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Anders Bateva

Clippings / recortes de não-ficção: prospecções literárias, de tudo um pouco.

Anders Bateva

Clippings / recortes de não-ficção: prospecções literárias, de tudo um pouco.

Estado Liberal versus Estado Socialista

Alberto Oliva. Entre o Dogmatismo Arrogante e o Desespero Cético: a Negatividade como Fundamento da Visão de Mundo Liberal, Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1993. Capítulo IV: "A Concepção Negativa de Estado".

É comum também privilegiar-se o Estado contra o indivíduo, invocando-se a existência de um suposto interesse público. Se, por interesse público, entendemos a administração da res publica, a provisão de serviços que não têm (ao menos por ora) como ser oferecidos pelo mercado e a assistência aos que estão verdadeiramente impossibilitados de ter acesso ao básico (sobretudo, saúde e educação), então não cerceará a perseguição de interesses privados.

O problema é que, normalmente, interesse público é uma expressão usada de forma vaga para encobrir, via mediação do aparato de Estado, manhosas manobras de políticos em prol de políticas que atendem apenas a interesses setoriais, por mais que esses setores façam parte da maioria. Decisões referentes a políticas públicas são tomadas a partir de interesses competidores, e não de um pretenso interesse público sacrossanto.

[...]

Mesmo que o Estado tentasse convencer o indivíduo de que é possuidor de conhecimento superior ao dele, isto não deveria ser suficiente para que abrisse mão de seu mais caro patrimônio -- a liberdade. Isto porque a liberdade poderia dar condições potenciais a que o indivíduo buscasse o conhecimento que ainda não tem, ao passo que submeter-se ao conhecimento/poder do Estado significa ter de abrir mão da perseguição do que ainda não tem. O indivíduo, senhor de seus movimentos, recusa o paternalismo da autoridade que lhe predefine o que deve buscar. Prefere tentativamente procurar seu lugar no mundo das relações sociais. Daí a liberdade ser o processo que nos permite tentarmos ser o que ainda não somos e buscar o que ainda não temos: só livres poderemos alcançar o que ainda nos falta.

Bertrand Russell: até que ponto vai nosso controle consciente?

Bertrand Russel, "Por que os homens vão à guerra", Capítulo I: "O Princípio do Crescimento". Editora UNESP, 1ª edição (2014), São Paulo.

Toda atividade humana jorra de duas fontes: impulso e desejo. O papel representado pelo desejo sempre foi bastante reconhecido. Quando os homens não se encontram totalmente satisfeitos e nem capazes de conseguir de imediato aquilo que vai lhes satisfazer, a imaginação lhes traz à mente a ideia de coisas que os fariam, acreditam eles, felizes. Todo desejo pressupõe um intervalo de tempo entre a consciência da necessidade e a oportunidade de satisfazê-la. Os atos inspirados pelo desejo podem até ser dolorosos, o tempo para se alcançar a satisfação pode ser muito longo, o objeto desejado pode ser algo que está fora de nossas próprias vidas e até mesmo depois de nossa própria morte. A vontade, força direcionadora, consiste, sobretudo, em perseguir desejos por objetos mais ou menos distantes, a despeito de toda a dor dos atos implicados e das solicitações de desejos e impulsos incompatíveis, mas ainda mais imediatos. [...]

Mas o desejo governa apenas uma parte da atividade humana -- e não se trata sequer da parte mais importante, mas tão somente da mais consciente, explícita e civilizada.

Na parte mais instintiva de nossa natureza, somos dominados por impulsos a certos tipos de atividade, e não por desejos de certos fins. Se as crianças correm e gritam, não é pelo bem que com isso esperam realizar, mas por causa de um impulso direto de correr e gritar. Se os cães uivam para a lua, não é por considerar que com isso obterão alguma vantagem, mas porque sentem um impulso de uivar. Não é um propósito, mas apenas um impulso o que induz ações tais como beber, comer, fazer amor, brigar e ostentar. [...] Os atos instintivos normalmente chegam a resultados agradáveis ao homem comum, mas não são executados a partir do desejo por esses resultados. São executados, sim, a partir do impulso direto, e o impulso quase sempre é intenso, mesmo nos casos em que não se chega ao resultado desejado. Os adultos gostam de pensar que são mais racionais que as crianças ou os cães e, inconscientemente, ocultam de si próprios o tamanho do papel desempenhado pelo impulso em suas vidas. Esse ocultamento inconsciente sempre segue certo plano geral.

Quando um impulso não é satisfeito no momento em que surge, cresce um desejo pelas consequências esperadas com sua satisfação. Se as consequências que foram esperadas com alguma sensatez acabam por se revelar nitidamente desagradáveis, nasce um conflito entre previsão e impulso. Se o impulso é fraco, a previsão pode dominar: é o que se chama de agir conforme a razão. Se o impulso é forte, ou a previsão será falseada e as consequências desagradáveis, esquecidas, ou as consequências serão, nos homens de compleição heroica, impetuosamente aceitas.

[...]

