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Anders Bateva

buscando o porquê das coisas

Anders Bateva

buscando o porquê das coisas

Erich Fromm: sexo, drogas, e rock'n roll?

Fonte: Erich Fromm. A Arte de Amar - 1991 - Editora Itatiaia. Capítulo II: "A Teoria do Amor", seção 1: "Amor, Resposta ao Problema da Existência Humana".
O homem é dotado de razão; é a vida consciente de si mesma; tem, consciência de si, de seus semelhantes, de seu passado e de seu futuro. Essa consciência de si mesmo como entidade separada, a consciência de seu próprio e curto período de vida, do fato de haver nascido sem ser por vontade própria e de ter que morrer contra sua vontade, de ter de morrer antes daqueles que ama, ou estes antes dêle, a consciência de sua solidão e separação, de sua impotência ante as forças da natureza e da sociedade, tudo isso faz de sua existência apartada e desunida uma prisão insuportável. Ele ficaria louco se não pudesse libertar-se de tal prisão e alcançar os homens, unir-se de uma forma ou de outra com êles, com o mundo exterior.

[…]

Um meio de alcançar esse objetivo [isto é, fugir à separação] está em todas as espécies de estados orgíacos. Podem ter eles a forma de um transe auto-provocado, às vezes com a ajuda de drogas. Muitos ritos de tribos primitivas oferecem vivo quadro dêsse tipo de solução. Num estado transitório de exaltação, o mundo externo desaparece, e, com ele, o sentimento de estar dele separado. E como esses ritos são praticados em comum, acrescenta-se uma experiência de fusão com o grupo que dá a tal solução o máximo de eficiência.

Sociedades tribais

Estreitamente relacionada com essa solução orgíaca está a experiência sexual. O orgasmo sexual pode produzir um estado semelhante ao produzido por um transe, ou pelos efeitos de certas drogas. Ritos de orgias sexuais comunitárias faziam parte de muitos rituais primitivos. Parece que, depois da experiência orgíaca, o homem pode continuar por algum tempo sem sofrer demais com sua separação. Vagarosamente, a tensão da ansiedade sobe, e é de novo reduzida pela realização repetida do rito.Enquanto esses estados orgíacos forem motivo de prática comum numa tribo, não produzem êles ansiedade ou culpa. Agir de tal modo é reto, virtuoso mesmo, pois é um modo de que todos compartilham, aprovado e requerido pelo pagé ou pelos sacerdotes; daí não haver razão para que alguém se sinta culpado ou envergonhado.

Nossa sociedade

Bem diferente é o caso quando a mesma solução é escolhida por um indivíduo em uma cultura que deixou para trás essas práticas comuns. O alcoolismo e o uso de drogas são as formas que o indivíduo escolhe numa cultura não-orgíaca. Em contraste com os que tomam parte na solução socialmente modelada, tais indivíduos sofrem sentimentos de culpa e remorso. Ao tentarem fugir da separação pelo refúgio no álcool e nos entorpecentes, sentem-se ainda mais separados depois que terminam a experiência orgíaca, e assim são levados a recorrer a ela com frequência e intensidade aumentadas.Poquíssimo diferente disso é o recurso a uma solução orgíaca sexual. Até certo ponto, é uma forma natural e normal de superar a separação, e uma resposta parcial ao problema do isolamento. Mas, em muitos indivíduos em que a separação não é aliviada por outros meios, a procura do orgasmo reveste-se de uma função que não a faz muito diferente do alcoolismo e do vício das drogas. Torna-se uma tentativa desesperada para fugir à ansiedade engendrada pela separação e resulta sempre num sempre crescente sentimento de separação, visto como o ato sexual sem amor nunca lança uma ponte sôbre o abismo entre dois seres humanos, senão momentaneamente.

Maquiavel: sorte vs previdência

Fonte: Nicolau Maquiavel. O Príncipe - 15ª edição - 1996 - Editora Paz e Terra. Capítulo XXV: "Quando pode a fortuna influenciar as coisas humanas e como se pode resistir a ela".


Comparo [a sorte] a um destes rios desastrosos, que, na cheia, alagam as planícies, derrubam as árvores e as construções, carregam terra de uma parte, depositam em outra; todos fogem à sua frente, todos cedem ao seu ímpeto sem poder obstar. Mesmo que sejam feitos assim, aos homens só lhes resta, nos tempos de tranquilidade, premunirem-se com reparos e barragens, de modo que ao crescer na cheia, os rios corram por um canal e seu ímpeto não seja nem tão desenfreado, nem tão nocivo.

A sorte manifesta-se de modo semelhante. Demonstra a sua potência onde não há virtude organizada para lhe opor resistência; volta os seus ímpetos para onde sabe que não foram feitas barragens e reparos para segurá-la.

Platão: Sobre misantropia, decepções, e dedo podre

Fonte: Sócrates. Os Pensadores III: Platão - 1ª edição - 1972 - Abril Cultural - diálogo "Fédon", "Fédon retoma a narrativa".


O ódio aos seres humanos - a misantropia - penetra nos corações quando confiamos demais numa pessoa, sem nos acautelarmos; quando acreditamos que uma pessoa é boa, sincera, honesta, e vimos a descobrir mais tarde que tal não é, que pelo contrário é má, desonesta e mentirosa; e se isso acontecer repetidas vezes a um mesmo humano, e justamente a propósito daquelas pessoas a quem considerava como seus melhores e mais sinceros amigos, esse passará finalmente a odiar todos os humanos, persuadido de que em ninguém há de encontrar a menor qualidade boa.

E proceder assim não é, acaso, proceder mal? Não é claro que esse descrente vive entre os humanos sem entretanto conhecer a humanidade? Se procedesse com juízo, notaria que bem poucos humanos são absolutamente bons ou maus, e que inúmeros são os que se encontram entre esses extremos.

Se dá aqui o mesmo que se dá a respeito das coisas pequeníssimas e grandíssimas. Achas que pode haver coisa mais rara do que um homem enormemente grande ou extraordinariamente pequeno? E isso vale também para o cão, como para qualquer outra coisa. E não te parece também que é muito difícil encontrar-se um ser rapidíssimo e um vagarosíssimo, assim como um belíssimo e um feíssimo, ou um muito alvo e outro muito negro? Acaso não notaste por ti mesmo como são raros em todas essas coisas os pontos extremos, ao passo que os termos médios são muito mais numerosos?

De modo que, se fosse feito um concurso de maldade, não te parece também que apenas uns poucos seriam premiados?

[...] Mas a comparação [com a misologia - ódio à razão] é esta: uma pessoa que desconhece a arte de provar por argumentos se entrega com cega confiança a um argumento que lhe parece verdadeiro; pouco depois, este passa a lhe parecer falso. [...] Mas não seria deplorável desgraça, Fédon, quando existe um argumento verdadeiro, sólido, suscetível de ser compreendido, que esta mesma pessoa, em lugar de acusar as suas própria dúvidas ou a sua falta de arte, lance toda a culpa na própria razão e passe toda a vida a caluniá-la e odiá-la, privando-se, desse modo, da verdade dos seres e da ciência?

Ora pois, tomemos cuidado para que não venha a penetrar em nossas almas o pensamento de que nos argumentos nada há de razoável. Suponhamos sempre, ao contrário, que nós é que não temos ainda bastante discernimento. Devemos, com efeito, ser corajosos e fazer tudo o que for necessário para obter os conhecimentos verdadeiros.

(A citação deste trecho interessante não corresponde a uma indicação de leitura do diálogo "Fédon". Em minha opinião, existem outros diálogos de Platão mais proveitosos que este.)

