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Anders Bateva

buscando o porquê das coisas

Anders Bateva

buscando o porquê das coisas

Lutero - "A Lei não foi Feita para o Justo": o Reino do Mundo versus o Reino de Deus

Fonte: Martinho Lutero. A Liberdade do Cristão. Editora Escala, São Paulo, 2007. Texto III: Da Autoridade Temporal e em que Medida se Deve Obedecer a Ela; Primeira Parte.
Terceiro - É necessário separar os filhos de Adão, os homens, em duas partes: uns, que são do reino de Deus e outros, que são do reino do mundo. Aqueles que fazem parte do reino de Deus são todos aqueles que, como verdadeiros crentes, estão em Cristo e submissos a Cristo. [...] Ora, vejam: esses não têm necessidade da espada nem das leis temporais. E se o mundo inteiro fosse feito de verdadeiros cristãos, isto é, de verdadeiros crentes, não seriam necessários nem seriam úteis os príncipes, os reis, os senhores, as espadas e as leis. De fato, que poderiam fazer com isso, porquanto levam em seu coração o Espírito Santo que os instrui e que faz com que não sejam injustos para com ninguém, que amem a todos e a cada um e suportem de bom grado e com alegria, da parte de todos e de cada um, a injustiça, até mesmo a morte? Se suportamos tudo o que é injusto e se fazemos somente o que é justo, não haverá necessidade de disputas, querelas, tribunais, juízes, castigos, leis nem espada. É por isso que é impossível que a espada e a lei temporais encontrem algo a fazer entre os verdadeiros cristãos, visto que fazem por si mesmos muito mais do que podem exigir todas as leis e doutrinas. É nesse sentido que Paulo diz na 1ª Carta a Timóteo, I, 9: "A lei não foi feita para o justo, mas para os injustos."Por que isso? Porque o justo, por sua própria conta, faz tudo e até mais do que todas as leis exigem, ao passo que os injustos não fazem nada de justo e é por isso que têm necessidade da lei, para instruí-los, para obrigá-los e pressioná-los a agir corretamente. Uma árvore boa não tem necessidade de ensinamentos nem de lei para produzir bons frutos; pelo contrário, é sua própria natureza que faz com que, sem lei nem doutrina, produza os frutos que correspondam ao que ela é. De fato, seria bem tolo, acredito, o homem que, para uma macieira, elaborasse um livro cheio de leis e decretos, prescrevendo-lhe de produzir maçãs e não espinhos. A árvore não o faz por sua natureza própria melhor do que o homem lhe pudesse descrever e ordenar por meio de todo tipo de livros? Assim também, com relação ao espírito e à fé, está realmente na natureza dos cristãos agir bem e de modo justo, melhor do que se pudesse lhes ensinar por todo tipo de leis. Não necessitam para si mesmos nem de leis nem de decretos.A isso se poderia objetar: Por que, pois, Deus deu tantas leis a todos os homens e por que, no Evangelho, Cristo dá tantos ensinamentos sobre o que se deve fazer? - Sobre este assunto já escrevi muito em meus Sermões (Kirchenpostille) e em outros locais. Por ora, vou dizer brevemente isto: quando Paulo diz que a lei foi dada para os injustos, isso signfica que aqueles que não são cristãos são eximidos exteriormente das más ações pela coação da lei, como veremos mais adiante. Ora, visto que nenhum homem é por natureza cristão ou homem de bem, mas que, ao contrário, todos são pecadores e maus, Deus põe obstáculos a todos pela lei, a fim de que não tenham a audácia de pôr em ação sua maldade segundo seus caprichos nas obras exteriores.

[...]

