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Anders Bateva

Clippings / recortes de não-ficção: prospecções literárias, de tudo um pouco.

Anders Bateva

Clippings / recortes de não-ficção: prospecções literárias, de tudo um pouco.

Liderança: Teoria X versus Teoria Y

Fonte: Mario Sergio Cunha Alencastro. Livro Ética empresarial na prática: liderança, gestão e responsabilidade corporativa. Capítulo 3.7: "O papel da liderança". Editora Intersaberes, 2016.

Douglas McGregor (1999) desenvolveu os conceitos denominados de teorias X e Y, que concebem o homem de forma totalmente diversa, pois estão baseadas em visões de mundo diferentes e que permitem a determinação dos diversos estilos de liderança existentes.

Quadro 3.2 - Teorias X e Y
Teoria X Teoria Y
O trabalho é, por si mesmo, desagradável à maioria das pessoas. Havendo condições favoráveis, o trabalho é tão natural quanto a recreação.
A maioria das pessoas não tem ambição, não deseja responsabilidades, e prefere ser dirigida. Para a consecução dos objetivos da organização, muitas vezes é indispensável o autocontrole.
A maioria das pessoas tem pouca criatividade para resolver problemas organizacionais. Está amplamente difundida entre o pessoal a criatividade para a resolução de problemas organizacionais.
A motivação somente existe nos níveis fisiológicos e de segurança. A motivação existe tanto nos níveis sociais, de estima, e de autorrealização, quanto nos níveis fisiológico e de segurança.
É preciso submeter os trabalhadores a um controle direto e, muitas vezes, a uma verdadeira coação, a fim de alcançar os objetivos da organização. Se adequadamente motivadas, as pessoas podem ser criativas e autodirigidas.
Fonte: adaptado de McGregor, 1999, p. 37-38.

A teoria X pode desencadear certos tipos de práticas gerenciais, como o paternalismo, a não delegação de decisões, o controle e a punição, tornando a remuneração e a segurança as únicas formas de incentivo ao trabalho. A inadequação da teoria X reside na preocupação em satisfazer exclusivamente as necessidades fisiológicas do ser humano. Sabemos que a satisfação desses necessidades não é um fator motivador para o trabalho. Os benefícios e salários complementares podem ser usados para a satisfação das necessidades de uma pessoa somente fora da empresa. Dessa forma, a motivação para o trabalho deve ser encontrada na satisfação de outras necessidades.

O ser humano também apresenta as necessidades sociais e do ego, isto é, as de autoestima, autonomia, realização, reconhecimento e status. São essas necessidades (superiores) que motivam o indivíduo para o trabalho, e sua privação pode levá-los à passividade, à má-vontade de aceitar responsabilidades, e à resistência às mudanças. Os gerentes exclusivamente "tipo X" acabam por estimular comportamentos negativos por parte de seus empregados.

Já na teoria Y, a forma de influência pregada é a da integração entre as necessidades e as aspirações do indivíduo e o sucesso da empresa. O indivíduo que estiver comprometido com os objetivos da empresa não precisa ser controlado, pois ele mesmo se autocontrola, ou seja, a autodisciplina depende do grau de comprometimento do indivíduo com os objetivos da empresa.

A teoria Y não nega o exercício da autoridade. A autoridade é até mesmo perfeitamente adequada como meio de influenciar comportamentos em certas ocasiões. Contudo, há inúmeras circunstâncias nas quais o simples exercício da autoridade deixa de alcançar os resultados desejados.

Podemos fazer um paralelo entre as duas teorias, conforme esquematizado na Figura 3.3.

Figura 3.3 - Autoridade versus liberdade
Teoria X ⟵────────── ──────────⟶ Teoria Y
Liderança centrada no chefe
Poder
Dirigir Persuadir Compartilhar Delegar Liderança compartilhada com a equipe
Liberdade
O chefe toma a decisão e anuncia O chefe "vende" a decisão O líder apresenta o problema, recebe sugestões e toma a decisão O líder define limites e pede ao grupo que tome a decisão
Fonte: elaborado com base em McGregor, 1999, p. 37-38; Oakland, 1994, p. 329.

