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Anders Bateva

Clippings / recortes de não-ficção: buscando o porquê das coisas.

Anders Bateva

Clippings / recortes de não-ficção: buscando o porquê das coisas.

Descartes: sobre autocrítica

Fonte: René Descartes. Discurso do Método para Bem Conduzir a Própria Razão e Procurar a Verdade nas Ciências, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2011.

Segunda Parte

Um dos primeiros [pensamentos que me ocorreram] foi o considerar que não há frequentemente tanta perfeição nas obras compostas de muitas peças e feitas pela mão de vários mestres como naquelas que são trabalhadas por um só. Assim, os edifícios começados e acabados por um só arquiteto costumam ser mais belos e melhor ordenados que os que muito tentaram consertar, servindo-se de velhos muros que foram construídos para outros fins. Do mesmo modo são essas velhas cidades que originalmente eram apenas aldeias e se tornaram com o tempo grandes cidades. Em geral são tão malproporcionadas comparadas com as praças regulares que um engenheiro traça a seu talante numa planície, que, embora ao considerar seus edifícios, cada um em separado, se encontre neles frequentemente tanta ou mais arte que nos daquelas praças, todavia, ao olharmos como são dispostos, aqui um grande, ali um pequeno, e como fazem as ruas curvas e desiguais, dir-se-ia que foi mais o acaso que a vontade de alguns homens, usando de razão, que desse modo os dispôs.

[...]

E deste modo pensei ainda que, tendo nós todos sido crianças antes de sermos adultos, e necessariamente governados durante muito tempo pelos nossos apetites e pelos nossos preceptores, frequentemente contrários uns aos outros e nem sempre nos aconselhando uns e outros, o melhor, é quase impossível que os nossos juízos sejam tão puros e tão sólidos como seriam se tivéssemos todos, desde o nascimento, o uso inteiro de nossa razão e apenas nos tivéssemos conduzido por ela.

É certo que nunca devemos demolir todas as casas de uma cidade, apenas com a intenção de as refazer de outra maneira e de tornar as ruas mais belas; mas vê-se que muitas pessoas derrubam as suas para as reconstruir, e até algumas vezes são obrigadas a isso quando elas correm risco de cair por si, por não estarem bastante firmes os seus alicerces. Com este exemplo, persuadi-me de que, na verdade, [...] a respeito das opiniões que até então eu aceitara, o que melhor teria a fazer era, uma vez por todas, de as recusar, para as substituir em seguida por outras melhores, ou pelas mesmas quando as houvesse ajustado ao nível da razão. Acreditei firmemente que, deste modo, conduziria minha vida muito melhor do que se a construísse sobre velhos alicerces e me apoiasse apenas nos princípios pelos quais me deixara guiar na mocidade, sem nunca haver examinado se eram verdadeiros. [...]

A simples resolução de nos libertarmos de todas as opiniões anteriormente recebidas como verdadeiras não é um exemplo que todos devam seguir; o mundo é quase composto por duas espécies de espíritos aos quais ele de nenhum modo convém, a saber:

  1. aqueles que, julgando-se mais hábeis do que são, não resistem precipitar os seus juízos e nem têm bastante paciência para conduzir com ordem seus pensamentos, de onde resulta que se tomarem uma vez a liberdade de duvidar dos princípios que receberam e de se afastar do caminho comum, nunca poderão manter-se na senda que é necessário seguir para ir mais direito, e ficarão perdidos por toda a vida;
  2. e os outros que, possuindo bastante razão e modéstia para julgar que são menos capazes de distinguir o verdadeiro do falso que outras pessoas, pelas quais eles podem ser intruídos, devem antes contentar-se em seguir a opinião dessas outras pessoas do que procurarem por si outras opiniões melhores.

Quanto a mim, seria sem dúvida do número destes últimos, se houvesse tido apenas um mestre ou se desconhecesse as diferenças que sempre existiram entre as opiniões dos mais doutos. Mas:

  • tendo aprendido, desde o colégio, que nada se pode imaginar de tão estranho e de tão pouco crível que não houvesse sido dito por algum filósofo;
  • e mais, concluindo, das minhas viagens, que todos que têm sentimentos contrários aos nossos nem por isso são bárbaros ou selvagens, e que muitos, tanto quanto nós, usam da razão;
  • e havendo considerado que um mesmo homem com o seu próprio espírito, desde que passe a infância entre franceses ou alemães, torna-se diferente do que o seria se sempre houvesse vivido entre chineses ou canibais;
  • e que, até nas modas de nossas roupas, a mesma cousa que nos agradou há dez anos, e que talvez volte a nos agradar antes de outros dez, nos parece agora extravagante e ridícula, de sorte que é mais o costume e o exemplo que nos guiam do que qualquer conhecimento certo;
  • e que, no entanto, a pluralidade das opiniões é uma prova que nada vale para as verdades um pouco difíceis de descobrir, pelo fato de ser bem mais verossímil que um só homem as encontre que todo um povo
Cão conduzindo a si próprio
vi-me forçado a conduzir-me a mim mesmo

