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Anders Bateva

Nonfiction Litblog. Fichamentos / clippings / recortes de não-ficção. Prospecções literárias em: Ciências Sociais; Informática; e Ciências Ambientais.

Anders Bateva

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Bertrand Russell: até que ponto vai nosso controle consciente?

Bertrand Russel, "Por que os homens vão à guerra", Capítulo I: "O Princípio do Crescimento". Editora UNESP, 1ª edição (2014), São Paulo.
Bertrand Russell: idoso sem barba, de cabelo repartido, e terno.
2018 Anastasia Yesipova

Toda atividade humana jorra de duas fontes: impulso e desejo. O papel representado pelo desejo sempre foi bastante reconhecido. Quando os homens não se encontram totalmente satisfeitos e nem capazes de conseguir de imediato aquilo que vai lhes satisfazer, a imaginação lhes traz à mente a ideia de coisas que os fariam, acreditam eles, felizes. Todo desejo pressupõe um intervalo de tempo entre a consciência da necessidade e a oportunidade de satisfazê-la. Os atos inspirados pelo desejo podem até ser dolorosos, o tempo para se alcançar a satisfação pode ser muito longo, o objeto desejado pode ser algo que está fora de nossas próprias vidas e até mesmo depois de nossa própria morte. A vontade, força direcionadora, consiste, sobretudo, em perseguir desejos por objetos mais ou menos distantes, a despeito de toda a dor dos atos implicados e das solicitações de desejos e impulsos incompatíveis, mas ainda mais imediatos. [...]

Mas o desejo governa apenas uma parte da atividade humana -- e não se trata sequer da parte mais importante, mas tão somente da mais consciente, explícita e civilizada.

Na parte mais instintiva de nossa natureza, somos dominados por impulsos a certos tipos de atividade, e não por desejos de certos fins. Se as crianças correm e gritam, não é pelo bem que com isso esperam realizar, mas por causa de um impulso direto de correr e gritar. Se os cães uivam para a lua, não é por considerar que com isso obterão alguma vantagem, mas porque sentem um impulso de uivar. Não é um propósito, mas apenas um impulso o que induz ações tais como beber, comer, fazer amor, brigar e ostentar. [...] Os atos instintivos normalmente chegam a resultados agradáveis ao homem comum, mas não são executados a partir do desejo por esses resultados. São executados, sim, a partir do impulso direto, e o impulso quase sempre é intenso, mesmo nos casos em que não se chega ao resultado desejado. Os adultos gostam de pensar que são mais racionais que as crianças ou os cães e, inconscientemente, ocultam de si próprios o tamanho do papel desempenhado pelo impulso em suas vidas. Esse ocultamento inconsciente sempre segue certo plano geral.

Quando um impulso não é satisfeito no momento em que surge, cresce um desejo pelas consequências esperadas com sua satisfação. Se as consequências que foram esperadas com alguma sensatez acabam por se revelar nitidamente desagradáveis, nasce um conflito entre previsão e impulso. Se o impulso é fraco, a previsão pode dominar: é o que se chama de agir conforme a razão. Se o impulso é forte, ou a previsão será falseada e as consequências desagradáveis, esquecidas, ou as consequências serão, nos homens de compleição heroica, impetuosamente aceitas.

[...]

Mas tal força e ímpeto de impulso são raros. A maioria dos homens, quando o impulso é forte, consegue se convencer -- em geral por uma seletividade subconsciente da atenção -- de que a satisfação do impulso trará consequências agradáveis. Filosofias inteiras, sistemas de avaliação ética inteiros, se lançam por esse caminho: são a corporificação de um tipo de pensamento que é subserviente ao impulso e que procura fornecer uma base, racional apenas na aparência, para sua satisfação. O único pensamento genuíno é o que brota do impulso intelectual da curiosidade, levando ao desejo de saber e de compreender. Mas boa parte do que é tido como pensamento se inspira em algum impulso não-intelectual e é somente um meio de nos convencermos de que não vamos nos desapontar e nem fazer qualquer mal se satisfizermos o impulso.

