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Anders Bateva

Clippings / recortes de não-ficção: prospecções literárias, de tudo um pouco.

Anders Bateva

Clippings / recortes de não-ficção: prospecções literárias, de tudo um pouco.

Bertrand Russell: até que ponto vai nosso controle consciente?

Bertrand Russel, "Por que os homens vão à guerra", Capítulo I: "O Princípio do Crescimento". Editora UNESP, 1ª edição (2014), São Paulo.

Toda atividade humana jorra de duas fontes: impulso e desejo. O papel representado pelo desejo sempre foi bastante reconhecido. Quando os homens não se encontram totalmente satisfeitos e nem capazes de conseguir de imediato aquilo que vai lhes satisfazer, a imaginação lhes traz à mente a ideia de coisas que os fariam, acreditam eles, felizes. Todo desejo pressupõe um intervalo de tempo entre a consciência da necessidade e a oportunidade de satisfazê-la. Os atos inspirados pelo desejo podem até ser dolorosos, o tempo para se alcançar a satisfação pode ser muito longo, o objeto desejado pode ser algo que está fora de nossas próprias vidas e até mesmo depois de nossa própria morte. A vontade, força direcionadora, consiste, sobretudo, em perseguir desejos por objetos mais ou menos distantes, a despeito de toda a dor dos atos implicados e das solicitações de desejos e impulsos incompatíveis, mas ainda mais imediatos. [...]

Mas o desejo governa apenas uma parte da atividade humana -- e não se trata sequer da parte mais importante, mas tão somente da mais consciente, explícita e civilizada.

Na parte mais instintiva de nossa natureza, somos dominados por impulsos a certos tipos de atividade, e não por desejos de certos fins. Se as crianças correm e gritam, não é pelo bem que com isso esperam realizar, mas por causa de um impulso direto de correr e gritar. Se os cães uivam para a lua, não é por considerar que com isso obterão alguma vantagem, mas porque sentem um impulso de uivar. Não é um propósito, mas apenas um impulso o que induz ações tais como beber, comer, fazer amor, brigar e ostentar. [...] Os atos instintivos normalmente chegam a resultados agradáveis ao homem comum, mas não são executados a partir do desejo por esses resultados. São executados, sim, a partir do impulso direto, e o impulso quase sempre é intenso, mesmo nos casos em que não se chega ao resultado desejado. Os adultos gostam de pensar que são mais racionais que as crianças ou os cães e, inconscientemente, ocultam de si próprios o tamanho do papel desempenhado pelo impulso em suas vidas. Esse ocultamento inconsciente sempre segue certo plano geral.

Quando um impulso não é satisfeito no momento em que surge, cresce um desejo pelas consequências esperadas com sua satisfação. Se as consequências que foram esperadas com alguma sensatez acabam por se revelar nitidamente desagradáveis, nasce um conflito entre previsão e impulso. Se o impulso é fraco, a previsão pode dominar: é o que se chama de agir conforme a razão. Se o impulso é forte, ou a previsão será falseada e as consequências desagradáveis, esquecidas, ou as consequências serão, nos homens de compleição heroica, impetuosamente aceitas.

[...]

Mas tal força e ímpeto de impulso são raros. A maioria dos homens, quando o impulso é forte, consegue se convencer -- em geral por uma seletividade subconsciente da atenção -- de que a satisfação do impulso trará consequências agradáveis. Filosofias inteiras, sistemas de avaliação ética inteiros, se lançam por esse caminho: são a corporificação de um tipo de pensamento que é subserviente ao impulso e que procura fornecer uma base, racional apenas na aparência, para sua satisfação. O único pensamento genuíno é o que brota do impulso intelectual da curiosidade, levando ao desejo de saber e de compreender. Mas boa parte do que é tido como pensamento se inspira em algum impulso não-intelectual e é somente um meio de nos convencermos de que não vamos nos desapontar e nem fazer qualquer mal se satisfizermos o impulso.

Quando um impulso é reprimido, sentimos desconforto ou até mesmo dor violenta. Podemos satisfazer o impulso para escaparmos dessa dor e então, nesse caso, nossa ação tem um propósito. Mas a dor só existe por causa do impulso, e o impulso se direciona para um ato, e não para escapar da dor resultante de sua repressão. O impulso em si continua destituído de propósito, e o propósito de escapar da dor surge apenas quando o impulso é momentaneamente reprimido.

Muito mais do que o desejo, o impulso está na base de nossa atividade. O desejo tem seu lugar, mas não é um lugar tão grande quanto parece. Os impulsos trazem consigo toda uma série de desejos subservientes e fictícios: fazem que os homens tenham a sensação de que desejam os resultados da satisfação dos impulsos e de que agem para chegar a esses resultados, quando, na verdade, sua ação não tem outro motivo além de si mesma. Um homem pode escrever um livro ou pintar um quadro na crença de que deseja os elogios que daí virão. Mas, assim que termina, caso seu impulso criativo não esteja esgotado, ele vê que a obra que acabou de concluir se torna desinteressante a seus olhos e, então, começa um novo trabalho. O que se aplica à criação artística vale também para tudo o que é mais vital em nossas vidas: o que nos move é o impulso direto, e os desejos que julgamos ter não são mais que uma mera roupagem para o impulso.

O desejo, oposto ao impulso, tem, é verdade, uma parcela considerável e crescente na regulação da vida dos homens. O impulso é errático e anárquico, não se adapta facilmente a um sistema bem regulamentado; pode ser tolerado em crianças e artistas, mas não é tido por conveniente a homens que queiram se levar a sério. Quase todo trabalho remunerado é feito a partir do desejo, e não do impulso: o trabalho em si pode ser mais ou menos fastidioso, mas o pagamento é desejado. As atividades sérias que preenchem as horas de trabalho de um homem são, exceto para uns poucos indivíduos afortunados, dirigidas, sobretudo, pelos propósitos, e não pelos impulsos a essas atividades. Quase ninguém verá nisso um mal, pois não se reconhece o lugar do impulso em uma existência satisfatória.

Um impulso sempre parecerá loucura a quem dele não compartilha na realidade nem na imaginação. Todo impulso é essencialmente cego, no sentido de que não brota de nenhuma previsão de consequências. O homem que não compartilha do impulso formará uma estimativa diferente a respeito de quais serão as consequências e de quão desejáveis serão as que de fato venham a se realizar. Essa diferença de opinião parecerá ética ou intelectual, embora sua verdadeira base seja uma diferença de impulso. Nesses casos, não se chegará a nenhum acordo genuíno enquanto persistir a diferença de impulso. Em todos os homens de vida vigorosa há impulsos tão fortes que aos outros parecerão completamente desarrazoados. Impulsos cegos às vezes levam à destruição e à morte, mas, outras vezes, levam às melhores coisas que o mundo contém. O impulso cego é a fonte da guerra, mas também é a fonte da ciência, da arte e do amor. Não se deve desejar o enfraquecimento do impulso, mas seu direcionamento para a vida e para o crescimento, e não para a morte e a decadência.

Bertrand Russell - Agressão: origem no crescimento humano frustrado

Bertrand Russel, "Por que os homens vão à guerra", Capítulo I: "O Princípio do Crescimento". Editora UNESP, 1ª edição (2014), São Paulo.

