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Anders Bateva

buscando o porquê das coisas

Anders Bateva

buscando o porquê das coisas

Erich Fromm: em amor e sexo, nem tudo o que reluz é ouro!

Fonte: Erich Fromm. A Arte de Amar - 1991 - Editora Itatiaia. Capítulo II: "A Teoria do Amor", seção 3: "Dos Objetos do Amor", item c: "Amor erótico".


O amor erótico é o anseio de fusão completa, de união com um outra pessoa. É, por sua própria natureza, exclusiva e não universal; é também, talvez, a mais enganosa forma de amor que existe.

Antes de tudo, confunde-se ele muitas vezes com a experiência explosiva de "cair" enamorado, o súbito colapso das barreiras que até certo momento existiam entre dois estranhos. Mas, como já antes apontamos, esta experiência de súbita intimidade é, por sua própria natureza, de vida curta. Depois que o estranho se tornou pessoa intimamente conhecida, não há mais barreiras a superar, não há mais proximidade súbita a ser realizada. A pessoa "amada" fica sendo tão bem conhecida como a gente mesma. Ou talvez seja melhor dizer: tão pouco conhecida. Se houvesse mais profundidade na experiência da outra pessoa, se se pudesse experimentar a infinidade de sua personalidade, a outra pessoa nunca seria tão familiar -- e o milagre de superar as barreiras poderia ocorrer de novo a cada dia. Mas, para a maioria, a própria pessoa, assim como as outras, é logo explorada e logo exaurida. Para a maioria, a intimidade se estabelece antes de tudo pelo contacto sexual. Desde que primeiramente se experimente a separatividade de outra pessoa como separatividade física, a união física significa a superação da separação.

Além disso, há outros fatores que, para muitos, denotam a superação da separação. Falar da própria vida pessoal, das próprias esperanças e ansiedades, mostrar-se nos seus aspectos infantis ou pueris, estabelecer um interesse comum em face do mundo -- tudo isso é tomado como superação da separação. Mesmo mostrar cólera, ódio, falta completa de inibição, é tomado por intimidade, e isso pode explicar a atração pervertida que casais muitas vezes sentem um pelo outro, só parecendo íntimos quando se achem na cama ou quando dêem expansão a seu ódio e raiva mútuos. Todos esses tipos de proximidade, entretanto, tendem a reduzir-se cada vez mais com o correr do tempo. A consequência é buscar-se amor em outra pessoa, em novo estranho. E de novo o estranho se transforma em pessoa "íntima", de novo a experiência de cair enamorado é jubilosa e intensa, e de novo, vagarosamente, vai perdendo intensidade, para terminar no desejo de nova conquista, novo amor -- sempre com a ilusão de que o novo amor será diferente dos anteriores. Essas ilusões são grandemente incentivadas pelo caráter enganador do desejo sexual.

O desejo sexual objetiva a fusão -- e não é, de modo algum, apenas um apetite físico, o alívio de uma tensão dolorosa. Mas o desejo sexual pode ser estimulado pela ansiedade da solidão, pela vontade de conquistar ou ser conquistado, pela vaidade, pelo gosto de ferir e mesmo destruir, assim como pode ser estimulado pelo amor. Parece que o desejo sexual pode ser misturado facilmente a qualquer emoção forte, nela encontrando incitamento; e o amor é apenas uma dessas emoções. Por estar o desejo sexual emparelhado na mente de muitos com a idéia de amor, são eles com facilidade levados à má conclusão de que amam um ao outro quando se querem um ao outro fisicamente.

  • Se o desejo da união física não for estimulado pelo amor, se o amor erótico também não for amor fraterno, nunca levará à união mais do que num sentido orgíaco e transitório. A atração sexual cria, no momento, a ilusão de união, mas, sem amor, essa "união" deixa os estranhos tão afastados quanto antes se achavam; muitas vezes, faz com que se envergonhem um do outro, ou mesmo faz com que mutuamente se odeiem, pois, partida a ilusão, sentem sua estranheza ainda mais acentuadamente do que antes.
  • O amor pode inspirar o desejo de união sexual; neste caso, falta à relação física a avidez, a vontade de conquistar ou ser conquistado, mas mistura-se nela a ternura. A ternura de modo algum é, como acreditava Freud, uma sublimação do instinto sexual; é o produto direto do amor fraterno e existe tanto nas formas físicas do amor quanto nas não-físicas.

Erich Fromm: sexo, drogas, e rock'n roll?

Fonte: Erich Fromm. A Arte de Amar - 1991 - Editora Itatiaia. Capítulo II: "A Teoria do Amor", seção 1: "Amor, Resposta ao Problema da Existência Humana".
O homem é dotado de razão; é a vida consciente de si mesma; tem, consciência de si, de seus semelhantes, de seu passado e de seu futuro. Essa consciência de si mesmo como entidade separada, a consciência de seu próprio e curto período de vida, do fato de haver nascido sem ser por vontade própria e de ter que morrer contra sua vontade, de ter de morrer antes daqueles que ama, ou estes antes dêle, a consciência de sua solidão e separação, de sua impotência ante as forças da natureza e da sociedade, tudo isso faz de sua existência apartada e desunida uma prisão insuportável. Ele ficaria louco se não pudesse libertar-se de tal prisão e alcançar os homens, unir-se de uma forma ou de outra com êles, com o mundo exterior.

[…]

Um meio de alcançar esse objetivo [isto é, fugir à separação] está em todas as espécies de estados orgíacos. Podem ter eles a forma de um transe auto-provocado, às vezes com a ajuda de drogas. Muitos ritos de tribos primitivas oferecem vivo quadro dêsse tipo de solução. Num estado transitório de exaltação, o mundo externo desaparece, e, com ele, o sentimento de estar dele separado. E como esses ritos são praticados em comum, acrescenta-se uma experiência de fusão com o grupo que dá a tal solução o máximo de eficiência.