Quarto - Fazem parte do reino do mundo ou se colocam sob sua lei todos aqueles que não são cristãos. Visto que muito poucos crêem e que somente a minoria se comporta de maneira cristã, não resistindo ao mal, ou seja, não fazendo eles próprios o mal, Deus criou para os outros, ao lado da condição de cristão e do reino de Deus, outro reino e os submeteu à espada, a fim de que, por mais que o desejem, não possam agir segundo sua natureza má e a fim de que, se o fizerem, não possam fazê-lo sem temor, nem em toda tranqüilidade e com sucesso. Do mesmo modo que se acorrenta e se doma um animal feroz, para que não possa morder nem dilacerar segundo sua natureza, por mais que o deseje, assim também um animal dócil e domesticado não tem necessidade disso e é inofensivo, mesmo sem correntes ou laços.Na verdade, se assim não fosse, visto que todos são maus e que se encontra apenas um verdadeiro cristão entre mil seres humanos, eles se devorariam mutuamente, de modo que não haveria ninguém capaz de mostrar às mulheres e às crianças como se alimentar de Deus e como servi-lo; e o mundo se tornaria um deserto. É por isso que Deus instituiu os dois reinos: o espiritual que, pelo Espírito Santo e sob a lei de Cristo, faz cristãos e homens de bem; e o temporal, que obstaculiza os não-cristãos e os maus, a fim de que sejam obrigados, por obrigações exteriores, a respeitar a paz e a ficar tranqüilos, quer queiram quer não. Essa é a interpretação que são Paulo dá, na Carta aos Romanos, XIII, da espada temporal, ao dizer que essa espada não deve ser temida para as boas ações, mas para as más. E Pedro diz que foi instituída para que a vingança atinja os maus.Se alguém, portanto, querendo governar o mundo segundo o Evangelho, optasse por suprimir toda lei e toda espada temporais, sob pretexto de que todos são batizados e todos são cristãos, para os quais o Evangelho não prevê nem leis nem espada, porquanto não são necessárias, o que faria esse, pergunto? Libertaria de seus laços e de suas correntes os animais ferozes, permitindo-lhes assim de morder e dilacerar a todos e a cada um, e julgaria, além do mais, que são gentis animais realmente meigos e domesticados. Mas eu sentiria em minhas feridas o que eles realmente são. Assim, os maus, acobertados pelo nome de cristãos, assumiriam a liberdade evangélica e cometeriam suas patifarias dizendo que são cristãos e, desse modo, não estariam sujeitos a nenhuma lei, a nenhuma espada, como já o fazem em nossos dias certos loucos e furiosos.A esse homem seria necessário dizer: 'Certamente, é verdade que os cristãos não são por si mesmos sujeitos a nenhuma lei ou espada e não tem necessidade delas. Mas olhe à sua volta e comece a fazer com que o mundo fique repleto de verdadeiros cristãos, antes de pretender governá-los de modo cristão e segundo o Evangelho.' Mas jamais haverá de chegar a isso, porque o mundo e o povo em geral são e continuam não-cristãos, embora sejam todos batizados e levem o nome de cristãos. Quanto aos cristãos (como se diz) habitam distantes uns dos outros. Aí está porque é impossível que um reino cristão se estenda pelo mundo inteiro e mesmo num só país ou num grande número de pessoas. De fato, há sempre mais pessoas más que pessoas de bem. É por isso que tentar governar todo um país ou o mundo com o Evangelho é como se um pastor colocasse juntos, no mesmo estábulo, lobos, leões, águias e ovelhas, e deixasse cada um deles andar livremente no meio dos outros e dissesse: "Comam, sejam bons e pacíficos entre todos; o estábulo está aberto; têm alimento suficiente; não devem temer nem os cães nem o cajado." Sem dúvida, as ovelhas observariam a paz e se deixariam assim pastar e governar pacificamente; mas não viveriam muito tempo e não restaria nem uma só delas.É por isso que é necessário distinguir cuidadosamente esses dois reinos e fazer com que subsistam os dois: um, que torna bom e o outro, que cria a paz de maneira exterior e que dificulta as más ações. No mundo, nenhum dos dois é suficiente sem o outro, pois, sem o reino espiritual de Cristo, ninguém pode tornar-se bom diante de Deus somente por meio do reino temporal. Assim, o reino de Cristo não se estende sobre todos os homens; os cristãos são sempre a menor parte e estão no meio dos não-cristãos. Ora, onde só governa o reino temporal ou a lei, ali só pode haver hipocrisia, mesmo que se tratasse dos próprios mandamentos de Deus. De fato, sem o Espírito Santo no