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Anders Bateva

Nonfiction Litblog. Fichamentos / clippings / recortes de não-ficção. Prospecções literárias em: Ciências Sociais; Informática; e Ciências Ambientais.

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⚔️ Agressão → crescimento humano frustrado / Bertrand Russell

Bertrand Russel, "Por que os homens vão à guerra", Capítulo I: "O Princípio do Crescimento". Editora UNESP, 1ª edição (2014), São Paulo.
Bertrand Russell: idoso sem barba, de cabelo repartido, e terno.
2018 Anastasia Yesipova

Há duas maneiras de ver a guerra, e nenhuma delas me parece adequada: a visão mais comum neste país [Inglaterra] é a de que a guerra se deve à perversidade dos alemães; a visão da maioria dos pacifistas é a de que se deve a emaranhados diplomáticos e às ambições dos governos. Penso que ambas as visões fracassam em perceber que a guerra nasce, em grande medida, da própria natureza humana. Os alemães e também os homens que compõem os governos são, como um todo, seres humanos comuns, incitados pelas mesmas paixões que incitam tantos outros, não muito diferentes do resto do mundo, a não ser por suas circunstâncias. Consentem a guerra homens que não são nem alemães nem diplomatas -- e com uma prontidão e aquiescência a razões falsas e impróprias que não seriam possíveis se qualquer repugnância mais profunda estivesse difundida por outras classes e nações. As coisas falsas nas quais os homens acreditam e as coisas verdadeiras nas quais desacreditam são índice de seus impulsos -- não necessariamente de impulsos individuais (pois as crenças são contagiosas), mas de impulsos gerais da comunidade. Todos nós acreditamos em muitas coisas nas quais não temos bons motivos para acreditar, porque, subconscientemente, nossa natureza suplica por certos tipos de ação que essas crenças, se fossem verdadeiras, tornariam razoáveis. As crenças infundadas são o tributo que o impulso presta à razão. E esse é o caso das crenças que, opostas porém similares, fazem que homens, aqui e na Alemanha, acreditem em seu dever se levar a guerra adiante.

O primeiro pensamento que naturalmente ocorre a quem aceita essa visão é o de que seria melhor se os homens se encontrassem em maior medida sob o domínio da razão: [...] se os impulsos fossem mais bem controlados, se o pensamento fosse menos dominado pela paixão, os homens protegeriam suas mentes ante as aproximações da febre da guerra, e as disputas seriam resolvidas de maneira amistosa. Isso é verdadeiro, mas insuficiente -- apenas aquelas cujo desejo de pensar com verdade é, em si próprio, uma paixão, podem ver que esse desejo é capaz de controlar as paixões da guerra. Só a paixão pode controlar a paixão, e só um impulso ou desejo contrário pode reprimir o impulso. A razão, como apregoam os moralistas tradicionais, é muito negativa e apática para compor uma vida boa. Não se pode prevenir as guerras só com a razão, mas sim com uma vida positiva de paixões e impulsos contrários àqueles que levam à guerra. É a vida do impulso que precisa se transformar, não apenas a vida do pensamento consciente.

[...]

O impulso cego é a fonte da guerra, mas também é a fonte da ciência, da arte e do amor. Não se deve desejar o enfraquecimento do impulso, mas seu direcionamento para a vida e para o crescimento, e não para a morte e para a decadência.

Na verdade, o controle total do impulso pela vontade -- algumas vezes pregado por moralistas e muitas vezes imposto pela necessidade econômica -- não é desejável. Uma vida governada pelos propósitos e desejos, à exclusão dos impulsos, é uma vida fatigante: exaure a vitalidade e, no fim, torna o homem indiferente aos propósitos que tentava atingir. Quando uma nação inteira vive dessa forma, a nação inteira acaba ficando frágil, sem o pulso necessário para reconhecer e transpor os obstáculos que a separam de seus desejos. [...] A longo prazo, tal modo de existência, quando não seca as fontes da vida, produz novos impulsos, de tipo diferente daqueles que a vontade se habituara a controlar e que o pensamento tinha consciência. Assim, esses novos impulsos estão aptos a serem piores em seus efeitos do que aqueles que já haviam sido reprimidos. A disciplina excessiva, especialmente quando imposta de fora, resulta, com frequência, em impulsos de crueldade e destruição: essa é uma das razões pelas quais o militarismo tem efeitos negativos sobre o caráter nacional. Se os impulsos espontâneos não conseguem encontrar um canal de manifestação, o resultado é, quase sempre, a falta de vitalidade ou impulsos opressivos e contrários à vida.

[...]

Os impulsos podem ser divididos em dois: os que se dirigem à vida e os que se dirigem à morte. Os impulsos corporificados na guerra estão entre aqueles que se dirigem à morte. Qualquer um dos impulsos que se dirigem à vida, quando forte o bastante, fará o homem se opor à guerra. Alguns desses impulsos são fortes apenas em homens altamente civilizados; já outros fazem parte da humanidade comum. Os impulsos dirigidos para a arte e para a ciência estão entre os mais civilizados que se dirigem à vida. [...] Mas não é a partir desses impulsos tão refinados que se poderá gerar uma força popular capaz de transformar o mundo.

No lado da vida existem três forças que não exigem à mente nenhum dote excepcional, que não são muito raras atualmente e que poderiam ser bem mais comuns sob instituições sociais melhores. São elas: o amor; o instinto construtivo; e a alegria de viver. [...]

Os impulsos e desejos de homens e mulheres, na medida em que têm real importância para suas vidas, não estão apartados uns dos outros. Bem ao contrário, provêm de um princípio de crescimento central, de uma urgência instintiva que os leva em certa direção, assim como as árvores procuram a luz. Contanto que esse movimento instintivo não seja frustrado, quaisquer contratempos que possam ocorrer não serão desastres fundamentais e não produzirão as distorções que resultam da interferência no crescimento natural. Esse centro íntimo de cada ser humano é o que a imaginação deve apreender se quisermos compreendê-lo intuitivamente. Ele difere de um homem para o outro e determina para cada um o tipo de excelência de que é capaz. O máximo que as instituições podem fazer por um homem é deixar que seu crescimento seja livre e vigoroso: elas não podem forçá-lo a crescer de acordo com o padrão de outro homem. [...] [Certos] impulsos, mesmo que se originem no princípio central do indivíduo, podem prejudicar o crescimento dos outros e precisam ser reprimidos para o bem dos outros. Mas, em geral, os impulsos prejudiciais aos outros tendem a resultar do crescimento frustrado e a ser de menor importância naqueles que não sofreram empecilhos em seu desenvolvimento instintivo.

[...]

Quando o crescimento de um homem não sofre interdições, seu autorrespeito se mantém intacto, e ele não tende a enxergar os outros como inimigos. Mas, quando seu crescimento é impedido, por qualquer razão, ou quando ele é forçado a crescer de alguma forma tortuosa e não natural, seu instinto lhe apresenta o ambiente como inimigo, e ele se enche de ódio. A alegria de viver o abandona, e a maleficência toma lugar da cordialidade. [...] A verdadeira liberdade, se pudesse ser alcançada, contribuiria muito para destruir o ódio.

[...]

O mesmo instinto que leva à criatividade artística ou intelectual pode, sob outras circunstâncias, levar ao amor pela guerra. O fato de uma atividade ou crença ser resultado do instinto não é, portanto, motivo para encará-lo como inalterável.

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