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Anders Bateva

Buscando o porquê das coisas em livros de não-ficção.

Anders Bateva

Buscando o porquê das coisas em livros de não-ficção.

Maquiavel: Temer Jamais?

Fonte: Nicolau Maquiavel. O Príncipe - 15ª edição - 1996 - Editora Paz e Terra. Capítulo XVII: "A crueldade e a clemência: se é melhor ser amado do que temido, ou o contrário".

É melhor ser amado do que temido, ou o contrário?

Responde-se que se quer ser tanto um quanto o outro. Mas como é difícil reuni-los, é muito mais seguro ser temido do que amado, no caso de ser preciso renunciar a um dos dois.

Isto pois, geralmente, pode-se dizer que os homens são ingratos, volúveis, mentirosos, traiçoeiros, covardes, ávidos por dinheiro. Se lhes fazes o bem, todos estão contigo. Oferecem-te o sangue, as coisas, a vida, os filhos -- como disse antes, quando a necessidade está longe de ti. Mas quando a necessidade chega perto, eles se rebelam. E o príncipe que havia se baseado completamente nas palavras deles, se não tiver outras defesas, arruína-se. Pois as amizades que se conquistam com dinheiro e não com grandeza e nobreza de alma não são certas, não podem ser usadas.

Os homens têm menor pudor em ofender alguém que se faça amar do que alguém que se faça temer. O amor é mantido por um vínculo de obrigação, que os homens, sendo malvados, rompem quando melhor lhes servir. Mas o temor é mantido pelo medo de ser punido, o que nunca termina.

Todavia, o príncipe deve se fazer temer de um modo que, se não conquista o amor, evita o ódio. É possível ser, ao mesmo tempo, temido, mas não odiado.

Mudanças climáticas: culpa nossa?

Fonte: Roberto Giansanti. "O Desafio do Desenvolvimento Sustentável" - 6ª edição - 1998 - Atual Editora. Capítulo 4: Impactos ambientais no mundo moderno; seção "Poluição atmosférica".

Hipótese

A hipótese de intensificação do efeito estufa é bastante simples: quanto maior for a concentração de gases, maior será o aprisionamento de calor, e consequentemente, mais alta a temperatura do globo terrestre, explica Molion. No entanto, é justamente essa previsão alarmista o ponto central das discordâncias. Alguns pesquisadores questionam em que medida o aquecimento global, caso esteja ocorrendo, resulta do efeito estufa provocado pelo homem.

O CO2 é apontado como o principal responsável pelo provável aquecimento global. Trata-se do segundo gás em importância na atmosfera (atrás somente do vapor d'água) e sua concentração, embora ainda seja baixa, vem crescendo a uma taxa de 0,4% ao ano. Estima-se que são lançados 7 bilhões de toneladas de CO2 a cada ano na atmosfera, sendo cerca de 75% devido à queima de combustíveis fósseis (como petróleo e carvão mineral) e 25% pela queima de florestas, sobretudo as tropicais.

Simulações apontam que, se a quantidade de CO2 na atmosfera duplicasse, a temperatura média na Terra aumentaria entre 1,5 e 4,5°C. Essa situação poderia provocar o degelo parcial de geleiras e calotas polares, elevando o volume de água dos oceanos em até 1,5 metro e comprometendo 60% das áreas litorâneas. Também são previstas alterações nos ritmos de precipitação e umidade e a redução da biodiversidade, pois algumas espécies não resistiriam às mudanças.

Contraponto

No entanto, há controvérsias nas previsões. O único fato concreto e demonstrável é que houve um incremento de 25% nas taxas de CO2 nasa atmosfera ao longo dos últimos 150 anos, com notável acréscimo a partir dos anos 50. Atribui-se esse fato à expansão industrial pós-Segunda Guerra. Mas não se pode afirmar com segurança que esteja havendo aquecimento global. Há bons argumentos que dizem o contrário. Estaríamos entrando em um período pré-glacial, com tendência a rebaixamento das médias térmicas.

Estudos realizados por pesquisadores eutropeus e norte-americanos demonstram que o aquecimento global estaria entre 0,3°C e 0,6°C, valores situados no limite inferior das demonstrações de intensificação do efeito estufa feitas em laboratório. A década de 80 teve os cinco anos mais quentes das séries globais. Porém, ao mesmo tempo, observou-se um resfriamento sobre os oceanos Pacífico e Atlântcos de até -1,5°C e, na parte continental dos Estados Unidos, essa não foi a década mais quente do século, perdendo para a de 30 e superando por pouco a de 50. Estudos feitos também na parte continental dos Estados Unidos mostram variações térmicas de grande amplitude e períodos de pequena alteração. Por exemplo, entre 1920 e 1940, quando as atividades industriais ainda não eram tão intensas e disseminadas, houve um significativo aumento de temperatura; o período posterior, entre 1940 e 1970, apresentou sensível doiminuição das médias térmicas.