Contextualização

Eu tive depressão há alguns anos. Nessa época, quem podia me ajudar, ou me deu as costas, ou aproveitou a oportunidade em que eu estava caído para poder pisar em mim. Durante e após o tratamento, me senti terrivelmente traído e passei a não confiar em ninguém mais: "cada um por si e Deus contra todos", sozinho num mundo hostil, entregue ao próprio azar. Mesmo após levar alta, quando alguém era simpático comigo, ou oferecia alguma ajuda corriqueira, eu já presumia ser mentira - mais uma mentira. Fiquei de luto, pois a espécie humana ainda existia, embora a humanidade, isto é, aqueles atributos idealizados que supostamente nos tornam melhores que outros animais, já tivesse morrido há muito tempo. Achei que estava morando no Inferno.

Felizmente, existem pessoas boas neste mundo, que fazem a vida ser mais agradável e o custo/benefício da vida ser melhor. Nem todo mundo é totalmente mal! Eu achava que todos eram maus pois me cerquei de pessoas inúteis, que não ajudam os outros - tive dedo podre. Eu mesmo não era muito diferente disto, porém. Não plantei nada, então também não colhi nada quando precisei. Atraí pessoas semelhantes a mim, tão inúteis quanto eu.

Mas agora eu já conheço algumas pessoas que me ajudam, e eu também vou ajudá-las. Reciprocidade é fundamental. Pessoas boas existem, é questão de saber separar o joio do trigo - o que eu não sabia antes, mas estou aprendendo agora. Também, saber desenvolver vínculos... E ser útil.

Fonte: Erich Fromm. A Arte de Amar - 1991 - Editora Itatiaia. Capítulo IV: "A Prática do Amor".


Tomar as dificuldades, obstáculos, e tristezas da vida como um desafio que devemos superar para tornar-nos mais fortes, em vez de como uma punição injusta que não nos devia sobrevir, requer fé e coragem.

Platão - Método socrático: como funciona?

Fonte: "Estrangeiro". Os Pensadores III: Platão - 1ª edição - 1972 - Abril Cultural - diálogo "Sofista", seção "Sexta definição: o sofista, refutador".
Creio, pelo menos, distinguir uma forma especial de ignorância, tão grande e tão rebelde que equivale a todas as demais espécies: nada saber, e crer que se sabe. Temo que aí esteja a causa de todos os erros aos quais o pensamento de todos nós está sujeito.

[…]

Parece que alguns chegaram, após amadurecida reflexão, a pensar da seguinte forma: toda ignorância é involuntária, e aquele que se acredita sábio se recusará sempre a aprender qualquer coisa de que se imagina esperto; e apesar de toda a punição que existe na admoestação, esta forma de punição tem pouca eficácia.

[…]

Propõem, ao seu interlocutor, questões às quais acreditando responder algo valioso ele não responde nada de valor; depois, verificando facilmente a vaidade de opiniões tão errantes, eles as aproximam em sua crítica, confrontando umas com outras, e por meio desse confronto demonstram que a propósito do mesmo objeto, sob os mesmos pontos de vista, e nas mesmas relações, elas são mutuamente contraditórias. Ao percebê-lo, os interlocutores experimentam um descontentamento para consigo mesmos, e disposições mais conciliatórias para com outrem. Por este tratamento, tudo o que neles havia de opiniões orgulhosas e frágeis lhes é arrebatado, ablação em que o ouvinte encontra o maior encanto e, o paciente, o proveito mais duradouro.Há na realidade, um princípio que inspira aqueles que praticam este método purgativo; o mesmo que diz, ao médico do corpo, que da alimentação que se lhe dá não poderia o corpo tirar qualquer proveito enquanto os obstáculos internos não fossem removidos. A propósito da alma formaram o mesmo conceito: ela não alcançará, do que se lhe possa ingerir de ciência, benefício algum, até que se tenha submetido à refutação e que por esta refutação, causando-lhe vergonha de si mesmas, se tenha desembaraçado das opiniões que cerram as vias do ensino e que se tenha levado ao estado de manifesta pureza e a acreditar saber justamente o que ela sabe, mas nada além.

Platão: Sobre marxistas profissionais

Fonte: "Estrangeiro". Os Pensadores III: Platão - 1ª edição - 1972 - Abril Cultural - diálogo "Sofista", "Recapitulação das definições" e "As artes ilusionistas: a mimética".
Como chegam esses homens a incutir na juventude que somente eles, e a propósito de todos os assuntos, são mais sábios que todo o mundo? Pois na realidade, se como contraditores não tivessem razão, ou não parecessem, à sua juventude, ter razão; se, mesmo assim, a sua habilidade em discutir não desse algum brilho à sua sabedoria, então seria caso de dizer, como tu, que ninguém viria voluntariamente dar-lhes dinheiro para deles aprender estas suas artes.Ora, na verdade, os que os procuram o fazem voluntariamente. É que, ao que creio, eles parecem ter uma sabedoria pessoal sobre todos os assuntos que contradizem. E se assim fazem, a propósito de tudo, dão, então, a seus discípulos a impressão de serem oniscientes. E sem o ser, na realidade; pois isso seria impossível. Ao que vemos, pois, o que traz este tipo de pessoa é uma falsa aparência de ciência universal, mas não a realidade.

[...]

Assim, o homem que se julgasse capaz, por uma única arte, de tudo produzir, como sabemos, não fabricaria afinal, senão imitações e homônimos das realidades. Hábil, na sua técnica de pintar, ele poderá, exibindo de longe os seus desenhos, aos mais ingênuos meninos, dar-lhes a ilusão de que poderá igualmente criar a verdadeira realidade, e tudo o que quiser fazer.Não devemos admitir que também o discurso permite uma técnica por meio da qual se poderá levar aos ouvidos de jovens ainda separados por uma longa distância da verdade das coisas, palavras mágicas, e apresentar, a propósito de todas as coisas, ficções verbais, dando-lhes assim a ilusão de ser verdadeiro tudo o que ouvem e de que, quem assim lhes fala, tudo conhece melhor que ninguém?Para a maior parte daqueles que então ouviram tais discursos, não é inevitável que, transcorrido o tempo suficiente de anos, com o avançar da idade, e vistas as coisas de mais perto, as provas que os obrigam ao claro contato com as realidades os levem a mudar as opiniões então transmitidas, a julgar pequeno o que lhes havia parecido grande, difícil o que lhes parecera fácil, uma vez que os simulacros que transportavam as palavras desapareçam em presença das realidades vivas?
(A citação deste trecho interessante não corresponde a uma indicação de leitura do diálogo "Sofista". Em minha opinião, existem outros diálogos de Platão mais proveitosos que este.)