Há duas maneiras de ver a guerra, e nenhuma delas me parece adequada: a visão mais comum neste país [Inglaterra] é a de que a guerra se deve à perversidade dos alemães; a visão da maioria dos pacifistas é a de que se deve a emaranhados diplomáticos e às ambições dos governos. Penso que ambas as visões fracassam em perceber que a guerra nasce, em grande medida, da própria natureza humana. Os alemães e também os homens que compõem os governos são, como um todo, seres humanos comuns, incitados pelas mesmas paixões que incitam tantos outros, não muito diferentes do resto do mundo, a não ser por suas circunstâncias. Consentem a guerra homens que não são nem alemães nem diplomatas -- e com uma prontidão e aquiescência a razões falsas e impróprias que não seriam possíveis se qualquer repugnância mais profunda estivesse difundida por outras classes e nações. As coisas falsas nas quais os homens acreditam e as coisas verdadeiras nas quais desacreditam são índice de seus impulsos -- não necessariamente de impulsos individuais (pois as crenças são contagiosas), mas de impulsos gerais da comunidade. Todos nós acreditamos em muitas coisas nas quais não temos bons motivos para acreditar, porque, subconscientemente, nossa natureza suplica por certos tipos de ação que essas crenças, se fossem verdadeiras, tornariam razoáveis. As crenças infundadas são o tributo que o impulso presta à razão. E esse é o caso das crenças que, opostas porém similares, fazem que homens, aqui e na Alemanha, acreditem em seu dever se levar a guerra adiante.

O primeiro pensamento que naturalmente ocorre a quem aceita essa visão é o de que seria melhor se os homens se encontrassem em maior medida sob o domínio da razão: [...] se os impulsos fossem mais bem controlados, se o pensamento fosse menos dominado pela paixão, os homens protegeriam suas mentes ante as aproximações da febre da guerra, e as disputas seriam resolvidas de maneira amistosa. Isso é verdadeiro, mas insuficiente -- apenas aquelas cujo desejo de pensar com verdade é, em si próprio, uma paixão, podem ver que esse desejo é capaz de controlar as paixões da guerra. Só a paixão pode controlar a paixão, e só um impulso ou desejo contrário pode reprimir o impulso. A razão, como apregoam os moralistas tradicionais, é muito negativa e apática para compor uma vida boa. Não se pode prevenir as guerras só com a razão, mas sim com uma vida positiva de paixões e impulsos contrários àqueles que levam à guerra. É a vida do impulso que precisa se transformar, não apenas a vida do pensamento consciente.

[...]

O impulso cego é a fonte da guerra, mas também é a fonte da ciência, da arte e do amor. Não se deve desejar o enfraquecimento do impulso, mas seu direcionamento para a vida e para o crescimento, e não para a morte e para a decadência.

Na verdade, o controle total do impulso pela vontade -- algumas vezes pregado por moralistas e muitas vezes imposto pela necessidade econômica -- não é desejável. Uma vida governada pelos propósitos e desejos, à exclusão dos impulsos, é uma vida fatigante: exaure a vitalidade e, no fim, torna o homem indiferente aos propósitos que tentava atingir. Quando uma nação inteira vive dessa forma, a nação inteira acaba ficando frágil, sem o pulso necessário para reconhecer e transpor os obstáculos que a separam de seus desejos. [...] A longo prazo, tal modo de existência, quando não seca as fontes da vida, produz novos impulsos, de tipo diferente daqueles que a vontade se habituara a controlar e que o pensamento tinha consciência. Assim, esses novos impulsos estão aptos a serem piores em seus efeitos do que aqueles que já haviam sido reprimidos. A disciplina excessiva, especialmente quando imposta de fora, resulta, com frequência, em impulsos de crueldade e destruição: essa é uma das razões pelas quais o militarismo tem efeitos negativos sobre o caráter nacional. Se os impulsos espontâneos não conseguem encontrar um canal de manifestação, o resultado é, quase sempre, a falta de vitalidade ou impulsos opressivos e contrários à vida.

[...]

Os impulsos podem ser divididos em dois: os que se dirigem à vida e os que se dirigem à morte. Os impulsos corporificados na guerra estão entre aqueles que se dirigem à morte. Qualquer um dos impulsos que se dirigem à vida, quando forte o bastante, fará o homem se opor à guerra. Alguns desses impulsos são fortes apenas em homens altamente civilizados; já outros fazem parte da humanidade comum. Os impulsos dirigidos para a arte e para a ciência estão entre os mais civilizados que se dirigem à vida. [...] Mas não é a partir desses impulsos tão refinados que se poderá gerar uma força popular capaz de transformar o mundo.

No lado da vida existem três forças que não exigem à mente nenhum dote excepcional, que não são muito raras atualmente e que poderiam ser bem mais comuns sob instituições sociais melhores. São elas: o amor; o instinto construtivo; e a alegria de viver. [...]

Os impulsos e desejos de homens e mulheres, na medida em que têm real importância para suas vidas, não estão apartados uns dos outros. Bem ao contrário, provêm de um princípio de crescimento central, de uma urgência instintiva que os leva em certa direção, assim como as árvores procuram a luz. Contanto que esse movimento instintivo não seja frustrado, quaisquer contratempos que possam ocorrer não serão desastres fundamentais e não produzirão as distorções que resultam da interferência no crescimento natural. Esse centro íntimo de cada ser humano é o que a imaginação deve apreender se quisermos compreendê-lo intuitivamente. Ele difere de um homem para o outro e determina para cada um o tipo de excelência de que é capaz. O máximo que as instituições podem fazer por um homem é deixar que seu crescimento seja livre e vigoroso: elas não podem forçá-lo a crescer de acordo com o padrão de outro homem. [...] [Certos] impulsos, mesmo que se originem no princípio central do indivíduo, podem prejudicar o crescimento dos outros e precisam ser reprimidos para o bem dos outros. Mas, em geral, os impulsos prejudiciais aos outros tendem a resultar do crescimento frustrado e a ser de menor importância naqueles que não sofreram empecilhos em seu desenvolvimento instintivo.

[...]

Quando o crescimento de um homem não sofre interdições, seu autorrespeito se mantém intacto, e ele não tende a enxergar os outros como inimigos. Mas, quando seu crescimento é impedido, por qualquer razão, ou quando ele é forçado a crescer de alguma forma tortuosa e não natural, seu instinto lhe apresenta o ambiente como inimigo, e ele se enche de ódio. A alegria de viver o abandona, e a maleficência toma lugar da cordialidade. [...] A verdadeira liberdade, se pudesse ser alcançada, contribuiria muito para destruir o ódio.

[...]

O mesmo instinto que leva à criatividade artística ou intelectual pode, sob outras circunstâncias, levar ao amor pela guerra. O fato de uma atividade ou crença ser resultado do instinto não é, portanto, motivo para encará-lo como inalterável.

Bertrand Russell - sobre secessão

Bertrand Russel, "Por que os homens vão à guerra", Capítulo 2: "O Estado". Editora UNESP, 1ª edição (2014), São Paulo.