Quando um impulso é reprimido, sentimos desconforto ou até mesmo dor violenta. Podemos satisfazer o impulso para escaparmos dessa dor e então, nesse caso, nossa ação tem um propósito. Mas a dor só existe por causa do impulso, e o impulso se direciona para um ato, e não para escapar da dor resultante de sua repressão. O impulso em si continua destituído de propósito, e o propósito de escapar da dor surge apenas quando o impulso é momentaneamente reprimido.

Muito mais do que o desejo, o impulso está na base de nossa atividade. O desejo tem seu lugar, mas não é um lugar tão grande quanto parece. Os impulsos trazem consigo toda uma série de desejos subservientes e fictícios: fazem que os homens tenham a sensação de que desejam os resultados da satisfação dos impulsos e de que agem para chegar a esses resultados, quando, na verdade, sua ação não tem outro motivo além de si mesma. Um homem pode escrever um livro ou pintar um quadro na crença de que deseja os elogios que daí virão. Mas, assim que termina, caso seu impulso criativo não esteja esgotado, ele vê que a obra que acabou de concluir se torna desinteressante a seus olhos e, então, começa um novo trabalho. O que se aplica à criação artística vale também para tudo o que é mais vital em nossas vidas: o que nos move é o impulso direto, e os desejos que julgamos ter não são mais que uma mera roupagem para o impulso.

O desejo, oposto ao impulso, tem, é verdade, uma parcela considerável e crescente na regulação da vida dos homens. O impulso é errático e anárquico, não se adapta facilmente a um sistema bem regulamentado; pode ser tolerado em crianças e artistas, mas não é tido por conveniente a homens que queiram se levar a sério. Quase todo trabalho remunerado é feito a partir do desejo, e não do impulso: o trabalho em si pode ser mais ou menos fastidioso, mas o pagamento é desejado. As atividades sérias que preenchem as horas de trabalho de um homem são, exceto para uns poucos indivíduos afortunados, dirigidas, sobretudo, pelos propósitos, e não pelos impulsos a essas atividades. Quase ninguém verá nisso um mal, pois não se reconhece o lugar do impulso em uma existência satisfatória.

Um impulso sempre parecerá loucura a quem dele não compartilha na realidade nem na imaginação. Todo impulso é essencialmente cego, no sentido de que não brota de nenhuma previsão de consequências. O homem que não compartilha do impulso formará uma estimativa diferente a respeito de quais serão as consequências e de quão desejáveis serão as que de fato venham a se realizar. Essa diferença de opinião parecerá ética ou intelectual, embora sua verdadeira base seja uma diferença de impulso. Nesses casos, não se chegará a nenhum acordo genuíno enquanto persistir a diferença de impulso. Em todos os homens de vida vigorosa há impulsos tão fortes que aos outros parecerão completamente desarrazoados. Impulsos cegos às vezes levam à destruição e à morte, mas, outras vezes, levam às melhores coisas que o mundo contém. O impulso cego é a fonte da guerra, mas também é a fonte da ciência, da arte e do amor. Não se deve desejar o enfraquecimento do impulso, mas seu direcionamento para a vida e para o crescimento, e não para a morte e a decadência.

Agressão → crescimento humano frustrado / Bertrand Russell

Bertrand Russel, "Por que os homens vão à guerra", Capítulo I: "O Princípio do Crescimento". Editora UNESP, 1ª edição (2014), São Paulo.
Bertrand Russell: idoso sem barba, de cabelo repartido, e terno.
2018 Anastasia Yesipova

Há duas maneiras de ver a guerra, e nenhuma delas me parece adequada: a visão mais comum neste país [Inglaterra] é a de que a guerra se deve à perversidade dos alemães; a visão da maioria dos pacifistas é a de que se deve a emaranhados diplomáticos e às ambições dos governos. Penso que ambas as visões fracassam em perceber que a guerra nasce, em grande medida, da própria natureza humana. Os alemães e também os homens que compõem os governos são, como um todo, seres humanos comuns, incitados pelas mesmas paixões que incitam tantos outros, não muito diferentes do resto do mundo, a não ser por suas circunstâncias. Consentem a guerra homens que não são nem alemães nem diplomatas -- e com uma prontidão e aquiescência a razões falsas e impróprias que não seriam possíveis se qualquer repugnância mais profunda estivesse difundida por outras classes e nações. As coisas falsas nas quais os homens acreditam e as coisas verdadeiras nas quais desacreditam são índice de seus impulsos -- não necessariamente de impulsos individuais (pois as crenças são contagiosas), mas de impulsos gerais da comunidade. Todos nós acreditamos em muitas coisas nas quais não temos bons motivos para acreditar, porque, subconscientemente, nossa natureza suplica por certos tipos de ação que essas crenças, se fossem verdadeiras, tornariam razoáveis. As crenças infundadas são o tributo que o impulso presta à razão. E esse é o caso das crenças que, opostas porém similares, fazem que homens, aqui e na Alemanha, acreditem em seu dever se levar a guerra adiante.