Contextualização

Eu fui marxista quando era jovem demais para saber distinguir a verdade daquilo que somente aparentava ser verdade. Com o passar do tempo, foi ficando cada vez mais claro para mim que o quadro que pintavam para mim era uma ilusão lunática. Todas as soluções que apontavam, para solucionar num passe de mágica todas as mazelas da humanidade, não eram postas em prática "pela direita", "pela burguesia", ou seja lá quem fosse o inimigo na teoria de conspiração da vez, simplesmente por pura maldade ou ganância. Existe maldade e ganância? Sim. Mas todas essas soluções simples e rápidas, defendidas pelos marxistas, tinham por trás custos humanos altos que obviamente não eram revelados nas propagandas. E tudo o que dizem é propaganda (agitprop), é panfletário. São vigaristas aproveitando-se da ingenuidade alheia... E acusando outras pessoas de serem vigaristas aproveitando-se da ingenuidade alheia! Os marxistas profissionais são as raposas que tomam conta do galinheiro. Tal qual no Xadrez, você é um peão a ser sacrificado, para que alguém coroe-se rainha. Eu fui tolo, um idiota útil.Hoje eu já sei ser útil sem ser idiota: mais vale ajudar quem realmente precisa, hoje, do que ficar debatendo teoria marxista, sobre como essas mesmas pessoas serão ajudadas no advento de uma Revolução Socialista™. As ilusões que construíram, e nas quais acreditei, foram desmoronando, conforme fui tendo contato com a real realidade dos fatos, empiricamente: não se sustentavam. Nenhum discurso de político pesa mais que minha experiência de vida. A conversa-mole bate em mim e volta, não entra mais. Eu agora sei discernir o que vale, e o que não vale, por conta própria, sem precisar que alguém pense por mim. Os sabichões partidários não têm como saber tudo.

Editora Monstro dos Mares: conheça!

Fonte: Agência de Notícias Anarquistas, em 29 de novembro de 2018.

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“Criamos a Monstro dos Mares dentro de uma garagem numa noite fria de inverno”

Trocamos uma ideia com Vertov Rox, que faz parte da Editora Monstro dos Mares. Confira a seguir!

Agência de Notícias Anarquistas > Como se deu a formação da Editora Monstro dos Mares? Fale um pouco sobre sua trajetória…

Vertov Rox < Em Florianópolis participávamos de uma iniciativa que se chamava “Centro de Inovação Social dos Araçás”, um espaço que reunia pessoas e comunidades em torno do uso de tecnologias livres para o bem-comum. Nessa oportunidade realizamos diversas conversas sobre segurança, privacidade de dados, etc. Era uma época quente, onde pipocavam notícias sobre a Wikileaks, Marco Civil da Internet no Brasil, Sopa/Pipa e com isso realizamos algumas oficinas de WordPress para Movimentos Sociais e ativistas. Foi então que surgiu a necessidade de imprimir materiais e fizemos a tradução do “Cultura de Segurança: Um manual para ativistas” logo depois disso fui para Cachoeira do Sul, onde junto com algumas amizades criamos a Monstro dos Mares dentro de uma garagem numa noite fria de inverno.

ANA > Em que ano foi isso?

Vertov Rox < Essa parada em Florianópolis foi entre os anos 2009 e 2011, nessa época havia o CMI-Floripa bem ativo e a Rádio Tarrafa FM Livre, duas iniciativas que nos ajudaram e inspiraram muito, com pessoas que temos muito carinho e gratidão por apresentar coletivos e redes horizontais, autogestionárias e de inspiração libertária. A criação da editora em Cachoeira do Sul foi no inverno de 2012 com alguns compas: Khynhu (In Memorian), Lerônimo Burns, Patrick e eu (Vertov Rox.) e de lá pra cá várias pessoas se somaram e outras partiram também, mas cada uma deixou sua contribuição e sua marca.

ANA > O porquê do nome, “Monstro dos Mares”?

Vertov Rox < A ideia surgiu porque estávamos buscando textos que tirassem os pensamentos da espuma da superficialidade e trouxessem para o fundo. É uma analogia ao que esperamos que os livros façam nas nossas cabeças e práticas. Claro que por ter surgido na “ilha”, a piada ficava mais engraçada. (risos)

ANA > E onde ela funciona?

Vertov Rox < A editora é meio nômade assim como cada uma de nós. Já estivemos em Florianópolis (SC), Cachoeira do Sul (RS), Porto Alegre (RS) e União da Vitória (PR). Nos próximos meses partimos para Ponta Grossa também no Paraná. Mas várias pessoas colaboram com as tarefas de revisão por pares, traduções e com textos originais de várias partes do país. A maioria de nossas impressões partem daqui, fazemos tudo o que é possível, tradução, revisão, diagramação, impressão, corte, cola, grampo, finalização, etc. Faz 14 meses que trocamos de impressora e ela realiza a contagem: foram 114.208 impressões (contagem em 24 de novembro de 2018). Para os eventos de Novembro nós fizemos no mês de Outubro cerca de 380 livros para vender e distribuir gratuitamente. Curiosamente voltamos para casa sem praticamente nada já no primeiro evento, o “I Colóquio de Pesquisa e Anarquismo”, na cidade de Florianópolis e infelizmente não deu tempo para rodar mais livros e chegar em SP, Curitiba e no DF onde estão acontecendo eventos anarquistas.

ANA > Há ponto de venda física? E loja virtual?

Vertov Rox < Com muita dificuldade ao longo dos anos estamos tentando nos habituar com essa coisa de vender livros, já utilizamos diversas ferramentas para isso e nos últimos tempos decidimos abrir mão de manter servidores próprios, ficar alimentando plugins, verificando segurança e essas coisas todas. Decidimos utilizar uma lojinha virtual bem comum e canalizar nossos esforços para produzir mais materiais. Então, por enquanto as vendas são somente de mão em mão ou online na nossa página, onde quase todos os títulos estão com o link para donwload ou com a origem dos textos para quem prefere ler o PDF. A loja reúne textos de outros coletivos publicadores como a Editora Subta, Deriva, Raividições, Contraciv e sempre que possível recebemos livros e zines de nossas amizades para vender e distribuir gratuitamente.

ANA > Como funciona o processo de produção editorial da Monstro dos Mares?

Vertov Rox < O material produzido por nós, onde recebemos textos de minas, manos e monas, coletivos e singularidades passam por nosso conselho editorial onde as pessoas apresentam e discutem os textos. Atualmente somos três editores e dez integrantes científicos do conselho editoral. Na medida do possível dividimos as tarefas de preparação do texto, revisão, diagramação, etc.

Estamos tentando colocar a editora como uma alternativa de publicação de baixo e baixíssimo custo para quem produz textos acadêmicos sobre epistemologias dissidentes do século 21 que de alguma maneira se relacionam as questões anárquicas de nosso tempo. Teoria Queer, Feminismos, Giro Decolonial, Anticivilização, Cultura Hacker e outros.

Tudo isso surgiu porque percebemos que infelizmente muitas pessoas só estão encontrando espaço e disposição para suas produções dentro dos muros das universidades e todo os seus esforços para realizarem seus registros teóricos e práticos sobre o nosso tempo, o tempo que há, estão sendo lidos somente por seus orientadores, membros de bancas de avaliação e eventuais pesquisadoras que procuram por esses temas em repositórios acadêmicos.

Nossa editora está disposta em dar divulgação para esses trabalhos que podem contribuir na formação de pessoas interessadas num modo de compreensão de mundo autônomo, libertário, não-binário e anárquico. Reconhecemos que esse não é o processo mais simples, mas que garante a possibilidade de estabelecer vínculos com a tarefa de registrar o nosso tempo e fazer o livro impresso chegar para mais pessoas, preferencialmente grátis (temos uma rede de apoio onde as pessoas contribuem mensalmente para que possamos imprimir e enviar livros grátis para coletivos e singularidades. Ou em edições artesanais de baixo ou baixíssimo custo, para que a informação possa circular mais e mais.

ANA > Quais linhas editoriais orientam o catálogo da Monstro dos Mares? Priorizam a edição de textos marcadamente anarquistas?