[logo,] não podia escolher ninguém cujas opiniões me parecessem dever ser preferidas às dos outros. Assim, vi-me forçado a procurar conduzir-me a mim mesmo.

Terceira Parte

Enfim, como não basta, antes de começar a reconstruir a casa em que se mora, derrubá-la e provermo-nos de materiais e de arquitetos, ou transformando-nos nós mesmos em arquitetos, como é necessário ainda traçar cuidadosamente o seu plano, e também estar prevenido com outra casa onde nos possamos alojar comodamente durante o tempo que trabalharmos, assim também, para não ficar irresoluto em minhas ações, embora a razão me obrigasse a sê-lo em meus juízos, e para não deixar de viver desde então da maneira mais feliz que pudesse, formei, para meu uso, uma moral provisória, que consistia apenas em três ou quatro máximas que vos desejo expor.

  1. Obedecer às leis e aos costumes de minha terra, guardando com constância a religião na qual Deus me fez ter a graça de ser instruído desde a minha infância, e de me governar, em tudo mais, segundo as opiniões mais moderadas e mais afastadas dos excessos, e que fossem comumente recebidas na prática pelas pessoas mais sensatas com as quais eu teria de viver. Porque, começando desde então a não levar em conta as minhas próprias opiniões, em virtude de as querer submeter todas a exame, parecia-me melhor e mais seguro seguir as dos mais sensatos. E embora talvez existam homens tão sensatos entre os persas ou os chineses quanto entre nós, acreditava que o mais útil era seguir aqueles com os quais teria que viver, e que, para saber quais as suas verdadeiras opiniões, devia atender mais aos que praticavam do que ao que diziam, não só porque em virtude da corrupção dos nossos costumes poucas são as pessoas que dizem tudo aquilo que creem, mas também porque muitas o ignoram; porque sendo a atividade do pensamento, pela qual se crê uma cousa, diferente daquela pela qual se conhece que se crê, elas andam muitas vezes uma sem a outra. E, entre muitas opiniões igualmente aceitas, escolhia apenas as mais moderadas, não só porque são sempre as mais cômodas para praticar e provavelmente as melhores, pois todo excesso costuma ser mau, como também porque, desse modo, me desviaria menos do verdadeiro caminho, no caso de errar, do que se tivesse escolhido um dos extremos. Punha no número dos excessos, particularmente, todas as promessas em virtude das quais se diminui, em alguma coisa, a própria liberdade. Não que desaprovasse as leis que, para remediar a inconstância dos espíritos fracos, permitem, quando se tem um bom propósito, ou mesmo, quando para o bem da segurança do comércio, algum desígnio apenas indiferente, que façamos promessas ou contratos que obrigam a mantê-lo. Mas, como não percebia no mundo cousa alguma que permanecesse sempre no mesmo estado, e porque, no que me dizia respeito, prometia a mim mesmo aperfeiçoar cada vez mais os meus juízos e não torná-los piores, pensava cometer uma grande falta contra o bom senso se, por aprovar alguma cousa, me houvesse obrigado a considerá-la como boa depois, quando ela tivesse cessado de o ser ou que eu tivesse deixado de a considerar como tal.
  2. Ser o mais firme e resoluto que pudesse em minhas ações e em seguir com não menor constância as opiniões mais duvidosas, uma vez que me houvesse determinado por elas, imitando nisto os viajantes que, ao se encontrarem perdidos em uma floresta, não devem vaguear de um lado para outro, e menos ainda parar em um lugar, mas andar sempre a direito o mais que possam, numa mesma direção, e de nenhum modo modificá-la, em virtude de fracas razões, embora tenha sido, de início, simplesmente o acaso que haja determinado essa escolha; porque, por esse meio, se não vão justamente para onde desejam, pelo menos chegarão, por fim, a qualquer lugar onde, provavelmente, estarão melhor que no meio da floresta. Do mesmo modo, as ações da vida frequentemente não comportam nenhum adiamento, e é verdade muito certa que, quando não está em nosso poder o discernir as opiniões mais verdadeiras, devemos seguir as mais prováveis, ainda mesmo que não notemos em umas mais probabilidades que em outras; devemos contudo nos decidir por algumas e considerá-las, a seguir, não mais como duvidosas, no que se relaciona com o seu valor prático, mas como muito verdadeiras e muito certas, porque a razão que nos leva a assim considerá-las não é menos certa e verdadeira. E isto foi capaz, desde logo, de me libertar de todos os arrependimentos e remorsos que costumam agitar as consciências desses espíritos fracos e vacilantes que se deixam levar a praticar como boas as cousas que, a seguir, julgam más.
  3. Procurar sempre vencer antes a mim próprio do que à fortuna, e de modificar antes os meus desejos do que a ordem do mundo; e a acostumar-me geralmente a crer que somente os nossos pensamentos estão inteiramente em nosso poder, de sorte que, depois de havermos procedido da melhor maneira possível no tocante às cousas que nos são exteriores, se não somos bem-sucedidos no que nos diz respeito, é porque isso é absolutamente impossível.
    E só isso me parecia bastante para me impedir de desejar no futuro o que eu não pudesse adquirir e desse modo, viver contente. Com efeito, sendo a nossa vontade naturalmente propensa a desejar apenas aquelas cousas que o entendimento lhe apresenta de algum modo como possíveis, é certo que, se considerarmos todos os bens como igualmente afastados de nosso poder, não sentiremos mais tristeza com a falta daqueles que nos parecerem ser devidos em virtude do nosso nascimento, quando deles formos privados sem culpa nossa, do mesmo modo que não lastimamos não possuir os reinos da China e do México. E fazendo, como se diz, da necessidade virtude, não desejaremos tampouco estar sãos quando estamos doentes ou estar livres quando estamos na prisão, ter corpos de uma matéria tão pouco corruptível como o diamante ou asas para voar como os pássaros. Confesso, porém, que é preciso um longo exercício e uma meditação muitas vezes reiterada para nos habituarmos a considerar sob esse prisma todas as cousas; e creio que é precisamente nisto que consistia o segredo dos filósofos [estóicos] que puderam outrora subtrair-se ao império da fortuna e, apesar das dores e da pobreza, rivalizar em felicidade com os deuses. Porque, estando ocupados sem cessar na consideração dos limites que lhes impunha a natureza, persuadiam-se perfeitamente de que a única cousa que caía sob o seu poder eram os seus pensamentos, e que isso só bastava para os impedir de demonstrarem interesse por outras cousas. E dispunham dos seus pensamentos de modo tão absoluto que tinham razão de se considerar mais ricos, mais poderosos, mais livres e mais felizes que todos os demais homens que, não possuindo esta filosofia, por mais favorecidos que possam ser pela natureza e pela fortuna, nunca dispõem assim de tudo o que querem.

