Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Anders Bateva

Nonfiction Litblog. Fichamentos / clippings / recortes de não-ficção. Prospecções literárias em: Ciências Sociais; Informática; e Ciências Ambientais.

Anders Bateva

Nonfiction Litblog. Fichamentos / clippings / recortes de não-ficção. Prospecções literárias em: Ciências Sociais; Informática; e Ciências Ambientais.

Economias Centralmente Planejadas → engenharia social ∧ ¬humildade epistemológica / Instituto Liberal

Alberto Oliva. Entre o Dogmatismo Arrogante e o Desespero Cético: a Negatividade como Fundamento da Visão de Mundo Liberal, Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1993. Capítulo I: "O Embasamento Epistemológico do Liberalismo". Seção 3: "A dispersão do conhecimento".

[...] Mente nenhuma singular pode conhecer mais do que uma fração de tudo o que é conhecido pela soma de todos os intelectos. Isto significa que cada um de nós tem acesso apenas a um diminuto conjunto de informações; que cada um de nós só compreende aprofundadamente o funcionamento de restritos setores da "Máquina do Mundo"; que, em suma, só controlamos, através da posse de efetivo saber, um número ínfimo dos mecanismos que põe em movimento a realidade social em sua totalidade. E se muito pouco cada indivíduo ou grupo conhece do Mundo Social, modestas devem ser suas pretensões transformantes.

Ora, se o conhecimento encontra-se disperso pelos indivíduos e se todo enfoque que cada um de nós aplica ao fluxo potencialmente infinito da experiência é sempre seletivo, mesmo quando se está fazendo ciência, então não há como postular a posse de uma sabedoria sobre, por exemplo, o completo funcionamento do Sistema Social. Consequência disso é que não há indivíduo ou grupo capaz de, com base em adequado conhecimento, arvorar-se em planificador da "racionalidade social" e em demiurgo estipulador de como devem as instituições ser e funcionar. Muito do que o engenheiro social vê como imperfeição funcional das instituições não submetidas à direção de uma autoridade central decorre da existência de uma miríade de saberes dispersos e da ampla variedade de projetos que se pode acalentar quando se vive sob a plena vigência da liberdade. Intentar subjugar à planificação central a multiplicidade, sobre a qual não se dispõe de efetivo conhecimento, só é possível pela imposição de um projeto autoritário de regulamentação das ações, cuja ambição maior é reduzir a riqueza e variedade de perspectivas epistemológicas, existenciais e de competição no mercado, à monocórdia visão dos que, via Estado forte, compelem os indivíduos a se submeterem ao seu projeto político.

A busca do estrito controle epistemológico de todas as variáveis envolvidas em todos os processos de criação e reprodução da ordem social -- via planejamento central -- não tem como ser viabilizada por não se poder dispor -- de forma concentrada -- de todo o conhecimento disperso pelos diferentes agentes sociais. A atitude demiúrgica, que se diz em condições de produzir a completa remodelagem revolucionária do que existe, escora-se numa teoria do conhecimento que acredita possível a obtenção de um saber capaz de aprender a oculta dimensão da realidade. Marx, que está entre os mais radicais proponentes de engenharia social, não se cansa de enfatizar, em Das Kapital, que a ciência desvenda o modo essencial de manifestação da realidade contra as ilusões nas quais se enreda o senso comum, prisioneiro que é do imediatamente dado. [...] Se o conhecimento pode alcançar a essência recôndita do que é investigado, então não tem por que ser humilde. Pode praticamente tudo: revelar-nos como e por que as coisas são como atualmente são, até prescrever como deveriam ser para que fossem melhores.

A epistemologia que se apóia na distinção entre essência e aparência, para conferir à ciência a prerrogativa de apreender os determinantes ocultos dos fenômenos que escapam às visões alternativas [...] pode oferecer a base ideológica para o autoritarismo dos que se julgam possuidores desse saber especial e acreditam poder transformar o mundo -- de forma revolucionária e completa -- a partir de sua aplicação.

[...] Quanto maior a concentração de poder, via planejamento central, maior a perda de uso do amplo conhecimento disperso entre os indivíduos, e maior a inibição à produção de novos conhecimentos. A invenção e a descoberta pressupõem as múltiplas e descentralizadas atividades que se aninham no interior da ordem espontânea. [Entende-se por] ordem espontânea não a anarquia da total falta de regulamentação, mas sim a preservação da miríade de planejamentos setoriais, estribados nos variegados conhecimentos especiais que os indivíduos têm na circunstância físico-social com a qual mantêm contato privilegiado. Nesse sentido, a ordem espontânea é o correlato sistêmico-funcional da liberdade individual. Disso se segue que não há como nutrir a pretensão de alterar profundamente a ordem espontânea sem diminuir (destruir) a liberdade dispersamente usufruída, porque vinculada aos mais diferentes projetos de vida, pelos indivíduos.

[...] A necessidade de planejamento, entendido como o complexo de decisões interrelacionadas sobre a alocação de nossos recursos disponíveis (Hayek, 1949, p. 78) [ é inegável. Entretanto,] a planificação centralizada descura do fato decisivo de que, se por um lado, pode-se enfeixar suficiente poder para coagir os indivíduos a fazerem isto ou aquilo, por outro, não há como concentrar todo o conhecimento que se mostra irremediavelmente distribuído pelas inúmeras mentes e atividades individuais. [...] Entende[-se, portanto] que o planejamento não deve ser feito de forma centralizada para todo o sistema econômico, mas dividido pelos muitos indivíduos. Nesse sentido, são epistemológicas as principais razões que o liberal invoca contra a postura que defende o direcionamento de todo o sistema econômico a partir de um plano unificador.

Status quo

Não procede a acusação, amiúde dirigida aos liberais, de que a visão de mundo que esposam aspira à manutenção do status quo. Se atentos a seu embasamento filosófico, não descuraremos do fato de que sua preocupação maior é a de determinar o quanto conhecemos, com segurança, o que investigamos. Dessa definição depende a justificação do alcance e da extensão de nossos projetos de intervenção na realidade. Propostas de aperfeiçoamento institucional são benvindas, desde que escoradas em efetivo conhecimento de sua funcionalidade e desde que proporcionem, através de um experimentalismo gradualista, a garantia de que estamos nos encaminhando para performances individuais melhores, com total preservação da liberdade. Do contrário, estamos diante de arroubos de engenharia social, inseparáveis da crença arrogante de que temos como obter conhecimento demonstrativamente certo, capaz de legitimar os impulsos demiúrgicos que pretender recriar o mundo social à imagem e semelhança do grupo que está no poder hipertrofiado.

Quando dispensamos adequada atenção ao pano de fundo epistemológico dos liberais, é-nos possível constatar que seu modo de rechaçar o planejamento central é decorrência da convicção de que nenhum de nós dispõe de conhecimento capaz de justificar amplas reestruturações globais. Consequência prática do cerceamento da liberdade é a ineficiência epistemológica geradora da estagnação econômica: reduz-se a rica multiplicidade de projetos que pululam no mercado a um só horizonte, o capitaneado pelo Estado. Mas ainda que o grupo que controla conjunturalmente o aparato estatal possuísse, circunstancialmente, um tipo especial de conhecimento, isso não justificaria a ideia de necessidade do planejamento central. Mesmo porque a perda de liberdade para o Estado, que hoje pode parecer legítima, impediria essa mais ampla movimentação no mercado de ideias e bens que torna possível o surgimento de novos produtos e conhecimentos capazes de melhorar nossas condições de vida grupal.

[...] Reduzir o debate a uma contraposição entre "progressistas" -- os que querem tudo mudar, mesmo sem disporem do indispensável conhecimento disperso pelas diferentes esferas de ação individual -- e "conservadores" -- os que advogam que modificar globalmente a ordem espontânea só seria racionalmente possível se determinado indivíduo ou grupo pudesse enfeixar todo o conhecimento em seu interior pulverizado sem acarretar a supressão da liberdade -- é descurar do fato de que as diferenças entre liberais e "planificadores centrais" promanam, antes de mais nada, do endosso a discrepantes teorias do conhecimento.

Referência

  • HAYEK, F.A. (1949). Individualism and Economic Order. London: Routedged and K. Paul.