Vertov Rox < No site, temos mais de 110 títulos divididos entre os livros e zines de nossa editora e aqueles arquivos marotos que se chegam até nós. Numa observação mais distraída, nem é possível perceber que há uma certa unidade de pós-anarquismo nos títulos que estão lá na lojinha, mas fazem parte de nossas escolhas e preferências que buscam compreender a anarquia não através de uma pecha pós-moderna ou pós-estruturalista, mas que se localiza dessa maneira em nossas pesquisas e interesses. Recentemente publicamos textos originais enviados ou selecionados por nós sobre Pixação, Geografia e Antropologia, sempre com uma relação próxima com uma escolha epistemológica pela anarquia, ainda que isso não passe por um entendimento de anarquismo ou mesmo de uma organização anarquista.

ANA > E quais gêneros vocês publicam?

Vertov Rox < Estamos em lançamento do livro “Manifesto Anarquista e outros escritos” do poeta espanhol Jesús Lizano, um anarquista que produziu muito e nosso amigo Jonas Dornelles realizou um trampo bacana de seleção dessas mais de mil páginas do autor e fez a tradução. Nossas editoras Claudia Mayer e Lívia Segadilha viraram o texto e tornaram esse título nosso segundo trabalho que problematizou a marcação binária de gênero e buscou por outras possibilidades linguísticas. Foi um desafio e tanto publicar um texto de literatura e estamos felizes por isso. Mas no geral, a Monstro dos Mares se posiciona como uma ferramenta de divulgação acadêmica e anárquica de epistemologias dissidentes, independente dos seus formatos.

ANA > Quais os principais títulos e autores publicados por vocês até agora?

Vertov Rox < A editora em sí possui poucos títulos e claro que na lojinha existem uma infinidade de textos. Da Monstro dos Mares, os títulos que despertam mais interesse são “Pixação: a arte em cima do muro”, “Ciberfeminsimo: Tecnologia e Empoderamento” e “Geografias Subterrâneas: Para ensinar uma prática geográfica nas trincheiras da anarquia”. Já os títulos que nós somente fazemos a impressão são: “Anarquismo no Século 21” do David Graeber por Coisa Preta Edições; “Bruxas parteiras e enfermeiras: Uma história de mulheres curandeiras” de Barbara Ehrenreich e Deirdre English por Bruxaria Distro e Editora Subta; e “Como a não-violência protege o estado” de Peter Gelderloos por Editora Subta.

ANA > No geral, publicar livros no Brasil não é fácil, os livros são caros, faltam leitores, livrarias… Editar livros anarquistas é mais complicado ainda, uma aventura constante?

Vertov Rox < De fato não é muito fácil, principalmente na questão de distribuição. Por mais que estejam surgindo diversas distribuidoras de livros independentes no Brasil, tem muita picaretagem também, gente que está nessa só porque a publicação independente é modinha para hipsters e tão aí explorando pequenos editores. Já fomos procurados por distribuidoras que exigem um desconto de 50% no preço de capa, a editora paga o frete pra enviar os livros para a distribuidora e o acerto é realizado 30 dias após a venda (se vender). Para quem depende dos livros para existir é impossível. Esse tipo de negociação é uma exploração e não concordamos nem um pouco com isso. Inclusive escrevemos um manifesto chamado “Não se corromper pra nóis já é vitória! Sobre o processo em curso de gourmetização dos livros independentes.”

Tá certo que tem um monte de playboy pagando de gatinho e criando editoras descoladas, com super acabamentos, edições luxuosas, etc. Algumas dessas novas editoras até que são bem ativistas e possuem catálogos invejáveis, mas será que não seria melhor se fizessem livros mais baratos?

Outra questão importante é que esses números sobre leitores, vendas e tudo mais são bem deficitários, pois computam somente os editores que fazem parte de associações de grandes editores de livros, números de grandes redes de varejo e não contemplam a quantidade de registros ISBN na Biblioteca Nacional, tampouco as editoras que não tem e não querem pagar 2.000 reais para serem associadas de uma entidade que só serve de grife ou formação de cartel. Também não estão nesses dados a quantidade de empréstimos em bibliotecas públicas, bibliotecas universitárias e quanto menos as bibliotecas independentes como são as comunitárias e de organizações sindicais, ocupas, federações, entre outras. E por fim e não menos importantes, nessa conta não entram os sebos, livros usados, vendedoras e vendedores ambulantes e gente como a gente que faz impressões domésticas, corta, cola e bota o livro para circular.

É lógico que gostaríamos de ter mais livrarias e que os livros fossem mais baratos, mas esta é uma crise do capital, não uma crise da cultura anarquista. Nós optamos por publicar livros anárquicos, onde ninguém está ganhando grana, estamos fazendo livros de baixo e baixíssimo custo para que mais pessoas possam ler e se cada militante que tiver uma impressora em casa e um pouco de paciência para lidar com ela, pode ter uma editora anarquista. Com isso poderíamos romper com a lógica de dependência das distribuidoras comerciais ou fantasiadas de independentes. Se cada rolê militante tivesse seu comitê de divulgação, impressão e banquinha de livros e zines, a nossa cultura libertária poderia chegar em mais mãos. Mas é uma questão de consciência e organização.

ANA > O panorama editorial anarquista vai bem, está crescendo? Nos últimos anos temos visto “muitos” lançamentos e iniciativas editoriais Brasil afora…

Vertov Rox < Tem rolado muita coisa mesmo e ficamos bem felizes com isso e tem muito espaço ainda. Vi recentemente numa entrevista que segundo dados da Unesco o ideal é uma livraria para cada 20.000 habitantes. Se quiser saber como isso funcionaria na prática, basta dar uma chegada na América Latina e ver a quantidade de centros sociais ocupados, livrarias independentes e libertárias que existem. A companheirada enche a mochila de livros e vai para o Uruguai, Chile, Peru, Argentina, trocam ideias e materiais, as editoras libertárias são bem próximas. Aqui, mal e mal a galera se conhece, quem dirá montar um foro de editoras libertárias ou uma rede. Acabamos fazendo isso meio que de ponta a ponta, trocando materiais com a Subta, Deriva, Bruxaria Distro, Heretica Editorial Lésbico-Feminista Independente, Nenhures, Edições Baratas e rolês que conhecemos as pessoas. Então se as pessoas se apropriarem dos processos tecnológicos de fazer livros e zines (acreditem, não é difícil, já foi muito pior), poderemos ter mais dezenas de editoras anarquistas ou de inspiração libertária.

ANA > Já pensaram em ter uma livraria própria, um local fixo, como vemos na Europa, Estados Unidos…?

Vertov Rox < Junto com algumas amizades já tentamos manter um espaço e foi um lindo desastre, conheço outros rolês que já tentaram também. Penso que é necessário mais envolvimento na manutenção e existência do espaço do que muitas pessoas estão dispostas. A grande máquina fumegante do capital arrebenta a capacidade de mobilização de muita gente e por fim vira um espaço tocado e frequentado sempre pelas mesmas pessoas. No momento estamos animadas em produzir mais livros. Para 2019 teremos um espaço livre de aluguel para colocar a impressora e a guilhotina. Acreditamos que isso já é um grande passo!

ANA > Vocês acham que os e-books eventualmente substituirão os livros impressos? Ou eles se completam?

Vertov Rox < Sobre os arquivos digitais, não somente os e-books como formato específico, são fundamentais para a difusão das ideias anárquicas e anarquistas, pois muita gente que está na guerra social realiza consultas e autoinstrução através desses textos antes de formar um grupo de afinidade, conhecer um coletivo ou se somar em alguma organização autônoma ou específica. Porém muitas vezes esses arquivos só fazem volume nos computadores das pessoas, pois aquela coleção “baixei mas nunca li” é uma das mais encontradas. Como disse Aragorn em seu maravilhoso manifesto “A necessidade de tinta no papel nas publicações anarquistas da atualidade” um livro ou zine impresso no fundo da mochila de anarquistas é mais importante para a difusão do anarquismo do que qualquer post no Facebook. Encontrar formas de divulgação do anarquismo que chegam efetivamente nas pessoas é passar pela tinta no papel.