O primeiro pensamento que naturalmente ocorre a quem aceita essa visão é o de que seria melhor se os homens se encontrassem em maior medida sob o domínio da razão: [...] se os impulsos fossem mais bem controlados, se o pensamento fosse menos dominado pela paixão, os homens protegeriam suas mentes ante as aproximações da febre da guerra, e as disputas seriam resolvidas de maneira amistosa. Isso é verdadeiro, mas insuficiente -- apenas aquelas cujo desejo de pensar com verdade é, em si próprio, uma paixão, podem ver que esse desejo é capaz de controlar as paixões da guerra. Só a paixão pode controlar a paixão, e só um impulso ou desejo contrário pode reprimir o impulso. A razão, como apregoam os moralistas tradicionais, é muito negativa e apática para compor uma vida boa. Não se pode prevenir as guerras só com a razão, mas sim com uma vida positiva de paixões e impulsos contrários àqueles que levam à guerra. É a vida do impulso que precisa se transformar, não apenas a vida do pensamento consciente.

[...]

O impulso cego é a fonte da guerra, mas também é a fonte da ciência, da arte e do amor. Não se deve desejar o enfraquecimento do impulso, mas seu direcionamento para a vida e para o crescimento, e não para a morte e para a decadência.

Na verdade, o controle total do impulso pela vontade -- algumas vezes pregado por moralistas e muitas vezes imposto pela necessidade econômica -- não é desejável. Uma vida governada pelos propósitos e desejos, à exclusão dos impulsos, é uma vida fatigante: exaure a vitalidade e, no fim, torna o homem indiferente aos propósitos que tentava atingir. Quando uma nação inteira vive dessa forma, a nação inteira acaba ficando frágil, sem o pulso necessário para reconhecer e transpor os obstáculos que a separam de seus desejos. [...] A longo prazo, tal modo de existência, quando não seca as fontes da vida, produz novos impulsos, de tipo diferente daqueles que a vontade se habituara a controlar e que o pensamento tinha consciência. Assim, esses novos impulsos estão aptos a serem piores em seus efeitos do que aqueles que já haviam sido reprimidos. A disciplina excessiva, especialmente quando imposta de fora, resulta, com frequência, em impulsos de crueldade e destruição: essa é uma das razões pelas quais o militarismo tem efeitos negativos sobre o caráter nacional. Se os impulsos espontâneos não conseguem encontrar um canal de manifestação, o resultado é, quase sempre, a falta de vitalidade ou impulsos opressivos e contrários à vida.

[...]

Os impulsos podem ser divididos em dois: os que se dirigem à vida e os que se dirigem à morte. Os impulsos corporificados na guerra estão entre aqueles que se dirigem à morte. Qualquer um dos impulsos que se dirigem à vida, quando forte o bastante, fará o homem se opor à guerra. Alguns desses impulsos são fortes apenas em homens altamente civilizados; já outros fazem parte da humanidade comum. Os impulsos dirigidos para a arte e para a ciência estão entre os mais civilizados que se dirigem à vida. [...] Mas não é a partir desses impulsos tão refinados que se poderá gerar uma força popular capaz de transformar o mundo.

No lado da vida existem três forças que não exigem à mente nenhum dote excepcional, que não são muito raras atualmente e que poderiam ser bem mais comuns sob instituições sociais melhores. São elas: o amor; o instinto construtivo; e a alegria de viver. [...]