É preciso considerar que há problemas para a obtenção de dados para fazer aquelas previsões. Os métodos de aferição das temperaturas foram muito variados nos últimos 150 anos. Além disso, as estações metereológicas sofreram mudanças (de lugar, de ocupação do entorno) que comprometem alguns resultados. Naquelas que se mantiveram mais ou menos inalteradas, as variações encontradas são insignificantes. De outro lado, as experiências feitas em laboratório não captam aspectos importantes para as variações térmicas na atmosfera, como a forma e distibuição das nuvens, as correntes de ar, o ciclo hidrológico, as diferenças térmicas entre equador e pólos, etc.

Assim, se existe um aquecimento global, ele não possui distribuição uniforme na superfície da Terra. Há até mesmo lugares que têm apresentado diminuição das médias de temperatura. A hipótese de que estamos chegando ao final de um período interglacial, segundo Molion, é reforçada pelo avanço de geleiras nos pólos e invernos cada vez mais rigorosos, particularmente no Hemisfério Norte. A Pequena Idade do Gelo, ocorrida entre 1650 e 1850, pode ser também um prenúncio dessa nova fase. Deve-se levar em conta que um eventual resfriamento poderia ser até mais catastrófico do que a intensificação do efeito estufa, pela diminuição das áreas agrícolas, períodos mais secos nos trópicos e inviabilidade de ocupação das áreas de altas latitudes.

Não se pode esquecer do papel da natureza nas variações de elementos climáticos, como as mudanças nos índices de albedo (refletividade média da superfície) do planeta e no sistema El Niño-Oscilação Sul (ENOS), além de erupções vulcânicas (que podem provocar resfriamento no período subsequente à sua ocorrência) e alterações nas correntes oceânicas.

Conclusão

Assim, a única conclusão plausível em toda essa discussão, além do aumento das emissões de CO2, é que há incertezas na velocidade e no efeito global e regional do enriquecimento de gases-estufa na atmosfera. A polêmica também serve para chamar a atenção para a crescente capacidade do ser humano de realizar transformações de grande monta em curto espaço de tempo. Muitos efeitos naturais e humanos ainda precisam ser mais bem estudados.

Erich Fromm: Narcisismo vs Objetividade

Fonte: Erich Fromm. A Arte de Amar - 1991 - Editora Itatiaia. Capítulo IV: "A Prática do Amor".

A orientação narcisista é aquela em que só se experimenta como real o que existe dentro da pessoa, ao passo que os fenômenos do mundo exterior não têm realidade em si mesmos, mas são experimentados somente do ponto de vista de serem úteis ou perigosos. O polo oposto ao narcisismo é a objetividade; é a faculdade de ver pessoas e coisas tais como são, objetivamente, é a capacidade de separar esta imagem objetiva de uma imagem formada pelos desejos e temores que se tenham.

Todas as formas de psicose mostram a incapacidade de ser objetivo, em extremo grau. Para a pessoa insana, a única realidade que existe está dentro dela, é a de seus temores e desejos. Vê o mundo externo como símbolo de seu mundo interno, como criação sua. Todos fazemos a mesma coisa, quando sonhamos. No sonho, produzimos acontecimentos, encenamos dramas, que são a expressão de nossos desejos e temores (embora às vezes também de nossas penetrações e julgamentos) e, enquanto dormimos, estamos convencidos de que o produto de nossos sonhos é tão real como a realidade que percebemos estando acordados.

A faculdade de pensar objetivamente é a razão; a atitude emocional por trás da razão é a da humildade. Ser objetivo, usar a razão, só é possível quando se consegue uma atitude de humildade, quando se emerge dos sonhos de onisciência e onipotência que se tem quando criança.

A pessoa insana, ou o sonhador, falha completamente em ter uma visão objetiva do mundo exterior; mas todos nós somos mais ou menos insanos, ou mais ou menos adormecidos; todos nós temos uma visão não-objetiva do mundo, falseada pela nossa orientação narcisista. Necessito dar exemplos? Qualquer um pode encontrá-los facilmente, observando-se, observando os vizinhos, lendo os jornais. Variam no grau de adulteração narcisista da realidade.