Sociedades tribais

Estreitamente relacionada com essa solução orgíaca está a experiência sexual. O orgasmo sexual pode produzir um estado semelhante ao produzido por um transe, ou pelos efeitos de certas drogas. Ritos de orgias sexuais comunitárias faziam parte de muitos rituais primitivos. Parece que, depois da experiência orgíaca, o homem pode continuar por algum tempo sem sofrer demais com sua separação. Vagarosamente, a tensão da ansiedade sobe, e é de novo reduzida pela realização repetida do rito.Enquanto esses estados orgíacos forem motivo de prática comum numa tribo, não produzem êles ansiedade ou culpa. Agir de tal modo é reto, virtuoso mesmo, pois é um modo de que todos compartilham, aprovado e requerido pelo pagé ou pelos sacerdotes; daí não haver razão para que alguém se sinta culpado ou envergonhado.

Nossa sociedade

Bem diferente é o caso quando a mesma solução é escolhida por um indivíduo em uma cultura que deixou para trás essas práticas comuns. O alcoolismo e o uso de drogas são as formas que o indivíduo escolhe numa cultura não-orgíaca. Em contraste com os que tomam parte na solução socialmente modelada, tais indivíduos sofrem sentimentos de culpa e remorso. Ao tentarem fugir da separação pelo refúgio no álcool e nos entorpecentes, sentem-se ainda mais separados depois que terminam a experiência orgíaca, e assim são levados a recorrer a ela com frequência e intensidade aumentadas.Poquíssimo diferente disso é o recurso a uma solução orgíaca sexual. Até certo ponto, é uma forma natural e normal de superar a separação, e uma resposta parcial ao problema do isolamento. Mas, em muitos indivíduos em que a separação não é aliviada por outros meios, a procura do orgasmo reveste-se de uma função que não a faz muito diferente do alcoolismo e do vício das drogas. Torna-se uma tentativa desesperada para fugir à ansiedade engendrada pela separação e resulta sempre num sempre crescente sentimento de separação, visto como o ato sexual sem amor nunca lança uma ponte sôbre o abismo entre dois seres humanos, senão momentaneamente.

Correios: selos de 2018

←2017 • 2018 • 2019

Emissões de selos em 2018
EditalLançadoNomeValor facialTiragem
2017/dezCânions do BrasilR$2,5550.000
1914/dezAparelhos de Rádio: Modelos AntigosR$1,2550.000
R$1,8550.000
R$1,9550.000
R$2,5550.000
1811/dezCientistas Brasileiros: Cesar Lattes e Joanna DöbereinerR$1,85360.000
1710/dezHomenagem a Nelson MandelaR$2,35360.000
1606/dezNatal 2018: 200 anos da Canção “Noite Feliz” [gomados]R$4,2575.000
Natal 2018: 200 anos da Canção “Noite Feliz” [autoadesivos]1º Porte Não-Comercial1.050.000
1º Porte Comercial1.050.000
1504/dezGuiana: Fauna, Flora e Turismo (Cota Ministerial)R$1,85450.000
13b04/dezSérie Mercosul: Museus Brasileiros – Museu Nacional do Rio de JaneiroR$3,10240.000
1430/novRonald Golias: Humorista Brasileiro1º Porte Não-Comercial510.000
13a23/novSérie Mercosul: Museus Nacionais (1) – 100 anos do Museu de Arte da BahiaR$3,10240.000
1220/novLaços Diplomáticos Brasil-Luxemburgo (Cota Ministerial)R$4,50480.000
1116/dezSérie Relações Diplomáticas: Brasil-Reino Unido – 1968, Lembrança da Visita ao Brasil da Rainha Elizabeth II do Reino UnidoR$1,85360.000
1016/novBalonismoR$4,2550.000
906/novSérie América (UPAEP): Animais de EstimaçãoR$1,55600.000
815/outHistória da Computação Brasileira1º Porte Não-Comercial480.000
7a02/outSérie Relações Diplomáticas Brasil-ÍndiaR$1,85450.000
7b150 anos do Nascimento de Mahatma GandhiR$1,85320.000
614/junCopa do Mundo da FIFA: Rússia 2018R$2,25630.000
516/maiSérie 200 anos da Independência do Brasil: Bicentenário da Aclamação de D. João VI (Cota Ministerial)R$2,05180.000
404/maiHomenagem à Biblioteca PostalR$1,55180.000
302/abrFebre Aftosa (Cota Ministerial)1º Porte Comercial150.000
219/marDefesa Animal (Cota Ministerial)1º Porte Comercial120.000
119/mar8º Fórum Mundial da Água 1º Porte Não-Comercial160.000
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Maquiavel: sorte vs previdência

Fonte: Nicolau Maquiavel. O Príncipe - 15ª edição - 1996 - Editora Paz e Terra. Capítulo XXV: "Quando pode a fortuna influenciar as coisas humanas e como se pode resistir a ela".


Comparo [a sorte] a um destes rios desastrosos, que, na cheia, alagam as planícies, derrubam as árvores e as construções, carregam terra de uma parte, depositam em outra; todos fogem à sua frente, todos cedem ao seu ímpeto sem poder obstar. Mesmo que sejam feitos assim, aos homens só lhes resta, nos tempos de tranquilidade, premunirem-se com reparos e barragens, de modo que ao crescer na cheia, os rios corram por um canal e seu ímpeto não seja nem tão desenfreado, nem tão nocivo.

A sorte manifesta-se de modo semelhante. Demonstra a sua potência onde não há virtude organizada para lhe opor resistência; volta os seus ímpetos para onde sabe que não foram feitas barragens e reparos para segurá-la.

Platão: Sobre misantropia, decepções, e dedo podre

Fonte: Sócrates. Os Pensadores III: Platão - 1ª edição - 1972 - Abril Cultural - diálogo "Fédon", "Fédon retoma a narrativa".


O ódio aos seres humanos - a misantropia - penetra nos corações quando confiamos demais numa pessoa, sem nos acautelarmos; quando acreditamos que uma pessoa é boa, sincera, honesta, e vimos a descobrir mais tarde que tal não é, que pelo contrário é má, desonesta e mentirosa; e se isso acontecer repetidas vezes a um mesmo humano, e justamente a propósito daquelas pessoas a quem considerava como seus melhores e mais sinceros amigos, esse passará finalmente a odiar todos os humanos, persuadido de que em ninguém há de encontrar a menor qualidade boa.