Mas tal força e ímpeto de impulso são raros. A maioria dos homens, quando o impulso é forte, consegue se convencer -- em geral por uma seletividade subconsciente da atenção -- de que a satisfação do impulso trará consequências agradáveis. Filosofias inteiras, sistemas de avaliação ética inteiros, se lançam por esse caminho: são a corporificação de um tipo de pensamento que é subserviente ao impulso e que procura fornecer uma base, racional apenas na aparência, para sua satisfação. O único pensamento genuíno é o que brota do impulso intelectual da curiosidade, levando ao desejo de saber e de compreender. Mas boa parte do que é tido como pensamento se inspira em algum impulso não-intelectual e é somente um meio de nos convencermos de que não vamos nos desapontar e nem fazer qualquer mal se satisfizermos o impulso.

Quando um impulso é reprimido, sentimos desconforto ou até mesmo dor violenta. Podemos satisfazer o impulso para escaparmos dessa dor e então, nesse caso, nossa ação tem um propósito. Mas a dor só existe por causa do impulso, e o impulso se direciona para um ato, e não para escapar da dor resultante de sua repressão. O impulso em si continua destituído de propósito, e o propósito de escapar da dor surge apenas quando o impulso é momentaneamente reprimido.

Muito mais do que o desejo, o impulso está na base de nossa atividade. O desejo tem seu lugar, mas não é um lugar tão grande quanto parece. Os impulsos trazem consigo toda uma série de desejos subservientes e fictícios: fazem que os homens tenham a sensação de que desejam os resultados da satisfação dos impulsos e de que agem para chegar a esses resultados, quando, na verdade, sua ação não tem outro motivo além de si mesma. Um homem pode escrever um livro ou pintar um quadro na crença de que deseja os elogios que daí virão. Mas, assim que termina, caso seu impulso criativo não esteja esgotado, ele vê que a obra que acabou de concluir se torna desinteressante a seus olhos e, então, começa um novo trabalho. O que se aplica à criação artística vale também para tudo o que é mais vital em nossas vidas: o que nos move é o impulso direto, e os desejos que julgamos ter não são mais que uma mera roupagem para o impulso.

O desejo, oposto ao impulso, tem, é verdade, uma parcela considerável e crescente na regulação da vida dos homens. O impulso é errático e anárquico, não se adapta facilmente a um sistema bem regulamentado; pode ser tolerado em crianças e artistas, mas não é tido por conveniente a homens que queiram se levar a sério. Quase todo trabalho remunerado é feito a partir do desejo, e não do impulso: o trabalho em si pode ser mais ou menos fastidioso, mas o pagamento é desejado. As atividades sérias que preenchem as horas de trabalho de um homem são, exceto para uns poucos indivíduos afortunados, dirigidas, sobretudo, pelos propósitos, e não pelos impulsos a essas atividades. Quase ninguém verá nisso um mal, pois não se reconhece o lugar do impulso em uma existência satisfatória.

Um impulso sempre parecerá loucura a quem dele não compartilha na realidade nem na imaginação. Todo impulso é essencialmente cego, no sentido de que não brota de nenhuma previsão de consequências. O homem que não compartilha do impulso formará uma estimativa diferente a respeito de quais serão as consequências e de quão desejáveis serão as que de fato venham a se realizar. Essa diferença de opinião parecerá ética ou intelectual, embora sua verdadeira base seja uma diferença de impulso. Nesses casos, não se chegará a nenhum acordo genuíno enquanto persistir a diferença de impulso. Em todos os homens de vida vigorosa há impulsos tão fortes que aos outros parecerão completamente desarrazoados. Impulsos cegos às vezes levam à destruição e à morte, mas, outras vezes, levam às melhores coisas que o mundo contém. O impulso cego é a fonte da guerra, mas também é a fonte da ciência, da arte e do amor. Não se deve desejar o enfraquecimento do impulso, mas seu direcionamento para a vida e para o crescimento, e não para a morte e a decadência.

Bertrand Russell - Agressão: origem no crescimento humano frustrado

Bertrand Russel, "Por que os homens vão à guerra", Capítulo I: "O Princípio do Crescimento". Editora UNESP, 1ª edição (2014), São Paulo.

Há duas maneiras de ver a guerra, e nenhuma delas me parece adequada: a visão mais comum neste país [Inglaterra] é a de que a guerra se deve à perversidade dos alemães; a visão da maioria dos pacifistas é a de que se deve a emaranhados diplomáticos e às ambições dos governos. Penso que ambas as visões fracassam em perceber que a guerra nasce, em grande medida, da própria natureza humana. Os alemães e também os homens que compõem os governos são, como um todo, seres humanos comuns, incitados pelas mesmas paixões que incitam tantos outros, não muito diferentes do resto do mundo, a não ser por suas circunstâncias. Consentem a guerra homens que não são nem alemães nem diplomatas -- e com uma prontidão e aquiescência a razões falsas e impróprias que não seriam possíveis se qualquer repugnância mais profunda estivesse difundida por outras classes e nações. As coisas falsas nas quais os homens acreditam e as coisas verdadeiras nas quais desacreditam são índice de seus impulsos -- não necessariamente de impulsos individuais (pois as crenças são contagiosas), mas de impulsos gerais da comunidade. Todos nós acreditamos em muitas coisas nas quais não temos bons motivos para acreditar, porque, subconscientemente, nossa natureza suplica por certos tipos de ação que essas crenças, se fossem verdadeiras, tornariam razoáveis. As crenças infundadas são o tributo que o impulso presta à razão. E esse é o caso das crenças que, opostas porém similares, fazem que homens, aqui e na Alemanha, acreditem em seu dever se levar a guerra adiante.