[Uma curiosa característica do] Estado é a crença de que há uma peculiar perversidade no desejo de secessão por parte de qualquer parcela da população. Se a Irlanda ou a Polônia desejam independência, logo se considera óbvio que a este desejo se deve resistir de forma tenaz e que qualquer tentativa de assegurá-lo precisa ser condenada como "alta traição". O único exemplo contrário de que consigo me lembrar é a separação da Noruega e da Suécia, que foi elogiada, mas não imitada. Nos outros casos, apenas a derrota na guerra obrigou Estados a ceder territórios: embora essa atitude seja tida como certa, não é a que seria adotada se o Estado tivesse melhores objetivos em vista. A razão de sua adoção é que o objetivo principal de quase todos os grandes Estados é o poder, especialmente o poder na guerra. E este aumenta, com frequência, pela inclusão de cidadãos relutantes. Se o objetivo em vista fosse o bem-estar dos cidadãos, a questão de certa área dever ser incluída ou formar um Estado separado seria entregue à livre decisão dessa área.

Bertrand Russell - sobre a hipocrisia religiosa

Bertrand Russel, "Por que os homens vão à guerra", Capítulo 7: "A religião e as Igrejas". Editora UNESP, 1ª edição (2014), São Paulo.

"Religião" é uma palvra que tem muitos significados e uma longa história. Na origem, dizia respeito a certos ritos herdados do passado remoto, realizados por alguma razão há muito esquecida e associados, de tempos em tempos, a vários mitos que lhe dão suposta importância. Muito disso ainda permanece. Um homem religioso é aquele que vai à igreja, um comungante, um "praticante", como dizem os católicos. Como ele se comporta em outras circunstâncias, ou como se sente em relação à vida e ao lugar do homem no mundo, nada disso tem influência sobre a questão de ele ser "religioso" nesse sentido simplista, mas historicamente correto. Muitos homens e mulheres são religiosos nesse sentido, sem ter em si nada daquilo que merece ser chamado de religião no sentido em que emprego a palavra. A mera familiaridade com os serviços da Igreja os tornou insensíveis; eles [...] são inertes às palavras dos Evangelhos que, levianamente repetidas, condenam quase todas as atividades dos que se supõem discípulos de Cristo. Este é o destino que assalta todo e qualquer rito habitual: é impossível que continue a produzir muito efeito depois de ter sido realizado tantas vezes, a ponto de se tornar mecânico.

Economias Centralmente Planejadas: engenharia social versus humildade epistemológica

Alberto Oliva. Entre o Dogmatismo Arrogante e o Desespero Cético: a Negatividade como Fundamento da Visão de Mundo Liberal, Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1993. Capítulo I: "O Embasamento Epistemológico do Liberalismo". Seção 3: "A dispersão do conhecimento".

[...] Mente nenhuma singular pode conhecer mais do que uma fração de tudo o que é conhecido pela soma de todos os intelectos. Isto significa que cada um de nós tem acesso apenas a um diminuto conjunto de informações; que cada um de nós só compreende aprofundadamente o funcionamento de restritos setores da "Máquina do Mundo"; que, em suma, só controlamos, através da posse de efetivo saber, um número ínfimo dos mecanismos que põe em movimento a realidade social em sua totalidade. E se muito pouco cada indivíduo ou grupo conhece do Mundo Social, modestas devem ser suas pretensões transformantes.

Ora, se o conhecimento encontra-se disperso pelos indivíduos e se todo enfoque que cada um de nós aplica ao fluxo potencialmente infinito da experiência é sempre seletivo, mesmo quando se está fazendo ciência, então não há como postular a posse de uma sabedoria sobre, por exemplo, o completo funcionamento do Sistema Social. Consequência disso é que não há indivíduo ou grupo capaz de, com base em adequado conhecimento, arvorar-se em planificador da "racionalidade social" e em demiurgo estipulador de como devem as instituições ser e funcionar. Muito do que o engenheiro social vê como imperfeição funcional das instituições não submetidas à direção de uma autoridade central decorre da existência de uma miríade de saberes dispersos e da ampla variedade de projetos que se pode acalentar quando se vive sob a plena vigência da liberdade. Intentar subjugar à planificação central a multiplicidade, sobre a qual não se dispõe de efetivo conhecimento, só é possível pela imposição de um projeto autoritário de regulamentação das ações, cuja ambição maior é reduzir a riqueza e variedade de perspectivas epistemológicas, existenciais e de competição no mercado, à monocórdia visão dos que, via Estado forte, compelem os indivíduos a se submeterem ao seu projeto político.

A busca do estrito controle epistemológico de todas as variáveis envolvidas em todos os processos de criação e reprodução da ordem social -- via planejamento central -- não tem como ser viabilizada por não se poder dispor -- de forma concentrada -- de todo o conhecimento disperso pelos diferentes agentes sociais. A atitude demiúrgica, que se diz em condições de produzir a completa remodelagem revolucionária do que existe, escora-se numa teoria do conhecimento que acredita possível a obtenção de um saber capaz de aprender a oculta dimensão da realidade. Marx, que está entre os mais radicais proponentes de engenharia social, não se cansa de enfatizar, em Das Kapital, que a ciência desvenda o modo essencial de manifestação da realidade contra as ilusões nas quais se enreda o senso comum, prisioneiro que é do imediatamente dado. [...] Se o conhecimento pode alcançar a essência recôndita do que é investigado, então não tem por que ser humilde. Pode praticamente tudo: revelar-nos como e por que as coisas são como atualmente são, até prescrever como deveriam ser para que fossem melhores.

A epistemologia que se apóia na distinção entre essência e aparência, para conferir à ciência a prerrogativa de apreender os determinantes ocultos dos fenômenos que escapam às visões alternativas [...] pode oferecer a base ideológica para o autoritarismo dos que se julgam possuidores desse saber especial e acreditam poder transformar o mundo -- de forma revolucionária e completa -- a partir de sua aplicação.

[...] Quanto maior a concentração de poder, via planejamento central, maior a perda de uso do amplo conhecimento disperso entre os indivíduos, e maior a inibição à produção de novos conhecimentos. A invenção e a descoberta pressupõem as múltiplas e descentralizadas atividades que se aninham no interior da ordem espontânea. [Entende-se por] ordem espontânea não a anarquia da total falta de regulamentação, mas sim a preservação da miríade de planejamentos setoriais, estribados nos variegados conhecimentos especiais que os indivíduos têm na circunstância físico-social com a qual mantêm contato privilegiado. Nesse sentido, a ordem espontânea é o correlato sistêmico-funcional da liberdade individual. Disso se segue que não há como nutrir a pretensão de alterar profundamente a ordem espontânea sem diminuir (destruir) a liberdade dispersamente usufruída, porque vinculada aos mais diferentes projetos de vida, pelos indivíduos.

[...] A necessidade de planejamento, entendido como o complexo de decisões interrelacionadas sobre a alocação de nossos recursos disponíveis (Hayek, 1949, p. 78) [ é inegável. Entretanto,] a planificação centralizada descura do fato decisivo de que, se por um lado, pode-se enfeixar suficiente poder para coagir os indivíduos a fazerem isto ou aquilo, por outro, não há como concentrar todo o conhecimento que se mostra irremediavelmente distribuído pelas inúmeras mentes e atividades individuais. [...] Entende[-se, portanto] que o planejamento não deve ser feito de forma centralizada para todo o sistema econômico, mas dividido pelos muitos indivíduos. Nesse sentido, são epistemológicas as principais razões que o liberal invoca contra a postura que defende o direcionamento de todo o sistema econômico a partir de um plano unificador.