Exemplos

Uma mulher, por exemplo, telefona a um médico, dizendo que quer ir ao seu consultório nessa mesma tarde. O médico responde que não tem tempo livre nessa tarde, mas poderá vê-la no dia seguinte. A resposta dela é: Mas doutor, eu moro só a cinco minutos de seu consultório.... Ela não pode compreender a explicação do médico de que o fato de ser a distância tão curta para ela não economizará o tempo dele. Experimenta ela a situação narcisisticamente: uma vez que ela poupa tempo, ele poupará tempo; a única realidade, para ela, é ela mesma.

Menos extremas -- ou talvez apenas menos evidentes -- são as distorções que constituem lugares-comumns nas relações interpessoais.

  • Quantos pais não experimentam as reações do filho em termos de ser-lhes obediente, de dar-lhes prazer, de sentirem orgulho dele, e assim por diante, em vez de perceber, ou mesmo interessar-lhes, aquilo que o filho sente, por si e para si mesmo?
  • Quantos maridos não formam uma imagem de suas esposas como sendo dominadoras, porque seu próprio apego à mãe os leva a interpretar qualquer solicitação como uma restrição à sua liberdade?
  • Quantas esposas não acham seus maridos ineficientes ou estúpidos, porque não correspondem à imagem fantasiosa de um brilhante cavaleiro que elas podem ter formado quando crianças?

A falta de objetividade, no que se refere às nações estrangeiras, é notória. De um dia para outro, uma nação se transforma em extremamente depravada e diabólica, ao passo que a nação do julgador se ergue como modelo de tudo quanto é bom e nobre. Cada ação do inimigo é julgada por um padrão, -- cada uma das próprias, por outro. Mesmo os atos bons praticados pelo inimigo são considerados um sinal de particular satanismo, com o intuito de enganar-nos e ao mundo, ao passo que nossas más ações são necessárias e justificadas pelos nobres alvos a que servem. Na verdade, quando se examinam as relações entre nações, assim como entre indivíduos, chaga-se à conclusão de que a objetividade é exceção, e um grau maior ou menor de distorção narcisista é a regra.

Sobre primeiros amores

Fonte: Cristiane Costa. Amor sem Beijo - Global Editora.

Ficamos lado a lado [vendo o pôr-do-sol], em silêncio, durante muito tempo. O sol foi embora e a noite veio trazendo uma lua cheia. O céu escuro se encheu de estrelas. Ali, no alto da pedra ainda quente [na beira da praia], éramos só nós e o universo. Senti uma enorme vontade de me soltar, de me lançar nos braços do vento morno e me deixar levar. Marcos deitou a cabeça no meu colo. Estávamos muito próximos. Lentamente, ele se sentou e me olhou bem nos olhos. Depois, falou bem suavemente:

-- Me dá um beijo?

Eu sorri. Sua boca estava a centímetros da minha. Eu não posso, pensei. Eu sou forte, não tem essa de que o sangue é fraco. Eu sei me controlar. Eu não cedo. Não pode ser. Não, eu não posso, dizia a parte mais forte de mim. Marcos também resistia e esperava. Tão próximo que se quisesse teria me roubado aquele beijo e me deixado sem reação a não ser me entregar aos meus sentimentos. Mas não, ele já tinha ido até onde podia. Agora, queria que eu continuasse.

-- Diz que você não quer esse beijo, Cristiane.

O tempo parou enquanto tudo passou pela minha cabeça. Eu hesitei durante um segundo que parecia interminável. Então, fui mais forte do que eu e disse:

-- Não.

No mesmo instante, a mágica se rompeu. Alguém acendeu as luzes - e acho que fui eu. As estrelas se desfizeram, nuvens pesadas se formaram em seu lugar. A música suave das ondas desapareceu. Só sobrou o mundo real e desencantado de que voltamos a fazer parte.

[...]

Demorou muito tempo, muito mais do que eu pensava, para juntar de novo essas duas partes de mim: meu corpo foi para um lado e meu coração para outro. Como numa estrada, um pequeno erro no início, uma decisão equivocada, pode levar o viajante a caminhos cada vez mais distantes de onde planejava chegar. Às vezes, descobre-se um atalho para voltar ao caminho certo. Outras, é preciso refazer todo o trajeto até o ponto de partida. Mas, e quando não há volta?

Aí, o desamor se forma como um lago de águas paradas. O amor não vivido corrói os laços. Os corações feridos vão se distanciando lentamente. Quando se toma consciência, já perdemos o companheiro de vista. Um oceano nos separa.

Pouco a pouco Marcos foi parando de falar comigo. Até o dia em que passou por mim como por uma estranha. Só nesse momento, me dei conta do quanto gostava dele. Depois que ele saiu definitivamente da minha vida é que vi o tamanho do vazio que deixou.