Liderança: Teoria X ≠ Teoria Y

Mario Sergio Cunha Alencastro. Livro Ética empresarial na prática: liderança, gestão e responsabilidade corporativa. Capítulo 3.7: "O papel da liderança". Editora Intersaberes, 2016.

Douglas McGregor (1999) desenvolveu os conceitos denominados de teorias X e Y, que concebem o homem de forma totalmente diversa, pois estão baseadas em visões de mundo diferentes e que permitem a determinação dos diversos estilos de liderança existentes.

Quadro 3.2 - Teorias X e Y
Teoria X Teoria Y
O trabalho é, por si mesmo, desagradável à maioria das pessoas. Havendo condições favoráveis, o trabalho é tão natural quanto a recreação.
A maioria das pessoas não tem ambição, não deseja responsabilidades, e prefere ser dirigida. Para a consecução dos objetivos da organização, muitas vezes é indispensável o autocontrole.
A maioria das pessoas tem pouca criatividade para resolver problemas organizacionais. Está amplamente difundida entre o pessoal a criatividade para a resolução de problemas organizacionais.
A motivação somente existe nos níveis fisiológicos e de segurança. A motivação existe tanto nos níveis sociais, de estima, e de autorrealização, quanto nos níveis fisiológico e de segurança.
É preciso submeter os trabalhadores a um controle direto e, muitas vezes, a uma verdadeira coação, a fim de alcançar os objetivos da organização. Se adequadamente motivadas, as pessoas podem ser criativas e autodirigidas.
Fonte: adaptado de McGregor, 1999, p. 37-38.

A teoria X pode desencadear certos tipos de práticas gerenciais, como o paternalismo, a não delegação de decisões, o controle e a punição, tornando a remuneração e a segurança as únicas formas de incentivo ao trabalho. A inadequação da teoria X reside na preocupação em satisfazer exclusivamente as necessidades fisiológicas do ser humano. Sabemos que a satisfação desses necessidades não é um fator motivador para o trabalho. Os benefícios e salários complementares podem ser usados para a satisfação das necessidades de uma pessoa somente fora da empresa. Dessa forma, a motivação para o trabalho deve ser encontrada na satisfação de outras necessidades.

O ser humano também apresenta as necessidades sociais e do ego, isto é, as de autoestima, autonomia, realização, reconhecimento e status. São essas necessidades (superiores) que motivam o indivíduo para o trabalho, e sua privação pode levá-los à passividade, à má-vontade de aceitar responsabilidades, e à resistência às mudanças. Os gerentes exclusivamente "tipo X" acabam por estimular comportamentos negativos por parte de seus empregados.

Já na teoria Y, a forma de influência pregada é a da integração entre as necessidades e as aspirações do indivíduo e o sucesso da empresa. O indivíduo que estiver comprometido com os objetivos da empresa não precisa ser controlado, pois ele mesmo se autocontrola, ou seja, a autodisciplina depende do grau de comprometimento do indivíduo com os objetivos da empresa.

A teoria Y não nega o exercício da autoridade. A autoridade é até mesmo perfeitamente adequada como meio de influenciar comportamentos em certas ocasiões. Contudo, há inúmeras circunstâncias nas quais o simples exercício da autoridade deixa de alcançar os resultados desejados.

Podemos fazer um paralelo entre as duas teorias, conforme esquematizado na Figura 3.3.

Figura 3.3 - Autoridade versus liberdade
Teoria X ⟵────────── ──────────⟶ Teoria Y
Liderança centrada no chefe
Poder
Dirigir Persuadir Compartilhar Delegar Liderança compartilhada com a equipe
Liberdade
O chefe toma a decisão e anuncia O chefe "vende" a decisão O líder apresenta o problema, recebe sugestões e toma a decisão O líder define limites e pede ao grupo que tome a decisão
Fonte: elaborado com base em McGregor, 1999, p. 37-38; Oakland, 1994, p. 329.

Ao analisar o esquema disposto na Figura 3.3, é fácil perceber que os estilos de liderança apontam para duas direções opostas, uma focada no poder (teoria X) e outra, na liberdade (teoria Y):

  • Se o líder caminha na direção Y, ele começa paulatinamente a desenvolver uma postura gerencial mais próxima do conceito de liberdade e democracia. O caminho natural é dialogar com sua equipe, tentando obter subsídios para sua tomada de decisão e, numa etapa posterior, representada pelo amadurecimento do grupo, delegar o processo decisório para seus colaboradores.
  • No sentido oposto, se o líder tende a seguir a direção X, ele se tornará mais diretivo com o passar do tempo, e, em um caso extremo, já não compartilhará mais as decisões com a equipe. Apenas decidirá de forma centralizada e autocrática e informará a decisão aos subordinados.

[...]

Os bons líderes e administradores conhecem bem os extremos das duas teorias. O que muitos não sabem é que existe uma gama de posições entre esses extremos e que é possível escolher e trabalhar em posições diferentes em ocasiões diferentes (liderança situacional). Isso está intimamente relacionado com o nível de amadurecimento e comprometimento da equipe.

Referências

  • MCGREGOR, D. O lado humano da empresa. 3. ed. São Paulo: M. Fontes, 1999.
  • OAKLAND, J. Gerenciamento da qualidade total. São Paulo: Nobel, 1994.

O poder do 💭 pensamento / Bertrand Russell

Bertrand Russel, "Por que os homens vão à guerra", Capítulo 5: "A Educação". Editora UNESP, 1ª edição (2014), São Paulo.
Bertrand Russell: idoso sem barba, de cabelo repartido, e terno.
2018 Anastasia Yesipova

O mundo em que vivemos é vário e impressionante: algumas das coisas que parecem as mais simples ficam cada vez mais complexas quanto mais as examinamos; outras coisas, que poderiam parecer quase impossíveis de se descobrirem, já foram esclarecidas pela genialidade e pela indústria. Os poderes do pensamento, as vastas regiões que ele pode dominar, as regiões muito mais vastas que ele pode apenas vagamente sugerir à imaginação, dão àqueles cujas mentes viajaram para além do ordinário uma incrível riqueza de material, uma fuga da trivialidade e do fastio da rotina -- e assim toda a vida se enche de interesse e se derrubam os muros da prisão do lugar-comum. O mesmo amor à aventura que arrasta homens ao Polo Sul, a mesma paixão por uma prova de força conclusiva que leva homens a saudar a guerra, pode encontrar, no pensamento criativo, um canal de manifestação que não é nem desperdiçado, nem cruel e que aumenta a dignidade do homem ao encarnar na vida um pouco do esplendor brilhante que o espírito humano arrebata ao desconhecido. Dar essa alegria, em maior ou menor medida, a todos os que dela são capazes, é a finalidade suprema pela qual se deve valorar a educação da mente.

Talvez se diga que a alegria da aventura mental é rara, que poucos podem apreciá-la e que a educação ordinária não pode dar conta de um bem tão aristocrático. Não acredito nisso. A alegria da aventura mental é muito mais comum nos jovens do que nos homens e nas mulheres. É muito comum entre as crianças e cresce naturalmente na fase do faz de conta e da fantasia. É rara na vida adulta porque se faz de tudo para matá-la durante a educação. Os homens temem o pensamento mais do que a qualquer outra coisa no mundo -- mais do que a ruína, mais até do que a morte. O pensamento é subversivo e revolucionário, destrutivo e terrível; o pensamento é implacável com o privilégio, com as instituições estabelecidas e com os hábitos confortáveis; o pensamento é anárquico e sem lei, indiferente à autoridade, negligente para com a sabedoria comprovada dos tempos. O pensamento olha para o fundo do inferno e não sente medo. Vê o homem, esse grão insignificante, cercado por insondáveis profundezas de silêncio; mesmo assim, aguenta orgulhosamente, impassível, como se fosse o senhor do universo. O pensamento é grandioso, veloz e livre, a luz do mundo e a glória máxima do homem.

Mas, se quisermos fazer que o pensamento seja propriedade de muitos, e não privilégio de poucos, precisamos nos livrar do medo. É o medo que detém os homens -- medo de que suas estimadas crenças se provem ilusórias, medo de que as instituições pelas quais vivem se provem prejudiciais, medo de que eles próprios se provem menos dignos de respeito do que supunham. [...]