Status quo

Não procede a acusação, amiúde dirigida aos liberais, de que a visão de mundo que esposam aspira à manutenção do status quo. Se atentos a seu embasamento filosófico, não descuraremos do fato de que sua preocupação maior é a de determinar o quanto conhecemos, com segurança, o que investigamos. Dessa definição depende a justificação do alcance e da extensão de nossos projetos de intervenção na realidade. Propostas de aperfeiçoamento institucional são benvindas, desde que escoradas em efetivo conhecimento de sua funcionalidade e desde que proporcionem, através de um experimentalismo gradualista, a garantia de que estamos nos encaminhando para performances individuais melhores, com total preservação da liberdade. Do contrário, estamos diante de arroubos de engenharia social, inseparáveis da crença arrogante de que temos como obter conhecimento demonstrativamente certo, capaz de legitimar os impulsos demiúrgicos que pretender recriar o mundo social à imagem e semelhança do grupo que está no poder hipertrofiado.

Quando dispensamos adequada atenção ao pano de fundo epistemológico dos liberais, é-nos possível constatar que seu modo de rechaçar o planejamento central é decorrência da convicção de que nenhum de nós dispõe de conhecimento capaz de justificar amplas reestruturações globais. Consequência prática do cerceamento da liberdade é a ineficiência epistemológica geradora da estagnação econômica: reduz-se a rica multiplicidade de projetos que pululam no mercado a um só horizonte, o capitaneado pelo Estado. Mas ainda que o grupo que controla conjunturalmente o aparato estatal possuísse, circunstancialmente, um tipo especial de conhecimento, isso não justificaria a ideia de necessidade do planejamento central. Mesmo porque a perda de liberdade para o Estado, que hoje pode parecer legítima, impediria essa mais ampla movimentação no mercado de ideias e bens que torna possível o surgimento de novos produtos e conhecimentos capazes de melhorar nossas condições de vida grupal.

[...] Reduzir o debate a uma contraposição entre "progressistas" -- os que querem tudo mudar, mesmo sem disporem do indispensável conhecimento disperso pelas diferentes esferas de ação individual -- e "conservadores" -- os que advogam que modificar globalmente a ordem espontânea só seria racionalmente possível se determinado indivíduo ou grupo pudesse enfeixar todo o conhecimento em seu interior pulverizado sem acarretar a supressão da liberdade -- é descurar do fato de que as diferenças entre liberais e "planificadores centrais" promanam, antes de mais nada, do endosso a discrepantes teorias do conhecimento.

Referência

  • HAYEK, F.A. (1949). Individualism and Economic Order. London: Routedged and K. Paul.

Bertrand Russell - o poder do pensamento

Bertrand Russel, "Por que os homens vão à guerra", Capítulo 5: "A Educação". Editora UNESP, 1ª edição (2014), São Paulo.

O mundo em que vivemos é vário e impressionante: algumas das coisas que parecem as mais simples ficam cada vez mais complexas quanto mais as examinamos; outras coisas, que poderiam parecer quase impossíveis de se descobrirem, já foram esclarecidas pela genialidade e pela indústria. Os poderes do pensamento, as vastas regiões que ele pode dominar, as regiões muito mais vastas que ele pode apenas vagamente sugerir à imaginação, dão àqueles cujas mentes viajaram para além do ordinário uma incrível riqueza de material, uma fuga da trivialidade e do fastio da rotina -- e assim toda a vida se enche de interesse e se derrubam os muros da prisão do lugar-comum. O mesmo amor à aventura que arrasta homens ao Polo Sul, a mesma paixão por uma prova de força conclusiva que leva homens a saudar a guerra, pode encontrar, no pensamento criativo, um canal de manifestação que não é nem desperdiçado, nem cruel e que aumenta a dignidade do homem ao encarnar na vida um pouco do esplendor brilhante que o espírito humano arrebata ao desconhecido. Dar essa alegria, em maior ou menor medida, a todos os que dela são capazes, é a finalidade suprema pela qual se deve valorar a educação da mente.

Talvez se diga que a alegria da aventura mental é rara, que poucos podem apreciá-la e que a educação ordinária não pode dar conta de um bem tão aristocrático. Não acredito nisso. A alegria da aventura mental é muito mais comum nos jovens do que nos homens e nas mulheres. É muito comum entre as crianças e cresce naturalmente na fase do faz de conta e da fantasia. É rara na vida adulta porque se faz de tudo para matá-la durante a educação. Os homens temem o pensamento mais do que a qualquer outra coisa no mundo -- mais do que a ruína, mais até do que a morte. O pensamento é subversivo e revolucionário, destrutivo e terrível; o pensamento é implacável com o privilégio, com as instituições estabelecidas e com os hábitos confortáveis; o pensamento é anárquico e sem lei, indiferente à autoridade, negligente para com a sabedoria comprovada dos tempos. O pensamento olha para o fundo do inferno e não sente medo. Vê o homem, esse grão insignificante, cercado por insondáveis profundezas de silêncio; mesmo assim, aguenta orgulhosamente, impassível, como se fosse o senhor do universo. O pensamento é grandioso, veloz e livre, a luz do mundo e a glória máxima do homem.

Mas, se quisermos fazer que o pensamento seja propriedade de muitos, e não privilégio de poucos, precisamos nos livrar do medo. É o medo que detém os homens -- medo de que suas estimadas crenças se provem ilusórias, medo de que as instituições pelas quais vivem se provem prejudiciais, medo de que eles próprios se provem menos dignos de respeito do que supunham. [...]

Não há instituição inspirada pelo medo que possa promover a vida. A esperança, e não o medo, é o princípio criativo das coisas humanas. Tudo o que fez grande o homem surgiu da tentativa de assegurar o que é bom, não da luta para evitar o que se julgava ruim. A educação moderna raramente consegue um grande resultado porque raramente se inspira pela esperança. O anseio de preservar o passado, em vez da esperança de criar o futuro, domina as mentes de quem controla o ensino da juventude. A educação não deve visar a uma consciência passiva de fatos mortos, mas sim a uma atividade direcionada para o mundo que vamos criar com nossos próprios esforços.

Bertrand Russell - Disciplina escolar versus Auto-disciplina

Bertrand Russel, "Por que os homens vão à guerra", Capítulo 5: "A Educação". Editora UNESP, 1ª edição (2014), São Paulo.

Obediência e disciplina são, supostamente, indispensáveis para manter a ordem em uma classe ou para dar alguma instrução. Até certa medida, isso é verdade; mas a medida é muito menor do que pensam aqueles que veem a obediência e a disciplina como desejáveis em si mesmas. A obediência, submissão da vontade a uma ordem externa, é o complemento da autoridade. Ambas podem ser necessárias em certos casos. Crianças indóceis, lunáticos e criminosos podem precisar de autoridade e ser forçados a obedecer. Mas, quando isso se faz necessário, é uma desgraça: o desejável é a livre escolha de fins, na qual não se precisa interferir. E reformadores educacionais têm demonstrado que isso é muito mais possível do que nossos pais jamais poderiam imaginar -- é quase milagroso o que madame Montessori conseguiu na maneira de minimizar a obediência e a disciplina, com vantagem para a educação.