Os impulsos e desejos de homens e mulheres, na medida em que têm real importância para suas vidas, não estão apartados uns dos outros. Bem ao contrário, provêm de um princípio de crescimento central, de uma urgência instintiva que os leva em certa direção, assim como as árvores procuram a luz. Contanto que esse movimento instintivo não seja frustrado, quaisquer contratempos que possam ocorrer não serão desastres fundamentais e não produzirão as distorções que resultam da interferência no crescimento natural. Esse centro íntimo de cada ser humano é o que a imaginação deve apreender se quisermos compreendê-lo intuitivamente. Ele difere de um homem para o outro e determina para cada um o tipo de excelência de que é capaz. O máximo que as instituições podem fazer por um homem é deixar que seu crescimento seja livre e vigoroso: elas não podem forçá-lo a crescer de acordo com o padrão de outro homem. [...] [Certos] impulsos, mesmo que se originem no princípio central do indivíduo, podem prejudicar o crescimento dos outros e precisam ser reprimidos para o bem dos outros. Mas, em geral, os impulsos prejudiciais aos outros tendem a resultar do crescimento frustrado e a ser de menor importância naqueles que não sofreram empecilhos em seu desenvolvimento instintivo.

[...]

Quando o crescimento de um homem não sofre interdições, seu autorrespeito se mantém intacto, e ele não tende a enxergar os outros como inimigos. Mas, quando seu crescimento é impedido, por qualquer razão, ou quando ele é forçado a crescer de alguma forma tortuosa e não natural, seu instinto lhe apresenta o ambiente como inimigo, e ele se enche de ódio. A alegria de viver o abandona, e a maleficência toma lugar da cordialidade. [...] A verdadeira liberdade, se pudesse ser alcançada, contribuiria muito para destruir o ódio.

[...]

O mesmo instinto que leva à criatividade artística ou intelectual pode, sob outras circunstâncias, levar ao amor pela guerra. O fato de uma atividade ou crença ser resultado do instinto não é, portanto, motivo para encará-lo como inalterável.

Bertrand Russell - sobre secessão

Bertrand Russel, "Por que os homens vão à guerra", Capítulo 2: "O Estado". Editora UNESP, 1ª edição (2014), São Paulo.
Bertrand Russell: idoso sem barba, de cabelo repartido, e terno.
2018 Anastasia Yesipova

[Uma curiosa característica do] Estado é a crença de que há uma peculiar perversidade no desejo de secessão por parte de qualquer parcela da população. Se a Irlanda ou a Polônia desejam independência, logo se considera óbvio que a este desejo se deve resistir de forma tenaz e que qualquer tentativa de assegurá-lo precisa ser condenada como "alta traição". O único exemplo contrário de que consigo me lembrar é a separação da Noruega e da Suécia, que foi elogiada, mas não imitada. Nos outros casos, apenas a derrota na guerra obrigou Estados a ceder territórios: embora essa atitude seja tida como certa, não é a que seria adotada se o Estado tivesse melhores objetivos em vista. A razão de sua adoção é que o objetivo principal de quase todos os grandes Estados é o poder, especialmente o poder na guerra. E este aumenta, com frequência, pela inclusão de cidadãos relutantes. Se o objetivo em vista fosse o bem-estar dos cidadãos, a questão de certa área dever ser incluída ou formar um Estado separado seria entregue à livre decisão dessa área.

Religiões ∋ hipocrisia / Bertrand Russell

Bertrand Russel, "Por que os homens vão à guerra", Capítulo 7: "A religião e as Igrejas". Editora UNESP, 1ª edição (2014), São Paulo.
Bertrand Russell: idoso sem barba, de cabelo repartido, e terno.
2018 Anastasia Yesipova

"Religião" é uma palvra que tem muitos significados e uma longa história. Na origem, dizia respeito a certos ritos herdados do passado remoto, realizados por alguma razão há muito esquecida e associados, de tempos em tempos, a vários mitos que lhe dão suposta importância. Muito disso ainda permanece. Um homem religioso é aquele que vai à igreja, um comungante, um "praticante", como dizem os católicos. Como ele se comporta em outras circunstâncias, ou como se sente em relação à vida e ao lugar do homem no mundo, nada disso tem influência sobre a questão de ele ser "religioso" nesse sentido simplista, mas historicamente correto. Muitos homens e mulheres são religiosos nesse sentido, sem ter em si nada daquilo que merece ser chamado de religião no sentido em que emprego a palavra. A mera familiaridade com os serviços da Igreja os tornou insensíveis; eles [...] são inertes às palavras dos Evangelhos que, levianamente repetidas, condenam quase todas as atividades dos que se supõem discípulos de Cristo. Este é o destino que assalta todo e qualquer rito habitual: é impossível que continue a produzir muito efeito depois de ter sido realizado tantas vezes, a ponto de se tornar mecânico.