coração, ninguém se torna verdadeiramente bom, por mais obras boas que possa realizar. Onde, porém, só o reino espiritual governa o país e as pessoas, a rédea é afrouxada para a maldade e é dado livre curso a toda velhacaria, pois o mundo comum não pode admitir isso nem compreendê-lo.Ora, é nisso que se vê que intenção há nas palavras de Cristo, na passagem do Evangelho de Mateus V, que citamos há pouco, e que dizem que os cristãos não devem reclamar seus direitos nem ter entre eles a espada temporal. Propriamente falando, só o diz para seus caros cristãos; e somente eles fazem suas essas palavras e agem de acordo com elas; não fazem delas "conselhos", como os sofistas. Pelo contrário, em seu coração, por intermédio do Espírito Santo, são feitos assim por natureza e não causam mal a ninguém, estando dispostos a suportar o mal que vier de outrem. Se o mundo fosse composto somente de cristãos, essas palavras lhe diriam respeito por inteiro e agiria em conformidade com elas. Ora, como é composto também de não-cristãos, essas palavras não se referem a ele e não age em conformidade a elas. Ao contrário, o mundo faz parte do outro reino, daquele no qual os não-cristãos são obrigados à paz e ao bem por imposições exteriores.É por isso também que Cristo não carregou a espada e não instituiu uma em seu reino. Porque ele é um rei que reina sobre cristãos e governa sem lei, unicamente por meio de seu Espírito Santo. E, embora tenha confirmado a espada, ele próprio não fez uso dela, pois, a espada não serve para nada em seu reino, onde só há pessoas de bem. É por isso que outrora Davi não teve o direito de construir o templo, porque tinha derramado muitas vezes o sangue e tinha carregado a espada (Ver 2º Livro de Samuel, capítulo VII; e 1º Lvro dos Reis, V, 17). Não que não tivesse razão se o construísse, mas porque não podia ser uma prefiguração de Cristo pelo fato de que este devia ter um reino de paz, sem espada. Em contrapartida, é a Salomão - ou seja, Friedrich ("rico de paz": rich = rico, fried = paz) ou Friedsam ("cheio de paz", "pacífico"), em alemão - que devia caber a responsabilidade de executar essa obra, porque tinha um reino de paz, pelo qual o verdadeiro reino de paz de Cristo, o verdadeiro "Friedrich" e o verdadeiro "Salomão" podia ser prefigurado. [...]É isso que querem dizer os profetas, no Salmo 109: "Teu povo será feito de voluntários" e em Isaías I, 9: "Não se matará nem se causará dano algum em toda a minha montanha santa"; e ainda em Isaías II, 4: "De suas espadas forjarão pás de arados e de suas lanças, foices. Uma nação não desembainhará mais a espada contra outra e ninguém mais se exercitará para a guerra." Quem quisesse estender essas palavras, e outras semelhantes, a todos os locais onde o nome de Cristo é citado, esse compreenderia a Escritura pelo avesso, pois elas são ditas unicamente a respeito dos cristãos que, certamente, se comportam entre si em conformidade com elas.
Fonte: Martinho Lutero. A Liberdade do Cristão. Editora Escala, São Paulo, 2007. Texto III: Da Autoridade Temporal e em que Medida se Deve Obedecer a Ela; Segunda Parte.
Entretanto, poderiam dizer: "Visto que não deve haver espada temporal entre os cristãos, como se pode, pois, governá-los exteriormente? É necessária, portanto que haja uma autoridade superior, mesmo entre os cristãos."- Resposta: Entre os cristãos não pode nem deve haver autoridade superior; pelo contrário, cada um é submisso a todos os outros ao mesmo tempo. Assim Paulo diz na Carta aos Romanos, XIII, 3: "Que cada um tenha os outros como superiores a si próprio." E na 1ª Carta de Pedro, V, 5: "Sejam todos submissos uns aos outros." É também o que Cristo quer, segundo o Evangelho de Lucas, XIV, 10: "Quando o convidarem a bodas, tomo assento no último lugar." Não há entre os cristãos ninguém que seja superior aos outros, a não ser unicamente Cristo. Que espécie de autoridade pode haver, pois, quando todos são iguais e têm o mesmo direito, o mesmo poder, o mesmo bem e a mesma honra e quando ninguém cobiça ser superior aos outros, mas cada um quer ser subordinado aos outros? Certamente, onde houver seres desse gênero, seria impossível estabelecer uma autoridade superior, nem mesmo alguém haveria de querer, pois, sua maneira de ser e sua natureza não suportam ter um superior, uma vez que nenhum deles quer e pode ser superior. Mas onde não houver seres desse gênero, não há tampouco verdadeiros cristãos.