Tudo foi acontecendo gradualmente. Primeiro, jogamos um balde de água fria em nossa amizade. Ele já não me levava para casa, não andávamos mais de bicicleta juntos. E eu não tinha mais ninguém com quem me abrir. Depois, sepultamos nossos sentimentos sob uma pedra de gelo, evitando todos os lugares onde pudéssemos nos encontrar. Marcos não ia mais à praia, nem nos dias mais bonitos de sol. Eu mudei de colégio. Ele parou de andar com nossa turma. Acho que só não mudou de cidade porque era demais. De vez em quando, eu perguntava por ele, com jeito para que não desconfiassem de nada.

[...]

Mas, um dia, decidi quebrar o muro que nos separava. Levantei-me e fui atrás dele. Segurei seu braço, quase implorando por uma palavra, um segundo de atenção. Isso o surpreendeu. Sem saber como reagir, continuou andando, cada vez mais rápido. E eu, passo a passo ficando para trás, insistia numa conversa inútil. Numa resposta que estava na cara e nem precisava de pergunta.

-- O que houve? Por que você não fala mais comigo? - disparei.

-- Eu? Mas eu acabei de falar com você.

-- Sei, um oi e basta.

-- O que você queria?

-- Conversar.

-- Sobre o quê?

-- Tudo, como antigamente.

-- Não dá para ser como antes.

-- Por quê?

-- Tem gente me esperando.

-- Pois que fiquem esperando. Eu preciso falar com você!

-- Fala então.

-- Andando assim não dá. Por que a gente não pára um pouco?

-- Já disse que tem gente me esperando.

-- Mas que droga de gente é essa que não pode esperar? Eu sou sua melhor amiga.

-- Isso já faz muito tempo.

-- O que você quer dizer com isso?

-- Que as coisas mudam.

-- Por que você está chateado comigo? O que foi que eu te fiz?

-- Nada. E você sabe muito bem.

-- Então o que é?

-- Nada, já disse.

-- Por que você se afastou?

-- A vida é assim mesmo. Mais dia, menos dia, acaba indo cada um para o seu lado.

E foi isso o que aconteceu. Sem forças, fui ficando para trás - minhas perguntas pairando no ar. De costas, o silêncio como resposta.

Quando a gente é jovem, os machucados se fecham rápido. As cicatrizes são imperceptíveis. Ninguém dá muito valor a nada, porque as coisas mudam muito rapidamente. Logo se está pronto para outra. E outra. E mais outra. A gente procura a dor mais leve para se distrair da mais profunda.

Mas certas cicatrizes não fecham nunca.

Elas voltam com outros nomes, em outros lugares, mas voltam. Até que a gente aprenda a não ter medo dos próprios sentimentos. Até o dia em que a gente tenha a coragem de olhar o amor nos olhos e dizer: sim.

Erich Fromm: em amor e sexo, nem tudo o que reluz é ouro!

Fonte: Erich Fromm. A Arte de Amar - 1991 - Editora Itatiaia. Capítulo II: "A Teoria do Amor", seção 3: "Dos Objetos do Amor", item c: "Amor erótico".

O amor erótico é o anseio de fusão completa, de união com um outra pessoa. É, por sua própria natureza, exclusiva e não universal; é também, talvez, a mais enganosa forma de amor que existe.

Antes de tudo, confunde-se ele muitas vezes com a experiência explosiva de "cair" enamorado, o súbito colapso das barreiras que até certo momento existiam entre dois estranhos. Mas, como já antes apontamos, esta experiência de súbita intimidade é, por sua própria natureza, de vida curta. Depois que o estranho se tornou pessoa intimamente conhecida, não há mais barreiras a superar, não há mais proximidade súbita a ser realizada. A pessoa "amada" fica sendo tão bem conhecida como a gente mesma. Ou talvez seja melhor dizer: tão pouco conhecida. Se houvesse mais profundidade na experiência da outra pessoa, se se pudesse experimentar a infinidade de sua personalidade, a outra pessoa nunca seria tão familiar -- e o milagre de superar as barreiras poderia ocorrer de novo a cada dia. Mas, para a maioria, a própria pessoa, assim como as outras, é logo explorada e logo exaurida. Para a maioria, a intimidade se estabelece antes de tudo pelo contacto sexual. Desde que primeiramente se experimente a separatividade de outra pessoa como separatividade física, a união física significa a superação da separação.