E proceder assim não é, acaso, proceder mal? Não é claro que esse descrente vive entre os humanos sem entretanto conhecer a humanidade? Se procedesse com juízo, notaria que bem poucos humanos são absolutamente bons ou maus, e que inúmeros são os que se encontram entre esses extremos.

Se dá aqui o mesmo que se dá a respeito das coisas pequeníssimas e grandíssimas. Achas que pode haver coisa mais rara do que um homem enormemente grande ou extraordinariamente pequeno? E isso vale também para o cão, como para qualquer outra coisa. E não te parece também que é muito difícil encontrar-se um ser rapidíssimo e um vagarosíssimo, assim como um belíssimo e um feíssimo, ou um muito alvo e outro muito negro? Acaso não notaste por ti mesmo como são raros em todas essas coisas os pontos extremos, ao passo que os termos médios são muito mais numerosos?

De modo que, se fosse feito um concurso de maldade, não te parece também que apenas uns poucos seriam premiados?

[...] Mas a comparação [com a misologia - ódio à razão] é esta: uma pessoa que desconhece a arte de provar por argumentos se entrega com cega confiança a um argumento que lhe parece verdadeiro; pouco depois, este passa a lhe parecer falso. [...] Mas não seria deplorável desgraça, Fédon, quando existe um argumento verdadeiro, sólido, suscetível de ser compreendido, que esta mesma pessoa, em lugar de acusar as suas própria dúvidas ou a sua falta de arte, lance toda a culpa na própria razão e passe toda a vida a caluniá-la e odiá-la, privando-se, desse modo, da verdade dos seres e da ciência?

Ora pois, tomemos cuidado para que não venha a penetrar em nossas almas o pensamento de que nos argumentos nada há de razoável. Suponhamos sempre, ao contrário, que nós é que não temos ainda bastante discernimento. Devemos, com efeito, ser corajosos e fazer tudo o que for necessário para obter os conhecimentos verdadeiros.

(A citação deste trecho interessante não corresponde a uma indicação de leitura do diálogo "Fédon". Em minha opinião, existem outros diálogos de Platão mais proveitosos que este.)

Contextualização

Eu tive depressão há alguns anos. Nessa época, quem podia me ajudar, ou me deu as costas, ou aproveitou a oportunidade em que eu estava caído para poder pisar em mim. Durante e após o tratamento, me senti terrivelmente traído e passei a não confiar em ninguém mais: "cada um por si e Deus contra todos", sozinho num mundo hostil, entregue ao próprio azar. Mesmo após levar alta, quando alguém era simpático comigo, ou oferecia alguma ajuda corriqueira, eu já presumia ser mentira - mais uma mentira. Fiquei de luto, pois a espécie humana ainda existia, embora a humanidade, isto é, aqueles atributos idealizados que supostamente nos tornam melhores que outros animais, já tivesse morrido há muito tempo. Achei que estava morando no Inferno.

Felizmente, existem pessoas boas neste mundo, que fazem a vida ser mais agradável e o custo/benefício da vida ser melhor. Nem todo mundo é totalmente mal! Eu achava que todos eram maus pois me cerquei de pessoas inúteis, que não ajudam os outros - tive dedo podre. Eu mesmo não era muito diferente disto, porém. Não plantei nada, então também não colhi nada quando precisei. Atraí pessoas semelhantes a mim, tão inúteis quanto eu.

Mas agora eu já conheço algumas pessoas que me ajudam, e eu também vou ajudá-las. Reciprocidade é fundamental. Pessoas boas existem, é questão de saber separar o joio do trigo - o que eu não sabia antes, mas estou aprendendo agora. Também, saber desenvolver vínculos... E ser útil.

Fonte: Erich Fromm. A Arte de Amar - 1991 - Editora Itatiaia. Capítulo IV: "A Prática do Amor".


Tomar as dificuldades, obstáculos, e tristezas da vida como um desafio que devemos superar para tornar-nos mais fortes, em vez de como uma punição injusta que não nos devia sobrevir, requer fé e coragem.

Platão - Método socrático: como funciona?

Fonte: "Estrangeiro". Os Pensadores III: Platão - 1ª edição - 1972 - Abril Cultural - diálogo "Sofista", seção "Sexta definição: o sofista, refutador".
Creio, pelo menos, distinguir uma forma especial de ignorância, tão grande e tão rebelde que equivale a todas as demais espécies: nada saber, e crer que se sabe. Temo que aí esteja a causa de todos os erros aos quais o pensamento de todos nós está sujeito.

[…]

Parece que alguns chegaram, após amadurecida reflexão, a pensar da seguinte forma: toda ignorância é involuntária, e aquele que se acredita sábio se recusará sempre a aprender qualquer coisa de que se imagina esperto; e apesar de toda a punição que existe na admoestação, esta forma de punição tem pouca eficácia.

[…]

Propõem, ao seu interlocutor, questões às quais acreditando responder algo valioso ele não responde nada de valor; depois, verificando facilmente a vaidade de opiniões tão errantes, eles as aproximam em sua crítica, confrontando umas com outras, e por meio desse confronto demonstram que a propósito do mesmo objeto, sob os mesmos pontos de vista, e nas mesmas relações, elas são mutuamente contraditórias. Ao percebê-lo, os interlocutores experimentam um descontentamento para consigo mesmos, e disposições mais conciliatórias para com outrem. Por este tratamento, tudo o que neles havia de opiniões orgulhosas e frágeis lhes é arrebatado, ablação em que o ouvinte encontra o maior encanto e, o paciente, o proveito mais duradouro.Há na realidade, um princípio que inspira aqueles que praticam este método purgativo; o mesmo que diz, ao médico do corpo, que da alimentação que se lhe dá não poderia o corpo tirar qualquer proveito enquanto os obstáculos internos não fossem removidos. A propósito da alma formaram o mesmo conceito: ela não alcançará, do que se lhe possa ingerir de ciência, benefício algum, até que se tenha submetido à refutação e que por esta refutação, causando-lhe vergonha de si mesmas, se tenha desembaraçado das opiniões que cerram as vias do ensino e que se tenha levado ao estado de manifesta pureza e a acreditar saber justamente o que ela sabe, mas nada além.