[...]

Depois de assim me haver assegurado destas máximas, e de as haver posto de parte com as verdades da fé que sempre foram as primeiras em minha crença, julgava que, para as demais opiniões, podia delas livremente desfazer-me. E, como esperava poder realizar melhor isto frequentando os homens do que fechado no quarto aquecido onde me haviam ocorrido todas estas ideias, não terminara ainda o inverno quando de novo me pus a viajar. E, nos nove anos seguintes, nada mais fiz do que andar a rolar, de um lado para outro, por este mundo, buscando ser mais espectador do que ator em todas as comédias que nele se apresentam. Procurando principalmente refletir a propósito de cada cousa, sobre o que podia torná-la suspeita e dar ocasião para enganos, ia desenraizando, ao mesmo tempo, do meu espírito todos os erros que até então aí se haviam insinuado. Não que nisto imitasse os céticos que apenas duvidam por duvidar e afetam ser sempre irresolutos; mas, ao contrário, todo o meu intuito era conquistar certeza e rejeitar a terra movediça e a areia para encontrar a rochar e a argila. O que me deu muito bom resultado, segundo me parece, pois que, procurando descobrir a falsidade e a incerteza das proposições que examinava -- não por meio de fracas conjecturas, mas com raciocínios claros e seguros -- não encontrava nenhumas tão duvidosas das quais não tirasse sempre alguma conclusão bastante certa, quando mais não fosse a de não conter ela nada de certo.

E, do mesmo modo que quando se põe por terra uma casa, reservamos o que sobra das demolições para aproveitá-lo na construção de outra nova, assim ao destruir todas as minhas opiniões que julgava malfundadas, fazia diversas observações e adquiria outras experiências que me serviram, a seguir, para estabelecer outras mais certas.

[...]