Além disso, há outros fatores que, para muitos, denotam a superação da separação. Falar da própria vida pessoal, das próprias esperanças e ansiedades, mostrar-se nos seus aspectos infantis ou pueris, estabelecer um interesse comum em face do mundo -- tudo isso é tomado como superação da separação. Mesmo mostrar cólera, ódio, falta completa de inibição, é tomado por intimidade, e isso pode explicar a atração pervertida que casais muitas vezes sentem um pelo outro, só parecendo íntimos quando se achem na cama ou quando dêem expansão a seu ódio e raiva mútuos. Todos esses tipos de proximidade, entretanto, tendem a reduzir-se cada vez mais com o correr do tempo. A consequência é buscar-se amor em outra pessoa, em novo estranho. E de novo o estranho se transforma em pessoa "íntima", de novo a experiência de cair enamorado é jubilosa e intensa, e de novo, vagarosamente, vai perdendo intensidade, para terminar no desejo de nova conquista, novo amor -- sempre com a ilusão de que o novo amor será diferente dos anteriores. Essas ilusões são grandemente incentivadas pelo caráter enganador do desejo sexual.

O desejo sexual objetiva a fusão -- e não é, de modo algum, apenas um apetite físico, o alívio de uma tensão dolorosa. Mas o desejo sexual pode ser estimulado pela ansiedade da solidão, pela vontade de conquistar ou ser conquistado, pela vaidade, pelo gosto de ferir e mesmo destruir, assim como pode ser estimulado pelo amor. Parece que o desejo sexual pode ser misturado facilmente a qualquer emoção forte, nela encontrando incitamento; e o amor é apenas uma dessas emoções. Por estar o desejo sexual emparelhado na mente de muitos com a idéia de amor, são eles com facilidade levados à má conclusão de que amam um ao outro quando se querem um ao outro fisicamente.

  • Se o desejo da união física não for estimulado pelo amor, se o amor erótico também não for amor fraterno, nunca levará à união mais do que num sentido orgíaco e transitório. A atração sexual cria, no momento, a ilusão de união, mas, sem amor, essa "união" deixa os estranhos tão afastados quanto antes se achavam; muitas vezes, faz com que se envergonhem um do outro, ou mesmo faz com que mutuamente se odeiem, pois, partida a ilusão, sentem sua estranheza ainda mais acentuadamente do que antes.
  • O amor pode inspirar o desejo de união sexual; neste caso, falta à relação física a avidez, a vontade de conquistar ou ser conquistado, mas mistura-se nela a ternura. A ternura de modo algum é, como acreditava Freud, uma sublimação do instinto sexual; é o produto direto do amor fraterno e existe tanto nas formas físicas do amor quanto nas não-físicas.

Erich Fromm: sexo, drogas, e rock'n roll?

Fonte: Erich Fromm. A Arte de Amar - 1991 - Editora Itatiaia. Capítulo II: "A Teoria do Amor", seção 1: "Amor, Resposta ao Problema da Existência Humana".

O homem é dotado de razão; é a vida consciente de si mesma; tem, consciência de si, de seus semelhantes, de seu passado e de seu futuro. Essa consciência de si mesmo como entidade separada, a consciência de seu próprio e curto período de vida, do fato de haver nascido sem ser por vontade própria e de ter que morrer contra sua vontade, de ter de morrer antes daqueles que ama, ou estes antes dêle, a consciência de sua solidão e separação, de sua impotência ante as forças da natureza e da sociedade, tudo isso faz de sua existência apartada e desunida uma prisão insuportável. Ele ficaria louco se não pudesse libertar-se de tal prisão e alcançar os homens, unir-se de uma forma ou de outra com êles, com o mundo exterior.

[…]

Um meio de alcançar esse objetivo [isto é, fugir à separação] está em todas as espécies de estados orgíacos. Podem ter eles a forma de um transe auto-provocado, às vezes com a ajuda de drogas. Muitos ritos de tribos primitivas oferecem vivo quadro dêsse tipo de solução. Num estado transitório de exaltação, o mundo externo desaparece, e, com ele, o sentimento de estar dele separado. E como esses ritos são praticados em comum, acrescenta-se uma experiência de fusão com o grupo que dá a tal solução o máximo de eficiência.

Sociedades tribais

Estreitamente relacionada com essa solução orgíaca está a experiência sexual. O orgasmo sexual pode produzir um estado semelhante ao produzido por um transe, ou pelos efeitos de certas drogas. Ritos de orgias sexuais comunitárias faziam parte de muitos rituais primitivos. Parece que, depois da experiência orgíaca, o homem pode continuar por algum tempo sem sofrer demais com sua separação. Vagarosamente, a tensão da ansiedade sobe, e é de novo reduzida pela realização repetida do rito.

Enquanto esses estados orgíacos forem motivo de prática comum numa tribo, não produzem êles ansiedade ou culpa. Agir de tal modo é reto, virtuoso mesmo, pois é um modo de que todos compartilham, aprovado e requerido pelo pagé ou pelos sacerdotes; daí não haver razão para que alguém se sinta culpado ou envergonhado.