Platão: Sobre marxistas profissionais

Fonte: "Estrangeiro". Os Pensadores III: Platão - 1ª edição - 1972 - Abril Cultural - diálogo "Sofista", "Recapitulação das definições" e "As artes ilusionistas: a mimética".
Como chegam esses homens a incutir na juventude que somente eles, e a propósito de todos os assuntos, são mais sábios que todo o mundo? Pois na realidade, se como contraditores não tivessem razão, ou não parecessem, à sua juventude, ter razão; se, mesmo assim, a sua habilidade em discutir não desse algum brilho à sua sabedoria, então seria caso de dizer, como tu, que ninguém viria voluntariamente dar-lhes dinheiro para deles aprender estas suas artes.Ora, na verdade, os que os procuram o fazem voluntariamente. É que, ao que creio, eles parecem ter uma sabedoria pessoal sobre todos os assuntos que contradizem. E se assim fazem, a propósito de tudo, dão, então, a seus discípulos a impressão de serem oniscientes. E sem o ser, na realidade; pois isso seria impossível. Ao que vemos, pois, o que traz este tipo de pessoa é uma falsa aparência de ciência universal, mas não a realidade.

[...]

Assim, o homem que se julgasse capaz, por uma única arte, de tudo produzir, como sabemos, não fabricaria afinal, senão imitações e homônimos das realidades. Hábil, na sua técnica de pintar, ele poderá, exibindo de longe os seus desenhos, aos mais ingênuos meninos, dar-lhes a ilusão de que poderá igualmente criar a verdadeira realidade, e tudo o que quiser fazer.Não devemos admitir que também o discurso permite uma técnica por meio da qual se poderá levar aos ouvidos de jovens ainda separados por uma longa distância da verdade das coisas, palavras mágicas, e apresentar, a propósito de todas as coisas, ficções verbais, dando-lhes assim a ilusão de ser verdadeiro tudo o que ouvem e de que, quem assim lhes fala, tudo conhece melhor que ninguém?Para a maior parte daqueles que então ouviram tais discursos, não é inevitável que, transcorrido o tempo suficiente de anos, com o avançar da idade, e vistas as coisas de mais perto, as provas que os obrigam ao claro contato com as realidades os levem a mudar as opiniões então transmitidas, a julgar pequeno o que lhes havia parecido grande, difícil o que lhes parecera fácil, uma vez que os simulacros que transportavam as palavras desapareçam em presença das realidades vivas?
(A citação deste trecho interessante não corresponde a uma indicação de leitura do diálogo "Sofista". Em minha opinião, existem outros diálogos de Platão mais proveitosos que este.)

Contextualização

Eu fui marxista quando era jovem demais para saber distinguir a verdade daquilo que somente aparentava ser verdade. Com o passar do tempo, foi ficando cada vez mais claro para mim que o quadro que pintavam para mim era uma ilusão lunática. Todas as soluções que apontavam, para solucionar num passe de mágica todas as mazelas da humanidade, não eram postas em prática "pela direita", "pela burguesia", ou seja lá quem fosse o inimigo na teoria de conspiração da vez, simplesmente por pura maldade ou ganância. Existe maldade e ganância? Sim. Mas todas essas soluções simples e rápidas, defendidas pelos marxistas, tinham por trás custos humanos altos que obviamente não eram revelados nas propagandas. E tudo o que dizem é propaganda (agitprop), é panfletário. São vigaristas aproveitando-se da ingenuidade alheia... E acusando outras pessoas de serem vigaristas aproveitando-se da ingenuidade alheia! Os marxistas profissionais são as raposas que tomam conta do galinheiro. Tal qual no Xadrez, você é um peão a ser sacrificado, para que alguém coroe-se rainha. Eu fui tolo, um idiota útil.Hoje eu já sei ser útil sem ser idiota: mais vale ajudar quem realmente precisa, hoje, do que ficar debatendo teoria marxista, sobre como essas mesmas pessoas serão ajudadas no advento de uma Revolução Socialista™. As ilusões que construíram, e nas quais acreditei, foram desmoronando, conforme fui tendo contato com a real realidade dos fatos, empiricamente: não se sustentavam. Nenhum discurso de político pesa mais que minha experiência de vida. A conversa-mole bate em mim e volta, não entra mais. Eu agora sei discernir o que vale, e o que não vale, por conta própria, sem precisar que alguém pense por mim. Os sabichões partidários não têm como saber tudo.

Correios: selos de 2017

←2016 • 2017 • 2018→

Emissões de selos em 2017
EditalLançadoNomeValor facialTiragem
1701/dezIgreja de Estilo BarrocoR$ 2,5550.000
1621/novSérie Relações Diplomáticas Brasil-Chile: Violeta Parra, 100 anosR$3,15600.000
1510/novNatal 2017: Conto de Natal, Soldadinho de Chumbo [gomado]R$ 2,55480.000
Natal 2017: Conto de Natal, Soldadinho de Chumbo [autoadesivo]1º Porte Comercial1.920.000
1407/novSérie Relações Diplomáticas Brasil-Áustria: Bicentenário da vinda de Dona LeopoldinaR$4,20240.000
1326/outObras de William ShakespeareR$4,20300.000
1224/outBrasília, Patrimônio MundialR$2,00300.000
1122/outBicicletas AntigasR$1,25400.000
812/outAparecida, 300 Anos de Fé e Devoção: Jubileu 300 Anos de Bênçãos (1717-2017) [gomado]R$ 3,50120.000
1027/setSérie América/Upaep: Lugares TurísticosR$2,00500.000
922/setFlores da Mata Atlântica [gomados]R$2,55480.000
Flores da Mata Atlântica [autoadesivos]1º Porte Comercial960.000
812/setAparecida, 300 Anos de Fé e Devoção: Jubileu 300 Anos de Bênçãos (1717-2017) [autoadesivo]1º Porte Comercial1.440.000
731/agoBicentenário da Revolução Republicana em PernambucoR$ 1,80180.000
622/ago200 Anos da Cidade de Araraquara1º Porte Comercial180.000
511/agoMonumentos Históricos BrasileirosR$ 1,80540.000
428/julSérie Mercosul: Transporte PúblicoR$ 1,50360.000
323/junCentenário do Samba1º Porte Comercial90.000
219/junAves Brasileiras: Soldadinho-do-araripe, Pararu-espelho e Rolinha-do-planalto [gomados]R$1,25600.000
Aves Brasileiras: Soldadinho-do-araripe, Pararu-espelho e Rolinha-do-planalto [autoadesivos]1º Porte Não-Comercial1.350.000
113/abrEmissão Conjunta Brasil-Alemanha - 500 anos da Reforma LuteranaR$4,15500.000
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Correios: selos de 2016