Ao analisar o esquema disposto na Figura 3.3, é fácil perceber que os estilos de liderança apontam para duas direções opostas, uma focada no poder (teoria X) e outra, na liberdade (teoria Y):

  • Se o líder caminha na direção Y, ele começa paulatinamente a desenvolver uma postura gerencial mais próxima do conceito de liberdade e democracia. O caminho natural é dialogar com sua equipe, tentando obter subsídios para sua tomada de decisão e, numa etapa posterior, representada pelo amadurecimento do grupo, delegar o processo decisório para seus colaboradores.
  • No sentido oposto, se o líder tende a seguir a direção X, ele se tornará mais diretivo com o passar do tempo, e, em um caso extremo, já não compartilhará mais as decisões com a equipe. Apenas decidirá de forma centralizada e autocrática e informará a decisão aos subordinados.

[...]

Os bons líderes e administradores conhecem bem os extremos das duas teorias. O que muitos não sabem é que existe uma gama de posições entre esses extremos e que é possível escolher e trabalhar em posições diferentes em ocasiões diferentes (liderança situacional). Isso está intimamente relacionado com o nível de amadurecimento e comprometimento da equipe.

Referências

  • MCGREGOR, D. O lado humano da empresa. 3. ed. São Paulo: M. Fontes, 1999.
  • OAKLAND, J. Gerenciamento da qualidade total. São Paulo: Nobel, 1994.

Psique - Vagas nas universidades versus vagas no Mercado de Trabalho

Fonte: Roberta de Medeiros (jornalista). Artigo "Caos Urbano - O médico, psicoterapeuta e mestre em Neurociências e Comportamento pela USP, Geraldo Possendoro, comenta o impacto da ansiedade crônica na população urbana". Revista Psique Ciência & Vida nº 75, de março de 2012. Editora Escala, São Paulo-SP.

Psique - Uma pesquisa mostrou que a maior causa de depressão em jovens universitários era o medo de não conseguir uma colocação no mercado de trabalho após a conclusão do curso...

Possendoro - Vejo uma nuvem imensa de frustração dos jovens hoje formados nas diversas especialidades, que não terão acesso ao mercado de trabalho, que não é capaz de absorver tantos profissionais. A realidade deles será o desemprego. Com isso, essas pessoas serão apartadas da sociedade de consumo, o que é desfavorável, porque a saúde mental depende do sentimento de pertencimento a um grupo, da inclusão na vida social. A sensação de inclusão contribui para garantir a proteção psicológica do indivíduo e a manutenção de sua segurança interna. Do contrário, o resultado é uma busca perigosa de fontes de alívio autodestrutivas, o que se configura como uma doença psicossocial [que são as compulsões alimentares, adição a drogas, compulsão por trabalho, a promiscuidade, etc].

Erich Fromm: Narcisismo vs Objetividade

Fonte: Erich Fromm. A Arte de Amar - 1991 - Editora Itatiaia. Capítulo IV: "A Prática do Amor".

A orientação narcisista é aquela em que só se experimenta como real o que existe dentro da pessoa, ao passo que os fenômenos do mundo exterior não têm realidade em si mesmos, mas são experimentados somente do ponto de vista de serem úteis ou perigosos. O polo oposto ao narcisismo é a objetividade; é a faculdade de ver pessoas e coisas tais como são, objetivamente, é a capacidade de separar esta imagem objetiva de uma imagem formada pelos desejos e temores que se tenham.

Todas as formas de psicose mostram a incapacidade de ser objetivo, em extremo grau. Para a pessoa insana, a única realidade que existe está dentro dela, é a de seus temores e desejos. Vê o mundo externo como símbolo de seu mundo interno, como criação sua. Todos fazemos a mesma coisa, quando sonhamos. No sonho, produzimos acontecimentos, encenamos dramas, que são a expressão de nossos desejos e temores (embora às vezes também de nossas penetrações e julgamentos) e, enquanto dormimos, estamos convencidos de que o produto de nossos sonhos é tão real como a realidade que percebemos estando acordados.