Bertrand Russell - o poder do pensamento

Bertrand Russel, "Por que os homens vão à guerra", Capítulo 5: "A Educação". Editora UNESP, 1ª edição (2014), São Paulo.
Bertrand Russell: idoso sem barba, de cabelo repartido, e terno.
2018 Anastasia Yesipova

O mundo em que vivemos é vário e impressionante: algumas das coisas que parecem as mais simples ficam cada vez mais complexas quanto mais as examinamos; outras coisas, que poderiam parecer quase impossíveis de se descobrirem, já foram esclarecidas pela genialidade e pela indústria. Os poderes do pensamento, as vastas regiões que ele pode dominar, as regiões muito mais vastas que ele pode apenas vagamente sugerir à imaginação, dão àqueles cujas mentes viajaram para além do ordinário uma incrível riqueza de material, uma fuga da trivialidade e do fastio da rotina -- e assim toda a vida se enche de interesse e se derrubam os muros da prisão do lugar-comum. O mesmo amor à aventura que arrasta homens ao Polo Sul, a mesma paixão por uma prova de força conclusiva que leva homens a saudar a guerra, pode encontrar, no pensamento criativo, um canal de manifestação que não é nem desperdiçado, nem cruel e que aumenta a dignidade do homem ao encarnar na vida um pouco do esplendor brilhante que o espírito humano arrebata ao desconhecido. Dar essa alegria, em maior ou menor medida, a todos os que dela são capazes, é a finalidade suprema pela qual se deve valorar a educação da mente.

Talvez se diga que a alegria da aventura mental é rara, que poucos podem apreciá-la e que a educação ordinária não pode dar conta de um bem tão aristocrático. Não acredito nisso. A alegria da aventura mental é muito mais comum nos jovens do que nos homens e nas mulheres. É muito comum entre as crianças e cresce naturalmente na fase do faz de conta e da fantasia. É rara na vida adulta porque se faz de tudo para matá-la durante a educação. Os homens temem o pensamento mais do que a qualquer outra coisa no mundo -- mais do que a ruína, mais até do que a morte. O pensamento é subversivo e revolucionário, destrutivo e terrível; o pensamento é implacável com o privilégio, com as instituições estabelecidas e com os hábitos confortáveis; o pensamento é anárquico e sem lei, indiferente à autoridade, negligente para com a sabedoria comprovada dos tempos. O pensamento olha para o fundo do inferno e não sente medo. Vê o homem, esse grão insignificante, cercado por insondáveis profundezas de silêncio; mesmo assim, aguenta orgulhosamente, impassível, como se fosse o senhor do universo. O pensamento é grandioso, veloz e livre, a luz do mundo e a glória máxima do homem.

Mas, se quisermos fazer que o pensamento seja propriedade de muitos, e não privilégio de poucos, precisamos nos livrar do medo. É o medo que detém os homens -- medo de que suas estimadas crenças se provem ilusórias, medo de que as instituições pelas quais vivem se provem prejudiciais, medo de que eles próprios se provem menos dignos de respeito do que supunham. [...]

Não há instituição inspirada pelo medo que possa promover a vida. A esperança, e não o medo, é o princípio criativo das coisas humanas. Tudo o que fez grande o homem surgiu da tentativa de assegurar o que é bom, não da luta para evitar o que se julgava ruim. A educação moderna raramente consegue um grande resultado porque raramente se inspira pela esperança. O anseio de preservar o passado, em vez da esperança de criar o futuro, domina as mentes de quem controla o ensino da juventude. A educação não deve visar a uma consciência passiva de fatos mortos, mas sim a uma atividade direcionada para o mundo que vamos criar com nossos próprios esforços.