Não há instituição inspirada pelo medo que possa promover a vida. A esperança, e não o medo, é o princípio criativo das coisas humanas. Tudo o que fez grande o homem surgiu da tentativa de assegurar o que é bom, não da luta para evitar o que se julgava ruim. A educação moderna raramente consegue um grande resultado porque raramente se inspira pela esperança. O anseio de preservar o passado, em vez da esperança de criar o futuro, domina as mentes de quem controla o ensino da juventude. A educação não deve visar a uma consciência passiva de fatos mortos, mas sim a uma atividade direcionada para o mundo que vamos criar com nossos próprios esforços.

Auto-disciplina ⩼ disciplina 🎒 escolar / Bertrand Russell

Bertrand Russel, "Por que os homens vão à guerra", Capítulo 5: "A Educação". Editora UNESP, 1ª edição (2014), São Paulo.
Bertrand Russell: idoso sem barba, de cabelo repartido, e terno.
2018 Anastasia Yesipova

Obediência e disciplina são, supostamente, indispensáveis para manter a ordem em uma classe ou para dar alguma instrução. Até certa medida, isso é verdade; mas a medida é muito menor do que pensam aqueles que veem a obediência e a disciplina como desejáveis em si mesmas. A obediência, submissão da vontade a uma ordem externa, é o complemento da autoridade. Ambas podem ser necessárias em certos casos. Crianças indóceis, lunáticos e criminosos podem precisar de autoridade e ser forçados a obedecer. Mas, quando isso se faz necessário, é uma desgraça: o desejável é a livre escolha de fins, na qual não se precisa interferir. E reformadores educacionais têm demonstrado que isso é muito mais possível do que nossos pais jamais poderiam imaginar -- é quase milagroso o que madame Montessori conseguiu na maneira de minimizar a obediência e a disciplina, com vantagem para a educação.

[...]

A disciplina, tal como existe nas escolas, é, em grande medida, um mal. Há, no entanto, um tipo de disciplina que é necessário a quase toda realização e que talvez não seja suficientemente valorizado por quem reage contra a disciplina puramente externa dos métodos tradicionais. O tipo desejável de disciplina é o que vem de dentro, que consiste no poder de perseguir um objetivo distante com perseverança, renunciando e sofrendo muitas coisas no caminho. Isso implica a subordinação dos impulsos menores à vontade, o poder de direcionar a ação por meio de grandes desejos criativos, até mesmo nos momentos em que eles não estejam vívidos. Sem isso, não se poderá realizar nenhuma ambição séria, nem boa nem ruim, e nenhum propósito consistente poderá predominar. Esse tipo de disciplina é muito necessário, mas só pode resultar de desejos fortes por finalidades não imediatamente alcançáveis e só pode ser produzido pela educação se a educação nutrir tais desejos, o que é raro nos dias de hoje. Tal disciplina surge da própria vontade de cada um, não de uma autoridade externa. Não é esse tipo a que se aspira na maioria das escolas e não é esse tipo que me parece um mal.

¿🎒 Escola ⊻ Partido? / Bertrand Russell

Bertrand Russel, "Por que os homens vão à guerra", Capítulo 5: "A Educação". Editora UNESP, 1ª edição (2014), São Paulo.
Bertrand Russell: idoso sem barba, de cabelo repartido, e terno.
2018 Anastasia Yesipova

O poder da educação na formação do caráter e da opinião é muito grande e bastante reconhecido. As crenças genuínas de pais e professores, embora nem sempre os preceitos professados, são quase inconscientemente adquiridas pela maioria das crianças. E, mesmo que elas se afastem dessas crenças ao longo da vida, algo lhes permanece profundamente implantado, pronto para emergir em um momento de tensão ou crise. A educação é, em regra, a força mais poderosa a favor do que já existe e contra qualquer mudança fundamental: as instituições ameaçadas, enquanto ainda estão poderosas, tomam posse da máquina educacional e instilam o respeito por sua própria excelência nas mentes maleáveis dos jovens. Os reformadores revidam, tentando expulsar os oponentes de sua posição vantajosa. As crianças em si não são consideradas por nenhum dos lados; são apenas massa a se recrutar para um ou outro exército. Se as próprias crianças fossem consideradas, a educação não teria por objetivo fazê-las pertencer a este ou àquele lado, mas sim habilitá-las a optar inteligentemente entre os lados; teria por objetivo fazê-las capazes de pensar, e não fazê-las pensar o que seus professores pensam. A educação não poderia existir enquanto arma política se respeitássemos os direitos das crianças. Se respeitássemos os direitos das crianças, deveríamos educá-las de modo a lhes dar o conhecimento e os hábitos mentais necessários para formarem opiniões independentes; mas a educação, enquanto instituição política, empenha-se em formar hábitos e circunscrever o conhecimento de modo a tornar inevitável um único conjunto de opiniões.

[...]

É na história, na religião e em outros temas controversos que a instrução de hoje se mostra efetivamente prejudicial. Esses temas tocam os interesses que mantêm as escolas; e esses interesses mantêm as escolas para inculcar certos pontos de vista sobre esses temas. Em todos os países, a história é ensinada de modo a enaltecer o país: as crianças aprendem a acreditar que seu próprio país sempre esteve do lado certo e quase sempre vitorioso, que o país produz quase todos os grandes homens e que, em todos os campos, é superior aos outros países. Como são lisonjeiras, essas crenças se assimilam facilmente e é difícil que um dia sejam desalojadas do instinto por um conhecimento posterior.

Tomemos um exemplo simples e quase trivial: os fatos sobre a batalha de Waterloo são conhecidos em muitos detalhes e com minuciosa exatidão; mas os fatos ensinados na escola elementar serão totalmente distintos na Inglaterra, na França e na Alemanha. [...] Se os fatos fossem ensinados fielmente em ambos os países, não se fortaleceria o orgulho nacional na mesma medida, nenhuma das nações se sentiria muito segura da vitória na eventualidade de uma guerra e a disposição para guerrear diminuiria. É esse resultado que se precisa prevenir. Todo Estado quer promover o orgulho nacional e tem consciência de que isso não pode ser feito com uma história imparcial. Indefesas, as crianças aprendem distorções, supressões e sugestões. As ideias falsas sobre a história do mundo ensinadas nos vários países são de um tipo que encoraja o conflito e servem para manter vivo o nacionalismo fanático.

[...]

Exatamente a mesma coisa se aplica à religião. [...] Uma corporação religiosa existe pelo fato de todos os seus membros terem certas crenças definidas sobre assuntos cuja verdade é inverificável. Escolas dirigidas por corporações religiosas têm de prevenir que os jovens, curiosos por natureza, descubram que essas crenças definidas se confrontam com outras, não mais insensatas, e que muitos dos homens melhor qualificados para julgar acham que não há nenhuma evidência a favor de nenhuma crença definida.

[...]

A repressão da livre indagação será inevitável enquanto o propósito da educação for produzir crenças ao invés de pensamento, enquanto o propósito for compelir os jovens a sustentar opiniões assertivas sobre assuntos duvidosos ao invés de deixá-los ver a dúvida e se sentir encorajados à independência da mente. A educação deve nutrir o desejo de verdade, não a convicção de que um credo em particular é a verdade. Mas são os credos o que mantém os homens unidos em organizações para a luta: Igrejas, Estados, partidos políticos. É a intensidade da crença em um credo o que produz a eficiência na luta: a vitória vem para quem sente a certeza mais forte sobre os assuntos nos quais a dúvida é a única atitude racional. Para produzir essa intensidade da crença e essa eficiência na luta, a natureza da criança é pervertida e seu modo de ver fica deformado pelo cultivo de inibições que são um obstáculo ao crescimento de novas ideias. Aquelas cujas mentes não são muito ativas apresentam como resultado a onipotência do preconceito; já aquelas cujo pensamento não pode ser de todo assassinado se tornam cínicos, intelectualmente desesperançados, destrutivamente críticos, capazes de fazer que tudo pareça tolo, incapazes de suprir os impulsos criativos que destroem nos outros.

[...]