A faculdade de pensar objetivamente é a razão; a atitude emocional por trás da razão é a da humildade. Ser objetivo, usar a razão, só é possível quando se consegue uma atitude de humildade, quando se emerge dos sonhos de onisciência e onipotência que se tem quando criança.

A pessoa insana, ou o sonhador, falha completamente em ter uma visão objetiva do mundo exterior; mas todos nós somos mais ou menos insanos, ou mais ou menos adormecidos; todos nós temos uma visão não-objetiva do mundo, falseada pela nossa orientação narcisista. Necessito dar exemplos? Qualquer um pode encontrá-los facilmente, observando-se, observando os vizinhos, lendo os jornais. Variam no grau de adulteração narcisista da realidade.

Exemplos

Uma mulher, por exemplo, telefona a um médico, dizendo que quer ir ao seu consultório nessa mesma tarde. O médico responde que não tem tempo livre nessa tarde, mas poderá vê-la no dia seguinte. A resposta dela é: Mas doutor, eu moro só a cinco minutos de seu consultório.... Ela não pode compreender a explicação do médico de que o fato de ser a distância tão curta para ela não economizará o tempo dele. Experimenta ela a situação narcisisticamente: uma vez que ela poupa tempo, ele poupará tempo; a única realidade, para ela, é ela mesma.

Menos extremas -- ou talvez apenas menos evidentes -- são as distorções que constituem lugares-comumns nas relações interpessoais.

  • Quantos pais não experimentam as reações do filho em termos de ser-lhes obediente, de dar-lhes prazer, de sentirem orgulho dele, e assim por diante, em vez de perceber, ou mesmo interessar-lhes, aquilo que o filho sente, por si e para si mesmo?
  • Quantos maridos não formam uma imagem de suas esposas como sendo dominadoras, porque seu próprio apego à mãe os leva a interpretar qualquer solicitação como uma restrição à sua liberdade?
  • Quantas esposas não acham seus maridos ineficientes ou estúpidos, porque não correspondem à imagem fantasiosa de um brilhante cavaleiro que elas podem ter formado quando crianças?

A falta de objetividade, no que se refere às nações estrangeiras, é notória. De um dia para outro, uma nação se transforma em extremamente depravada e diabólica, ao passo que a nação do julgador se ergue como modelo de tudo quanto é bom e nobre. Cada ação do inimigo é julgada por um padrão, -- cada uma das próprias, por outro. Mesmo os atos bons praticados pelo inimigo são considerados um sinal de particular satanismo, com o intuito de enganar-nos e ao mundo, ao passo que nossas más ações são necessárias e justificadas pelos nobres alvos a que servem. Na verdade, quando se examinam as relações entre nações, assim como entre indivíduos, chaga-se à conclusão de que a objetividade é exceção, e um grau maior ou menor de distorção narcisista é a regra.

Erich Fromm: em amor e sexo, nem tudo o que reluz é ouro!

Fonte: Erich Fromm. A Arte de Amar - 1991 - Editora Itatiaia. Capítulo II: "A Teoria do Amor", seção 3: "Dos Objetos do Amor", item c: "Amor erótico".

O amor erótico é o anseio de fusão completa, de união com um outra pessoa. É, por sua própria natureza, exclusiva e não universal; é também, talvez, a mais enganosa forma de amor que existe.

Antes de tudo, confunde-se ele muitas vezes com a experiência explosiva de "cair" enamorado, o súbito colapso das barreiras que até certo momento existiam entre dois estranhos. Mas, como já antes apontamos, esta experiência de súbita intimidade é, por sua própria natureza, de vida curta. Depois que o estranho se tornou pessoa intimamente conhecida, não há mais barreiras a superar, não há mais proximidade súbita a ser realizada. A pessoa "amada" fica sendo tão bem conhecida como a gente mesma. Ou talvez seja melhor dizer: tão pouco conhecida. Se houvesse mais profundidade na experiência da outra pessoa, se se pudesse experimentar a infinidade de sua personalidade, a outra pessoa nunca seria tão familiar -- e o milagre de superar as barreiras poderia ocorrer de novo a cada dia. Mas, para a maioria, a própria pessoa, assim como as outras, é logo explorada e logo exaurida. Para a maioria, a intimidade se estabelece antes de tudo pelo contacto sexual. Desde que primeiramente se experimente a separatividade de outra pessoa como separatividade física, a união física significa a superação da separação.