[...]

A disciplina, tal como existe nas escolas, é, em grande medida, um mal. Há, no entanto, um tipo de disciplina que é necessário a quase toda realização e que talvez não seja suficientemente valorizado por quem reage contra a disciplina puramente externa dos métodos tradicionais. O tipo desejável de disciplina é o que vem de dentro, que consiste no poder de perseguir um objetivo distante com perseverança, renunciando e sofrendo muitas coisas no caminho. Isso implica a subordinação dos impulsos menores à vontade, o poder de direcionar a ação por meio de grandes desejos criativos, até mesmo nos momentos em que eles não estejam vívidos. Sem isso, não se poderá realizar nenhuma ambição séria, nem boa nem ruim, e nenhum propósito consistente poderá predominar. Esse tipo de disciplina é muito necessário, mas só pode resultar de desejos fortes por finalidades não imediatamente alcançáveis e só pode ser produzido pela educação se a educação nutrir tais desejos, o que é raro nos dias de hoje. Tal disciplina surge da própria vontade de cada um, não de uma autoridade externa. Não é esse tipo a que se aspira na maioria das escolas e não é esse tipo que me parece um mal.

Bertrand Russell - sobre o Escola sem Partido

Bertrand Russel, "Por que os homens vão à guerra", Capítulo 5: "A Educação". Editora UNESP, 1ª edição (2014), São Paulo.

O poder da educação na formação do caráter e da opinião é muito grande e bastante reconhecido. As crenças genuínas de pais e professores, embora nem sempre os preceitos professados, são quase inconscientemente adquiridas pela maioria das crianças. E, mesmo que elas se afastem dessas crenças ao longo da vida, algo lhes permanece profundamente implantado, pronto para emergir em um momento de tensão ou crise. A educação é, em regra, a força mais poderosa a favor do que já existe e contra qualquer mudança fundamental: as instituições ameaçadas, enquanto ainda estão poderosas, tomam posse da máquina educacional e instilam o respeito por sua própria excelência nas mentes maleáveis dos jovens. Os reformadores revidam, tentando expulsar os oponentes de sua posição vantajosa. As crianças em si não são consideradas por nenhum dos lados; são apenas massa a se recrutar para um ou outro exército. Se as próprias crianças fossem consideradas, a educação não teria por objetivo fazê-las pertencer a este ou àquele lado, mas sim habilitá-las a optar inteligentemente entre os lados; teria por objetivo fazê-las capazes de pensar, e não fazê-las pensar o que seus professores pensam. A educação não poderia existir enquanto arma política se respeitássemos os direitos das crianças. Se respeitássemos os direitos das crianças, deveríamos educá-las de modo a lhes dar o conhecimento e os hábitos mentais necessários para formarem opiniões independentes; mas a educação, enquanto instituição política, empenha-se em formar hábitos e circunscrever o conhecimento de modo a tornar inevitável um único conjunto de opiniões.

[...]

É na história, na religião e em outros temas controversos que a instrução de hoje se mostra efetivamente prejudicial. Esses temas tocam os interesses que mantêm as escolas; e esses interesses mantêm as escolas para inculcar certos pontos de vista sobre esses temas. Em todos os países, a história é ensinada de modo a enaltecer o país: as crianças aprendem a acreditar que seu próprio país sempre esteve do lado certo e quase sempre vitorioso, que o país produz quase todos os grandes homens e que, em todos os campos, é superior aos outros países. Como são lisonjeiras, essas crenças se assimilam facilmente e é difícil que um dia sejam desalojadas do instinto por um conhecimento posterior.

Tomemos um exemplo simples e quase trivial: os fatos sobre a batalha de Waterloo são conhecidos em muitos detalhes e com minuciosa exatidão; mas os fatos ensinados na escola elementar serão totalmente distintos na Inglaterra, na França e na Alemanha. [...] Se os fatos fossem ensinados fielmente em ambos os países, não se fortaleceria o orgulho nacional na mesma medida, nenhuma das nações se sentiria muito segura da vitória na eventualidade de uma guerra e a disposição para guerrear diminuiria. É esse resultado que se precisa prevenir. Todo Estado quer promover o orgulho nacional e tem consciência de que isso não pode ser feito com uma história imparcial. Indefesas, as crianças aprendem distorções, supressões e sugestões. As ideias falsas sobre a história do mundo ensinadas nos vários países são de um tipo que encoraja o conflito e servem para manter vivo o nacionalismo fanático.

[...]

Exatamente a mesma coisa se aplica à religião. [...] Uma corporação religiosa existe pelo fato de todos os seus membros terem certas crenças definidas sobre assuntos cuja verdade é inverificável. Escolas dirigidas por corporações religiosas têm de prevenir que os jovens, curiosos por natureza, descubram que essas crenças definidas se confrontam com outras, não mais insensatas, e que muitos dos homens melhor qualificados para julgar acham que não há nenhuma evidência a favor de nenhuma crença definida.

[...]

A repressão da livre indagação será inevitável enquanto o propósito da educação for produzir crenças ao invés de pensamento, enquanto o propósito for compelir os jovens a sustentar opiniões assertivas sobre assuntos duvidosos ao invés de deixá-los ver a dúvida e se sentir encorajados à independência da mente. A educação deve nutrir o desejo de verdade, não a convicção de que um credo em particular é a verdade. Mas são os credos o que mantém os homens unidos em organizações para a luta: Igrejas, Estados, partidos políticos. É a intensidade da crença em um credo o que produz a eficiência na luta: a vitória vem para quem sente a certeza mais forte sobre os assuntos nos quais a dúvida é a única atitude racional. Para produzir essa intensidade da crença e essa eficiência na luta, a natureza da criança é pervertida e seu modo de ver fica deformado pelo cultivo de inibições que são um obstáculo ao crescimento de novas ideias. Aquelas cujas mentes não são muito ativas apresentam como resultado a onipotência do preconceito; já aquelas cujo pensamento não pode ser de todo assassinado se tornam cínicos, intelectualmente desesperançados, destrutivamente críticos, capazes de fazer que tudo pareça tolo, incapazes de suprir os impulsos criativos que destroem nos outros.

[...]

A aceitação passiva da sabedoria do professor é fácil para a maioria dos garotos e garotas. Não implica nenhum esforço de pensamento independente e parece racional, porque o professor sabe mais do que os alunos; além disso, é uma maneira de ganhar a preferência do professor, a menos que ele seja um homem muito excepcional. Mesmo assim, o hábito da aceitação passiva será desastroso para a vida futura. É esse hábito que faz os homens procurarem um líder e aceitarem como líder quem quer que se estabeleça em tal posição. É ele que constrói o poder de igrejas, governos, bancadas partidárias e todas as outras organizações pelas quais os homens comuns são iludidos a apoiar sistemas antigos e prejudiciais à nação e a si próprios. É possível que não houvesse muita independência de pensamento, mesmo se a educação fizesse de tudo para promovê-la; mas certamente haveria mais do que hoje. Se o objetivo fosse fazer os alunos pensarem, em vez de fazê-los aceitar determinadas conclusões, a educação seria conduzida de um jeito bem diferente: haveria menos pressa na instrução e mais discussão, mais ocasiões para encorajar os alunos a se expressarem, mais tentativas de fazer a educação se ocupar de assuntos pelos quais os alunos sentissem algum interesse.