O primeiro pensamento que naturalmente ocorre a quem aceita essa visão é o de que seria melhor se os homens se encontrassem em maior medida sob o domínio da razão: [...] se os impulsos fossem mais bem controlados, se o pensamento fosse menos dominado pela paixão, os homens protegeriam suas mentes ante as aproximações da febre da guerra, e as disputas seriam resolvidas de maneira amistosa. Isso é verdadeiro, mas insuficiente -- apenas aquelas cujo desejo de pensar com verdade é, em si próprio, uma paixão, podem ver que esse desejo é capaz de controlar as paixões da guerra. Só a paixão pode controlar a paixão, e só um impulso ou desejo contrário pode reprimir o impulso. A razão, como apregoam os moralistas tradicionais, é muito negativa e apática para compor uma vida boa. Não se pode prevenir as guerras só com a razão, mas sim com uma vida positiva de paixões e impulsos contrários àqueles que levam à guerra. É a vida do impulso que precisa se transformar, não apenas a vida do pensamento consciente.

[...]

O impulso cego é a fonte da guerra, mas também é a fonte da ciência, da arte e do amor. Não se deve desejar o enfraquecimento do impulso, mas seu direcionamento para a vida e para o crescimento, e não para a morte e para a decadência.

Na verdade, o controle total do impulso pela vontade -- algumas vezes pregado por moralistas e muitas vezes imposto pela necessidade econômica -- não é desejável. Uma vida governada pelos propósitos e desejos, à exclusão dos impulsos, é uma vida fatigante: exaure a vitalidade e, no fim, torna o homem indiferente aos propósitos que tentava atingir. Quando uma nação inteira vive dessa forma, a nação inteira acaba ficando frágil, sem o pulso necessário para reconhecer e transpor os obstáculos que a separam de seus desejos. [...] A longo prazo, tal modo de existência, quando não seca as fontes da vida, produz novos impulsos, de tipo diferente daqueles que a vontade se habituara a controlar e que o pensamento tinha consciência. Assim, esses novos impulsos estão aptos a serem piores em seus efeitos do que aqueles que já haviam sido reprimidos. A disciplina excessiva, especialmente quando imposta de fora, resulta, com frequência, em impulsos de crueldade e destruição: essa é uma das razões pelas quais o militarismo tem efeitos negativos sobre o caráter nacional. Se os impulsos espontâneos não conseguem encontrar um canal de manifestação, o resultado é, quase sempre, a falta de vitalidade ou impulsos opressivos e contrários à vida.

[...]

Os impulsos podem ser divididos em dois: os que se dirigem à vida e os que se dirigem à morte. Os impulsos corporificados na guerra estão entre aqueles que se dirigem à morte. Qualquer um dos impulsos que se dirigem à vida, quando forte o bastante, fará o homem se opor à guerra. Alguns desses impulsos são fortes apenas em homens altamente civilizados; já outros fazem parte da humanidade comum. Os impulsos dirigidos para a arte e para a ciência estão entre os mais civilizados que se dirigem à vida. [...] Mas não é a partir desses impulsos tão refinados que se poderá gerar uma força popular capaz de transformar o mundo.

No lado da vida existem três forças que não exigem à mente nenhum dote excepcional, que não são muito raras atualmente e que poderiam ser bem mais comuns sob instituições sociais melhores. São elas: o amor; o instinto construtivo; e a alegria de viver. [...]

Os impulsos e desejos de homens e mulheres, na medida em que têm real importância para suas vidas, não estão apartados uns dos outros. Bem ao contrário, provêm de um princípio de crescimento central, de uma urgência instintiva que os leva em certa direção, assim como as árvores procuram a luz. Contanto que esse movimento instintivo não seja frustrado, quaisquer contratempos que possam ocorrer não serão desastres fundamentais e não produzirão as distorções que resultam da interferência no crescimento natural. Esse centro íntimo de cada ser humano é o que a imaginação deve apreender se quisermos compreendê-lo intuitivamente. Ele difere de um homem para o outro e determina para cada um o tipo de excelência de que é capaz. O máximo que as instituições podem fazer por um homem é deixar que seu crescimento seja livre e vigoroso: elas não podem forçá-lo a crescer de acordo com o padrão de outro homem. [...] [Certos] impulsos, mesmo que se originem no princípio central do indivíduo, podem prejudicar o crescimento dos outros e precisam ser reprimidos para o bem dos outros. Mas, em geral, os impulsos prejudiciais aos outros tendem a resultar do crescimento frustrado e a ser de menor importância naqueles que não sofreram empecilhos em seu desenvolvimento instintivo.