Além disso, há outros fatores que, para muitos, denotam a superação da separação. Falar da própria vida pessoal, das próprias esperanças e ansiedades, mostrar-se nos seus aspectos infantis ou pueris, estabelecer um interesse comum em face do mundo -- tudo isso é tomado como superação da separação. Mesmo mostrar cólera, ódio, falta completa de inibição, é tomado por intimidade, e isso pode explicar a atração pervertida que casais muitas vezes sentem um pelo outro, só parecendo íntimos quando se achem na cama ou quando dêem expansão a seu ódio e raiva mútuos. Todos esses tipos de proximidade, entretanto, tendem a reduzir-se cada vez mais com o correr do tempo. A consequência é buscar-se amor em outra pessoa, em novo estranho. E de novo o estranho se transforma em pessoa "íntima", de novo a experiência de cair enamorado é jubilosa e intensa, e de novo, vagarosamente, vai perdendo intensidade, para terminar no desejo de nova conquista, novo amor -- sempre com a ilusão de que o novo amor será diferente dos anteriores. Essas ilusões são grandemente incentivadas pelo caráter enganador do desejo sexual.

O desejo sexual objetiva a fusão -- e não é, de modo algum, apenas um apetite físico, o alívio de uma tensão dolorosa. Mas o desejo sexual pode ser estimulado pela ansiedade da solidão, pela vontade de conquistar ou ser conquistado, pela vaidade, pelo gosto de ferir e mesmo destruir, assim como pode ser estimulado pelo amor. Parece que o desejo sexual pode ser misturado facilmente a qualquer emoção forte, nela encontrando incitamento; e o amor é apenas uma dessas emoções. Por estar o desejo sexual emparelhado na mente de muitos com a idéia de amor, são eles com facilidade levados à má conclusão de que amam um ao outro quando se querem um ao outro fisicamente.

  • Se o desejo da união física não for estimulado pelo amor, se o amor erótico também não for amor fraterno, nunca levará à união mais do que num sentido orgíaco e transitório. A atração sexual cria, no momento, a ilusão de união, mas, sem amor, essa "união" deixa os estranhos tão afastados quanto antes se achavam; muitas vezes, faz com que se envergonhem um do outro, ou mesmo faz com que mutuamente se odeiem, pois, partida a ilusão, sentem sua estranheza ainda mais acentuadamente do que antes.
  • O amor pode inspirar o desejo de união sexual; neste caso, falta à relação física a avidez, a vontade de conquistar ou ser conquistado, mas mistura-se nela a ternura. A ternura de modo algum é, como acreditava Freud, uma sublimação do instinto sexual; é o produto direto do amor fraterno e existe tanto nas formas físicas do amor quanto nas não-físicas.

Erich Fromm: sexo, drogas, e rock'n roll?

Fonte: Erich Fromm. A Arte de Amar - 1991 - Editora Itatiaia. Capítulo II: "A Teoria do Amor", seção 1: "Amor, Resposta ao Problema da Existência Humana".

O homem é dotado de razão; é a vida consciente de si mesma; tem, consciência de si, de seus semelhantes, de seu passado e de seu futuro. Essa consciência de si mesmo como entidade separada, a consciência de seu próprio e curto período de vida, do fato de haver nascido sem ser por vontade própria e de ter que morrer contra sua vontade, de ter de morrer antes daqueles que ama, ou estes antes dêle, a consciência de sua solidão e separação, de sua impotência ante as forças da natureza e da sociedade, tudo isso faz de sua existência apartada e desunida uma prisão insuportável. Ele ficaria louco se não pudesse libertar-se de tal prisão e alcançar os homens, unir-se de uma forma ou de outra com êles, com o mundo exterior.

[…]

Um meio de alcançar esse objetivo [isto é, fugir à separação] está em todas as espécies de estados orgíacos. Podem ter eles a forma de um transe auto-provocado, às vezes com a ajuda de drogas. Muitos ritos de tribos primitivas oferecem vivo quadro dêsse tipo de solução. Num estado transitório de exaltação, o mundo externo desaparece, e, com ele, o sentimento de estar dele separado. E como esses ritos são praticados em comum, acrescenta-se uma experiência de fusão com o grupo que dá a tal solução o máximo de eficiência.

