litblog. Fichamentos / clippings / recortes de não-ficção. Prospecções literárias em: Ciências Sociais; Informática; e Ciências Ambientais.

Misantropia ∩ decepções ∩ dedo podre / 🏺 Platão

Sócrates. Os Pensadores III: Platão - 1ª edição - 1972 - Abril Cultural - diálogo "Fédon", "Fédon retoma a narrativa".
Platão: idoso barbudo pensativo no Bosque Academe, onde ao fundo vê-se a Academia fundada por ele.
Séc. XX Roger Payne

O ódio aos seres humanos - a misantropia - penetra nos corações quando confiamos demais numa pessoa, sem nos acautelarmos; quando acreditamos que uma pessoa é boa, sincera, honesta, e vimos a descobrir mais tarde que tal não é, que pelo contrário é má, desonesta e mentirosa; e se isso acontecer repetidas vezes a um mesmo humano, e justamente a propósito daquelas pessoas a quem considerava como seus melhores e mais sinceros amigos, esse passará finalmente a odiar todos os humanos, persuadido de que em ninguém há de encontrar a menor qualidade boa.

E proceder assim não é, acaso, proceder mal? Não é claro que esse descrente vive entre os humanos sem entretanto conhecer a humanidade? Se procedesse com juízo, notaria que bem poucos humanos são absolutamente bons ou maus, e que inúmeros são os que se encontram entre esses extremos.

Se dá aqui o mesmo que se dá a respeito das coisas pequeníssimas e grandíssimas. Achas que pode haver coisa mais rara do que um homem enormemente grande ou extraordinariamente pequeno? E isso vale também para o cão, como para qualquer outra coisa. E não te parece também que é muito difícil encontrar-se um ser rapidíssimo e um vagarosíssimo, assim como um belíssimo e um feíssimo, ou um muito alvo e outro muito negro? Acaso não notaste por ti mesmo como são raros em todas essas coisas os pontos extremos, ao passo que os termos médios são muito mais numerosos?

De modo que, se fosse feito um concurso de maldade, não te parece também que apenas uns poucos seriam premiados?

[...] Mas a comparação [com a misologia - ódio à razão] é esta: uma pessoa que desconhece a arte de provar por argumentos se entrega com cega confiança a um argumento que lhe parece verdadeiro; pouco depois, este passa a lhe parecer falso. [...] Mas não seria deplorável desgraça, Fédon, quando existe um argumento verdadeiro, sólido, suscetível de ser compreendido, que esta mesma pessoa, em lugar de acusar as suas própria dúvidas ou a sua falta de arte, lance toda a culpa na própria razão e passe toda a vida a caluniá-la e odiá-la, privando-se, desse modo, da verdade dos seres e da ciência?

Ora pois, tomemos cuidado para que não venha a penetrar em nossas almas o pensamento de que nos argumentos nada há de razoável. Suponhamos sempre, ao contrário, que nós é que não temos ainda bastante discernimento. Devemos, com efeito, ser corajosos e fazer tudo o que for necessário para obter os conhecimentos verdadeiros.

Tomar as dificuldades, obstáculos, e tristezas da vida como um desafio que devemos superar para tornar-nos mais fortes, em vez de como uma punição injusta que não nos devia sobrevir, requer fé e coragem.
-- Erich Fromm. A Arte de Amar - 1991 - Editora Itatiaia. Capítulo IV: "A Prática do Amor".