[...]

Quando o crescimento de um homem não sofre interdições, seu autorrespeito se mantém intacto, e ele não tende a enxergar os outros como inimigos. Mas, quando seu crescimento é impedido, por qualquer razão, ou quando ele é forçado a crescer de alguma forma tortuosa e não natural, seu instinto lhe apresenta o ambiente como inimigo, e ele se enche de ódio. A alegria de viver o abandona, e a maleficência toma lugar da cordialidade. [...] A verdadeira liberdade, se pudesse ser alcançada, contribuiria muito para destruir o ódio.

[...]

O mesmo instinto que leva à criatividade artística ou intelectual pode, sob outras circunstâncias, levar ao amor pela guerra. O fato de uma atividade ou crença ser resultado do instinto não é, portanto, motivo para encará-lo como inalterável.

Bertrand Russell - sobre secessão

Bertrand Russel, "Por que os homens vão à guerra", Capítulo 2: "O Estado". Editora UNESP, 1ª edição (2014), São Paulo.

[Uma curiosa característica do] Estado é a crença de que há uma peculiar perversidade no desejo de secessão por parte de qualquer parcela da população. Se a Irlanda ou a Polônia desejam independência, logo se considera óbvio que a este desejo se deve resistir de forma tenaz e que qualquer tentativa de assegurá-lo precisa ser condenada como "alta traição". O único exemplo contrário de que consigo me lembrar é a separação da Noruega e da Suécia, que foi elogiada, mas não imitada. Nos outros casos, apenas a derrota na guerra obrigou Estados a ceder territórios: embora essa atitude seja tida como certa, não é a que seria adotada se o Estado tivesse melhores objetivos em vista. A razão de sua adoção é que o objetivo principal de quase todos os grandes Estados é o poder, especialmente o poder na guerra. E este aumenta, com frequência, pela inclusão de cidadãos relutantes. Se o objetivo em vista fosse o bem-estar dos cidadãos, a questão de certa área dever ser incluída ou formar um Estado separado seria entregue à livre decisão dessa área.

Lutzenberger - Agrotóxicos e paradigmas agriculturais

José Lutzenberger. Ecologia: do Jardim ao Poder (Coleção Universidade Livre). L&PM Editores, 1985, 10ª edição. Capítulo "A Problemática dos Agrotóxicos".

A indústria química conseguiu impor seu paradigma na agricultura, na pesquisa e no fomento agrícola e dominou as escolas de agronomia. Ela impôs um tipo de pensamento reducionista, uma visão bitolada que simplifica as coisas mas que acaba destruindo equilíbrios que podem manter uma agricultura sã. A praga e as enfermidades das plantas são apresentadas como inimigos arbitrários, implacáveis, cegos, que atacam quando menos se espera e que devem, portanto, ser exterminados ou, quando isto se torna impossível, ser combatidos de maneira mais violenta e fácil possível. O camponês tradicional e o agricultor orgânico modernos sabem que a praga é sintoma, não causa de problema. Com um manejo adequado do solo, adubação orgânica, adubação mineral insolúvel, adubação verde, consorciações, rotação de cultivos, cultivares resistentes e outras medidas que fortificam as plantas, eles mantêm baixa a incidência de pragas e moléstias das plantas. O paradigma da indústria química não leva em conta estes fatores. Combate sintomas e não procura as causas.

Típico deste paradigma é o proceder dos "técnicos" da Campanha Nacional de Erradicação do Cancro Cítrico, que agora assolam a região citrícola do Rio Grande do Sul. Sua tarefa é simples -- eraradicar. Quando visitam um viveiro de árvores cítricas, só procuram constatar os sintomas da doença. Quando os encontram, demolem e queimam todo o viveiro, mais todas as plantas cítricas dentro de um determinado raio, que era de 1.000 m, mas que já diminuiu para 50 m, devido aos protestos dos viveiristas. Se não encontram nada, seguem para outra. Não dialogam nem com o agricultor, muito menos com as condições locais de solo, de ambiente, de métodos agrícolas. Nunca perguntam ao agricultor como ele preparou seu solo, como adubou, que tipos de adubos aplicou, se usou herbicidas ou outros venenos. Entretanto, quem faz estas observações nota logo que há relação entre a ocorrência ou intensidade da moléstia e as condições de solo, adubação, de matéria orgânica no solo, de rotação, de tratamento com herbicidas ou outros venenos, de afinidade de enxerto, etc. É claro que o programa de erradicação jamais conseguirá erradicar a bactéria associada aos sintomas do cancro cítrico, mas o programa já quase exterminou a citricultura no Estado do Paraná e se prepara para exterminá-la no Rio Grande do Sul.