Descartes: sobre autocrítica

René Descartes. Discurso do Método para Bem Conduzir a Própria Razão e Procurar a Verdade nas Ciências, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2011.

Segunda Parte

Um dos primeiros [pensamentos que me ocorreram] foi o considerar que não há frequentemente tanta perfeição nas obras compostas de muitas peças e feitas pela mão de vários mestres como naquelas que são trabalhadas por um só. Assim, os edifícios começados e acabados por um só arquiteto costumam ser mais belos e melhor ordenados que os que muito tentaram consertar, servindo-se de velhos muros que foram construídos para outros fins. Do mesmo modo são essas velhas cidades que originalmente eram apenas aldeias e se tornaram com o tempo grandes cidades. Em geral são tão malproporcionadas comparadas com as praças regulares que um engenheiro traça a seu talante numa planície, que, embora ao considerar seus edifícios, cada um em separado, se encontre neles frequentemente tanta ou mais arte que nos daquelas praças, todavia, ao olharmos como são dispostos, aqui um grande, ali um pequeno, e como fazem as ruas curvas e desiguais, dir-se-ia que foi mais o acaso que a vontade de alguns homens, usando de razão, que desse modo os dispôs.

[...]

E deste modo pensei ainda que, tendo nós todos sido crianças antes de sermos adultos, e necessariamente governados durante muito tempo pelos nossos apetites e pelos nossos preceptores, frequentemente contrários uns aos outros e nem sempre nos aconselhando uns e outros, o melhor, é quase impossível que os nossos juízos sejam tão puros e tão sólidos como seriam se tivéssemos todos, desde o nascimento, o uso inteiro de nossa razão e apenas nos tivéssemos conduzido por ela.

É certo que nunca devemos demolir todas as casas de uma cidade, apenas com a intenção de as refazer de outra maneira e de tornar as ruas mais belas; mas vê-se que muitas pessoas derrubam as suas para as reconstruir, e até algumas vezes são obrigadas a isso quando elas correm risco de cair por si, por não estarem bastante firmes os seus alicerces. Com este exemplo, persuadi-me de que, na verdade, [...] a respeito das opiniões que até então eu aceitara, o que melhor teria a fazer era, uma vez por todas, de as recusar, para as substituir em seguida por outras melhores, ou pelas mesmas quando as houvesse ajustado ao nível da razão. Acreditei firmemente que, deste modo, conduziria minha vida muito melhor do que se a construísse sobre velhos alicerces e me apoiasse apenas nos princípios pelos quais me deixara guiar na mocidade, sem nunca haver examinado se eram verdadeiros. [...]

A simples resolução de nos libertarmos de todas as opiniões anteriormente recebidas como verdadeiras não é um exemplo que todos devam seguir; o mundo é quase composto por duas espécies de espíritos aos quais ele de nenhum modo convém, a saber:

  1. aqueles que, julgando-se mais hábeis do que são, não resistem precipitar os seus juízos e nem têm bastante paciência para conduzir com ordem seus pensamentos, de onde resulta que se tomarem uma vez a liberdade de duvidar dos princípios que receberam e de se afastar do caminho comum, nunca poderão manter-se na senda que é necessário seguir para ir mais direito, e ficarão perdidos por toda a vida;
  2. e os outros que, possuindo bastante razão e modéstia para julgar que são menos capazes de distinguir o verdadeiro do falso que outras pessoas, pelas quais eles podem ser intruídos, devem antes contentar-se em seguir a opinião dessas outras pessoas do que procurarem por si outras opiniões melhores.

Quanto a mim, seria sem dúvida do número destes últimos, se houvesse tido apenas um mestre ou se desconhecesse as diferenças que sempre existiram entre as opiniões dos mais doutos. Mas:

  • tendo aprendido, desde o colégio, que nada se pode imaginar de tão estranho e de tão pouco crível que não houvesse sido dito por algum filósofo;
  • e mais, concluindo, das minhas viagens, que todos que têm sentimentos contrários aos nossos nem por isso são bárbaros ou selvagens, e que muitos, tanto quanto nós, usam da razão;
  • e havendo considerado que um mesmo homem com o seu próprio espírito, desde que passe a infância entre franceses ou alemães, torna-se diferente do que o seria se sempre houvesse vivido entre chineses ou canibais;
  • e que, até nas modas de nossas roupas, a mesma cousa que nos agradou há dez anos, e que talvez volte a nos agradar antes de outros dez, nos parece agora extravagante e ridícula, de sorte que é mais o costume e o exemplo que nos guiam do que qualquer conhecimento certo;
  • e que, no entanto, a pluralidade das opiniões é uma prova que nada vale para as verdades um pouco difíceis de descobrir, pelo fato de ser bem mais verossímil que um só homem as encontre que todo um povo
Cão conduzindo a si próprio
vi-me forçado a conduzir-me a mim mesmo

[logo,] não podia escolher ninguém cujas opiniões me parecessem dever ser preferidas às dos outros. Assim, vi-me forçado a procurar conduzir-me a mim mesmo.

Terceira Parte

Enfim, como não basta, antes de começar a reconstruir a casa em que se mora, derrubá-la e provermo-nos de materiais e de arquitetos, ou transformando-nos nós mesmos em arquitetos, como é necessário ainda traçar cuidadosamente o seu plano, e também estar prevenido com outra casa onde nos possamos alojar comodamente durante o tempo que trabalharmos, assim também, para não ficar irresoluto em minhas ações, embora a razão me obrigasse a sê-lo em meus juízos, e para não deixar de viver desde então da maneira mais feliz que pudesse, formei, para meu uso, uma moral provisória, que consistia apenas em três ou quatro máximas que vos desejo expor.