←2015 • 2016 • 2017→

Emissões de selos em 2016
EditalLançadoNomeValor facialTiragem
2514/dezCentenário do Nascimento de Miguel Arraes1º Porte Comercial300.000
2421/novGeoPark Araripe1º Porte Comercial360.000
2311/novTatuagem: Arte na Pele1º Porte Comercial350.000
2220/outBorboletas BrasileirasR$1,70720.000
1º Porte Comercial320.000
2115/outHomenagem a João do Pulo1º Porte Comercial500.000
2004/outNatal 2016 - Anjo GabrielR$2,40360.000
Natal 2016 - Presépio1º Porte Comercial1.500.000
1922/setMobilidade SustentávelR$1,70480.000
1813/setFundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS)1º Porte Comercial300.000
1711/setFrutas do Cerrado2º Porte Comercial450.000
1º Porte Comercial
1631/agoAs Bonecas da Mestra Dona Izabel MendesR$ 1,70400.000
1523/agoCentenário da Aviação Naval Brasileira1º Porte Comercial480.000
1412/ago200 anos da Escola de Belas Artes da UFRJR$1,70480.000
1305/agoCelebrações Jogos Paralímpicos Rio 2016R$ 2,65126.000
1205/agoCelebrações Jogos Olímpicos Rio 2016R$ 2,6582.000
1101/agoSérie América: Jogos Rio 2016 – Arenas Esportivas OlímpicasR$ 3,75900.000
Série América: Jogos Rio 2016 – Arenas Esportivas Paralímpicas450.000
1026/julEstrada de Ferro da Serra do Mar Paranaense1º Porte Comercial720.000
927/junNossos Selos Rio 2016 – Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 20161º Porte Comercial720.000
826/junHomenagem à Seleção Brasileira de Handebol Feminino, Campeã Mundial em 2013R$4,25120.000
721/junSérie Relações Diplomáticas: Brasil – EslovêniaR$3,55600.000
615/junConsumo Consciente de Água e Energia ElétricaR$2,10480.000
503/maiCentenário da Academia Brasileira de Ciências1º Porte Comercial360.000
426/abrLubrapex 2016: A Força da Fraternidade Luso-BrasileiraR$ 3,55120.000
326/marSérie Relações Diplomáticas: Brasil – França 200 Anos da Missão Artística FrancesaR$ 3,55480.000
225/fevSérie Relações Diplomáticas: Brasil – NicaráguaR$ 2,95480.000
112/jan400 anos de Fundação da Cidade de Belém do Pará: Maravilhas de Belém do Pará1º Porte Comercial1.600.000
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Editora Monstro dos Mares: conheça!

Fonte: Agência de Notícias Anarquistas, em 29 de novembro de 2018.

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“Criamos a Monstro dos Mares dentro de uma garagem numa noite fria de inverno”

Trocamos uma ideia com Vertov Rox, que faz parte da Editora Monstro dos Mares. Confira a seguir!

Agência de Notícias Anarquistas > Como se deu a formação da Editora Monstro dos Mares? Fale um pouco sobre sua trajetória…

Vertov Rox < Em Florianópolis participávamos de uma iniciativa que se chamava “Centro de Inovação Social dos Araçás”, um espaço que reunia pessoas e comunidades em torno do uso de tecnologias livres para o bem-comum. Nessa oportunidade realizamos diversas conversas sobre segurança, privacidade de dados, etc. Era uma época quente, onde pipocavam notícias sobre a Wikileaks, Marco Civil da Internet no Brasil, Sopa/Pipa e com isso realizamos algumas oficinas de WordPress para Movimentos Sociais e ativistas. Foi então que surgiu a necessidade de imprimir materiais e fizemos a tradução do “Cultura de Segurança: Um manual para ativistas” logo depois disso fui para Cachoeira do Sul, onde junto com algumas amizades criamos a Monstro dos Mares dentro de uma garagem numa noite fria de inverno.

ANA > Em que ano foi isso?

Vertov Rox < Essa parada em Florianópolis foi entre os anos 2009 e 2011, nessa época havia o CMI-Floripa bem ativo e a Rádio Tarrafa FM Livre, duas iniciativas que nos ajudaram e inspiraram muito, com pessoas que temos muito carinho e gratidão por apresentar coletivos e redes horizontais, autogestionárias e de inspiração libertária. A criação da editora em Cachoeira do Sul foi no inverno de 2012 com alguns compas: Khynhu (In Memorian), Lerônimo Burns, Patrick e eu (Vertov Rox.) e de lá pra cá várias pessoas se somaram e outras partiram também, mas cada uma deixou sua contribuição e sua marca.

ANA > O porquê do nome, “Monstro dos Mares”?

Vertov Rox < A ideia surgiu porque estávamos buscando textos que tirassem os pensamentos da espuma da superficialidade e trouxessem para o fundo. É uma analogia ao que esperamos que os livros façam nas nossas cabeças e práticas. Claro que por ter surgido na “ilha”, a piada ficava mais engraçada. (risos)

ANA > E onde ela funciona?

Vertov Rox < A editora é meio nômade assim como cada uma de nós. Já estivemos em Florianópolis (SC), Cachoeira do Sul (RS), Porto Alegre (RS) e União da Vitória (PR). Nos próximos meses partimos para Ponta Grossa também no Paraná. Mas várias pessoas colaboram com as tarefas de revisão por pares, traduções e com textos originais de várias partes do país. A maioria de nossas impressões partem daqui, fazemos tudo o que é possível, tradução, revisão, diagramação, impressão, corte, cola, grampo, finalização, etc. Faz 14 meses que trocamos de impressora e ela realiza a contagem: foram 114.208 impressões (contagem em 24 de novembro de 2018). Para os eventos de Novembro nós fizemos no mês de Outubro cerca de 380 livros para vender e distribuir gratuitamente. Curiosamente voltamos para casa sem praticamente nada já no primeiro evento, o “I Colóquio de Pesquisa e Anarquismo”, na cidade de Florianópolis e infelizmente não deu tempo para rodar mais livros e chegar em SP, Curitiba e no DF onde estão acontecendo eventos anarquistas.