A aceitação passiva da sabedoria do professor é fácil para a maioria dos garotos e garotas. Não implica nenhum esforço de pensamento independente e parece racional, porque o professor sabe mais do que os alunos; além disso, é uma maneira de ganhar a preferência do professor, a menos que ele seja um homem muito excepcional. Mesmo assim, o hábito da aceitação passiva será desastroso para a vida futura. É esse hábito que faz os homens procurarem um líder e aceitarem como líder quem quer que se estabeleça em tal posição. É ele que constrói o poder de igrejas, governos, bancadas partidárias e todas as outras organizações pelas quais os homens comuns são iludidos a apoiar sistemas antigos e prejudiciais à nação e a si próprios. É possível que não houvesse muita independência de pensamento, mesmo se a educação fizesse de tudo para promovê-la; mas certamente haveria mais do que hoje. Se o objetivo fosse fazer os alunos pensarem, em vez de fazê-los aceitar determinadas conclusões, a educação seria conduzida de um jeito bem diferente: haveria menos pressa na instrução e mais discussão, mais ocasiões para encorajar os alunos a se expressarem, mais tentativas de fazer a educação se ocupar de assuntos pelos quais os alunos sentissem algum interesse.

Sobre autocrítica / Descartes 💭

René Descartes. Discurso do Método para Bem Conduzir a Própria Razão e Procurar a Verdade nas Ciências, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2011.

Segunda Parte

Um dos primeiros [pensamentos que me ocorreram] foi o considerar que não há frequentemente tanta perfeição nas obras compostas de muitas peças e feitas pela mão de vários mestres como naquelas que são trabalhadas por um só. Assim, os edifícios começados e acabados por um só arquiteto costumam ser mais belos e melhor ordenados que os que muito tentaram consertar, servindo-se de velhos muros que foram construídos para outros fins. Do mesmo modo são essas velhas cidades que originalmente eram apenas aldeias e se tornaram com o tempo grandes cidades. Em geral são tão malproporcionadas comparadas com as praças regulares que um engenheiro traça a seu talante numa planície, que, embora ao considerar seus edifícios, cada um em separado, se encontre neles frequentemente tanta ou mais arte que nos daquelas praças, todavia, ao olharmos como são dispostos, aqui um grande, ali um pequeno, e como fazem as ruas curvas e desiguais, dir-se-ia que foi mais o acaso que a vontade de alguns homens, usando de razão, que desse modo os dispôs.

[...]

E deste modo pensei ainda que, tendo nós todos sido crianças antes de sermos adultos, e necessariamente governados durante muito tempo pelos nossos apetites e pelos nossos preceptores, frequentemente contrários uns aos outros e nem sempre nos aconselhando uns e outros, o melhor, é quase impossível que os nossos juízos sejam tão puros e tão sólidos como seriam se tivéssemos todos, desde o nascimento, o uso inteiro de nossa razão e apenas nos tivéssemos conduzido por ela.

É certo que nunca devemos demolir todas as casas de uma cidade, apenas com a intenção de as refazer de outra maneira e de tornar as ruas mais belas; mas vê-se que muitas pessoas derrubam as suas para as reconstruir, e até algumas vezes são obrigadas a isso quando elas correm risco de cair por si, por não estarem bastante firmes os seus alicerces. Com este exemplo, persuadi-me de que, na verdade, [...] a respeito das opiniões que até então eu aceitara, o que melhor teria a fazer era, uma vez por todas, de as recusar, para as substituir em seguida por outras melhores, ou pelas mesmas quando as houvesse ajustado ao nível da razão. Acreditei firmemente que, deste modo, conduziria minha vida muito melhor do que se a construísse sobre velhos alicerces e me apoiasse apenas nos princípios pelos quais me deixara guiar na mocidade, sem nunca haver examinado se eram verdadeiros. [...]

A simples resolução de nos libertarmos de todas as opiniões anteriormente recebidas como verdadeiras não é um exemplo que todos devam seguir; o mundo é quase composto por duas espécies de espíritos aos quais ele de nenhum modo convém, a saber:

  1. aqueles que, julgando-se mais hábeis do que são, não resistem precipitar os seus juízos e nem têm bastante paciência para conduzir com ordem seus pensamentos, de onde resulta que se tomarem uma vez a liberdade de duvidar dos princípios que receberam e de se afastar do caminho comum, nunca poderão manter-se na senda que é necessário seguir para ir mais direito, e ficarão perdidos por toda a vida;
  2. e os outros que, possuindo bastante razão e modéstia para julgar que são menos capazes de distinguir o verdadeiro do falso que outras pessoas, pelas quais eles podem ser intruídos, devem antes contentar-se em seguir a opinião dessas outras pessoas do que procurarem por si outras opiniões melhores.

Quanto a mim, seria sem dúvida do número destes últimos, se houvesse tido apenas um mestre ou se desconhecesse as diferenças que sempre existiram entre as opiniões dos mais doutos. Mas:

  • tendo aprendido, desde o colégio, que nada se pode imaginar de tão estranho e de tão pouco crível que não houvesse sido dito por algum filósofo;
  • e mais, concluindo, das minhas viagens, que todos que têm sentimentos contrários aos nossos nem por isso são bárbaros ou selvagens, e que muitos, tanto quanto nós, usam da razão;
  • e havendo considerado que um mesmo homem com o seu próprio espírito, desde que passe a infância entre franceses ou alemães, torna-se diferente do que o seria se sempre houvesse vivido entre chineses ou canibais;
  • e que, até nas modas de nossas roupas, a mesma cousa que nos agradou há dez anos, e que talvez volte a nos agradar antes de outros dez, nos parece agora extravagante e ridícula, de sorte que é mais o costume e o exemplo que nos guiam do que qualquer conhecimento certo;
  • e que, no entanto, a pluralidade das opiniões é uma prova que nada vale para as verdades um pouco difíceis de descobrir, pelo fato de ser bem mais verossímil que um só homem as encontre que todo um povo
Cão conduzindo a si próprio
vi-me forçado a conduzir-me a mim mesmo

[logo,] não podia escolher ninguém cujas opiniões me parecessem dever ser preferidas às dos outros. Assim, vi-me forçado a procurar conduzir-me a mim mesmo.

Terceira Parte

Enfim, como não basta, antes de começar a reconstruir a casa em que se mora, derrubá-la e provermo-nos de materiais e de arquitetos, ou transformando-nos nós mesmos em arquitetos, como é necessário ainda traçar cuidadosamente o seu plano, e também estar prevenido com outra casa onde nos possamos alojar comodamente durante o tempo que trabalharmos, assim também, para não ficar irresoluto em minhas ações, embora a razão me obrigasse a sê-lo em meus juízos, e para não deixar de viver desde então da maneira mais feliz que pudesse, formei, para meu uso, uma moral provisória, que consistia apenas em três ou quatro máximas que vos desejo expor.