ANA > Os livros históricos são muito importantes, mas os e as anarquistas não escrevem muito sobre história, e pouco sobre o mundo atual? E isso acontece não só no Brasil, no mundo todo…

Vertov Rox < É curioso, pois a maioria do que se tem publicado é sobre um anarquismo histórico e ainda há muito para pesquisar e publicar. Existe toda uma tentativa de resgate da história e da memória da presença de anarquistas no século 20. Ao mesmo passo, episódios importantes do nosso tempo já estão completando décadas como exemplo o surgimento da EZLN, Seattle, Gênova… Penso que ainda temos muito para descobrir da história do anarquismo e dos anarquismos, um exemplo interessante é a recente publicação sobre o processo da “Revolução Anarquista na Manchúria” de Emilio Crisi, publicado pela Faísca e também tem livros e zines sobre o que está acontecendo hoje em Rojava, como por exemplo o maravilhoso “Şoreşa Rojavayê: Revolução, uma palavra feminina” pela Biblioteca Terra Livre e o Comitê de Solidariedade à Resistência Popular Curda de São Paulo. E tem muito mais ainda para ser dito sobre diversas experiências, práticas, éticas e inspirações anarquistas de ontem e de hoje.

ANA > É possível traçar o perfil do “consumidor” de literatura anarquista hoje? No auge do anarquismo o trabalhador comum, o braçal, lia muito, não?

Vertov Rox < Não sei o que você quer dizer com “no auge do anarquismo”, pois na minha humilde opinião estamos vivendo um tempo muito frutífero do anarquismo e de inspirações anárquicas pelo mundo todo e que se fizermos o registro de nossas lutas poderemos escrever novos capítulos na história do anarquismo.

Mas voltando à sua pergunta, penso que as pessoas estão interessadas em descobrir as respostas para aquilo que elas acreditam como sociedade e que o anarquismo e as epistemologias dissidentes podem apresentar como chave de leitura. Vários reformismos já foram tentados, várias “mudanças por dentro” frustraram, várias “vanguardas”. Como disse aquele filósofo da fenomenologia, “permanecem como fantasmas as perguntas: Para quê? Para onde? E agora?”.

Os estudos marxistas, marxianos e pós-marxistas estão presentes nas universidades com um solo bem pavimentado e penso que as pessoas que se definem como anarquistas estão encontrando um espaço de articulação de mundo dentro da academia como pouco pudemos ver antes. É lógico que aqui precisamos fazer uma pausa e falar muito sobre nossos próprios privilégios e sobre as terríveis exclusões implicadas nessa juventude branca de classe média que vai às universidades estudar teóricos que em sua grande maioria são homens, cis, brancos, europeus e falecidos. Talvez este seja um bom momento para que as pessoas não-binárias e todas as dissidências possam ocupar as salas das universidades e torcer, sacudir, arejar e trazer novas pesquisas, novo fôlego para a academia. E se há um perfil, posso pensar que são minas, manos e monas que estão na batalha de sobreviver, resistir e permanecer nas classes do ensino superior, mesmo com todos os desafios epistemológicos, má vontade de alguns professores, muita indisposição de colegas de classe e pouquíssimas políticas que possam efetivamente garantir a permanência dessas pessoas. A dúvida é sempre entre existir, pagar o aluguel ou seguir com a matrícula no curso.

ANA > Quais têm sido as principais dificuldades enfrentadas nesses anos de trabalho editorial?

Vertov Rox < Faltam pessoas dispostas em escrever conteúdo não-acadêmico. Grandes obras anarquistas não foram escritas para engordar o Lattes de ninguém, tampouco para garantir o Qualis do seus programas de pós-graduação. Mas neste momento, parece que é somente o que temos (salvo raríssimas exceções). Outro desafio é o de ter que fazer tudo ao mesmo tempo e relativamente sozinhos, nós anarquistas sempre fomos poucos, mas percebo que por vezes nos articulamos em rede somente para realizar divulgações e pouco para falar de nossos sonhos, compartilhar nossos anseios e sobre como é prazeroso produzir os livros que eu quero ler e poder compartilhar com mais gente.

ANA > As feiras de livros anarquistas têm sido importantes para vocês?

Vertov Rox < Sempre que possível estamos presentes nas feiras, antigamente era só SP e POA, este ano pipocaram eventos em toda parte e isso é maravilhoso. Infelizmente não podemos estar em todos os eventos, quando possível enviamos os livros para algum coletivo fazer a frente, vender e distribuir gratuitamente os livros, tirar algum troco para fortalecer seus espaços, etc. É muito bacana estar presencialmente lá, conhecendo as pessoas, vendo que algumas arrobas que a gente conhece são pessoas de verdade, conhecer caras novas, diversos rolês. Infelizmente viajar com livros dentro das malas requer alguma programação e algum dinheiro. Tem sido bem difícil conquistar esses dois itens para estarmos presentes em mais lugares. Mas de 2013 pra cá já estivemos três vezes na feira de SP, três vezes em Porto Alegre e agora recentemente em Florianópolis. Já temos ótimas lembranças de todos esses rolês.

ANA > E o que vocês estão preparando para 2019?

Vertov Rox < É para dar Spoiler? (risos) Bem, vamos intensificar os lançamentos do final de 2018, principalmente o “Trilhas dos imaginários sobre indígenas e demografia antiautoritária: um experimento de antropologia anarquista” que a antropóloga Carolina Sobreiro realizou junto aos Mebengokré. Eu estou trabalhando na tradução de algumas cartas dos chamados “quatro de Madrid“, que são presas e presos anarquistas submetidas aos regimes especiais de isolamento. Temos um grande lançamento sobre pixação que vamos precisar da ajuda de todas as pessoas para fazer um financiamento coletivo e rodar o livro, nossa compa Lucimar Braga está fazendo a editoração dos capítulos que o autor nos enviou sobre a representação do indígena no cinema latino-americano. Já falei demais! Tem bastante coisa acontecendo e gostaríamos de estar em tempo integral nesse projeto, mas cada pessoa faz aquilo que pode nos horários disponíveis, pois a vida não para pra gente poder fazer livros.

ANA > Tens algum livro anarquista de cabeceira?

Vertov Rox < Bhá! É uma sacanagem essa pergunta! Até bem pouco tempo era o “Dias de Guerra, Noites de Amor” da Crimethinc, publicado pela Editora Deriva e que agora está disponível pela Coisa Preta Edições. Mas um livro fininho chamado “Ai Ferri Corti: Confronto mortal com o existente, os seus defensores e os seus falsos críticos.”, edição portuguesa da editora Textos Subterrâneos tem me feito pensar sobre uma ontologia anárquica e propõe novas reflexões em cada leitura.

ANA > Algum toque final? Valeu, longa vida à Monstro dos Mares!

Vertov Rox < Agradeço a oportunidade de poder falar publicamente sobre como o anarquismo, as ideias de inspirações anárquicas e as epistemologias dissidentes mudam a minha vida todos os dias em que abro um livro, me ponho a ler, pensar sobre como posso compreender o mundo e agir. Espero que mais pessoas possam parar um pouco de assistir suas séries favoritas e tirem um tempinho para ler, escrever, traduzir, editar, imprimir e distribuir ideias que possam fazer emergir algo novo.