Dentro desta visão, a agricultura, que deveria ser o principal dos fatores de saúde do homem, é hoje um dos principais fatores de poluição. Uma das formas insidiosas de poluição. O leigo vê a fumaça que sai das chaminés, dos escapes dos carros, vê a sujeira lançada nos rios. Mas, quando compramos uma linda maçã na fruteira da esquina, mal sabemos que esta fruta recebeu mais de trinta banhos de veneno no pomar e, quando entrou no frigorífico, foi mergulhada em um caldo de mais outro veneno. Alguns dos venenos são sistêmicos. Quer dizer, eles penetram e circulam na seiva da planta para melhor atingir os insetos que se alimentam sugando a seiva. Não adianta lavar a fruta.

É claro que a indústria química sabe que está lidando com fogo, e a população começa a preocupar-se. Para acalmar o público assustado e para proteger-se a si mesma de possíveis problemas, ela complementa seu paradigma de uso dos venenos com uma série de conceitos pseudocientíficos e jurídicos e usa toda uma nomenclatura especial.

Lutzenberger - Agrotóxicos: quem ganha com eles?

José Lutzenberger. Ecologia: do Jardim ao Poder (Coleção Universidade Livre). L&PM Editores, 1985, 10ª edição. Capítulo "A Problemática dos Agrotóxicos".

O negócio dos pesticidas transformou-se num dos melhores negócios, e um dos mais fáceis. Tão fácil quanto o negócio dos entorpecentes. Quanto mais se vendia, mais crescia a demanda. A situação atual se assemelha a uma conspiração muito bem bolada. Os mesmos grandes complexos industriais que induziram o agricultor a que desequilibrasse ou destruísse a microvida do solo com os sais solúveis concentrados que são os adubos minerais sintéticos, oferecem então os "remédios" para curar os sintomas dos desequilíbrios causados. Estes remédios causam novos estragos e desequilíbrios, novos "remédios" são oferecidos, e assim por diante.

Com o uso intensivo dos adubos químicos, a agricultura enveredou por um caminho inicialmente fácil e fascinante, pois era simples e trazia aumentos espetaculares de produtividade. Mas, a longo prazo, este caminho, como agora já se vislumbra, é um caminho suicida.

O desequilíbrio ou destruição da microvida do solo pelo abandono da adubação orgânica e alimentação direta da planta com os sais solúveis, assim como o uso intensivo dos herbicidas, tem como consequência o aumento da suscetibilidade às pragas e enfermidades. Surgem então os inseticidas, acaricidas, nematicidas, fungicidas e outros biocidas. Estes, por sua vez, levados ao solo pela chuva, contribuem para uma destruição ainda maior da microvida. Os organismos maiores do solo, como a minhoca, talvez o melhor aliado que o agricultor possa ter, desaparecem por completo em nossas lavouras, hortas, e pomares modernos. Agindo diretamente sobre a planta, os pesticidas, como venenos que são, contribuem ainda para desequilíbrios no metabolismo da planta. Tudo isto aumenta ainda mais a suscetibilidade às pragas e doenças. Portanto, uso ainda mais intensivo dos venenos, sempre produzidos pelo mesmo complexo de indústrias. Para combater, então, as doenças causadas pelo envenenamento generalizado do ambiente e do alimento, as mesmas grandes fábricas oferecem os medicamentos.

E tudo torna-se sempre mais caro. O agricultor, antes autárquico, que produzia com insumos obtidos em sua própria terra ou comunidade, torna-se simples apêndice da grande indústria química e de maquinaria. A situação da agricultura americana, tão invejada pela sua grande produtividade, é significativa. A quase totalidade dos agricultores pequenos e médios, hoje altamente capitalizados, totalmente dependentes de insumos industriais, encontra-se em situação de insolvência. Por mais que se esforcem, não conseguem mais ganhar para pagar os juros dos empréstimos. Voltou, inclusive, um estrago muito grave que parecia resolvido na década de 40 com os grandes programas de conservação do solo. Hoje, a erosão volta a campear na agricultura americana, comprometendo o futuro da nação.

Tolstói: a César o que é de César

Leon Tolstói. Biblioteca do Pensamento Vivo - 16: O Pensamento Vivo de Tolstoi, apresantado por Stefan Zweig. Livraria Martins Editora. Quinta parte, seção "Nikolas Palkine".

Há mil e oitocentos anos, à pergunta dos fariseus: Deve-se pagar o imposto a César? foi respondido: Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.

Se os homens acreditassem em Deus [...] então as palavras A Deus o que é de Deus, e a César o que é de César teriam para eles uma significação clara e precisa:

"Ao rei ou a qualquer pessoa, tudo o que quiser -- dirá o homem crente -- mas nunca o que é contrário à vontade de Deus. É necessário a César o meu dinheiro, ei-lo; minha casa, meu trabalho, tomai-os; minha mulher, meus filhos, minha vida tomai-os; tudo isto não é de Deus, mas de César. [Mas] se é preciso que eu levante e abaixe o açoite sobre o meu próximo isto tem relação com Deus, é um ato da minha vida do qual devo dar contas a Deus. Deus não me ordenou agir assim; portanto, não posso fazê-lo por César. Não posso algemar, prender, castigar, matar um homem, porque tudo isso tem relação com a minha vida e ela pertence a Deus; não posso dá-la, sacrificá-la a ninguém, senão a Deus."