  1. Obedecer às leis e aos costumes de minha terra, guardando com constância a religião na qual Deus me fez ter a graça de ser instruído desde a minha infância, e de me governar, em tudo mais, segundo as opiniões mais moderadas e mais afastadas dos excessos, e que fossem comumente recebidas na prática pelas pessoas mais sensatas com as quais eu teria de viver. Porque, começando desde então a não levar em conta as minhas próprias opiniões, em virtude de as querer submeter todas a exame, parecia-me melhor e mais seguro seguir as dos mais sensatos. E embora talvez existam homens tão sensatos entre os persas ou os chineses quanto entre nós, acreditava que o mais útil era seguir aqueles com os quais teria que viver, e que, para saber quais as suas verdadeiras opiniões, devia atender mais aos que praticavam do que ao que diziam, não só porque em virtude da corrupção dos nossos costumes poucas são as pessoas que dizem tudo aquilo que creem, mas também porque muitas o ignoram; porque sendo a atividade do pensamento, pela qual se crê uma cousa, diferente daquela pela qual se conhece que se crê, elas andam muitas vezes uma sem a outra. E, entre muitas opiniões igualmente aceitas, escolhia apenas as mais moderadas, não só porque são sempre as mais cômodas para praticar e provavelmente as melhores, pois todo excesso costuma ser mau, como também porque, desse modo, me desviaria menos do verdadeiro caminho, no caso de errar, do que se tivesse escolhido um dos extremos. Punha no número dos excessos, particularmente, todas as promessas em virtude das quais se diminui, em alguma coisa, a própria liberdade. Não que desaprovasse as leis que, para remediar a inconstância dos espíritos fracos, permitem, quando se tem um bom propósito, ou mesmo, quando para o bem da segurança do comércio, algum desígnio apenas indiferente, que façamos promessas ou contratos que obrigam a mantê-lo. Mas, como não percebia no mundo cousa alguma que permanecesse sempre no mesmo estado, e porque, no que me dizia respeito, prometia a mim mesmo aperfeiçoar cada vez mais os meus juízos e não torná-los piores, pensava cometer uma grande falta contra o bom senso se, por aprovar alguma cousa, me houvesse obrigado a considerá-la como boa depois, quando ela tivesse cessado de o ser ou que eu tivesse deixado de a considerar como tal.
  2. Ser o mais firme e resoluto que pudesse em minhas ações e em seguir com não menor constância as opiniões mais duvidosas, uma vez que me houvesse determinado por elas, imitando nisto os viajantes que, ao se encontrarem perdidos em uma floresta, não devem vaguear de um lado para outro, e menos ainda parar em um lugar, mas andar sempre a direito o mais que possam, numa mesma direção, e de nenhum modo modificá-la, em virtude de fracas razões, embora tenha sido, de início, simplesmente o acaso que haja determinado essa escolha; porque, por esse meio, se não vão justamente para onde desejam, pelo menos chegarão, por fim, a qualquer lugar onde, provavelmente, estarão melhor que no meio da floresta. Do mesmo modo, as ações da vida frequentemente não comportam nenhum adiamento, e é verdade muito certa que, quando não está em nosso poder o discernir as opiniões mais verdadeiras, devemos seguir as mais prováveis, ainda mesmo que não notemos em umas mais probabilidades que em outras; devemos contudo nos decidir por algumas e considerá-las, a seguir, não mais como duvidosas, no que se relaciona com o seu valor prático, mas como muito verdadeiras e muito certas, porque a razão que nos leva a assim considerá-las não é menos certa e verdadeira. E isto foi capaz, desde logo, de me libertar de todos os arrependimentos e remorsos que costumam agitar as consciências desses espíritos fracos e vacilantes que se deixam levar a praticar como boas as cousas que, a seguir, julgam más.
  3. Procurar sempre vencer antes a mim próprio do que à fortuna, e de modificar antes os meus desejos do que a ordem do mundo; e a acostumar-me geralmente a crer que somente os nossos pensamentos estão inteiramente em nosso poder, de sorte que, depois de havermos procedido da melhor maneira possível no tocante às cousas que nos são exteriores, se não somos bem-sucedidos no que nos diz respeito, é porque isso é absolutamente impossível.
    E só isso me parecia bastante para me impedir de desejar no futuro o que eu não pudesse adquirir e desse modo, viver contente. Com efeito, sendo a nossa vontade naturalmente propensa a desejar apenas aquelas cousas que o entendimento lhe apresenta de algum modo como possíveis, é certo que, se considerarmos todos os bens como igualmente afastados de nosso poder, não sentiremos mais tristeza com a falta daqueles que nos parecerem ser devidos em virtude do nosso nascimento, quando deles formos privados sem culpa nossa, do mesmo modo que não lastimamos não possuir os reinos da China e do México. E fazendo, como se diz, da necessidade virtude, não desejaremos tampouco estar sãos quando estamos doentes ou estar livres quando estamos na prisão, ter corpos de uma matéria tão pouco corruptível como o diamante ou asas para voar como os pássaros. Confesso, porém, que é preciso um longo exercício e uma meditação muitas vezes reiterada para nos habituarmos a considerar sob esse prisma todas as cousas; e creio que é precisamente nisto que consistia o segredo dos filósofos [estóicos] que puderam outrora subtrair-se ao império da fortuna e, apesar das dores e da pobreza, rivalizar em felicidade com os deuses. Porque, estando ocupados sem cessar na consideração dos limites que lhes impunha a natureza, persuadiam-se perfeitamente de que a única cousa que caía sob o seu poder eram os seus pensamentos, e que isso só bastava para os impedir de demonstrarem interesse por outras cousas. E dispunham dos seus pensamentos de modo tão absoluto que tinham razão de se considerar mais ricos, mais poderosos, mais livres e mais felizes que todos os demais homens que, não possuindo esta filosofia, por mais favorecidos que possam ser pela natureza e pela fortuna, nunca dispõem assim de tudo o que querem.

[...]

Depois de assim me haver assegurado destas máximas, e de as haver posto de parte com as verdades da fé que sempre foram as primeiras em minha crença, julgava que, para as demais opiniões, podia delas livremente desfazer-me. E, como esperava poder realizar melhor isto frequentando os homens do que fechado no quarto aquecido onde me haviam ocorrido todas estas ideias, não terminara ainda o inverno quando de novo me pus a viajar. E, nos nove anos seguintes, nada mais fiz do que andar a rolar, de um lado para outro, por este mundo, buscando ser mais espectador do que ator em todas as comédias que nele se apresentam. Procurando principalmente refletir a propósito de cada cousa, sobre o que podia torná-la suspeita e dar ocasião para enganos, ia desenraizando, ao mesmo tempo, do meu espírito todos os erros que até então aí se haviam insinuado. Não que nisto imitasse os céticos que apenas duvidam por duvidar e afetam ser sempre irresolutos; mas, ao contrário, todo o meu intuito era conquistar certeza e rejeitar a terra movediça e a areia para encontrar a rochar e a argila. O que me deu muito bom resultado, segundo me parece, pois que, procurando descobrir a falsidade e a incerteza das proposições que examinava -- não por meio de fracas conjecturas, mas com raciocínios claros e seguros -- não encontrava nenhumas tão duvidosas das quais não tirasse sempre alguma conclusão bastante certa, quando mais não fosse a de não conter ela nada de certo.

E, do mesmo modo que quando se põe por terra uma casa, reservamos o que sobra das demolições para aproveitá-lo na construção de outra nova, assim ao destruir todas as minhas opiniões que julgava malfundadas, fazia diversas observações e adquiria outras experiências que me serviram, a seguir, para estabelecer outras mais certas.

[...]

🧪☠️ Agrotóxicos → ⚔️ guerras mundiais / Lutzenberger

José Lutzenberger. Ecologia: do Jardim ao Poder (Coleção Universidade Livre). L&PM Editores, 1985, 10ª edição. Capítulo "A Problemática dos Agrotóxicos".

Como surgiu e proliferou a agroquímica? Interessante é notar que ela não foi desencadeada por pressão da agricultura. A grande indústria agroquímica que impõe seu paradigma à agricultura moderna é resultado do esforço bélico da duas grandes guerras mundiais, 1914-18 e 1938-45.

A primeira deu origem aos adubos nitrogenados solúveis de síntese. A Alemanha, isolada do salitre do Chile pelo bloqueio dos Aliados, para a fabricação em grande escala de explosivos, viu-se obrigada a fixar o nitrogênio do ar pelo processo Haber Bosch. Depois da guerra, as grandes instalações de síntese do amoníaco levaram a indústria química a procurar novos mercados. A agricultura se apresentou como mercado ideal.

Da mesma maneira, ao terminar a segunda das guerras mundiais, a agricultura surge, novamente, como mercado para desenvolvimentos que apareceram com intenções destrutivas, não construtivas.

A serviço do Ministério da Guerra, químicos das forças armadas americanas trabalhavam febrilmente na procura de substâncias que pudessem ser aplicadas de avião para destruir as colheitas dos inimigos. Um outro grupo, igualmente interessado na devastação, antecipou-se a eles. Quando a primeira bomba atômica explodiu, no verão de 1945, viajava em direção ao Japão um barco americano com uma carga de fitocidas, então declarados como LN 8 LN 14, suficientes para destruir 30% das colheitas. Com a explosão das bombas, o Japão capitulou, o barco voltou. Mais tarde, na Guerra do Vietnam, estes mesmos venenos, com outros nomes, tais como "agente laranja" e agentes de outras cores, serviram para destruição de dezenas de milhares de quilômetros quadrados de floresta e de colheitas. Da mesma maneira que os físicos que fizeram a bomba, para não ter que abolir as estruturas burocráticas das quais agora dependiam, propuseram o uso pacífico da energia nuclear, os químicos que conceberam aquela forma de guerra química passaram a oferecer à agricultura seus venenos, agora chamados de herbicidas, do grupo do ácido fenoxiacético, o 2,4-D e o 2,4,5-T MCPA e outros.