Livros e Anarquia [[[A]]]

Editora Monstro dos Mares

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Por fora: bela viola; por dentro: pão bolorento

Fonte: Carlos Afonso Schmitt. O Coração vê mais longe que os olhos - XIII edição - 1978 - capítulos 10 e 12.


De todos os lados e a todo momento sou alvejado pelos chamativos de um mundo que me arranca de minha interiorização e me joga na superficialidade dos mais diversos e baratos atrativos, que apenas alimentam ligeiramente os olhos, sem tempo de chegar ao coração.

E eu pensava: o que vejo não é mais que uma casca. O mais importante é invisível...

-- Exupéry

Há corpos doentios, miseráveis até, escondendo um coração precioso e carregado de obras boas. Há figuras imponentes, criaturas impecavelmente vestidas e tratadas, ocultando um espírito egoísta e podre, vazio de todos os desejos bons e virtuosas realizações.

Estamos no século da imagem e mais do que nunca "aparentamos", com muita maestria e falsidade. Somos capazes de convencer-nos, a nós mesmos, que nossas aparências condizem com o conteúdo interno que supomos ter.

Mas, o certo é que os olhos nos enganam por completo. As verdades verdadeiras - aquelas que nascem e crescem na alma da gente, que serão nossa identidade última [...] - estas verdades os olhos não captam. Estas pertencem ao domínio do coração, onde o mais secreto e abscôndito se põe às claras. Onde a virtude e a hipocrisia são reveladas, podendo iludir-se apenas aquele que, maldosamente, quiser enganar-se.

Tolstói: opor-se ao mal sem violência

Fonte: Leon Tolstói. Biblioteca do Pensamento Vivo - 16: O Pensamento Vivo de Tolstoi, apresentado por Stefan Zweig. Livraria Martins Editora. Quinta parte, seção "Três parábolas", parábola I.
O joio começou a brotar no prado.Para se livrar dele, os donos do prado puseram-se a ceifá-lo, e, como era de esperar, nasceu ainda mais espesso. Ora, um bom e sábio proprietário da vizinhança, visitando os donos do prado, deu-lhes muito conselhos e lhes ensinou que deviam, não ceifar o joio, pois isto só serviria para propagá-lo, mas arrancá-lo pela raiz.Os proprietários do prado, por não terem notado, dentre os conselhos do vizinho, o que se referia à necessidade de extirpar o joio, em vez de ceifá-lo; por não o terem compreendido, ou por não se conformarem com isso, devido a cálculos pessoais, continuaram a ceifar o joio e, consequentemente, a multiplicá-lo.Nos anos seguintes, mais de uma pessoa lembraram-lhes o conselho do bom sábio vizinho, porém eles não escutaram e continuaram a agir como dantes. A ceifa do joio brotado tornou-se não somente um hábito, mas também até mesmo, uma tradição sagrada, e o campo se ia obstruindo cada vez mais.Chegou finalmente o momento em que, no prado, só havia joio. Os proprietários se lamentavam e procuravam um remédio para a situação. Havia um, somente um: o que lhes indicara o bom e sábio vizinho. Continuaram, porém, sem querer aplicá-lo.Nos últimos tempos, um transeunte, penalizado de ver devastado um campo tão bonito, procurou as instruções deixadas pelo sábio proprietário e esquecidas a um canto, em busca de uma que fosse apropriada à situação. Descobriu então a que dizia que o joio não deve ser ceifado, mas arrancado pela raiz. Mostrou aos proprietários do campo que tinham sido imprevidentes e lembrou-lhes que, havia muito tempo, um bom e sábio proprietário lhes chamara a atenção para isso.Em vez de verificar a veracidade do que dizia o homem e, caso fosse exato, deixar de ceifar o joio, ou caso contrário, provar onde estava o erro, ou ainda aceitar incontinenti o conselho do sábio e bom proprietário, os donos do prado se decidiram pelo quarto alvitre e, mostrando-se ofendidos com o apelo que lhes fazia à memória o transeunte, puseram-se a invectivá-lo.Uns qualificavam-no de orgulhoso, por pensar que fosse o único no mundo a compreender as instruções do bom proprietário. Outros chamavam-no falso intérprete, traidor, caluniador. Outros ainda, sem perceber que ele nada dissera de si, mas simplesmente lembrara os conselhos dum homem admirado por todos, afirmavam ser ele um indivíduo nocivo, desejoso de ver o joio a tal ponto multiplicado que o campo ficasse completamente perdido.Ele pretende que não se ceife o joio - gritavam. Mas se não o destruírmos, ele se reproduzirá sempre e adeus campo! Então, foi-nos ele dado para que nele cultivássemos a erva má?Intencionalmente calavam que o homem aconselhara, não que se poupasse o joio, mas que se arrancasse pela raiz, em vez de ceifá-lo.A opinião de que o homem era um insensato, um intérprete mentiroso, um monstro desejoso do mal de outrem, de tal modo se firmou, que quem não zombava dele cumulava-o de injúrias. A despeito de todas as explicações de que não desejava a multiplicação do joio, mas achava que destruí-lo é um dos principais deveres do dono da terra, compreendendo esta destruição do mesmo modo que o bom e sábio proprietário e somente lembrando os conselhos deste, não obstante tudo o que pudesse dizer, ninguém o escutou. Já ficara definitivamente decidido que ele estava louco de orgulho, que era um traidor à palavra do sábio e bom proprietário e um celerado tão negro, a ponto de convidar os outros a não mais destruir a erva má, antes a cuidá-la e favorecer sua reprodução.

* * *

O mesmo me aconteceu quando pleiteei a favor do preceito do Evangelho que recomenda não combater o mal pela violência. Esta regra foi dada por Cristo e todos os discípulos depois dele a repetiram, em todos os tempos e em todos os lugares. Seja por não a terem notado ou por não a terem compreendido, seja ainda por ter parecido muito difícil agir de acordo com ela, mais passa o tempo, mais é ela negligenciada e mais a disposição de vida dos homens dela se afasta. Enfim, aconteceu o que hoje verificamos: esta regra começa a parecer, aos olhos do mundo, como uma coisa nova, desconhecida, senão estranha e mesmo insensata.Deu-se comigo o mesmo que com aquele transeunte que lembrava aos donos do prado a antiga prescrição do bom e sábio proprietário, segundo a qual não convém ceifar a erva má e sim arrancá-la pela raiz. Os donos do campo propositadamente silenciaram que a prescrição recomendava, não que conservassem o joio, mas que não o destruíssem desarrazoadamente, e declaravam: "Este homem é um insensato; aconselha-nos a não ceifar o joio, mas a replantá-lo, ou pouco falta para isso". Também quando afirmei que, para abolir o mal, tínhamos de nos adaptar ao preceito de Cristo, que nos ensina a não opor violência ao mal, mas a extirpá-lo pelo amor, gritaram: "Não escutemos este insensato que nos induz a não lutar contra o mal, para que o mal nos sufoque".Dizia que, segundo a doutrina cristã, o mal não será desenraizado pelo mal; que lutar contra o mal pela violência é simplesmente aumentar a sua força; que Jesus formalmente declarou que o mal se extirpa com o bem. "Abençoai os que vos amaldiçoam, rezai pelos que vos ofendem, amai vossos inimigos e não tereis um inimigo". (Ensinamentos dos doze Apóstolos). Mostrava que o Evangelho afirma ser toda a vida do homem uma luta contra o mal, que é pela espiritualidade e pelo amor que o homem vence o mal, que, de todas as armas a usar contra o mal, Cristo exclui esta arma imprudente da violência, a luta contra o mal pelo mal.Dessas palavras minhas se concluiu que eu atribuía a Cristo uma doutrina pela qual não se deve resistir ao mal... Todos aqueles cuja vida se baseia na violência e a quem, por conseguinte, a violência é cara, acorreram a adotar esta falsa interpretação das minhas palavras e mesmo das de Jesus, a proclamar que a doutrina que manda não opor a violência ao mal é uma doutrina mentirosa, insensata, sacrílega e nociva.E os homens, a pretexto de destruir o mal, continuam tranquilamente a reproduzi-lo e a multiplicá-lo.