ANA > Há ponto de venda física? E loja virtual?

Vertov Rox < Com muita dificuldade ao longo dos anos estamos tentando nos habituar com essa coisa de vender livros, já utilizamos diversas ferramentas para isso e nos últimos tempos decidimos abrir mão de manter servidores próprios, ficar alimentando plugins, verificando segurança e essas coisas todas. Decidimos utilizar uma lojinha virtual bem comum e canalizar nossos esforços para produzir mais materiais. Então, por enquanto as vendas são somente de mão em mão ou online na nossa página, onde quase todos os títulos estão com o link para donwload ou com a origem dos textos para quem prefere ler o PDF. A loja reúne textos de outros coletivos publicadores como a Editora Subta, Deriva, Raividições, Contraciv e sempre que possível recebemos livros e zines de nossas amizades para vender e distribuir gratuitamente.

ANA > Como funciona o processo de produção editorial da Monstro dos Mares?

Vertov Rox < O material produzido por nós, onde recebemos textos de minas, manos e monas, coletivos e singularidades passam por nosso conselho editorial onde as pessoas apresentam e discutem os textos. Atualmente somos três editores e dez integrantes científicos do conselho editoral. Na medida do possível dividimos as tarefas de preparação do texto, revisão, diagramação, etc.

Estamos tentando colocar a editora como uma alternativa de publicação de baixo e baixíssimo custo para quem produz textos acadêmicos sobre epistemologias dissidentes do século 21 que de alguma maneira se relacionam as questões anárquicas de nosso tempo. Teoria Queer, Feminismos, Giro Decolonial, Anticivilização, Cultura Hacker e outros.

Tudo isso surgiu porque percebemos que infelizmente muitas pessoas só estão encontrando espaço e disposição para suas produções dentro dos muros das universidades e todo os seus esforços para realizarem seus registros teóricos e práticos sobre o nosso tempo, o tempo que há, estão sendo lidos somente por seus orientadores, membros de bancas de avaliação e eventuais pesquisadoras que procuram por esses temas em repositórios acadêmicos.

Nossa editora está disposta em dar divulgação para esses trabalhos que podem contribuir na formação de pessoas interessadas num modo de compreensão de mundo autônomo, libertário, não-binário e anárquico. Reconhecemos que esse não é o processo mais simples, mas que garante a possibilidade de estabelecer vínculos com a tarefa de registrar o nosso tempo e fazer o livro impresso chegar para mais pessoas, preferencialmente grátis (temos uma rede de apoio onde as pessoas contribuem mensalmente para que possamos imprimir e enviar livros grátis para coletivos e singularidades. Ou em edições artesanais de baixo ou baixíssimo custo, para que a informação possa circular mais e mais.

ANA > Quais linhas editoriais orientam o catálogo da Monstro dos Mares? Priorizam a edição de textos marcadamente anarquistas?

Vertov Rox < No site, temos mais de 110 títulos divididos entre os livros e zines de nossa editora e aqueles arquivos marotos que se chegam até nós. Numa observação mais distraída, nem é possível perceber que há uma certa unidade de pós-anarquismo nos títulos que estão lá na lojinha, mas fazem parte de nossas escolhas e preferências que buscam compreender a anarquia não através de uma pecha pós-moderna ou pós-estruturalista, mas que se localiza dessa maneira em nossas pesquisas e interesses. Recentemente publicamos textos originais enviados ou selecionados por nós sobre Pixação, Geografia e Antropologia, sempre com uma relação próxima com uma escolha epistemológica pela anarquia, ainda que isso não passe por um entendimento de anarquismo ou mesmo de uma organização anarquista.

ANA > E quais gêneros vocês publicam?

Vertov Rox < Estamos em lançamento do livro “Manifesto Anarquista e outros escritos” do poeta espanhol Jesús Lizano, um anarquista que produziu muito e nosso amigo Jonas Dornelles realizou um trampo bacana de seleção dessas mais de mil páginas do autor e fez a tradução. Nossas editoras Claudia Mayer e Lívia Segadilha viraram o texto e tornaram esse título nosso segundo trabalho que problematizou a marcação binária de gênero e buscou por outras possibilidades linguísticas. Foi um desafio e tanto publicar um texto de literatura e estamos felizes por isso. Mas no geral, a Monstro dos Mares se posiciona como uma ferramenta de divulgação acadêmica e anárquica de epistemologias dissidentes, independente dos seus formatos.

ANA > Quais os principais títulos e autores publicados por vocês até agora?

Vertov Rox < A editora em sí possui poucos títulos e claro que na lojinha existem uma infinidade de textos. Da Monstro dos Mares, os títulos que despertam mais interesse são “Pixação: a arte em cima do muro”, “Ciberfeminsimo: Tecnologia e Empoderamento” e “Geografias Subterrâneas: Para ensinar uma prática geográfica nas trincheiras da anarquia”. Já os títulos que nós somente fazemos a impressão são: “Anarquismo no Século 21” do David Graeber por Coisa Preta Edições; “Bruxas parteiras e enfermeiras: Uma história de mulheres curandeiras” de Barbara Ehrenreich e Deirdre English por Bruxaria Distro e Editora Subta; e “Como a não-violência protege o estado” de Peter Gelderloos por Editora Subta.

ANA > No geral, publicar livros no Brasil não é fácil, os livros são caros, faltam leitores, livrarias… Editar livros anarquistas é mais complicado ainda, uma aventura constante?

Vertov Rox < De fato não é muito fácil, principalmente na questão de distribuição. Por mais que estejam surgindo diversas distribuidoras de livros independentes no Brasil, tem muita picaretagem também, gente que está nessa só porque a publicação independente é modinha para hipsters e tão aí explorando pequenos editores. Já fomos procurados por distribuidoras que exigem um desconto de 50% no preço de capa, a editora paga o frete pra enviar os livros para a distribuidora e o acerto é realizado 30 dias após a venda (se vender). Para quem depende dos livros para existir é impossível. Esse tipo de negociação é uma exploração e não concordamos nem um pouco com isso. Inclusive escrevemos um manifesto chamado “Não se corromper pra nóis já é vitória! Sobre o processo em curso de gourmetização dos livros independentes.”