Na Alemanha, entre os gases de guerra, concebidos para matar gente em massa, estavam certos derivados do ácido fosfórico. Felizmente não foram usados em combate. Cada lado tinha medo demais dos venenos do outro. Após a guerra, existindo grandes estoques e grandes capacidades de produção, os químicos lembraram-se que o que mata gente também mata inseto. Surgiram e foram promovidos assim os inseticidas do grupo parathion.

Também o DDT, que só foi usado para matar insetos, surgiu na guerra. As tropas americanas no Pacífico sofriam muito com a malária. O dicloro-difenil-tricloroetil, conhecido há mais tempo, mas cujas qualidades inseticidas acabavam de ser descobertas, passou a ser produzido em grande escala e usado com total abandono. Aplicava-se de avião em paisagens inteiras, tratava-se as pessoas com enxurradas de DDT. Depois da guerra, mais uma vez, a agricultura serviu para dar vazão aos enormes estoques sobrantes e para manter funcionando as grandes capacidades de produção que foram montadas.

Epistemologia: dogmatismo ≠ criticismo / Karl Popper apud Instituto Liberal

Alberto Oliva. Entre o Dogmatismo Arrogante e o Desespero Cético: a Negatividade como Fundamento da Visão de Mundo Liberal, Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1993. Capítulo I: "O Embasamento Epistemológico do Liberalismo". Seção 2: "Concepção negativa de conhecimento".

O justificacionismo: evidência positiva

Como é notório, desde o alvorecer da Filosofia Grega tem predominado, com as conhecidas exceções, tradições gnosiológicas justificacionistas. Consoante o justificacionismo (CF. Lakatos, 1977, p. 94-95), só podemos qualificar de conhecimento o sistema demonstrativamente certo (via razão) ou a explicação empírica forjada a partir de uma base observacional pura e teoricamente neutra (via registro perceptual do imediatamente dado). Destarte, as vertentes justificacionistas identificam, na "certeza" provida pela demonstração lógica e na fidedignidade decalcadora do registro observacional, a base rochosa do conhecimento.

Quando se trata da busca de conhecimento empírico, de lidar com questões fatuais, o justificacionismo acredita que a evidência positiva seja capaz de tornar verdadeira, ou ao menos provável, uma alegação de conhecimento. Nesse sentido, todo o processo de justificação do sistema interpretativo a que se pretende dar o estatuto de conhecimento se estriba na coleta de informações positivas capaz de ensejar sua aceitação universal. Sendo assim, credita-se à evidência favorável, quando recolhida de forma inconcussa e em quantidade suficiente, o poder de decretar legitimamente a verdade (ou a probabilidade) do sistema teórico proposto.

[...]

Uma teoria de conhecimento modesta: evidência negativa

A constatação de que a evidência positiva revela-se inconclusiva na determinação da verdade de enunciados de universalidade irrestrita - os que têm a forma "Todos os A são B", em que Todos abarca casos reais constatados e possíveis ainda por constatar - teve importância ainda mais decisiva na construção de uma teoria do conhecimento modesta. "Modesta" aqui significa: rigorosamente atenta às limitações da Razão e à precariedade dos procedimentos de justificação com os quais podemos contar na avaliação de nossos sistemas interpretativos. Afinal, se não há como falar de verificação (cabal e definitiva) de leis científicas, por corresponderem, em termos de sua forma lógica, a enunciados de universalidade irrestrita, com uma infinidade de instâncias potenciais, enquanto só é exequível a realização de um número finito de observações positivas com vistas a definirmos seu valor-de-verdade, como deixar de ser epistemologicamente humilde? Esse grave defeito da metodologia verificacionista, estribada na evidência positiva, levou Popper a enunciar um critério de avaliação epistêmica que se mostrasse capaz de dar conta dos universais categóricos; sua conclusão: só têm poder de assinalar um valor-de-verdade à universalidade nômica os procedimentos avaliativos que conferem papel decisivo à evidência negativa:

A diferença fundamental entre meu enfoque e o "indutivista" reside no fato de que enfatizo argumentos negativos, tais como instâncias negativas ou contra-exemplos, refutações e tentativas de refutação - em resumo, a crítica - ao passo que o indutivista dá destaque às "instâncias positivas", a partir das quais faz "inferências não-demonstrativas" (...)
(Popper, 1986, p. 20)

Os paradoxos a que conduz a Teoria da Confirmabilidade e a inconclusividade exibida pela evidência positiva para efeito de verificação de hipóteses universais deram a Popper a convicção de que não podemos, justificadamente, apregoar a verdade de um sistema explicativo. Podemos, quando muito, desvencilhar-nos daquele que se revelar falso, com base em evidência que contra ele conseguimos amealhar. Jamais reunimos condições que nos permitam proclamar que uma teoria é Verdadeira, pois, mesmo quando muita e significativa evidência fala a seu favor, não é decisiva. Além disso, a evidência favorável possui caráter redundante - sobretudo a partir do acúmulo de um certo número de instâncias - que a torna ineficaz no processo de avaliação das chamadas generalizações essenciais. Registre-se ainda que, para Popper, a atitude dogmática se confunde nitidamente com a postura que se dedica à verificação de nossos sistemas explicativos em detrimento da atenção a eventuais falsificadores potenciais. Já a atitude crítica, pelo destaque que confere aos contra-exemplos, se propõe a rigorosamente testá-los através de implacáveis tentativas de refutá-los (Popper, 1989, p. 50).

A comprovação de que a evidência adversa tem o poder de se pronunciar decisivamente sobre a universalidade nômica se mostrará estruturadora da filosofia da ciência popperiana e marcará o nítido afastamento dos modos tradicionais de justificação de nossas alegações de conhecimento.

(...) um sistema deve ser considerado científico apenas se faz asserções que podem conflitar com observações; e um sistema é de fato testado por tentativas de produzir esses conflitos, isto é, por tentativas de refutá-lo.
(Popper, 1989, p. 256)

[...]

Abandonado o velho justificacionismo, a única postura cabível é a que se empenha em se desfazer das teorias que conflitam com observações, ou a que se devota à escolha da teoria, em contraposição a outra(s) que encerram maior conteúdo de verdade, menor conteúdo de falsidade e igual ou maior capacidade explicativa. Não aprendemos porque chegamos à verdade, e sim por percorremos diligente e criticamente o penoso e interminável caminho da eliminação de erros. Se não há a verdade a alcançar, há falsidades a eliminar. E entender que aprender é aprender a desvencilhar-se de erros equivale a assumir a postura humilde de que não há teoria capaz de assenhorear-se da realidade (investigada) como sua verdade:

Não podemos justificar nossas teorias, mas podemos racionalmente criticá-las, e tentativamente adotar as que parecem melhor suportar nossa crítica e que encerram maior poder explicativo.
(Popper, 1986, p. 265)
(...) não podemos estabelecer ou justificar o que quer que seja como certo, ou mesmo como provável, mas apenas contentarmo-nos com teorias que suportam a crítica.
(Popper, 1971, p. 379)

[...]

Liberalismo

O negativismo epistemológico, sistematicamente formulado por Popper, pode ser visto como o embasamento crítico das posições que o Liberalismo mais consistente assume frente aos problemas substantivos. [...] As mais fundamentadas posturas liberais frente a temas candentes como o da natureza e significado da liberdade, da justiça, do Estado, da felicidade, etc. pressupõem essa teoria do conhecimento humilde que dá primazia à impossibilidade de se chegar à Verdade que faz da história do conhecimento não a ascensão em direção à explicação definitiva, e sim um sinuoso roteiro de eliminação de erros. Ter consciência das limitações da razão, da inexistência de procedimentos de justificação capazes de levá-lo à Verdade, faz com que o liberal reitere diuturnamente o princípio da modéstia epistemológica: a ignorância é infinita, o saber finito.

Nesse sentido, o liberalismo adota uma teoria do conhecimento que se situa nos antípodas das que, assegurando a conquista da verdade, prometem a completa remodelação da realidade com base na explicação última desveladora dos determinantes ocultos que escapam ao senso comum preso às enganosas erupções do imediatamente dado. [...] O liberalismo repele os grandiloquentes projetos de Engenharia Social não por esposar, como sustentam muitos de seus críticos, uma empedernida posição conservadora, e sim por ter constatado, ao nível da teoria do conhecimento, que nenhum de nós dispõe de um saber tão completo capaz de nos permitir a tudo racionalmente alterar e de oferecer a garantia de que chegaremos necessariamente a melhores resultados.

