Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Anders Bateva

Clippings / recortes de não-ficção: prospecções literárias, de tudo um pouco.

Anders Bateva

Clippings / recortes de não-ficção: prospecções literárias, de tudo um pouco.

Platão: Sobre misantropia, decepções, e dedo podre

Fonte: Sócrates. Os Pensadores III: Platão - 1ª edição - 1972 - Abril Cultural - diálogo "Fédon", "Fédon retoma a narrativa".

O ódio aos seres humanos - a misantropia - penetra nos corações quando confiamos demais numa pessoa, sem nos acautelarmos; quando acreditamos que uma pessoa é boa, sincera, honesta, e vimos a descobrir mais tarde que tal não é, que pelo contrário é má, desonesta e mentirosa; e se isso acontecer repetidas vezes a um mesmo humano, e justamente a propósito daquelas pessoas a quem considerava como seus melhores e mais sinceros amigos, esse passará finalmente a odiar todos os humanos, persuadido de que em ninguém há de encontrar a menor qualidade boa.

E proceder assim não é, acaso, proceder mal? Não é claro que esse descrente vive entre os humanos sem entretanto conhecer a humanidade? Se procedesse com juízo, notaria que bem poucos humanos são absolutamente bons ou maus, e que inúmeros são os que se encontram entre esses extremos.

Se dá aqui o mesmo que se dá a respeito das coisas pequeníssimas e grandíssimas. Achas que pode haver coisa mais rara do que um homem enormemente grande ou extraordinariamente pequeno? E isso vale também para o cão, como para qualquer outra coisa. E não te parece também que é muito difícil encontrar-se um ser rapidíssimo e um vagarosíssimo, assim como um belíssimo e um feíssimo, ou um muito alvo e outro muito negro? Acaso não notaste por ti mesmo como são raros em todas essas coisas os pontos extremos, ao passo que os termos médios são muito mais numerosos?

De modo que, se fosse feito um concurso de maldade, não te parece também que apenas uns poucos seriam premiados?

[...] Mas a comparação [com a misologia - ódio à razão] é esta: uma pessoa que desconhece a arte de provar por argumentos se entrega com cega confiança a um argumento que lhe parece verdadeiro; pouco depois, este passa a lhe parecer falso. [...] Mas não seria deplorável desgraça, Fédon, quando existe um argumento verdadeiro, sólido, suscetível de ser compreendido, que esta mesma pessoa, em lugar de acusar as suas própria dúvidas ou a sua falta de arte, lance toda a culpa na própria razão e passe toda a vida a caluniá-la e odiá-la, privando-se, desse modo, da verdade dos seres e da ciência?

Ora pois, tomemos cuidado para que não venha a penetrar em nossas almas o pensamento de que nos argumentos nada há de razoável. Suponhamos sempre, ao contrário, que nós é que não temos ainda bastante discernimento. Devemos, com efeito, ser corajosos e fazer tudo o que for necessário para obter os conhecimentos verdadeiros.

(A citação deste trecho interessante não corresponde a uma indicação de leitura do diálogo "Fédon". Em minha opinião, existem outros diálogos de Platão mais proveitosos que este.)

Contextualização

Eu tive depressão há alguns anos. Nessa época, quem podia me ajudar, ou me deu as costas, ou aproveitou a oportunidade em que eu estava caído para poder pisar em mim. Durante e após o tratamento, me senti terrivelmente traído e passei a não confiar em ninguém mais: "cada um por si e Deus contra todos", sozinho num mundo hostil, entregue ao próprio azar. Mesmo após levar alta, quando alguém era simpático comigo, ou oferecia alguma ajuda corriqueira, eu já presumia ser mentira - mais uma mentira. Fiquei de luto, pois a espécie humana ainda existia, embora a humanidade, isto é, aqueles atributos idealizados que supostamente nos tornam melhores que outros animais, já tivesse morrido há muito tempo. Achei que estava morando no Inferno.

Felizmente, existem pessoas boas neste mundo, que fazem a vida ser mais agradável e o custo/benefício da vida ser melhor. Nem todo mundo é totalmente mal! Eu achava que todos eram maus pois me cerquei de pessoas inúteis, que não ajudam os outros - tive dedo podre. Eu mesmo não era muito diferente disto, porém. Não plantei nada, então também não colhi nada quando precisei. Atraí pessoas semelhantes a mim, tão inúteis quanto eu.

Mas agora eu já conheço algumas pessoas que me ajudam, e eu também vou ajudá-las. Reciprocidade é fundamental. Pessoas boas existem, é questão de saber separar o joio do trigo - o que eu não sabia antes, mas estou aprendendo agora. Também, saber desenvolver vínculos... E ser útil.


Tomar as dificuldades, obstáculos, e tristezas da vida como um desafio que devemos superar para tornar-nos mais fortes, em vez de como uma punição injusta que não nos devia sobrevir, requer fé e coragem.
-- Erich Fromm. A Arte de Amar - 1991 - Editora Itatiaia. Capítulo IV: "A Prática do Amor".

4 comentários

Comentar post

Assuntos (Índice)

 

Nuvem de tags (todas as etiquetas)

Arquivo anual

2012-2014: posts não mantiveram-se

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.