Por fora: bela viola; por dentro: pão bolorento

Fonte: Carlos Afonso Schmitt. O Coração vê mais longe que os olhos - XIII edição - 1978 - capítulos 10 e 12.


De todos os lados e a todo momento sou alvejado pelos chamativos de um mundo que me arranca de minha interiorização e me joga na superficialidade dos mais diversos e baratos atrativos, que apenas alimentam ligeiramente os olhos, sem tempo de chegar ao coração.

E eu pensava: o que vejo não é mais que uma casca. O mais importante é invisível...

-- Exupéry

Há corpos doentios, miseráveis até, escondendo um coração precioso e carregado de obras boas. Há figuras imponentes, criaturas impecavelmente vestidas e tratadas, ocultando um espírito egoísta e podre, vazio de todos os desejos bons e virtuosas realizações.

Estamos no século da imagem e mais do que nunca "aparentamos", com muita maestria e falsidade. Somos capazes de convencer-nos, a nós mesmos, que nossas aparências condizem com o conteúdo interno que supomos ter.

Mas, o certo é que os olhos nos enganam por completo. As verdades verdadeiras - aquelas que nascem e crescem na alma da gente, que serão nossa identidade última [...] - estas verdades os olhos não captam. Estas pertencem ao domínio do coração, onde o mais secreto e abscôndito se põe às claras. Onde a virtude e a hipocrisia são reveladas, podendo iludir-se apenas aquele que, maldosamente, quiser enganar-se.

Tolstói: opor-se ao mal sem violência

Fonte: Leon Tolstói. Biblioteca do Pensamento Vivo - 16: O Pensamento Vivo de Tolstoi, apresentado por Stefan Zweig. Livraria Martins Editora. Quinta parte, seção "Três parábolas", parábola I.
O joio começou a brotar no prado.Para se livrar dele, os donos do prado puseram-se a ceifá-lo, e, como era de esperar, nasceu ainda mais espesso. Ora, um bom e sábio proprietário da vizinhança, visitando os donos do prado, deu-lhes muito conselhos e lhes ensinou que deviam, não ceifar o joio, pois isto só serviria para propagá-lo, mas arrancá-lo pela raiz.Os proprietários do prado, por não terem notado, dentre os conselhos do vizinho, o que se referia à necessidade de extirpar o joio, em vez de ceifá-lo; por não o terem compreendido, ou por não se conformarem com isso, devido a cálculos pessoais, continuaram a ceifar o joio e, consequentemente, a multiplicá-lo.Nos anos seguintes, mais de uma pessoa lembraram-lhes o conselho do bom sábio vizinho, porém eles não escutaram e continuaram a agir como dantes. A ceifa do joio brotado tornou-se não somente um hábito, mas também até mesmo, uma tradição sagrada, e o campo se ia obstruindo cada vez mais.Chegou finalmente o momento em que, no prado, só havia joio. Os proprietários se lamentavam e procuravam um remédio para a situação. Havia um, somente um: o que lhes indicara o bom e sábio vizinho. Continuaram, porém, sem querer aplicá-lo.Nos últimos tempos, um transeunte, penalizado de ver devastado um campo tão bonito, procurou as instruções deixadas pelo sábio proprietário e esquecidas a um canto, em busca de uma que fosse apropriada à situação. Descobriu então a que dizia que o joio não deve ser ceifado, mas arrancado pela raiz. Mostrou aos proprietários do campo que tinham sido imprevidentes e lembrou-lhes que, havia muito tempo, um bom e sábio proprietário lhes chamara a atenção para isso.Em vez de verificar a veracidade do que dizia o homem e, caso fosse exato, deixar de ceifar o joio, ou caso contrário, provar onde estava o erro, ou ainda aceitar incontinenti o conselho do sábio e bom proprietário, os donos do prado se decidiram pelo quarto alvitre e, mostrando-se ofendidos com o apelo que lhes fazia à memória o transeunte, puseram-se a invectivá-lo.Uns qualificavam-no de orgulhoso, por pensar que fosse o único no mundo a compreender as instruções do bom proprietário. Outros chamavam-no falso intérprete, traidor, caluniador. Outros ainda, sem perceber que ele nada dissera de si, mas simplesmente lembrara os conselhos dum homem admirado por todos, afirmavam ser ele um indivíduo nocivo, desejoso de ver o joio a tal ponto multiplicado que o campo ficasse completamente perdido.Ele pretende que não se ceife o joio - gritavam. Mas se não o destruírmos, ele se reproduzirá sempre e adeus campo! Então, foi-nos ele dado para que nele cultivássemos a erva má?Intencionalmente calavam que o homem aconselhara, não que se poupasse o joio, mas que se arrancasse pela raiz, em vez de ceifá-lo.A opinião de que o homem era um insensato, um intérprete mentiroso, um monstro desejoso do mal de outrem, de tal modo se firmou, que quem não zombava dele cumulava-o de injúrias. A despeito de todas as explicações de que não desejava a multiplicação do joio, mas achava que destruí-lo é um dos principais deveres do dono da terra, compreendendo esta destruição do mesmo modo que o bom e sábio proprietário e somente lembrando os conselhos deste, não obstante tudo o que pudesse dizer, ninguém o escutou. Já ficara definitivamente decidido que ele estava louco de orgulho, que era um traidor à palavra do sábio e bom proprietário e um celerado tão negro, a ponto de convidar os outros a não mais destruir a erva má, antes a cuidá-la e favorecer sua reprodução.