As palavras A Deus o que é de Deus, significam para nós [porém] que devemos dar a Deus velas, missas, palavras e, em geral, tudo o que não é necessário a ninguém, e muito menos a Deus. E tudo o mais: toda a nossa vida, toda a santidade de nossa alma, que pertencem a Deus, damo-las a César, isto é (segundo significação desta palavra para os judeus) a um homem estranho, a quem odiamos.

É terrível, homens, lembrai-vos disso.

Bertrand Russell - sobre a hipocrisia religiosa

Bertrand Russel, "Por que os homens vão à guerra", Capítulo 7: "A religião e as Igrejas". Editora UNESP, 1ª edição (2014), São Paulo.

"Religião" é uma palvra que tem muitos significados e uma longa história. Na origem, dizia respeito a certos ritos herdados do passado remoto, realizados por alguma razão há muito esquecida e associados, de tempos em tempos, a vários mitos que lhe dão suposta importância. Muito disso ainda permanece. Um homem religioso é aquele que vai à igreja, um comungante, um "praticante", como dizem os católicos. Como ele se comporta em outras circunstâncias, ou como se sente em relação à vida e ao lugar do homem no mundo, nada disso tem influência sobre a questão de ele ser "religioso" nesse sentido simplista, mas historicamente correto. Muitos homens e mulheres são religiosos nesse sentido, sem ter em si nada daquilo que merece ser chamado de religião no sentido em que emprego a palavra. A mera familiaridade com os serviços da Igreja os tornou insensíveis; eles [...] são inertes às palavras dos Evangelhos que, levianamente repetidas, condenam quase todas as atividades dos que se supõem discípulos de Cristo. Este é o destino que assalta todo e qualquer rito habitual: é impossível que continue a produzir muito efeito depois de ter sido realizado tantas vezes, a ponto de se tornar mecânico.

Economias Centralmente Planejadas: engenharia social versus humildade epistemológica

Alberto Oliva. Entre o Dogmatismo Arrogante e o Desespero Cético: a Negatividade como Fundamento da Visão de Mundo Liberal, Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1993. Capítulo I: "O Embasamento Epistemológico do Liberalismo". Seção 3: "A dispersão do conhecimento".

[...] Mente nenhuma singular pode conhecer mais do que uma fração de tudo o que é conhecido pela soma de todos os intelectos. Isto significa que cada um de nós tem acesso apenas a um diminuto conjunto de informações; que cada um de nós só compreende aprofundadamente o funcionamento de restritos setores da "Máquina do Mundo"; que, em suma, só controlamos, através da posse de efetivo saber, um número ínfimo dos mecanismos que põe em movimento a realidade social em sua totalidade. E se muito pouco cada indivíduo ou grupo conhece do Mundo Social, modestas devem ser suas pretensões transformantes.

Ora, se o conhecimento encontra-se disperso pelos indivíduos e se todo enfoque que cada um de nós aplica ao fluxo potencialmente infinito da experiência é sempre seletivo, mesmo quando se está fazendo ciência, então não há como postular a posse de uma sabedoria sobre, por exemplo, o completo funcionamento do Sistema Social. Consequência disso é que não há indivíduo ou grupo capaz de, com base em adequado conhecimento, arvorar-se em planificador da "racionalidade social" e em demiurgo estipulador de como devem as instituições ser e funcionar. Muito do que o engenheiro social vê como imperfeição funcional das instituições não submetidas à direção de uma autoridade central decorre da existência de uma miríade de saberes dispersos e da ampla variedade de projetos que se pode acalentar quando se vive sob a plena vigência da liberdade. Intentar subjugar à planificação central a multiplicidade, sobre a qual não se dispõe de efetivo conhecimento, só é possível pela imposição de um projeto autoritário de regulamentação das ações, cuja ambição maior é reduzir a riqueza e variedade de perspectivas epistemológicas, existenciais e de competição no mercado, à monocórdia visão dos que, via Estado forte, compelem os indivíduos a se submeterem ao seu projeto político.

A busca do estrito controle epistemológico de todas as variáveis envolvidas em todos os processos de criação e reprodução da ordem social -- via planejamento central -- não tem como ser viabilizada por não se poder dispor -- de forma concentrada -- de todo o conhecimento disperso pelos diferentes agentes sociais. A atitude demiúrgica, que se diz em condições de produzir a completa remodelagem revolucionária do que existe, escora-se numa teoria do conhecimento que acredita possível a obtenção de um saber capaz de aprender a oculta dimensão da realidade. Marx, que está entre os mais radicais proponentes de engenharia social, não se cansa de enfatizar, em Das Kapital, que a ciência desvenda o modo essencial de manifestação da realidade contra as ilusões nas quais se enreda o senso comum, prisioneiro que é do imediatamente dado. [...] Se o conhecimento pode alcançar a essência recôndita do que é investigado, então não tem por que ser humilde. Pode praticamente tudo: revelar-nos como e por que as coisas são como atualmente são, até prescrever como deveriam ser para que fossem melhores.