Nossa sociedade

Bem diferente é o caso quando a mesma solução é escolhida por um indivíduo em uma cultura que deixou para trás essas práticas comuns. O alcoolismo e o uso de drogas são as formas que o indivíduo escolhe numa cultura não-orgíaca. Em contraste com os que tomam parte na solução socialmente modelada, tais indivíduos sofrem sentimentos de culpa e remorso. Ao tentarem fugir da separação pelo refúgio no álcool e nos entorpecentes, sentem-se ainda mais separados depois que terminam a experiência orgíaca, e assim são levados a recorrer a ela com frequência e intensidade aumentadas.

Poquíssimo diferente disso é o recurso a uma solução orgíaca sexual. Até certo ponto, é uma forma natural e normal de superar a separação, e uma resposta parcial ao problema do isolamento. Mas, em muitos indivíduos em que a separação não é aliviada por outros meios, a procura do orgasmo reveste-se de uma função que não a faz muito diferente do alcoolismo e do vício das drogas. Torna-se uma tentativa desesperada para fugir à ansiedade engendrada pela separação e resulta sempre num sempre crescente sentimento de separação, visto como o ato sexual sem amor nunca lança uma ponte sôbre o abismo entre dois seres humanos, senão momentaneamente.

Maquiavel: sorte vs previdência

Fonte: Nicolau Maquiavel. O Príncipe - 15ª edição - 1996 - Editora Paz e Terra. Capítulo XXV: "Quando pode a fortuna influenciar as coisas humanas e como se pode resistir a ela".

Comparo [a sorte] a um destes rios desastrosos, que, na cheia, alagam as planícies, derrubam as árvores e as construções, carregam terra de uma parte, depositam em outra; todos fogem à sua frente, todos cedem ao seu ímpeto sem poder obstar. Mesmo que sejam feitos assim, aos homens só lhes resta, nos tempos de tranquilidade, premunirem-se com reparos e barragens, de modo que ao crescer na cheia, os rios corram por um canal e seu ímpeto não seja nem tão desenfreado, nem tão nocivo.

A sorte manifesta-se de modo semelhante. Demonstra a sua potência onde não há virtude organizada para lhe opor resistência; volta os seus ímpetos para onde sabe que não foram feitas barragens e reparos para segurá-la.

Platão: Sobre misantropia, decepções, e dedo podre

Fonte: Sócrates. Os Pensadores III: Platão - 1ª edição - 1972 - Abril Cultural - diálogo "Fédon", "Fédon retoma a narrativa".

O ódio aos seres humanos - a misantropia - penetra nos corações quando confiamos demais numa pessoa, sem nos acautelarmos; quando acreditamos que uma pessoa é boa, sincera, honesta, e vimos a descobrir mais tarde que tal não é, que pelo contrário é má, desonesta e mentirosa; e se isso acontecer repetidas vezes a um mesmo humano, e justamente a propósito daquelas pessoas a quem considerava como seus melhores e mais sinceros amigos, esse passará finalmente a odiar todos os humanos, persuadido de que em ninguém há de encontrar a menor qualidade boa.

E proceder assim não é, acaso, proceder mal? Não é claro que esse descrente vive entre os humanos sem entretanto conhecer a humanidade? Se procedesse com juízo, notaria que bem poucos humanos são absolutamente bons ou maus, e que inúmeros são os que se encontram entre esses extremos.

Se dá aqui o mesmo que se dá a respeito das coisas pequeníssimas e grandíssimas. Achas que pode haver coisa mais rara do que um homem enormemente grande ou extraordinariamente pequeno? E isso vale também para o cão, como para qualquer outra coisa. E não te parece também que é muito difícil encontrar-se um ser rapidíssimo e um vagarosíssimo, assim como um belíssimo e um feíssimo, ou um muito alvo e outro muito negro? Acaso não notaste por ti mesmo como são raros em todas essas coisas os pontos extremos, ao passo que os termos médios são muito mais numerosos?

De modo que, se fosse feito um concurso de maldade, não te parece também que apenas uns poucos seriam premiados?

[...] Mas a comparação [com a misologia - ódio à razão] é esta: uma pessoa que desconhece a arte de provar por argumentos se entrega com cega confiança a um argumento que lhe parece verdadeiro; pouco depois, este passa a lhe parecer falso. [...] Mas não seria deplorável desgraça, Fédon, quando existe um argumento verdadeiro, sólido, suscetível de ser compreendido, que esta mesma pessoa, em lugar de acusar as suas própria dúvidas ou a sua falta de arte, lance toda a culpa na própria razão e passe toda a vida a caluniá-la e odiá-la, privando-se, desse modo, da verdade dos seres e da ciência?