  1. Obedecer às leis e aos costumes de minha terra, guardando com constância a religião na qual Deus me fez ter a graça de ser instruído desde a minha infância, e de me governar, em tudo mais, segundo as opiniões mais moderadas e mais afastadas dos excessos, e que fossem comumente recebidas na prática pelas pessoas mais sensatas com as quais eu teria de viver. Porque, começando desde então a não levar em conta as minhas próprias opiniões, em virtude de as querer submeter todas a exame, parecia-me melhor e mais seguro seguir as dos mais sensatos. E embora talvez existam homens tão sensatos entre os persas ou os chineses quanto entre nós, acreditava que o mais útil era seguir aqueles com os quais teria que viver, e que, para saber quais as suas verdadeiras opiniões, devia atender mais aos que praticavam do que ao que diziam, não só porque em virtude da corrupção dos nossos costumes poucas são as pessoas que dizem tudo aquilo que creem, mas também porque muitas o ignoram; porque sendo a atividade do pensamento, pela qual se crê uma cousa, diferente daquela pela qual se conhece que se crê, elas andam muitas vezes uma sem a outra. E, entre muitas opiniões igualmente aceitas, escolhia apenas as mais moderadas, não só porque são sempre as mais cômodas para praticar e provavelmente as melhores, pois todo excesso costuma ser mau, como também porque, desse modo, me desviaria menos do verdadeiro caminho, no caso de errar, do que se tivesse escolhido um dos extremos. Punha no número dos excessos, particularmente, todas as promessas em virtude das quais se diminui, em alguma coisa, a própria liberdade. Não que desaprovasse as leis que, para remediar a inconstância dos espíritos fracos, permitem, quando se tem um bom propósito, ou mesmo, quando para o bem da segurança do comércio, algum desígnio apenas indiferente, que façamos promessas ou contratos que obrigam a mantê-lo. Mas, como não percebia no mundo cousa alguma que permanecesse sempre no mesmo estado, e porque, no que me dizia respeito, prometia a mim mesmo aperfeiçoar cada vez mais os meus juízos e não torná-los piores, pensava cometer uma grande falta contra o bom senso se, por aprovar alguma cousa, me houvesse obrigado a considerá-la como boa depois, quando ela tivesse cessado de o ser ou que eu tivesse deixado de a considerar como tal.
  2. Ser o mais firme e resoluto que pudesse em minhas ações e em seguir com não menor constância as opiniões mais duvidosas, uma vez que me houvesse determinado por elas, imitando nisto os viajantes que, ao se encontrarem perdidos em uma floresta, não devem vaguear de um lado para outro, e menos ainda parar em um lugar, mas andar sempre a direito o mais que possam, numa mesma direção, e de nenhum modo modificá-la, em virtude de fracas razões, embora tenha sido, de início, simplesmente o acaso que haja determinado essa escolha; porque, por esse meio, se não vão justamente para onde desejam, pelo menos chegarão, por fim, a qualquer lugar onde, provavelmente, estarão melhor que no meio da floresta. Do mesmo modo, as ações da vida frequentemente não comportam nenhum adiamento, e é verdade muito certa que, quando não está em nosso poder o discernir as opiniões mais verdadeiras, devemos seguir as mais prováveis, ainda mesmo que não notemos em umas mais probabilidades que em outras; devemos contudo nos decidir por algumas e considerá-las, a seguir, não mais como duvidosas, no que se relaciona com o seu valor prático, mas como muito verdadeiras e muito certas, porque a razão que nos leva a assim considerá-las não é menos certa e verdadeira. E isto foi capaz, desde logo, de me libertar de todos os arrependimentos e remorsos que costumam agitar as consciências desses espíritos fracos e vacilantes que se deixam levar a praticar como boas as cousas que, a seguir, julgam más.
  3. Procurar sempre vencer antes a mim próprio do que à fortuna, e de modificar antes os meus desejos do que a ordem do mundo; e a acostumar-me geralmente a crer que somente os nossos pensamentos estão inteiramente em nosso poder, de sorte que, depois de havermos procedido da melhor maneira possível no tocante às cousas que nos são exteriores, se não somos bem-sucedidos no que nos diz respeito, é porque isso é absolutamente impossível.
    E só isso me parecia bastante para me impedir de desejar no futuro o que eu não pudesse adquirir e desse modo, viver contente. Com efeito, sendo a nossa vontade naturalmente propensa a desejar apenas aquelas cousas que o entendimento lhe apresenta de algum modo como possíveis, é certo que, se considerarmos todos os bens como igualmente afastados de nosso poder, não sentiremos mais tristeza com a falta daqueles que nos parecerem ser devidos em virtude do nosso nascimento, quando deles formos privados sem culpa nossa, do mesmo modo que não lastimamos não possuir os reinos da China e do México. E fazendo, como se diz, da necessidade virtude, não desejaremos tampouco estar sãos quando estamos doentes ou estar livres quando estamos na prisão, ter corpos de uma matéria tão pouco corruptível como o diamante ou asas para voar como os pássaros. Confesso, porém, que é preciso um longo exercício e uma meditação muitas vezes reiterada para nos habituarmos a considerar sob esse prisma todas as cousas; e creio que é precisamente nisto que consistia o segredo dos filósofos [estóicos] que puderam outrora subtrair-se ao império da fortuna e, apesar das dores e da pobreza, rivalizar em felicidade com os deuses. Porque, estando ocupados sem cessar na consideração dos limites que lhes impunha a natureza, persuadiam-se perfeitamente de que a única cousa que caía sob o seu poder eram os seus pensamentos, e que isso só bastava para os impedir de demonstrarem interesse por outras cousas. E dispunham dos seus pensamentos de modo tão absoluto que tinham razão de se considerar mais ricos, mais poderosos, mais livres e mais felizes que todos os demais homens que, não possuindo esta filosofia, por mais favorecidos que possam ser pela natureza e pela fortuna, nunca dispõem assim de tudo o que querem.

[...]

Depois de assim me haver assegurado destas máximas, e de as haver posto de parte com as verdades da fé que sempre foram as primeiras em minha crença, julgava que, para as demais opiniões, podia delas livremente desfazer-me. E, como esperava poder realizar melhor isto frequentando os homens do que fechado no quarto aquecido onde me haviam ocorrido todas estas ideias, não terminara ainda o inverno quando de novo me pus a viajar. E, nos nove anos seguintes, nada mais fiz do que andar a rolar, de um lado para outro, por este mundo, buscando ser mais espectador do que ator em todas as comédias que nele se apresentam. Procurando principalmente refletir a propósito de cada cousa, sobre o que podia torná-la suspeita e dar ocasião para enganos, ia desenraizando, ao mesmo tempo, do meu espírito todos os erros que até então aí se haviam insinuado. Não que nisto imitasse os céticos que apenas duvidam por duvidar e afetam ser sempre irresolutos; mas, ao contrário, todo o meu intuito era conquistar certeza e rejeitar a terra movediça e a areia para encontrar a rochar e a argila. O que me deu muito bom resultado, segundo me parece, pois que, procurando descobrir a falsidade e a incerteza das proposições que examinava -- não por meio de fracas conjecturas, mas com raciocínios claros e seguros -- não encontrava nenhumas tão duvidosas das quais não tirasse sempre alguma conclusão bastante certa, quando mais não fosse a de não conter ela nada de certo.

E, do mesmo modo que quando se põe por terra uma casa, reservamos o que sobra das demolições para aproveitá-lo na construção de outra nova, assim ao destruir todas as minhas opiniões que julgava malfundadas, fazia diversas observações e adquiria outras experiências que me serviram, a seguir, para estabelecer outras mais certas.

[...]

Karl Popper: dogmatismo versus criticismo (epistemologia)

Alberto Oliva. Entre o Dogmatismo Arrogante e o Desespero Cético: a Negatividade como Fundamento da Visão de Mundo Liberal, Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1993. Capítulo I: "O Embasamento Epistemológico do Liberalismo". Seção 2: "Concepção negativa de conhecimento".

O justificacionismo: evidência positiva

Como é notório, desde o alvorecer da Filosofia Grega tem predominado, com as conhecidas exceções, tradições gnosiológicas justificacionistas. Consoante o justificacionismo (CF. Lakatos, 1977, p. 94-95), só podemos qualificar de conhecimento o sistema demonstrativamente certo (via razão) ou a explicação empírica forjada a partir de uma base observacional pura e teoricamente neutra (via registro perceptual do imediatamente dado). Destarte, as vertentes justificacionistas identificam, na "certeza" provida pela demonstração lógica e na fidedignidade decalcadora do registro observacional, a base rochosa do conhecimento.