Tá certo que tem um monte de playboy pagando de gatinho e criando editoras descoladas, com super acabamentos, edições luxuosas, etc. Algumas dessas novas editoras até que são bem ativistas e possuem catálogos invejáveis, mas será que não seria melhor se fizessem livros mais baratos?

Outra questão importante é que esses números sobre leitores, vendas e tudo mais são bem deficitários, pois computam somente os editores que fazem parte de associações de grandes editores de livros, números de grandes redes de varejo e não contemplam a quantidade de registros ISBN na Biblioteca Nacional, tampouco as editoras que não tem e não querem pagar 2.000 reais para serem associadas de uma entidade que só serve de grife ou formação de cartel. Também não estão nesses dados a quantidade de empréstimos em bibliotecas públicas, bibliotecas universitárias e quanto menos as bibliotecas independentes como são as comunitárias e de organizações sindicais, ocupas, federações, entre outras. E por fim e não menos importantes, nessa conta não entram os sebos, livros usados, vendedoras e vendedores ambulantes e gente como a gente que faz impressões domésticas, corta, cola e bota o livro para circular.

É lógico que gostaríamos de ter mais livrarias e que os livros fossem mais baratos, mas esta é uma crise do capital, não uma crise da cultura anarquista. Nós optamos por publicar livros anárquicos, onde ninguém está ganhando grana, estamos fazendo livros de baixo e baixíssimo custo para que mais pessoas possam ler e se cada militante que tiver uma impressora em casa e um pouco de paciência para lidar com ela, pode ter uma editora anarquista. Com isso poderíamos romper com a lógica de dependência das distribuidoras comerciais ou fantasiadas de independentes. Se cada rolê militante tivesse seu comitê de divulgação, impressão e banquinha de livros e zines, a nossa cultura libertária poderia chegar em mais mãos. Mas é uma questão de consciência e organização.

ANA > O panorama editorial anarquista vai bem, está crescendo? Nos últimos anos temos visto “muitos” lançamentos e iniciativas editoriais Brasil afora…

Vertov Rox < Tem rolado muita coisa mesmo e ficamos bem felizes com isso e tem muito espaço ainda. Vi recentemente numa entrevista que segundo dados da Unesco o ideal é uma livraria para cada 20.000 habitantes. Se quiser saber como isso funcionaria na prática, basta dar uma chegada na América Latina e ver a quantidade de centros sociais ocupados, livrarias independentes e libertárias que existem. A companheirada enche a mochila de livros e vai para o Uruguai, Chile, Peru, Argentina, trocam ideias e materiais, as editoras libertárias são bem próximas. Aqui, mal e mal a galera se conhece, quem dirá montar um foro de editoras libertárias ou uma rede. Acabamos fazendo isso meio que de ponta a ponta, trocando materiais com a Subta, Deriva, Bruxaria Distro, Heretica Editorial Lésbico-Feminista Independente, Nenhures, Edições Baratas e rolês que conhecemos as pessoas. Então se as pessoas se apropriarem dos processos tecnológicos de fazer livros e zines (acreditem, não é difícil, já foi muito pior), poderemos ter mais dezenas de editoras anarquistas ou de inspiração libertária.

ANA > Já pensaram em ter uma livraria própria, um local fixo, como vemos na Europa, Estados Unidos…?

Vertov Rox < Junto com algumas amizades já tentamos manter um espaço e foi um lindo desastre, conheço outros rolês que já tentaram também. Penso que é necessário mais envolvimento na manutenção e existência do espaço do que muitas pessoas estão dispostas. A grande máquina fumegante do capital arrebenta a capacidade de mobilização de muita gente e por fim vira um espaço tocado e frequentado sempre pelas mesmas pessoas. No momento estamos animadas em produzir mais livros. Para 2019 teremos um espaço livre de aluguel para colocar a impressora e a guilhotina. Acreditamos que isso já é um grande passo!

ANA > Vocês acham que os e-books eventualmente substituirão os livros impressos? Ou eles se completam?

Vertov Rox < Sobre os arquivos digitais, não somente os e-books como formato específico, são fundamentais para a difusão das ideias anárquicas e anarquistas, pois muita gente que está na guerra social realiza consultas e autoinstrução através desses textos antes de formar um grupo de afinidade, conhecer um coletivo ou se somar em alguma organização autônoma ou específica. Porém muitas vezes esses arquivos só fazem volume nos computadores das pessoas, pois aquela coleção “baixei mas nunca li” é uma das mais encontradas. Como disse Aragorn em seu maravilhoso manifesto “A necessidade de tinta no papel nas publicações anarquistas da atualidade” um livro ou zine impresso no fundo da mochila de anarquistas é mais importante para a difusão do anarquismo do que qualquer post no Facebook. Encontrar formas de divulgação do anarquismo que chegam efetivamente nas pessoas é passar pela tinta no papel.

ANA > Os livros históricos são muito importantes, mas os e as anarquistas não escrevem muito sobre história, e pouco sobre o mundo atual? E isso acontece não só no Brasil, no mundo todo…

Vertov Rox < É curioso, pois a maioria do que se tem publicado é sobre um anarquismo histórico e ainda há muito para pesquisar e publicar. Existe toda uma tentativa de resgate da história e da memória da presença de anarquistas no século 20. Ao mesmo passo, episódios importantes do nosso tempo já estão completando décadas como exemplo o surgimento da EZLN, Seattle, Gênova… Penso que ainda temos muito para descobrir da história do anarquismo e dos anarquismos, um exemplo interessante é a recente publicação sobre o processo da “Revolução Anarquista na Manchúria” de Emilio Crisi, publicado pela Faísca e também tem livros e zines sobre o que está acontecendo hoje em Rojava, como por exemplo o maravilhoso “Şoreşa Rojavayê: Revolução, uma palavra feminina” pela Biblioteca Terra Livre e o Comitê de Solidariedade à Resistência Popular Curda de São Paulo. E tem muito mais ainda para ser dito sobre diversas experiências, práticas, éticas e inspirações anarquistas de ontem e de hoje.