Ora pois, tomemos cuidado para que não venha a penetrar em nossas almas o pensamento de que nos argumentos nada há de razoável. Suponhamos sempre, ao contrário, que nós é que não temos ainda bastante discernimento. Devemos, com efeito, ser corajosos e fazer tudo o que for necessário para obter os conhecimentos verdadeiros.

(A citação deste trecho interessante não corresponde a uma indicação de leitura do diálogo "Fédon". Em minha opinião, existem outros diálogos de Platão mais proveitosos que este.)

Contextualização

Eu tive depressão há alguns anos. Nessa época, quem podia me ajudar, ou me deu as costas, ou aproveitou a oportunidade em que eu estava caído para poder pisar em mim. Durante e após o tratamento, me senti terrivelmente traído e passei a não confiar em ninguém mais: "cada um por si e Deus contra todos", sozinho num mundo hostil, entregue ao próprio azar. Mesmo após levar alta, quando alguém era simpático comigo, ou oferecia alguma ajuda corriqueira, eu já presumia ser mentira - mais uma mentira. Fiquei de luto, pois a espécie humana ainda existia, embora a humanidade, isto é, aqueles atributos idealizados que supostamente nos tornam melhores que outros animais, já tivesse morrido há muito tempo. Achei que estava morando no Inferno.

Felizmente, existem pessoas boas neste mundo, que fazem a vida ser mais agradável e o custo/benefício da vida ser melhor. Nem todo mundo é totalmente mal! Eu achava que todos eram maus pois me cerquei de pessoas inúteis, que não ajudam os outros - tive dedo podre. Eu mesmo não era muito diferente disto, porém. Não plantei nada, então também não colhi nada quando precisei. Atraí pessoas semelhantes a mim, tão inúteis quanto eu.

Mas agora eu já conheço algumas pessoas que me ajudam, e eu também vou ajudá-las. Reciprocidade é fundamental. Pessoas boas existem, é questão de saber separar o joio do trigo - o que eu não sabia antes, mas estou aprendendo agora. Também, saber desenvolver vínculos... E ser útil.


Tomar as dificuldades, obstáculos, e tristezas da vida como um desafio que devemos superar para tornar-nos mais fortes, em vez de como uma punição injusta que não nos devia sobrevir, requer fé e coragem.
-- Erich Fromm. A Arte de Amar - 1991 - Editora Itatiaia. Capítulo IV: "A Prática do Amor".

Platão - Método socrático: como funciona?

Fonte: "Estrangeiro". Os Pensadores III: Platão - 1ª edição - 1972 - Abril Cultural - diálogo "Sofista", seção "Sexta definição: o sofista, refutador".

Creio, pelo menos, distinguir uma forma especial de ignorância, tão grande e tão rebelde que equivale a todas as demais espécies: nada saber, e crer que se sabe. Temo que aí esteja a causa de todos os erros aos quais o pensamento de todos nós está sujeito.

[…]

Parece que alguns chegaram, após amadurecida reflexão, a pensar da seguinte forma: toda ignorância é involuntária, e aquele que se acredita sábio se recusará sempre a aprender qualquer coisa de que se imagina esperto; e apesar de toda a punição que existe na admoestação, esta forma de punição tem pouca eficácia.

[…]

Propõem, ao seu interlocutor, questões às quais acreditando responder algo valioso ele não responde nada de valor; depois, verificando facilmente a vaidade de opiniões tão errantes, eles as aproximam em sua crítica, confrontando umas com outras, e por meio desse confronto demonstram que a propósito do mesmo objeto, sob os mesmos pontos de vista, e nas mesmas relações, elas são mutuamente contraditórias. Ao percebê-lo, os interlocutores experimentam um descontentamento para consigo mesmos, e disposições mais conciliatórias para com outrem. Por este tratamento, tudo o que neles havia de opiniões orgulhosas e frágeis lhes é arrebatado, ablação em que o ouvinte encontra o maior encanto e, o paciente, o proveito mais duradouro.

Há na realidade, um princípio que inspira aqueles que praticam este método purgativo; o mesmo que diz, ao médico do corpo, que da alimentação que se lhe dá não poderia o corpo tirar qualquer proveito enquanto os obstáculos internos não fossem removidos. A propósito da alma formaram o mesmo conceito: ela não alcançará, do que se lhe possa ingerir de ciência, benefício algum, até que se tenha submetido à refutação e que por esta refutação, causando-lhe vergonha de si mesmas, se tenha desembaraçado das opiniões que cerram as vias do ensino e que se tenha levado ao estado de manifesta pureza e a acreditar saber justamente o que ela sabe, mas nada além.

