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Anders Bateva

Clippings / recortes de não-ficção: buscando o porquê das coisas.

Anders Bateva

Clippings / recortes de não-ficção: buscando o porquê das coisas.

Você é um privilegiado!

Fonte: blog do HG Erik, 19 de novembro de 2017.

Você é um privilegiado.

Reconheça:

Você nasceu, quando tanta gente sequer existe, e a maioria daquilo tudo que existe é pedra.

Você nasceu no Brasil, não na Somália.

Você é um bípede sem penas, quando há tantas vidas por aí que sofrem a condição de serem monocelulares.

Você é pobre, mas é branco; você é negro, mas é homem; você é mulher, mas usa roupa de griffe.

Haja visto que, segundo nosso revolucionário aplicativo (para Android) medidor do índice de Q.O. (Quoeficiente de Opressão) dos indivíduos, você é um babaca: reúne categorias gerais o suficiente para ser acusado como um inimigo, ainda que apresente várias outras categorias (além de uma coisa chamada personalidade) que o inocentariam como amigo. E não, não há bug quando o homem é negro e a mulher é branca. Por acaso você nunca ouviu falar de porcentagem, ô vitimista auto-condescendente de zona sul?

Seus pais deviam admitir o erro de gerar uma pessoa como você, que – enquanto indivíduo singular ou pessoa – foi desprezivelmente preferida pelo acaso e pela natureza. Nascido para oprimir. Está no seu DNA, na sua biologia, em sua melanina, na música que você ouve. Seu merda.

Então, fica combinado o seguinte: você, seus pais, Adão e Eva, a natureza e a contingência vão agora confessar seus privilégios e vão ajoelhar no milho e pedir perdão por existirem.

Pois, a tal ponto chega esse papo de denunciar “privilégios” que até o fato de você ainda respirar é um privilégio frente aos oprimidos pela morte.

(Será assim, inflando sua auto-rejeição e culpa – por não ser um completo desgraçado -, e elegendo a política e o moralismo de Poliana como autêntica atuação revolucionária e emancipadora, que construiremos uma nova e autêntica realidade humana, livre da propriedade privada, das classes sociais, da divisão social do trabalho, do mercado, do dinheiro, do Estado, do egoísmo, da ganância, da concorrência universalizada, da “bellum omnium contra omnes” – todas essas tais entificações sociais produtoras de opressão e frente às quais você é um cego no tiroteio?)

Ah, não se esqueça. Você vai reconhecer o caráter opressor que a natureza te legou e do qual você é moralmente responsável. Você vai dar um jeito de se desconstruir até a medula dos ossos. Mas você fará isso calado. Pois agora você vai experimentar – digo, “vivenciar” – o lugar do oprimido como quem indubitavelmente merece virar montaria. Não ouse soltar um pio sequer em favor das minorias, a menos que, além de opressor por natureza, queira ainda ser escrachado como ladrão do “lugar de fala” que apenas os oprimidos natos podem ter a regalia de possuir. E nem pense em “problematizar” isso, larápio do privilégio alheio!

***

Quando você critica o identitário por este afirmar que ser “homem”, “branco”, “hétero cis etc.” é possuir ~privilégios~, e pior, é ser ~opressor~, ele trata de te responder dizendo, na melhor das hipóteses, que você está negando existir opressão sob forma de racismo, machismo, homofobia etc.

Ele se esforça para te convencer que, se você está um centímetro acima da desgraça alheia por não se encaixar em uma ou mais dessas categorias oprimidas, isso te torna privilegiado e opressor, por pior que seja a vida que você insiste em suportar.

Você é um oprimido, mas agora é um verme que devia assumir seu caráter de parasita dos oprimidos. Você aí: sem saber, você queima bruxas, veste o capuz da KKK, espanca gays na rua e ainda manifesta orgulho de ter feito o que não fez e de ser o que o acaso fez de você.

Uma verdade que nem a pílula vermelha de Matrix poderia arregaçar tanto as pupilas!

Ou então, é um discurso moralista e religioso que só serve pra nos esconder os verdadeiros privilegiados da sociedade e, de brinde, para jogar em nossas costas a culpa pela desgraça dos outros.

Se isso é o que temos para guiar as lutas, melhor vestir um pijama e ficar assistindo vídeos de gatinhos no facebook.

***

Como funciona o pensamento dos identitários?

Suponhamos que você faz críticas ao subjetivismo. Como resposta, não ouve nenhum desmentido; ao contrário, a confirmação vaidosa do que foi exatamente a sua crítica.

Assim: se você fala de subjetivismo no identitarismo negro, a sua pessoa se torna a pauta da discussão e você é tachado de racista. No identitarismo feminista, você é chamado de machista. No LGBT, você é homofóbico. Etc.

Isso não apenas quando nada que você disse permite tais acusações, mas ainda quando as pessoas te conhecem bem e sabem que você, conscientemente, não é nada disso (e se esforça para não sê-lo nunca); muito antes pelo contrário, simpatiza com a luta contra o racismo, o machismo, a homofobia etc.

[...]


Costumo dar os créditos daquilo que compartilho, convido-os a fazer o mesmo e agradeço a quem me citar como autor daquilo que escrevi e publiquei, ao compartilhar meus textos. Mas isto não é absolutamente necessário. As idéias, uma vez exteriorizadas, não pertencem a ninguém. Sintam-se livres para fazer das minhas o que quiserem. Modifiquem-nas, se isto as fizer melhores. O importante são as idéias e não o autor.
Licença de uso (do HG Erik).

Sectarismo e disputa ideológica

Fonte: blog do HG Erik, 1º de fevereiro de 2018. Esta é a introdução de um texto maior.

As ideologias, mesmo quando possuem boas intenções, assumem na política que a hostilidade é princípio do discurso e da ação, e mesmo a trégua, as alianças e a paz só se justificam na medida que forem convenientes para esmagar o inimigo no momento que for propício. Assim, e especialmente quando o combate se torna franco e aberto, elas hão de seguir o bom conselho de Maquiavel – a menos que queiram perder a guerra logo na primeira batalha – e vão passar seus tratores sobre os fatos com um respeito tal que só mesmo o instinto de sobrevivência pode devotar a eles; pois isso não apenas é necessário, mas justamente por tornar os fatos tão (in)verossímeis quanto ocorre sob os véus de qualquer outra “fonte de informações”, elas terminam por angariar, umas diante das outras, ao menos uma certa “equivalência” que supostamente as torna algo legítimas quando se reivindicam as únicas autênticas porta-vozes e cala-bocas da realidade.

É assim que somos atirados no ringue do perspectivismo dos interesses privados em mútua contradição, e somos intimados – quando não aderimos de quatro – a defender um dos lados na disputa pela “verdade” que relincha mais alto: uma afirma que a coisa “é”, ao mesmo tempo que a outra berra que “não é”.

O mais forte ganha as medalhas da razão ao impôr sua conveniência democrática de forma mais eficaz, custe a violência que custar, e por mais esquálida e selvagem seja sua autoproclamada universalidade.


Costumo dar os créditos daquilo que compartilho, convido-os a fazer o mesmo e agradeço a quem me citar como autor daquilo que escrevi e publiquei, ao compartilhar meus textos. Mas isto não é absolutamente necessário. As idéias, uma vez exteriorizadas, não pertencem a ninguém. Sintam-se livres para fazer das minhas o que quiserem. Modifiquem-nas, se isto as fizer melhores. O importante são as idéias e não o autor.
Licença de uso (do HG Erik).

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