A epistemologia que se apóia na distinção entre essência e aparência, para conferir à ciência a prerrogativa de apreender os determinantes ocultos dos fenômenos que escapam às visões alternativas [...] pode oferecer a base ideológica para o autoritarismo dos que se julgam possuidores desse saber especial e acreditam poder transformar o mundo -- de forma revolucionária e completa -- a partir de sua aplicação.

[...] Quanto maior a concentração de poder, via planejamento central, maior a perda de uso do amplo conhecimento disperso entre os indivíduos, e maior a inibição à produção de novos conhecimentos. A invenção e a descoberta pressupõem as múltiplas e descentralizadas atividades que se aninham no interior da ordem espontânea. [Entende-se por] ordem espontânea não a anarquia da total falta de regulamentação, mas sim a preservação da miríade de planejamentos setoriais, estribados nos variegados conhecimentos especiais que os indivíduos têm na circunstância físico-social com a qual mantêm contato privilegiado. Nesse sentido, a ordem espontânea é o correlato sistêmico-funcional da liberdade individual. Disso se segue que não há como nutrir a pretensão de alterar profundamente a ordem espontânea sem diminuir (destruir) a liberdade dispersamente usufruída, porque vinculada aos mais diferentes projetos de vida, pelos indivíduos.

[...] A necessidade de planejamento, entendido como o complexo de decisões interrelacionadas sobre a alocação de nossos recursos disponíveis (Hayek, 1949, p. 78) [ é inegável. Entretanto,] a planificação centralizada descura do fato decisivo de que, se por um lado, pode-se enfeixar suficiente poder para coagir os indivíduos a fazerem isto ou aquilo, por outro, não há como concentrar todo o conhecimento que se mostra irremediavelmente distribuído pelas inúmeras mentes e atividades individuais. [...] Entende[-se, portanto] que o planejamento não deve ser feito de forma centralizada para todo o sistema econômico, mas dividido pelos muitos indivíduos. Nesse sentido, são epistemológicas as principais razões que o liberal invoca contra a postura que defende o direcionamento de todo o sistema econômico a partir de um plano unificador.

Status quo

Não procede a acusação, amiúde dirigida aos liberais, de que a visão de mundo que esposam aspira à manutenção do status quo. Se atentos a seu embasamento filosófico, não descuraremos do fato de que sua preocupação maior é a de determinar o quanto conhecemos, com segurança, o que investigamos. Dessa definição depende a justificação do alcance e da extensão de nossos projetos de intervenção na realidade. Propostas de aperfeiçoamento institucional são benvindas, desde que escoradas em efetivo conhecimento de sua funcionalidade e desde que proporcionem, através de um experimentalismo gradualista, a garantia de que estamos nos encaminhando para performances individuais melhores, com total preservação da liberdade. Do contrário, estamos diante de arroubos de engenharia social, inseparáveis da crença arrogante de que temos como obter conhecimento demonstrativamente certo, capaz de legitimar os impulsos demiúrgicos que pretender recriar o mundo social à imagem e semelhança do grupo que está no poder hipertrofiado.

Quando dispensamos adequada atenção ao pano de fundo epistemológico dos liberais, é-nos possível constatar que seu modo de rechaçar o planejamento central é decorrência da convicção de que nenhum de nós dispõe de conhecimento capaz de justificar amplas reestruturações globais. Consequência prática do cerceamento da liberdade é a ineficiência epistemológica geradora da estagnação econômica: reduz-se a rica multiplicidade de projetos que pululam no mercado a um só horizonte, o capitaneado pelo Estado. Mas ainda que o grupo que controla conjunturalmente o aparato estatal possuísse, circunstancialmente, um tipo especial de conhecimento, isso não justificaria a ideia de necessidade do planejamento central. Mesmo porque a perda de liberdade para o Estado, que hoje pode parecer legítima, impediria essa mais ampla movimentação no mercado de ideias e bens que torna possível o surgimento de novos produtos e conhecimentos capazes de melhorar nossas condições de vida grupal.

[...] Reduzir o debate a uma contraposição entre "progressistas" -- os que querem tudo mudar, mesmo sem disporem do indispensável conhecimento disperso pelas diferentes esferas de ação individual -- e "conservadores" -- os que advogam que modificar globalmente a ordem espontânea só seria racionalmente possível se determinado indivíduo ou grupo pudesse enfeixar todo o conhecimento em seu interior pulverizado sem acarretar a supressão da liberdade -- é descurar do fato de que as diferenças entre liberais e "planificadores centrais" promanam, antes de mais nada, do endosso a discrepantes teorias do conhecimento.

Referência

  • HAYEK, F.A. (1949). Individualism and Economic Order. London: Routedged and K. Paul.

Liderança: Teoria X versus Teoria Y

Mario Sergio Cunha Alencastro. Livro Ética empresarial na prática: liderança, gestão e responsabilidade corporativa. Capítulo 3.7: "O papel da liderança". Editora Intersaberes, 2016.