Platão: Sobre marxistas profissionais

Fonte: "Estrangeiro". Os Pensadores III: Platão - 1ª edição - 1972 - Abril Cultural - diálogo "Sofista", "Recapitulação das definições" e "As artes ilusionistas: a mimética".

Como chegam esses homens a incutir na juventude que somente eles, e a propósito de todos os assuntos, são mais sábios que todo o mundo? Pois na realidade, se como contraditores não tivessem razão, ou não parecessem, à sua juventude, ter razão; se, mesmo assim, a sua habilidade em discutir não desse algum brilho à sua sabedoria, então seria caso de dizer, como tu, que ninguém viria voluntariamente dar-lhes dinheiro para deles aprender estas suas artes.

Ora, na verdade, os que os procuram o fazem voluntariamente. É que, ao que creio, eles parecem ter uma sabedoria pessoal sobre todos os assuntos que contradizem. E se assim fazem, a propósito de tudo, dão, então, a seus discípulos a impressão de serem oniscientes. E sem o ser, na realidade; pois isso seria impossível. Ao que vemos, pois, o que traz este tipo de pessoa é uma falsa aparência de ciência universal, mas não a realidade.

[...]

Assim, o homem que se julgasse capaz, por uma única arte, de tudo produzir, como sabemos, não fabricaria afinal, senão imitações e homônimos das realidades. Hábil, na sua técnica de pintar, ele poderá, exibindo de longe os seus desenhos, aos mais ingênuos meninos, dar-lhes a ilusão de que poderá igualmente criar a verdadeira realidade, e tudo o que quiser fazer.

Não devemos admitir que também o discurso permite uma técnica por meio da qual se poderá levar aos ouvidos de jovens ainda separados por uma longa distância da verdade das coisas, palavras mágicas, e apresentar, a propósito de todas as coisas, ficções verbais, dando-lhes assim a ilusão de ser verdadeiro tudo o que ouvem e de que, quem assim lhes fala, tudo conhece melhor que ninguém?

Para a maior parte daqueles que então ouviram tais discursos, não é inevitável que, transcorrido o tempo suficiente de anos, com o avançar da idade, e vistas as coisas de mais perto, as provas que os obrigam ao claro contato com as realidades os levem a mudar as opiniões então transmitidas, a julgar pequeno o que lhes havia parecido grande, difícil o que lhes parecera fácil, uma vez que os simulacros que transportavam as palavras desapareçam em presença das realidades vivas?

(A citação deste trecho interessante não corresponde a uma indicação de leitura do diálogo "Sofista". Em minha opinião, existem outros diálogos de Platão mais proveitosos que este.)

Contextualização

Eu fui marxista quando era jovem demais para saber distinguir a verdade daquilo que somente aparentava ser verdade. Com o passar do tempo, foi ficando cada vez mais claro para mim que o quadro que pintavam para mim era uma ilusão lunática. Todas as soluções que apontavam, para solucionar num passe de mágica todas as mazelas da humanidade, não eram postas em prática "pela direita", "pela burguesia", ou seja lá quem fosse o inimigo na teoria de conspiração da vez, simplesmente por pura maldade ou ganância. Existe maldade e ganância? Sim. Mas todas essas soluções simples e rápidas, defendidas pelos marxistas, tinham por trás custos humanos altos que obviamente não eram revelados nas propagandas. E tudo o que dizem é propaganda (agitprop), é panfletário. São vigaristas aproveitando-se da ingenuidade alheia... E acusando outras pessoas de serem vigaristas aproveitando-se da ingenuidade alheia! Os marxistas profissionais são as raposas que tomam conta do galinheiro. Tal qual no Xadrez, você é um peão a ser sacrificado, para que alguém coroe-se rainha. Eu fui tolo, um idiota útil.

Hoje eu já sei ser útil sem ser idiota: mais vale ajudar quem realmente precisa, hoje, do que ficar debatendo teoria marxista, sobre como essas mesmas pessoas serão ajudadas no advento de uma Revolução Socialista™. As ilusões que construíram, e nas quais acreditei, foram desmoronando, conforme fui tendo contato com a real realidade dos fatos, empiricamente: não se sustentavam. Nenhum discurso de político pesa mais que minha experiência de vida. A conversa-mole bate em mim e volta, não entra mais. Eu agora sei discernir o que vale, e o que não vale, por conta própria, sem precisar que alguém pense por mim. Os sabichões partidários não têm como saber tudo.

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