ANA > É possível traçar o perfil do “consumidor” de literatura anarquista hoje? No auge do anarquismo o trabalhador comum, o braçal, lia muito, não?

Vertov Rox < Não sei o que você quer dizer com “no auge do anarquismo”, pois na minha humilde opinião estamos vivendo um tempo muito frutífero do anarquismo e de inspirações anárquicas pelo mundo todo e que se fizermos o registro de nossas lutas poderemos escrever novos capítulos na história do anarquismo.

Mas voltando à sua pergunta, penso que as pessoas estão interessadas em descobrir as respostas para aquilo que elas acreditam como sociedade e que o anarquismo e as epistemologias dissidentes podem apresentar como chave de leitura. Vários reformismos já foram tentados, várias “mudanças por dentro” frustraram, várias “vanguardas”. Como disse aquele filósofo da fenomenologia, “permanecem como fantasmas as perguntas: Para quê? Para onde? E agora?”.

Os estudos marxistas, marxianos e pós-marxistas estão presentes nas universidades com um solo bem pavimentado e penso que as pessoas que se definem como anarquistas estão encontrando um espaço de articulação de mundo dentro da academia como pouco pudemos ver antes. É lógico que aqui precisamos fazer uma pausa e falar muito sobre nossos próprios privilégios e sobre as terríveis exclusões implicadas nessa juventude branca de classe média que vai às universidades estudar teóricos que em sua grande maioria são homens, cis, brancos, europeus e falecidos. Talvez este seja um bom momento para que as pessoas não-binárias e todas as dissidências possam ocupar as salas das universidades e torcer, sacudir, arejar e trazer novas pesquisas, novo fôlego para a academia. E se há um perfil, posso pensar que são minas, manos e monas que estão na batalha de sobreviver, resistir e permanecer nas classes do ensino superior, mesmo com todos os desafios epistemológicos, má vontade de alguns professores, muita indisposição de colegas de classe e pouquíssimas políticas que possam efetivamente garantir a permanência dessas pessoas. A dúvida é sempre entre existir, pagar o aluguel ou seguir com a matrícula no curso.

ANA > Quais têm sido as principais dificuldades enfrentadas nesses anos de trabalho editorial?

Vertov Rox < Faltam pessoas dispostas em escrever conteúdo não-acadêmico. Grandes obras anarquistas não foram escritas para engordar o Lattes de ninguém, tampouco para garantir o Qualis do seus programas de pós-graduação. Mas neste momento, parece que é somente o que temos (salvo raríssimas exceções). Outro desafio é o de ter que fazer tudo ao mesmo tempo e relativamente sozinhos, nós anarquistas sempre fomos poucos, mas percebo que por vezes nos articulamos em rede somente para realizar divulgações e pouco para falar de nossos sonhos, compartilhar nossos anseios e sobre como é prazeroso produzir os livros que eu quero ler e poder compartilhar com mais gente.

ANA > As feiras de livros anarquistas têm sido importantes para vocês?

Vertov Rox < Sempre que possível estamos presentes nas feiras, antigamente era só SP e POA, este ano pipocaram eventos em toda parte e isso é maravilhoso. Infelizmente não podemos estar em todos os eventos, quando possível enviamos os livros para algum coletivo fazer a frente, vender e distribuir gratuitamente os livros, tirar algum troco para fortalecer seus espaços, etc. É muito bacana estar presencialmente lá, conhecendo as pessoas, vendo que algumas arrobas que a gente conhece são pessoas de verdade, conhecer caras novas, diversos rolês. Infelizmente viajar com livros dentro das malas requer alguma programação e algum dinheiro. Tem sido bem difícil conquistar esses dois itens para estarmos presentes em mais lugares. Mas de 2013 pra cá já estivemos três vezes na feira de SP, três vezes em Porto Alegre e agora recentemente em Florianópolis. Já temos ótimas lembranças de todos esses rolês.

ANA > E o que vocês estão preparando para 2019?

Vertov Rox < É para dar Spoiler? (risos) Bem, vamos intensificar os lançamentos do final de 2018, principalmente o “Trilhas dos imaginários sobre indígenas e demografia antiautoritária: um experimento de antropologia anarquista” que a antropóloga Carolina Sobreiro realizou junto aos Mebengokré. Eu estou trabalhando na tradução de algumas cartas dos chamados “quatro de Madrid“, que são presas e presos anarquistas submetidas aos regimes especiais de isolamento. Temos um grande lançamento sobre pixação que vamos precisar da ajuda de todas as pessoas para fazer um financiamento coletivo e rodar o livro, nossa compa Lucimar Braga está fazendo a editoração dos capítulos que o autor nos enviou sobre a representação do indígena no cinema latino-americano. Já falei demais! Tem bastante coisa acontecendo e gostaríamos de estar em tempo integral nesse projeto, mas cada pessoa faz aquilo que pode nos horários disponíveis, pois a vida não para pra gente poder fazer livros.

ANA > Tens algum livro anarquista de cabeceira?

Vertov Rox < Bhá! É uma sacanagem essa pergunta! Até bem pouco tempo era o “Dias de Guerra, Noites de Amor” da Crimethinc, publicado pela Editora Deriva e que agora está disponível pela Coisa Preta Edições. Mas um livro fininho chamado “Ai Ferri Corti: Confronto mortal com o existente, os seus defensores e os seus falsos críticos.”, edição portuguesa da editora Textos Subterrâneos tem me feito pensar sobre uma ontologia anárquica e propõe novas reflexões em cada leitura.

ANA > Algum toque final? Valeu, longa vida à Monstro dos Mares!

Vertov Rox < Agradeço a oportunidade de poder falar publicamente sobre como o anarquismo, as ideias de inspirações anárquicas e as epistemologias dissidentes mudam a minha vida todos os dias em que abro um livro, me ponho a ler, pensar sobre como posso compreender o mundo e agir. Espero que mais pessoas possam parar um pouco de assistir suas séries favoritas e tirem um tempinho para ler, escrever, traduzir, editar, imprimir e distribuir ideias que possam fazer emergir algo novo.

Livros e Anarquia [[[A]]]

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