Douglas McGregor (1999) desenvolveu os conceitos denominados de teorias X e Y, que concebem o homem de forma totalmente diversa, pois estão baseadas em visões de mundo diferentes e que permitem a determinação dos diversos estilos de liderança existentes.

Quadro 3.2 - Teorias X e Y
Teoria X Teoria Y
O trabalho é, por si mesmo, desagradável à maioria das pessoas. Havendo condições favoráveis, o trabalho é tão natural quanto a recreação.
A maioria das pessoas não tem ambição, não deseja responsabilidades, e prefere ser dirigida. Para a consecução dos objetivos da organização, muitas vezes é indispensável o autocontrole.
A maioria das pessoas tem pouca criatividade para resolver problemas organizacionais. Está amplamente difundida entre o pessoal a criatividade para a resolução de problemas organizacionais.
A motivação somente existe nos níveis fisiológicos e de segurança. A motivação existe tanto nos níveis sociais, de estima, e de autorrealização, quanto nos níveis fisiológico e de segurança.
É preciso submeter os trabalhadores a um controle direto e, muitas vezes, a uma verdadeira coação, a fim de alcançar os objetivos da organização. Se adequadamente motivadas, as pessoas podem ser criativas e autodirigidas.
Fonte: adaptado de McGregor, 1999, p. 37-38.

A teoria X pode desencadear certos tipos de práticas gerenciais, como o paternalismo, a não delegação de decisões, o controle e a punição, tornando a remuneração e a segurança as únicas formas de incentivo ao trabalho. A inadequação da teoria X reside na preocupação em satisfazer exclusivamente as necessidades fisiológicas do ser humano. Sabemos que a satisfação desses necessidades não é um fator motivador para o trabalho. Os benefícios e salários complementares podem ser usados para a satisfação das necessidades de uma pessoa somente fora da empresa. Dessa forma, a motivação para o trabalho deve ser encontrada na satisfação de outras necessidades.

O ser humano também apresenta as necessidades sociais e do ego, isto é, as de autoestima, autonomia, realização, reconhecimento e status. São essas necessidades (superiores) que motivam o indivíduo para o trabalho, e sua privação pode levá-los à passividade, à má-vontade de aceitar responsabilidades, e à resistência às mudanças. Os gerentes exclusivamente "tipo X" acabam por estimular comportamentos negativos por parte de seus empregados.

Já na teoria Y, a forma de influência pregada é a da integração entre as necessidades e as aspirações do indivíduo e o sucesso da empresa. O indivíduo que estiver comprometido com os objetivos da empresa não precisa ser controlado, pois ele mesmo se autocontrola, ou seja, a autodisciplina depende do grau de comprometimento do indivíduo com os objetivos da empresa.

A teoria Y não nega o exercício da autoridade. A autoridade é até mesmo perfeitamente adequada como meio de influenciar comportamentos em certas ocasiões. Contudo, há inúmeras circunstâncias nas quais o simples exercício da autoridade deixa de alcançar os resultados desejados.

Podemos fazer um paralelo entre as duas teorias, conforme esquematizado na Figura 3.3.

Figura 3.3 - Autoridade versus liberdade
Teoria X ⟵────────── ──────────⟶ Teoria Y
Liderança centrada no chefe
Poder
Dirigir Persuadir Compartilhar Delegar Liderança compartilhada com a equipe
Liberdade
O chefe toma a decisão e anuncia O chefe "vende" a decisão O líder apresenta o problema, recebe sugestões e toma a decisão O líder define limites e pede ao grupo que tome a decisão
Fonte: elaborado com base em McGregor, 1999, p. 37-38; Oakland, 1994, p. 329.

Ao analisar o esquema disposto na Figura 3.3, é fácil perceber que os estilos de liderança apontam para duas direções opostas, uma focada no poder (teoria X) e outra, na liberdade (teoria Y):

  • Se o líder caminha na direção Y, ele começa paulatinamente a desenvolver uma postura gerencial mais próxima do conceito de liberdade e democracia. O caminho natural é dialogar com sua equipe, tentando obter subsídios para sua tomada de decisão e, numa etapa posterior, representada pelo amadurecimento do grupo, delegar o processo decisório para seus colaboradores.
  • No sentido oposto, se o líder tende a seguir a direção X, ele se tornará mais diretivo com o passar do tempo, e, em um caso extremo, já não compartilhará mais as decisões com a equipe. Apenas decidirá de forma centralizada e autocrática e informará a decisão aos subordinados.

[...]

Os bons líderes e administradores conhecem bem os extremos das duas teorias. O que muitos não sabem é que existe uma gama de posições entre esses extremos e que é possível escolher e trabalhar em posições diferentes em ocasiões diferentes (liderança situacional). Isso está intimamente relacionado com o nível de amadurecimento e comprometimento da equipe.

Referências

  • MCGREGOR, D. O lado humano da empresa. 3. ed. São Paulo: M. Fontes, 1999.
  • OAKLAND, J. Gerenciamento da qualidade total. São Paulo: Nobel, 1994.

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