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Anders Bateva

Buscando o porquê das coisas em livros de não-ficção.

Anders Bateva

Buscando o porquê das coisas em livros de não-ficção.

Karl Popper: dogmatismo versus criticismo

Fonte: Alberto Oliva. Entre o Dogmatismo Arrogante e o Desespero Cético: a Negatividade como Fundamento da Visão de Mundo Liberal, Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1993. Capítulo I: "O Embasamento Epistemológico do Liberalismo". Seção 2: "Concepção negativa de conhecimento".

O justificacionismo: evidência positiva

Como é notório, desde o alvorecer da Filosofia Grega tem predominado, com as conhecidas exceções, tradições gnosiológicas justificacionistas. Consoante o justificacionismo (CF. Lakatos, 1977, p. 94-95), só podemos qualificar de conhecimento o sistema demonstrativamente certo (via razão) ou a explicação empírica forjada a partir de uma base observacional pura e teoricamente neutra (via registro perceptual do imediatamente dado). Destarte, as vertentes justificacionistas identificam, na "certeza" provida pela demonstração lógica e na fidedignidade decalcadora do registro observacional, a base rochosa do conhecimento.

Quando se trata da busca de conhecimento empírico, de lidar com questões fatuais, o justificacionismo acredita que a evidência positiva seja capaz de tornar verdadeira, ou ao menos provável, uma alegação de conhecimento. Nesse sentido, todo o processo de justificação do sistema interpretativo a que se pretende dar o estatuto de conhecimento se estriba na coleta de informações positivas capaz de ensejar sua aceitação universal. Sendo assim, credita-se à evidência favorável, quando recolhida de forma inconcussa e em quantidade suficiente, o poder de decretar legitimamente a verdade (ou a probabilidade) do sistema teórico proposto.

[...]

Uma teoria de conhecimento modesta: evidência negativa

A constatação de que a evidência positiva revela-se inconclusiva na determinação da verdade de enunciados de universalidade irrestrita - os que têm a forma "Todos os A são B", em que Todos abarca casos reais constatados e possíveis ainda por constatar - teve importância ainda mais decisiva na construção de uma teoria do conhecimento modesta. "Modesta" aqui significa: rigorosamente atenta às limitações da Razão e à precariedade dos procedimentos de justificação com os quais podemos contar na avaliação de nossos sistemas interpretativos. Afinal, se não há como falar de verificação (cabal e definitiva) de leis científicas, por corresponderem, em termos de sua forma lógica, a enunciados de universalidade irrestrita, com uma infinidade de instâncias potenciais, enquanto só é exequível a realização de um número finito de observações positivas com vistas a definirmos seu valor-de-verdade, como deixar de ser epistemologicamente humilde? Esse grave defeito da metodologia verificacionista, estribada na evidência positiva, levou Popper a enunciar um critério de avaliação epistêmica que se mostrasse capaz de dar conta dos universais categóricos; sua conclusão: só têm poder de assinalar um valor-de-verdade à universalidade nômica os procedimentos avaliativos que conferem papel decisivo à evidência negativa:

A diferença fundamental entre meu enfoque e o "indutivista" reside no fato de que enfatizo argumentos negativos, tais como instâncias negativas ou contra-exemplos, refutações e tentativas de refutação - em resumo, a crítica - ao passo que o indutivista dá destaque às "instâncias positivas", a partir das quais faz "inferências não-demonstrativas" (...)
(Popper, 1986, p. 20)

Os paradoxos a que conduz a Teoria da Confirmabilidade e a inconclusividade exibida pela evidência positiva para efeito de verificação de hipóteses universais deram a Popper a convicção de que não podemos, justificadamente, apregoar a verdade de um sistema explicativo. Podemos, quando muito, desvencilhar-nos daquele que se revelar falso, com base em evidência que contra ele conseguimos amealhar. Jamais reunimos condições que nos permitam proclamar que uma teoria é Verdadeira, pois, mesmo quando muita e significativa evidência fala a seu favor, não é decisiva. Além disso, a evidência favorável possui caráter redundante - sobretudo a partir do acúmulo de um certo número de instâncias - que a torna ineficaz no processo de avaliação das chamadas generalizações essenciais. Registre-se ainda que, para Popper, a atitude dogmática se confunde nitidamente com a postura que se dedica à verificação de nossos sistemas explicativos em detrimento da atenção a eventuais falsificadores potenciais. Já a atitude crítica, pelo destaque que confere aos contra-exemplos, se propõe a rigorosamente testá-los através de implacáveis tentativas de refutá-los (Popper, 1989, p. 50).