Auto-disciplina ⩼ disciplina escolar / Bertrand Russell

Bertrand Russel, "Por que os homens vão à guerra", Capítulo 5: "A Educação". Editora UNESP, 1ª edição (2014), São Paulo.
Bertrand Russell: idoso sem barba, de cabelo repartido, e terno.
2018 Anastasia Yesipova

Obediência e disciplina são, supostamente, indispensáveis para manter a ordem em uma classe ou para dar alguma instrução. Até certa medida, isso é verdade; mas a medida é muito menor do que pensam aqueles que veem a obediência e a disciplina como desejáveis em si mesmas. A obediência, submissão da vontade a uma ordem externa, é o complemento da autoridade. Ambas podem ser necessárias em certos casos. Crianças indóceis, lunáticos e criminosos podem precisar de autoridade e ser forçados a obedecer. Mas, quando isso se faz necessário, é uma desgraça: o desejável é a livre escolha de fins, na qual não se precisa interferir. E reformadores educacionais têm demonstrado que isso é muito mais possível do que nossos pais jamais poderiam imaginar -- é quase milagroso o que madame Montessori conseguiu na maneira de minimizar a obediência e a disciplina, com vantagem para a educação.

[...]

A disciplina, tal como existe nas escolas, é, em grande medida, um mal. Há, no entanto, um tipo de disciplina que é necessário a quase toda realização e que talvez não seja suficientemente valorizado por quem reage contra a disciplina puramente externa dos métodos tradicionais. O tipo desejável de disciplina é o que vem de dentro, que consiste no poder de perseguir um objetivo distante com perseverança, renunciando e sofrendo muitas coisas no caminho. Isso implica a subordinação dos impulsos menores à vontade, o poder de direcionar a ação por meio de grandes desejos criativos, até mesmo nos momentos em que eles não estejam vívidos. Sem isso, não se poderá realizar nenhuma ambição séria, nem boa nem ruim, e nenhum propósito consistente poderá predominar. Esse tipo de disciplina é muito necessário, mas só pode resultar de desejos fortes por finalidades não imediatamente alcançáveis e só pode ser produzido pela educação se a educação nutrir tais desejos, o que é raro nos dias de hoje. Tal disciplina surge da própria vontade de cada um, não de uma autoridade externa. Não é esse tipo a que se aspira na maioria das escolas e não é esse tipo que me parece um mal.

Escola ∌ Partido? / Bertrand Russell

Bertrand Russel, "Por que os homens vão à guerra", Capítulo 5: "A Educação". Editora UNESP, 1ª edição (2014), São Paulo.
Bertrand Russell: idoso sem barba, de cabelo repartido, e terno.
2018 Anastasia Yesipova

O poder da educação na formação do caráter e da opinião é muito grande e bastante reconhecido. As crenças genuínas de pais e professores, embora nem sempre os preceitos professados, são quase inconscientemente adquiridas pela maioria das crianças. E, mesmo que elas se afastem dessas crenças ao longo da vida, algo lhes permanece profundamente implantado, pronto para emergir em um momento de tensão ou crise. A educação é, em regra, a força mais poderosa a favor do que já existe e contra qualquer mudança fundamental: as instituições ameaçadas, enquanto ainda estão poderosas, tomam posse da máquina educacional e instilam o respeito por sua própria excelência nas mentes maleáveis dos jovens. Os reformadores revidam, tentando expulsar os oponentes de sua posição vantajosa. As crianças em si não são consideradas por nenhum dos lados; são apenas massa a se recrutar para um ou outro exército. Se as próprias crianças fossem consideradas, a educação não teria por objetivo fazê-las pertencer a este ou àquele lado, mas sim habilitá-las a optar inteligentemente entre os lados; teria por objetivo fazê-las capazes de pensar, e não fazê-las pensar o que seus professores pensam. A educação não poderia existir enquanto arma política se respeitássemos os direitos das crianças. Se respeitássemos os direitos das crianças, deveríamos educá-las de modo a lhes dar o conhecimento e os hábitos mentais necessários para formarem opiniões independentes; mas a educação, enquanto instituição política, empenha-se em formar hábitos e circunscrever o conhecimento de modo a tornar inevitável um único conjunto de opiniões.

[...]