Lutzenberger: o poder corrompe

Fonte: José Lutzenberger , em Coleção Universidade Livre: Ecologia - Do Jardim ao Poder. 10ª edição. Capítulo "A tragédia do poder".

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Ouvem-se muitas vezes discussões com base na pressuposição de que haveria uma diferença fundamental entre uma empresa e um governo, uma vez que a empresa persegue lucro e o governo não. Isso é uma perigosa ilusão. A empresa não persegue o lucro pelo lucro. O lucro é para a empresa um meio para alcançar certos alvos implícitos. [...] O alvo que o executivo persegue é a manutenção e ampliação de seu poder. [...] Toda burocracia, estatal ou empresarial, é estrutura de poder. Os intrumentos de poder de que cada uma se serve podem variar enormemente. Pouco importa que a respectiva burocracia fabrique aço ou automóveis, gere eletricidade em reator nuclear, venda bombons ou preservativos, ou que administre um governo, uma autarquia ou sindicato. Quer seja em esquema democrático ou totalitário, o que toda burocracia persegue é a sua própria sobrevivência e ampliação. Realmente não interessa que ela se chame General Motors ou Partido Comunista Soviético, ou mesmo Igreja Católica ou federação mundial do voodoo.

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Se os governos não perseguem lucro, é porque realmente não necessitam. Eles têm força para sugar impostos e aumentá-los como e quando lhes convêm e, afinal, o dinheiro quem faz são eles. Um governo pode até, tranquila e legalmente, emitir dinheiro falso. A inflação é isso mesmo, é dinheiro sem fundo emitido pelo próprio governo. Quando, então, alguém procura se defender do logro aumentando seus preços, a administração pública facilmente o acusa de especulador e não hesita mesmo em aplicar punições severas. Portanto, se as grandes corporações são perigosas e precisam ser controladas, quanto mais os governos, cujo poder está submetido a muito menos controles! São ainda poucos os casos em que grandes firmas tenham conseguido colocar em campo de concentração ou executar seus opositores, mas quem lê jornal e estuda História sabe que este tipo de atividade é perfeitamente normal para inúmeros governos e de todas as colorações ideológicas.Os alvos explícitos do governo são sempre humanitários. Não poderiam deixar de sê-lo. Todo chefe, legítimo ou não, deseja a fé dos governados, mas ele deseja muito mais manter-se no poder. Faz então o que considera necessário para tanto, mesmo que isso signifique perda de popularidade ou o cultivo da grande mentira. Acaba sempre acreditanto na legitimidade dos meios que usa. Quanto mais irrestrito for seu poder, a mais extremos estará disposto. É preciso ser muito simplório, estar possuído de fé muito cega, para acreditar, como acreditam alguns revolucionários abnegados, na incorruptibilidade da pessoa no poder. Quanto mais envolvente e fanática for a ideologia, mais ela se presta a desmandos. Giordano Bruno foi queimado vivo em nome de uma religião que professa o "ama o próximo como a ti mesmo".Por que será que tantos movimentos de libertação, com ideologias aparentemente tão humanas, desembocam tão frequentemente em ditaduras ferozes e sangrentas?Acontece que os ideólogos destes movimentos caem quase sempre na mesma armadilha. Postula-se que, estanto a sociedade ou o grupo em questão oprimidos por pequeno grupo de aproveitadores ou mesmo tirano solitário, basta acabar com os maus e substituí-los por um dos bons -- haja vista a ideia da "ditadura do proletariado" -- e estará iniciado o Milênio, isto é, o fim da História. A humanidade seria feliz e não mais teria problemas. Protótipo deste pensamento simplório é o filme de mocinho. No início da história, o heroi bom, idealista, honesto, injustamente perseguido, se vê rodeado de bandidos. À medida que o enredo se desenrola, ele os vai matando um a um. Quando, após mil peripécias, liquida o último, lá está o mocinho, supremo, glorioso. Agora termina o filme. Não há mais nada para contar. Mas aqui deveria recomeçar, pois agora sobra um só bandido, mandão, solitário. Será que ele vai saber se comportar sem oprimir ninguém?Todo poder corrompe, por melhores que sejam as intenções, nem que seja só pelo servilismo dos subalternos ou pelo imobilismo e a esclerose do mecanismo burocrático. As burocracias facilmente degeneram em burrocracias. Esta tendência é diretamente proporcional ao crescimento em tamanho e centralização administrativa. É melhor, ou traz um mal menor, o poder dividido entre muitos bandidos do que o poder na mão de um só jesus cristo. É sabido que os piores estragos podem ser causados por gente muito bem intencionada, disposta inclusive a sacrifícios extremos. O missionário, na melhor das intenções e com grande engajamento pessoal, acaba destruindo culturas de sabedoria milenar. Sempre que o poder estiver em uma só mão, por mais virtuosa que seja, todo aquele que tiver ideias e alvos diferentes inevitavelmente sofrerá. Distribuído entre muitos detentores, mesmo mal intencionados, o poder se torna menos envolvente, deixa muitas frestas, e os diferentes centros de poder se combatem ou se freiam mutuamente. É so por isso, não porque nossos mandatários sejam mais humanos, que temos um pouco mais de liberdade pessoal, liberdade de expressão e informação, nas democracias ocidentais e mesmo em certas semiditaduras capitalistas, do que nas burocracias totalitárias que se dizem comunistas ou democracias populares. Do nosso lado, o poder está mais fracionado. Temos os governos em seus níveis municipal, estadual ou provincial e central, com os poderes executivo, legislativo e judiciário, as empresas, grandes e pequenas ou multinacionais, os particulares, clubes, fundações, sindicatos, autarquias, meios de comunicação, entidades de ação comunitária, etc, etc.As grandes injustiças acontecem sempre naqueles lugares e naquelas circunstâncias onde uma só entidade ou indivíduo tem poder predominante. A propaganda dos governos comunistas gosta de falar do "capitalismo monopolista". Ora, este temos se aplica perfeitamente a eles. Os países capitalistas são oligopolistas, um mal apenas um pouco menor que o capitalismo de monopólio total do Estado.As grandes empresas e mesmo multinacionais são tidas por alguns como empresas "privadas", como se elas fossem propriedade particular de alguém. Elas são estruturas de poder como são os governos. Quem já trabalhou em grandes empresas e em organismos estatais sabe que não há diferença. Apenas o âmbito de ação difere de uma burocracia para outra, mas há muita superposição e entrosamento. Daí a inevitável desilusão após as estatizações. Isto porque a estatização não destroi, não desmantela o poder, apenas o transfere. Em geral, a transferência se faz de um centro menor para um maior, que se torna então ainda mais poderoso. Por isso, a perda de liberdade e de alternativas para o indivíduo é pior depois do que antes da estatização. Não é por nada, não obstante toda legislação antitruste (quase sempre hipocritamente aplicada), que os grandes trustes procuram fusionar-se sempre mais.