Referências

  • LAKATOS, I. (1977). Falsification and the methodology of scientific research programs. In LAKATOS, I.: Criticism and the Growth of Knowledge. Cambridge University Press, 1970.
  • POPPER, K. R. (1971). The Open Society and its Enemies. New Jersey: Princeton University Press. v.2
  • POPPER, K. R. (1986). Objective Knowledge: an evolutionary approach. Oxford: Clarendon Press.
  • POPPER, K. R. (1989). Conjectures and Refutations. London: Routledge and K. Paul.

Tikopia ∋ sustentabilidade ecológica (Polinésia)

Peter Gelderloos, livro "A Anarquia Funciona". Editora Subta. Originalmente publicado em 2010 (inglês). À venda pela Editora Monstro dos Mares.

Tikopia, uma ilha no Pacífico habitada por um povo polinésio, traz um bom exemplo de uma sociedade descentralizada e anárquica que lidou com sucesso com problemas ambientais de vida e morte. A ilha tem somente 4,66 km² de área e possui 1200 habitantes. A comunidade existe sustentavelmente há três mil anos. Tikopia é coberta por pomares-hortas que imitam as florestas úmidas naturais. À primeira vista, a maior parte da ilha parece ser coberta pela floresta, embora só tenha sobrado floresta úmida em algumas partes íngremes da ilha. Tikopia é pequena o suficiente para que todos os seus habitantes tornem-se familiares com seu ecossistema inteiro. Ela também é isolada; assim, por um longo tempo, não se pôde importar recursos ou exportar as consequências de seu estilo de vida. Cada um dos quatro clãs tem um chefe, apesar de estes não possuírem poderes coercitivos e desempenharem um papel cerimonial de guardadores da tradição. Tikopia está entre as sociedades menos estratificadas socialmente das ilhas polinésias. Por exemplo, os chefes também têm de trabalhar para produzir sua própria comida. O controle populacional é um valor comum e é considerado imoral ter mais que um certo número de filhos.

Em um impressionante exemplo do poder desses valores compartilhados coletivamente e mantidos coletivamente, por volta do ano 1600 os habitantes da ilha tomaram a decisão de interromper a criação de porcos. Eles mataram todos os porcos da ilha, mesmo que a carne suína fosse uma fonte de alimento altamente valorizada, porque sustentar os porcos causava uma pressão muito grande no meio ambiente. Em uma sociedade mais estratificada e hierarquizada, isso poderia ter sido impossível, porque a elite provavelmente forçaria os mais pobres a sofrer as consequências do seu estilo de vida, ao invés de abandonar um produto de luxo muito estimado.

Antes da colonização e da desastrosa chegada dos missionários, os métodos de controle populacional em Tikopia envolviam contracepção natural, aborto e abstinência para os mais jovens – embora este fosse um celibato compassivo que correspondia mais a uma proibição da reprodução que do sexo em si. Os tikopianos também tinham outras formas de controle populacional, como o infanticídio – o que muitas pessoas em outras sociedades considerariam inadmissível – mas Tikopia ainda nos traz um exemplo perfeitamente válido porque, com a efetividade da contracepção moderna e das técnicas abortivas, nenhum outro método é necessário para uma abordagem descentralizada do controle populacional.

O aspecto mais importante do exemplo tikopiano é seu ethos: reconhecer viver em uma ilha em que os recursos eram limitados, de modo que aumentar sua população seria equivalente a um suicídio. Outras sociedades de ilhas polinésias ignoravam essa questão e acabaram extinguindo-se. O planeta Terra, neste sentido, também é uma ilha; nessa linha, precisamos desenvolver tanto uma consciência global quanto economias localizadas, de modo que possamos evitar exceder a capacidade do solo e permanecer atentas às outras coisas vivas com as quais compartilhamos esta ilha.

Referência

Lutero - "A 👨‍⚖️ Lei não foi Feita para o Justo": 🐍 Reino do Mundo ≠ ⛪️ Reino de Deus

Martinho Lutero. A Liberdade do Cristão. Editora Escala, São Paulo, 2007. Texto III: Da Autoridade Temporal e em que Medida se Deve Obedecer a Ela; Primeira Parte.

Terceiro - É necessário separar os filhos de Adão, os homens, em duas partes: uns, que são do reino de Deus e outros, que são do reino do mundo. Aqueles que fazem parte do reino de Deus são todos aqueles que, como verdadeiros crentes, estão em Cristo e submissos a Cristo. [...] Ora, vejam: esses não têm necessidade da espada nem das leis temporais. E se o mundo inteiro fosse feito de verdadeiros cristãos, isto é, de verdadeiros crentes, não seriam necessários nem seriam úteis os príncipes, os reis, os senhores, as espadas e as leis. De fato, que poderiam fazer com isso, porquanto levam em seu coração o Espírito Santo que os instrui e que faz com que não sejam injustos para com ninguém, que amem a todos e a cada um e suportem de bom grado e com alegria, da parte de todos e de cada um, a injustiça, até mesmo a morte? Se suportamos tudo o que é injusto e se fazemos somente o que é justo, não haverá necessidade de disputas, querelas, tribunais, juízes, castigos, leis nem espada. É por isso que é impossível que a espada e a lei temporais encontrem algo a fazer entre os verdadeiros cristãos, visto que fazem por si mesmos muito mais do que podem exigir todas as leis e doutrinas. É nesse sentido que Paulo diz na 1ª Carta a Timóteo, I, 9: A lei não foi feita para o justo, mas para os injustos.

Por que isso? Porque o justo, por sua própria conta, faz tudo e até mais do que todas as leis exigem, ao passo que os injustos não fazem nada de justo e é por isso que têm necessidade da lei, para instruí-los, para obrigá-los e pressioná-los a agir corretamente. Uma árvore boa não tem necessidade de ensinamentos nem de lei para produzir bons frutos; pelo contrário, é sua própria natureza que faz com que, sem lei nem doutrina, produza os frutos que correspondam ao que ela é. De fato, seria bem tolo, acredito, o homem que, para uma macieira, elaborasse um livro cheio de leis e decretos, prescrevendo-lhe de produzir maçãs e não espinhos. A árvore não o faz por sua natureza própria melhor do que o homem lhe pudesse descrever e ordenar por meio de todo tipo de livros? Assim também, com relação ao espírito e à fé, está realmente na natureza dos cristãos agir bem e de modo justo, melhor do que se pudesse lhes ensinar por todo tipo de leis. Não necessitam para si mesmos nem de leis nem de decretos.

A isso se poderia objetar: Por que, pois, Deus deu tantas leis a todos os homens e por que, no Evangelho, Cristo dá tantos ensinamentos sobre o que se deve fazer? - Sobre este assunto já escrevi muito em meus Sermões (Kirchenpostille) e em outros locais. Por ora, vou dizer brevemente isto: quando Paulo diz que a lei foi dada para os injustos, isso signfica que aqueles que não são cristãos são eximidos exteriormente das más ações pela coação da lei, como veremos mais adiante. Ora, visto que nenhum homem é por natureza cristão ou homem de bem, mas que, ao contrário, todos são pecadores e maus, Deus põe obstáculos a todos pela lei, a fim de que não tenham a audácia de pôr em ação sua maldade segundo seus caprichos nas obras exteriores.

[...]

Quarto - Fazem parte do reino do mundo ou se colocam sob sua lei todos aqueles que não são cristãos. Visto que muito poucos crêem e que somente a minoria se comporta de maneira cristã, não resistindo ao mal, ou seja, não fazendo eles próprios o mal, Deus criou para os outros, ao lado da condição de cristão e do reino de Deus, outro reino e os submeteu à espada, a fim de que, por mais que o desejem, não possam agir segundo sua natureza má e a fim de que, se o fizerem, não possam fazê-lo sem temor, nem em toda tranqüilidade e com sucesso. Do mesmo modo que se acorrenta e se doma um animal feroz, para que não possa morder nem dilacerar segundo sua natureza, por mais que o deseje, assim também um animal dócil e domesticado não tem necessidade disso e é inofensivo, mesmo sem correntes ou laços.