* * *

O mesmo me aconteceu quando pleiteei a favor do preceito do Evangelho que recomenda não combater o mal pela violência. Esta regra foi dada por Cristo e todos os discípulos depois dele a repetiram, em todos os tempos e em todos os lugares. Seja por não a terem notado ou por não a terem compreendido, seja ainda por ter parecido muito difícil agir de acordo com ela, mais passa o tempo, mais é ela negligenciada e mais a disposição de vida dos homens dela se afasta. Enfim, aconteceu o que hoje verificamos: esta regra começa a parecer, aos olhos do mundo, como uma coisa nova, desconhecida, senão estranha e mesmo insensata.Deu-se comigo o mesmo que com aquele transeunte que lembrava aos donos do prado a antiga prescrição do bom e sábio proprietário, segundo a qual não convém ceifar a erva má e sim arrancá-la pela raiz. Os donos do campo propositadamente silenciaram que a prescrição recomendava, não que conservassem o joio, mas que não o destruíssem desarrazoadamente, e declaravam: "Este homem é um insensato; aconselha-nos a não ceifar o joio, mas a replantá-lo, ou pouco falta para isso". Também quando afirmei que, para abolir o mal, tínhamos de nos adaptar ao preceito de Cristo, que nos ensina a não opor violência ao mal, mas a extirpá-lo pelo amor, gritaram: "Não escutemos este insensato que nos induz a não lutar contra o mal, para que o mal nos sufoque".Dizia que, segundo a doutrina cristã, o mal não será desenraizado pelo mal; que lutar contra o mal pela violência é simplesmente aumentar a sua força; que Jesus formalmente declarou que o mal se extirpa com o bem. "Abençoai os que vos amaldiçoam, rezai pelos que vos ofendem, amai vossos inimigos e não tereis um inimigo". (Ensinamentos dos doze Apóstolos). Mostrava que o Evangelho afirma ser toda a vida do homem uma luta contra o mal, que é pela espiritualidade e pelo amor que o homem vence o mal, que, de todas as armas a usar contra o mal, Cristo exclui esta arma imprudente da violência, a luta contra o mal pelo mal.Dessas palavras minhas se concluiu que eu atribuía a Cristo uma doutrina pela qual não se deve resistir ao mal... Todos aqueles cuja vida se baseia na violência e a quem, por conseguinte, a violência é cara, acorreram a adotar esta falsa interpretação das minhas palavras e mesmo das de Jesus, a proclamar que a doutrina que manda não opor a violência ao mal é uma doutrina mentirosa, insensata, sacrílega e nociva.E os homens, a pretexto de destruir o mal, continuam tranquilamente a reproduzi-lo e a multiplicá-lo.

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