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Ideal seria uma sociedade sem governo, sem polícia, uma sociedade autogovernada, onde cada indivíduo se comportasse de acordo com o bem comum. Esta é a situação dos remanescentes intactos de tribos indígenas, e esta parece ter sido a situação normal do Homem durante a Idade da Pedra, nas comunidades caçadoras-coletoras. Isto é, durante mais de dois milhões de anos, pelo menos 99,5% de nossa história. [...]Em termos cibernéticos, o poder é um processo que tem retroação positiva: quanto mais poder, mais fácil sua ampliação. Por isso, o poder acaba invadindo áreas onde nenhuma função legítima teria. À medida que aumentamos e complicamos nossas estruturas tecnológicas e administrativas, surgem estruturas de poder sempre mais centralizadas e envolventes. Com isso, damos sempre mais chance a indivíduos egoístas, insensíveis, cínicos, sedentos de poder. O grave inconveniente de toda estrutura de poder é que o crivo da seleção para ascenção dos chefes tem sinal inverso ao do crivo da seleção natural. Na seleção natural é propiciado o que convém à estabilidade, à harmonia, e ao aperfeiçoamento do sistema. Nas estruturas burocráticas, entretanto, verifica-se uma seleção que propicia os traços mais indesejáveis. Na pirâmide do poder, quem sobe mais rápido e mais alto não é o mais apto, decente, honesto, menos ambicioso. É todo o contrário. Por isso, a tragédia dos esquemas anarquistas em sociedades humanas é que, abrindo vácuos de poder, estes são logo aproveitados por tiranos potenciais, e a sociedade se encontra desarmada diante deles.Parece-me que o problema central de toda sociedade humana é como conseguir controle efetivo do poder, como evitar sua usurpação. É certo que, dentro de certa medida, o poder é um mal necessário. Mas devemos sempre colocar ênfase no mal, não no necessário.

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Assexualidade: FAQ

Este post consiste de um trecho do artigo a seguir:O trecho passou por edições de formatação visual para que fosse mais adequado ao formato de um blog.

Introdução

Assim como outras orientações sexuais, a assexualidade – ou a falta de desejo sexual não patológica -, sempre existiu, mas diferentemente da homossexualidade, por exemplo, nunca foi ilegal, imoral ou controversa. Até o advento da internet, os indivíduos assexuais relatam ter vivido em seu isolamento demográfico, desconhecendo a existência de outras pessoas que, como eles/as, travavam uma luta consigo mesmos/as e com a sociedade por serem diferentes da maioria. A partir do início do século XXI, a popularidade das redes sociais na internet facilitou a formação de comunidades construídas em torno de identidades assexuais.As considerações preliminares sobre assexualidade apresentadas neste artigo – fundamentadas na perspectiva da AVEN – Asexual Visibility and Education Network -, mostram o baixo grau de visibilidade no qual vivem os indivíduos que não têm interesse na prática do sexo, assim como seus esforços no sentido de construir uma identidade sexual que seja legitimada, reconhecida e aceita pela sociedade.O objetivo deste artigo é descrever e analisar a assexualidade – aqui compreendida como a sexualidade dos indivíduos que não têm interesse pela prática do sexo-, conforme apresentada pela comunidade assexual norte-americana AVEN – Asexual Visibility and Education Network, a partir do estudo do material contido no sítio virtual da organização.A AVEN – Asexual Visibility and Education Network foi fundada em 2001 pelo jovem norte-americano David Jay, o qual relata que, desde sua adolescência nos anos 1990, sentia-se diferente de seus pares, não compartilhando suas expectativas em relação à atividade sexual e aos relacionamentos amorosos. A partir da percepção de sua falta de interesse por sexo e da falta de interlocutores sobre o assunto, decidiu, iniciar um fórum virtual de discussão sobre a falta de desejo sexual, buscando, desta forma, agregar outras pessoas que se sentissem como ele. Para sua surpresa, descobriu que eram muitas as pessoas que não se identificavam com os modelos de sexualidade existentes na sociedade. E, assim, nasceu a AVEN, que viria a se tornar, nos anos seguintes, a maior e mais importante comunidade de assexuais do mundo.

FAQ

Segundo a AVEN:
  • celibato: assexualidade e celibato são conceitos diferentes. Para a AVEN e seus membros, celibato é a escolha consciente pela abstinência sexual. Na assexualidade, porém, não existe a atração sexual por outras pessoas, portanto não há repressão ao desejo. Os/as assexuais fazem questão de enfatizar que a assexualidade não é uma escolha, sendo a falta de interesse por sexo uma característica do sujeito assexual, daí o caráter reivindicado de orientação sexual semelhante à heterossexualidade, à homossexualidade ou à bissexualidade.
  • sexo e masturbação: a assexualidade não diz respeito ao comportamento do indivíduo assexual – lembrando que os/as assexuais são perfeitamente capazes de engajar-se em atividade sexual, mesmo sem atração -, mas refere-se exclusivamente à existência ou não de interesse por atividade sexual com parceiro/a. Neste sentido, a masturbação, por tratar-se de prática autoerótica, não entra em conflito com a definição de assexualidade proposta pela AVEN. Sabe-se que parte dos/as assexuais pratica a masturbação, sem que haja a necessidade ou a vontade de evoluir para a prática sexual com parceiro/a. Outros/as a praticam como alívio a uma necessidade fisiológica, sem estabelecer uma associação entre a prática da masturbação e o contexto mais amplo da sexualidade com parceiro/a.
  • amor: os/as assexuais da AVEN fazem distinção muito clara entre amor e sexo. Parte dos/as assexuais sente interesse amoroso e deseja estar em relacionamentos românticos, preferencialmente sem atividade sexual; porém, também existem aqueles/as que não têm interesse nem mesmo por parcerias amorosas. A AVEN chama de românticos/as os assexuais que desejam um relacionamento amoroso, e de arromânticos/as, aqueles/as que não desejam. Outra constatação entre os membros da AVEN, é que alguns/mas assexuais românticos/as estão envolvidos/as em relacionamentos com pessoas não assexuais, surgindo a necessidade de negociação da existência ou frequência da atividade sexual, ou da formação de relacionamentos não monogâmicos.
    A atração afetiva dos/as assexuais românticos/as pode ser direcionada ao mesmo sexo, a sexo diferente, a qualquer dos sexos, ou ser independente de sexo ou identidade de gênero; em relação ao alvo de interesse romântico, a AVEN classifica os assexuais como homorromânticos/as, heterorromânticos/as, birromânticos/as ou panromânticos/as, respectivamente. Foi necessária a criação de um novo vocabulário para descrever as experiências assexuais. Essas experiências parecem mostrar que existe uma orientação afetiva adicionalmente à orientação (as)sexual. Isso coloca assexuais homorromânticos/as e birromânticos/as na mesma arena de disputa por direitos do movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros), e também os/as transforma em alvo da mesma discriminação que esse grupo experimenta.
    Além da experiência da homofobia relatada por assexuais de orientação afetiva diferente da heteronormativa nos fóruns da AVEN, mesmo os/as assexuais classificados como heterorromânticos/as relatam experiências de discriminação, pois a eles/as é atribuída socialmente uma homossexualidade presumida, por conta da não conformidade com os padrões heterossexuais dominantes na sociedade, sobretudo os padrões de masculinidade. Assexuais transexuais também relatam experiências de transfobia. Essas experiências discriminatórias têm na escola seu lócus privilegiado. Muitos dos relatos nos fóruns de discussão da AVEN apontam a escola como a primeira instituição na qual jovens e adolescentes assexuais tomam consciência de sua diferença em relação aos pares, bem como local da ocorrência de episódios de discriminação homofóbica e transfóbica.

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