Quando se trata da busca de conhecimento empírico, de lidar com questões fatuais, o justificacionismo acredita que a evidência positiva seja capaz de tornar verdadeira, ou ao menos provável, uma alegação de conhecimento. Nesse sentido, todo o processo de justificação do sistema interpretativo a que se pretende dar o estatuto de conhecimento se estriba na coleta de informações positivas capaz de ensejar sua aceitação universal. Sendo assim, credita-se à evidência favorável, quando recolhida de forma inconcussa e em quantidade suficiente, o poder de decretar legitimamente a verdade (ou a probabilidade) do sistema teórico proposto.

[...]

Uma teoria de conhecimento modesta: evidência negativa

A constatação de que a evidência positiva revela-se inconclusiva na determinação da verdade de enunciados de universalidade irrestrita - os que têm a forma "Todos os A são B", em que Todos abarca casos reais constatados e possíveis ainda por constatar - teve importância ainda mais decisiva na construção de uma teoria do conhecimento modesta. "Modesta" aqui significa: rigorosamente atenta às limitações da Razão e à precariedade dos procedimentos de justificação com os quais podemos contar na avaliação de nossos sistemas interpretativos. Afinal, se não há como falar de verificação (cabal e definitiva) de leis científicas, por corresponderem, em termos de sua forma lógica, a enunciados de universalidade irrestrita, com uma infinidade de instâncias potenciais, enquanto só é exequível a realização de um número finito de observações positivas com vistas a definirmos seu valor-de-verdade, como deixar de ser epistemologicamente humilde? Esse grave defeito da metodologia verificacionista, estribada na evidência positiva, levou Popper a enunciar um critério de avaliação epistêmica que se mostrasse capaz de dar conta dos universais categóricos; sua conclusão: só têm poder de assinalar um valor-de-verdade à universalidade nômica os procedimentos avaliativos que conferem papel decisivo à evidência negativa:

A diferença fundamental entre meu enfoque e o "indutivista" reside no fato de que enfatizo argumentos negativos, tais como instâncias negativas ou contra-exemplos, refutações e tentativas de refutação - em resumo, a crítica - ao passo que o indutivista dá destaque às "instâncias positivas", a partir das quais faz "inferências não-demonstrativas" (...)
(Popper, 1986, p. 20)

Os paradoxos a que conduz a Teoria da Confirmabilidade e a inconclusividade exibida pela evidência positiva para efeito de verificação de hipóteses universais deram a Popper a convicção de que não podemos, justificadamente, apregoar a verdade de um sistema explicativo. Podemos, quando muito, desvencilhar-nos daquele que se revelar falso, com base em evidência que contra ele conseguimos amealhar. Jamais reunimos condições que nos permitam proclamar que uma teoria é Verdadeira, pois, mesmo quando muita e significativa evidência fala a seu favor, não é decisiva. Além disso, a evidência favorável possui caráter redundante - sobretudo a partir do acúmulo de um certo número de instâncias - que a torna ineficaz no processo de avaliação das chamadas generalizações essenciais. Registre-se ainda que, para Popper, a atitude dogmática se confunde nitidamente com a postura que se dedica à verificação de nossos sistemas explicativos em detrimento da atenção a eventuais falsificadores potenciais. Já a atitude crítica, pelo destaque que confere aos contra-exemplos, se propõe a rigorosamente testá-los através de implacáveis tentativas de refutá-los (Popper, 1989, p. 50).

A comprovação de que a evidência adversa tem o poder de se pronunciar decisivamente sobre a universalidade nômica se mostrará estruturadora da filosofia da ciência popperiana e marcará o nítido afastamento dos modos tradicionais de justificação de nossas alegações de conhecimento.

(...) um sistema deve ser considerado científico apenas se faz asserções que podem conflitar com observações; e um sistema é de fato testado por tentativas de produzir esses conflitos, isto é, por tentativas de refutá-lo.
(Popper, 1989, p. 256)

[...]

Abandonado o velho justificacionismo, a única postura cabível é a que se empenha em se desfazer das teorias que conflitam com observações, ou a que se devota à escolha da teoria, em contraposição a outra(s) que encerram maior conteúdo de verdade, menor conteúdo de falsidade e igual ou maior capacidade explicativa. Não aprendemos porque chegamos à verdade, e sim por percorremos diligente e criticamente o penoso e interminável caminho da eliminação de erros. Se não há a verdade a alcançar, há falsidades a eliminar. E entender que aprender é aprender a desvencilhar-se de erros equivale a assumir a postura humilde de que não há teoria capaz de assenhorear-se da realidade (investigada) como sua verdade:

Não podemos justificar nossas teorias, mas podemos racionalmente criticá-las, e tentativamente adotar as que parecem melhor suportar nossa crítica e que encerram maior poder explicativo.
(Popper, 1986, p. 265)
(...) não podemos estabelecer ou justificar o que quer que seja como certo, ou mesmo como provável, mas apenas contentarmo-nos com teorias que suportam a crítica.
(Popper, 1971, p. 379)

[...]

Liberalismo

O negativismo epistemológico, sistematicamente formulado por Popper, pode ser visto como o embasamento crítico das posições que o Liberalismo mais consistente assume frente aos problemas substantivos. [...] As mais fundamentadas posturas liberais frente a temas candentes como o da natureza e significado da liberdade, da justiça, do Estado, da felicidade, etc. pressupõem essa teoria do conhecimento humilde que dá primazia à impossibilidade de se chegar à Verdade que faz da história do conhecimento não a ascensão em direção à explicação definitiva, e sim um sinuoso roteiro de eliminação de erros. Ter consciência das limitações da razão, da inexistência de procedimentos de justificação capazes de levá-lo à Verdade, faz com que o liberal reitere diuturnamente o princípio da modéstia epistemológica: a ignorância é infinita, o saber finito.

Nesse sentido, o liberalismo adota uma teoria do conhecimento que se situa nos antípodas das que, assegurando a conquista da verdade, prometem a completa remodelação da realidade com base na explicação última desveladora dos determinantes ocultos que escapam ao senso comum preso às enganosas erupções do imediatamente dado. [...] O liberalismo repele os grandiloquentes projetos de Engenharia Social não por esposar, como sustentam muitos de seus críticos, uma empedernida posição conservadora, e sim por ter constatado, ao nível da teoria do conhecimento, que nenhum de nós dispõe de um saber tão completo capaz de nos permitir a tudo racionalmente alterar e de oferecer a garantia de que chegaremos necessariamente a melhores resultados.

Referências

  • LAKATOS, I. (1977). Falsification and the methodology of scientific research programs. In LAKATOS, I.: Criticism and the Growth of Knowledge. Cambridge University Press, 1970.
  • POPPER, K. R. (1971). The Open Society and its Enemies. New Jersey: Princeton University Press. v.2
  • POPPER, K. R. (1986). Objective Knowledge: an evolutionary approach. Oxford: Clarendon Press.
  • POPPER, K. R. (1989). Conjectures and Refutations. London: Routledge and K. Paul.