É na história, na religião e em outros temas controversos que a instrução de hoje se mostra efetivamente prejudicial. Esses temas tocam os interesses que mantêm as escolas; e esses interesses mantêm as escolas para inculcar certos pontos de vista sobre esses temas. Em todos os países, a história é ensinada de modo a enaltecer o país: as crianças aprendem a acreditar que seu próprio país sempre esteve do lado certo e quase sempre vitorioso, que o país produz quase todos os grandes homens e que, em todos os campos, é superior aos outros países. Como são lisonjeiras, essas crenças se assimilam facilmente e é difícil que um dia sejam desalojadas do instinto por um conhecimento posterior.

Tomemos um exemplo simples e quase trivial: os fatos sobre a batalha de Waterloo são conhecidos em muitos detalhes e com minuciosa exatidão; mas os fatos ensinados na escola elementar serão totalmente distintos na Inglaterra, na França e na Alemanha. [...] Se os fatos fossem ensinados fielmente em ambos os países, não se fortaleceria o orgulho nacional na mesma medida, nenhuma das nações se sentiria muito segura da vitória na eventualidade de uma guerra e a disposição para guerrear diminuiria. É esse resultado que se precisa prevenir. Todo Estado quer promover o orgulho nacional e tem consciência de que isso não pode ser feito com uma história imparcial. Indefesas, as crianças aprendem distorções, supressões e sugestões. As ideias falsas sobre a história do mundo ensinadas nos vários países são de um tipo que encoraja o conflito e servem para manter vivo o nacionalismo fanático.

[...]

Exatamente a mesma coisa se aplica à religião. [...] Uma corporação religiosa existe pelo fato de todos os seus membros terem certas crenças definidas sobre assuntos cuja verdade é inverificável. Escolas dirigidas por corporações religiosas têm de prevenir que os jovens, curiosos por natureza, descubram que essas crenças definidas se confrontam com outras, não mais insensatas, e que muitos dos homens melhor qualificados para julgar acham que não há nenhuma evidência a favor de nenhuma crença definida.

[...]

A repressão da livre indagação será inevitável enquanto o propósito da educação for produzir crenças ao invés de pensamento, enquanto o propósito for compelir os jovens a sustentar opiniões assertivas sobre assuntos duvidosos ao invés de deixá-los ver a dúvida e se sentir encorajados à independência da mente. A educação deve nutrir o desejo de verdade, não a convicção de que um credo em particular é a verdade. Mas são os credos o que mantém os homens unidos em organizações para a luta: Igrejas, Estados, partidos políticos. É a intensidade da crença em um credo o que produz a eficiência na luta: a vitória vem para quem sente a certeza mais forte sobre os assuntos nos quais a dúvida é a única atitude racional. Para produzir essa intensidade da crença e essa eficiência na luta, a natureza da criança é pervertida e seu modo de ver fica deformado pelo cultivo de inibições que são um obstáculo ao crescimento de novas ideias. Aquelas cujas mentes não são muito ativas apresentam como resultado a onipotência do preconceito; já aquelas cujo pensamento não pode ser de todo assassinado se tornam cínicos, intelectualmente desesperançados, destrutivamente críticos, capazes de fazer que tudo pareça tolo, incapazes de suprir os impulsos criativos que destroem nos outros.

[...]

A aceitação passiva da sabedoria do professor é fácil para a maioria dos garotos e garotas. Não implica nenhum esforço de pensamento independente e parece racional, porque o professor sabe mais do que os alunos; além disso, é uma maneira de ganhar a preferência do professor, a menos que ele seja um homem muito excepcional. Mesmo assim, o hábito da aceitação passiva será desastroso para a vida futura. É esse hábito que faz os homens procurarem um líder e aceitarem como líder quem quer que se estabeleça em tal posição. É ele que constrói o poder de igrejas, governos, bancadas partidárias e todas as outras organizações pelas quais os homens comuns são iludidos a apoiar sistemas antigos e prejudiciais à nação e a si próprios. É possível que não houvesse muita independência de pensamento, mesmo se a educação fizesse de tudo para promovê-la; mas certamente haveria mais do que hoje. Se o objetivo fosse fazer os alunos pensarem, em vez de fazê-los aceitar determinadas conclusões, a educação seria conduzida de um jeito bem diferente: haveria menos pressa na instrução e mais discussão, mais ocasiões para encorajar os alunos a se expressarem, mais tentativas de fazer a educação se ocupar de assuntos pelos quais os alunos sentissem algum interesse.

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