A comprovação de que a evidência adversa tem o poder de se pronunciar decisivamente sobre a universalidade nômica se mostrará estruturadora da filosofia da ciência popperiana e marcará o nítido afastamento dos modos tradicionais de justificação de nossas alegações de conhecimento.

(...) um sistema deve ser considerado científico apenas se faz asserções que podem conflitar com observações; e um sistema é de fato testado por tentativas de produzir esses conflitos, isto é, por tentativas de refutá-lo.
(Popper, 1989, p. 256)

[...]

Abandonado o velho justificacionismo, a única postura cabível é a que se empenha em se desfazer das teorias que conflitam com observações, ou a que se devota à escolha da teoria, em contraposição a outra(s) que encerram maior conteúdo de verdade, menor conteúdo de falsidade e igual ou maior capacidade explicativa. Não aprendemos porque chegamos à verdade, e sim por percorremos diligente e criticamente o penoso e interminável caminho da eliminação de erros. Se não há a verdade a alcançar, há falsidades a eliminar. E entender que aprender é aprender a desvencilhar-se de erros equivale a assumir a postura humilde de que não há teoria capaz de assenhorear-se da realidade (investigada) como sua verdade:

Não podemos justificar nossas teorias, mas podemos racionalmente criticá-las, e tentativamente adotar as que parecem melhor suportar nossa crítica e que encerram maior poder explicativo.
(Popper, 1986, p. 265)
(...) não podemos estabelecer ou justificar o que quer que seja como certo, ou mesmo como provável, mas apenas contentarmo-nos com teorias que suportam a crítica.
(Popper, 1971, p. 379)

[...]

Liberalismo

O negativismo epistemológico, sistematicamente formulado por Popper, pode ser visto como o embasamento crítico das posições que o Liberalismo mais consistente assume frente aos problemas substantivos. [...] As mais fundamentadas posturas liberais frente a temas candentes como o da natureza e significado da liberdade, da justiça, do Estado, da felicidade, etc. pressupõem essa teoria do conhecimento humilde que dá primazia à impossibilidade de se chegar à Verdade que faz da história do conhecimento não a ascensão em direção à explicação definitiva, e sim um sinuoso roteiro de eliminação de erros. Ter consciência das limitações da razão, da inexistência de procedimentos de justificação capazes de levá-lo à Verdade, faz com que o liberal reitere diuturnamente o princípio da modéstia epistemológica: a ignorância é infinita, o saber finito.

Nesse sentido, o liberalismo adota uma teoria do conhecimento que se situa nos antípodas das que, assegurando a conquista da verdade, prometem a completa remodelação da realidade com base na explicação última desveladora dos determinantes ocultos que escapam ao senso comum preso às enganosas erupções do imediatamente dado. [...] O liberalismo repele os grandiloquentes projetos de Engenharia Social não por esposar, como sustentam muitos de seus críticos, uma empedernida posição conservadora, e sim por ter constatado, ao nível da teoria do conhecimento, que nenhum de nós dispõe de um saber tão completo capaz de nos permitir a tudo racionalmente alterar e de oferecer a garantia de que chegaremos necessariamente a melhores resultados.

Referências

  • LAKATOS, I. (1977). Falsification and the methodology of scientific research programs. In LAKATOS, I.: Criticism and the Growth of Knowledge. Cambridge University Press, 1970.
  • POPPER, K. R. (1971). The Open Society and its Enemies. New Jersey: Princeton University Press. v.2
  • POPPER, K. R. (1986). Objective Knowledge: an evolutionary approach. Oxford: Clarendon Press.
  • POPPER, K. R. (1989). Conjectures and Refutations. London: Routledge and K. Paul.

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