Quimioterapia: origem nas guerras mundiais

Fonte: Thierry de Lestrade. Livro “Jejum: Uma Nova Terapia?”. L&PM Editores, 2015, Porto Alegre – RS. Capítulo 9: “Jejuando Contra o Câncer: as Descobertas de Valter Longo“. Seção “Diante das temíveis armas da célula cancerosa, a arma de guerra da quimioterapia”.


Para combater a célula que, ao se replicar por milhões, se torna um tumor, os médicos por muito tempo dispuseram de duas “armas” principais: a cirurgia e as radiações — bisturi e fogo. Essas armas, eficazes quando o tumor é localizado, deixam de ser quando a célula cancerosa começa a se deslocar no corpo. A descoberta da quimioterapia ofereceu um novo método de ação: o veneno.

Estamos em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial. Dois biólogos da Universidade de Yale, Alfred Gilman e Louis Goodman, fazem testes de toxicidade com gás mostarda, o mesmo utilizado nas trincheiras de 1917 pelo exército alemão e responsável por fazer milhares de vítimas. As experiências dos dois pesquisadores são financiadas pelo exército dos Estados Unidos, que explora todas as possibilidades oferecidas pelas armas químicas na guerra travada contra os nazistas e os japoneses. Coelhos são submetidos a diferentes doses para se determinar o limite a partir do qual o gás se torna letal. Curiosos em obter resultados com outras espécies, os bioquímicos confiam algumas doses de gás a um jovem colega, Thomas Dougherty, que trabalha com camundongos. Na falta de animais, este experimenta o produto em roedores com leucemia, cujo tempo de vida ele sabe que é pequeno. Surpresa! Não só os camundongos não sucumbem ao gás de mostarda, como seus tumores dimunuem. Alguns deles chegam até a ter uma cura completa. O efeito é espetacular. Ele teria encontrado um tratamento contra esse câncer inoperável que é a leucemia?

Um teste em ser humano é realizado em sigilo absoluto, muito rapidamente, em dezembro de 1942. Assim, o gás mostarda é injetado por via intravenosa em um paciente com câncer nos gânglios. É o primeiro tratamento quimioterápico do câncer e é executado com uma arma. Depois de dez dias de tratamento, os tumores do paciente diminuem, antes de crescer de novo alguns meses mais tarde. Ainda assim, essa tentativa muda o método de tratar o câncer. Passa a se ver aí uma maneira de lutar contra as leucemias, os tipos de câncer do sangue contra os quais a cirurgia nada pode fazer, e de frear as metástases, essas células que migram para outras partes do corpo. Desde o final dos anos 1940, farmacêuticos e toxicologistas testam todos os produtos tóxicos, em geral oriundos de plantas naturais, que podem combater os tumores.

Os produtos mais eficazes são aqueles que agem contra a divisão celular. Isso é fácil de se entender: como a célula cancerosa se divide muito mais do que as outras, ela será tomada como alvo pelo veneno. Infelizmente, ela não é a única, pois outras células se dividem com frequência. Elas também serão atacadas e destruídas em grande parte. Citemos por exemplo as células dos bulbos capilares, as da mucosa da boca e do trato digestivo — que se renovam a cada 48 horas–, os glóbulos sanguíneos, brancos ou vermelhos… Isso explica os efeitos colaterais durante o tratamento: perda temporária de cabelo, boca seca, aftas bucais, diarreias, fadiga… Além disso, as quimioterapias também atingem células de divisão lenta ou madura e estão, infelizmente, na origem de problemas cognitivos.

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