Na verdade, se assim não fosse, visto que todos são maus e que se encontra apenas um verdadeiro cristão entre mil seres humanos, eles se devorariam mutuamente, de modo que não haveria ninguém capaz de mostrar às mulheres e às crianças como se alimentar de Deus e como servi-lo; e o mundo se tornaria um deserto. É por isso que Deus instituiu os dois reinos: o espiritual que, pelo Espírito Santo e sob a lei de Cristo, faz cristãos e homens de bem; e o temporal, que obstaculiza os não-cristãos e os maus, a fim de que sejam obrigados, por obrigações exteriores, a respeitar a paz e a ficar tranqüilos, quer queiram quer não. Essa é a interpretação que são Paulo dá, na Carta aos Romanos, XIII, da espada temporal, ao dizer que essa espada não deve ser temida para as boas ações, mas para as más. E Pedro diz que foi instituída para que a vingança atinja os maus.

Se alguém, portanto, querendo governar o mundo segundo o Evangelho, optasse por suprimir toda lei e toda espada temporais, sob pretexto de que todos são batizados e todos são cristãos, para os quais o Evangelho não prevê nem leis nem espada, porquanto não são necessárias, o que faria esse, pergunto? Libertaria de seus laços e de suas correntes os animais ferozes, permitindo-lhes assim de morder e dilacerar a todos e a cada um, e julgaria, além do mais, que são gentis animais realmente meigos e domesticados. Mas eu sentiria em minhas feridas o que eles realmente são. Assim, os maus, acobertados pelo nome de cristãos, assumiriam a liberdade evangélica e cometeriam suas patifarias dizendo que são cristãos e, desse modo, não estariam sujeitos a nenhuma lei, a nenhuma espada, como já o fazem em nossos dias certos loucos e furiosos.

A esse homem seria necessário dizer: 'Certamente, é verdade que os cristãos não são por si mesmos sujeitos a nenhuma lei ou espada e não tem necessidade delas. Mas olhe à sua volta e comece a fazer com que o mundo fique repleto de verdadeiros cristãos, antes de pretender governá-los de modo cristão e segundo o Evangelho.' Mas jamais haverá de chegar a isso, porque o mundo e o povo em geral são e continuam não-cristãos, embora sejam todos batizados e levem o nome de cristãos. Quanto aos cristãos (como se diz) habitam distantes uns dos outros. Aí está porque é impossível que um reino cristão se estenda pelo mundo inteiro e mesmo num só país ou num grande número de pessoas. De fato, há sempre mais pessoas más que pessoas de bem. É por isso que tentar governar todo um país ou o mundo com o Evangelho é como se um pastor colocasse juntos, no mesmo estábulo, lobos, leões, águias e ovelhas, e deixasse cada um deles andar livremente no meio dos outros e dissesse: Comam, sejam bons e pacíficos entre todos; o estábulo está aberto; têm alimento suficiente; não devem temer nem os cães nem o cajado. Sem dúvida, as ovelhas observariam a paz e se deixariam assim pastar e governar pacificamente; mas não viveriam muito tempo e não restaria nem uma só delas.

É por isso que é necessário distinguir cuidadosamente esses dois reinos e fazer com que subsistam os dois: um, que torna bom e o outro, que cria a paz de maneira exterior e que dificulta as más ações. No mundo, nenhum dos dois é suficiente sem o outro, pois, sem o reino espiritual de Cristo, ninguém pode tornar-se bom diante de Deus somente por meio do reino temporal. Assim, o reino de Cristo não se estende sobre todos os homens; os cristãos são sempre a menor parte e estão no meio dos não-cristãos. Ora, onde só governa o reino temporal ou a lei, ali só pode haver hipocrisia, mesmo que se tratasse dos próprios mandamentos de Deus. De fato, sem o Espírito Santo no coração, ninguém se torna verdadeiramente bom, por mais obras boas que possa realizar. Onde, porém, só o reino espiritual governa o país e as pessoas, a rédea é afrouxada para a maldade e é dado livre curso a toda velhacaria, pois o mundo comum não pode admitir isso nem compreendê-lo.

Ora, é nisso que se vê que intenção há nas palavras de Cristo, na passagem do Evangelho de Mateus V, que citamos há pouco, e que dizem que os cristãos não devem reclamar seus direitos nem ter entre eles a espada temporal. Propriamente falando, só o diz para seus caros cristãos; e somente eles fazem suas essas palavras e agem de acordo com elas; não fazem delas "conselhos", como os sofistas. Pelo contrário, em seu coração, por intermédio do Espírito Santo, são feitos assim por natureza e não causam mal a ninguém, estando dispostos a suportar o mal que vier de outrem. Se o mundo fosse composto somente de cristãos, essas palavras lhe diriam respeito por inteiro e agiria em conformidade com elas. Ora, como é composto também de não-cristãos, essas palavras não se referem a ele e não age em conformidade a elas. Ao contrário, o mundo faz parte do outro reino, daquele no qual os não-cristãos são obrigados à paz e ao bem por imposições exteriores.

É por isso também que Cristo não carregou a espada e não instituiu uma em seu reino. Porque ele é um rei que reina sobre cristãos e governa sem lei, unicamente por meio de seu Espírito Santo. E, embora tenha confirmado a espada, ele próprio não fez uso dela, pois, a espada não serve para nada em seu reino, onde só há pessoas de bem. É por isso que outrora Davi não teve o direito de construir o templo, porque tinha derramado muitas vezes o sangue e tinha carregado a espada (Ver 2º Livro de Samuel, capítulo VII; e 1º Lvro dos Reis, V, 17). Não que não tivesse razão se o construísse, mas porque não podia ser uma prefiguração de Cristo pelo fato de que este devia ter um reino de paz, sem espada. Em contrapartida, é a Salomão - ou seja, Friedrich ("rico de paz": rich = rico, fried = paz) ou Friedsam ("cheio de paz", "pacífico"), em alemão - que devia caber a responsabilidade de executar essa obra, porque tinha um reino de paz, pelo qual o verdadeiro reino de paz de Cristo, o verdadeiro "Friedrich" e o verdadeiro "Salomão" podia ser prefigurado. [...]

É isso que querem dizer os profetas, no Salmo 109: Teu povo será feito de voluntários e em Isaías I, 9: Não se matará nem se causará dano algum em toda a minha montanha santa; e ainda em Isaías II, 4: De suas espadas forjarão pás de arados e de suas lanças, foices. Uma nação não desembainhará mais a espada contra outra e ninguém mais se exercitará para a guerra. Quem quisesse estender essas palavras, e outras semelhantes, a todos os locais onde o nome de Cristo é citado, esse compreenderia a Escritura pelo avesso, pois elas são ditas unicamente a respeito dos cristãos que, certamente, se comportam entre si em conformidade com elas.

Martinho Lutero. A Liberdade do Cristão. Editora Escala, São Paulo, 2007. Texto III: Da Autoridade Temporal e em que Medida se Deve Obedecer a Ela; Segunda Parte.

Entretanto, poderiam dizer: Visto que não deve haver espada temporal entre os cristãos, como se pode, pois, governá-los exteriormente? É necessária, portanto que haja uma autoridade superior, mesmo entre os cristãos.

-- Resposta: Entre os cristãos não pode nem deve haver autoridade superior; pelo contrário, cada um é submisso a todos os outros ao mesmo tempo. Assim Paulo diz na Carta aos Romanos, XIII, 3: Que cada um tenha os outros como superiores a si próprio. E na 1ª Carta de Pedro, V, 5: Sejam todos submissos uns aos outros. É também o que Cristo quer, segundo o Evangelho de Lucas, XIV, 10: Quando o convidarem a bodas, tomo assento no último lugar. Não há entre os cristãos ninguém que seja superior aos outros, a não ser unicamente Cristo. Que espécie de autoridade pode haver, pois, quando todos são iguais e têm o mesmo direito, o mesmo poder, o mesmo bem e a mesma honra e quando ninguém cobiça ser superior aos outros, mas cada um quer ser subordinado aos outros? Certamente, onde houver seres desse gênero, seria impossível estabelecer uma autoridade superior, nem mesmo alguém haveria de querer, pois, sua maneira de ser e sua natureza não suportam ter um superior, uma vez que nenhum deles quer e pode ser superior. Mas onde não houver seres desse gênero, não há tampouco verdadeiros cristãos.