Sociedades tribais

Estreitamente relacionada com essa solução orgíaca está a experiência sexual. O orgasmo sexual pode produzir um estado semelhante ao produzido por um transe, ou pelos efeitos de certas drogas. Ritos de orgias sexuais comunitárias faziam parte de muitos rituais primitivos. Parece que, depois da experiência orgíaca, o homem pode continuar por algum tempo sem sofrer demais com sua separação. Vagarosamente, a tensão da ansiedade sobe, e é de novo reduzida pela realização repetida do rito.

Enquanto esses estados orgíacos forem motivo de prática comum numa tribo, não produzem êles ansiedade ou culpa. Agir de tal modo é reto, virtuoso mesmo, pois é um modo de que todos compartilham, aprovado e requerido pelo pagé ou pelos sacerdotes; daí não haver razão para que alguém se sinta culpado ou envergonhado.

Nossa sociedade

Bem diferente é o caso quando a mesma solução é escolhida por um indivíduo em uma cultura que deixou para trás essas práticas comuns. O alcoolismo e o uso de drogas são as formas que o indivíduo escolhe numa cultura não-orgíaca. Em contraste com os que tomam parte na solução socialmente modelada, tais indivíduos sofrem sentimentos de culpa e remorso. Ao tentarem fugir da separação pelo refúgio no álcool e nos entorpecentes, sentem-se ainda mais separados depois que terminam a experiência orgíaca, e assim são levados a recorrer a ela com frequência e intensidade aumentadas.

Poquíssimo diferente disso é o recurso a uma solução orgíaca sexual. Até certo ponto, é uma forma natural e normal de superar a separação, e uma resposta parcial ao problema do isolamento. Mas, em muitos indivíduos em que a separação não é aliviada por outros meios, a procura do orgasmo reveste-se de uma função que não a faz muito diferente do alcoolismo e do vício das drogas. Torna-se uma tentativa desesperada para fugir à ansiedade engendrada pela separação e resulta sempre num sempre crescente sentimento de separação, visto como o ato sexual sem amor nunca lança uma ponte sôbre o abismo entre dois seres humanos, senão momentaneamente.

Amor e sexo: diferenças qualitativas

Fonte: Flávio Gikovate - "Vício dos Vícios: um estudo sobre a vaidade humana", MG Editores Associados, 1987. Capítulo VII - A vaidade e o amor.

[...]

O objetivo da reconstrução do vínculo dual [perdido com o nascimento] é, pois, a recuperação da paz, da harmonia interior, da serenidade. A sensação derivada do se perceber sozinho é terrível e a palavra que tenho usado para descrevê-la é desamparo. Não são poucas as pessoas que experimentam estas sensações dolorosas do desamparo quando se reconhecem sem companhia mesmo nas fases adultas da vida; nestas condições, costumam usar o termo solidão. Mesmo para aqueles que aprendem a conviver bem consigo mesmos e a suportar a dor do desamparo - que, ao longo dos anos, para elas se atenua - sobra o desejo de reconstrução de um vínculo, de um elo especial com uma outra criatura. Devido às conhecidas dificuldades práticas inerentes aos vínculos afetivos adultos, algumas pessoas optam por uma vida individual; e isto tem sido cada vez mais frequente. Mas o sonho de algum tipo de relacionamento capaz de gerar aconchego existe em todas as pessoas que tive oportunidade de conhecer.

[...]

O amor busca a paz, a harmonia; o encontro deste estado depende desde o início da aproximação com outra pessoa, sendo portanto um fenômeno essencialmente interpessoal; esta outra pessoa é sempre uma criatura muito específica, um objetivo definido do desejo. O sexo busca a excitação, o movimento; este estado se obtém, ao menos nos primeiros anos de vida, através da manipulação de certas partes do corpo, sendo pois uma manifestação essencialmente pessoal; mesmo nas trocas de carícias e nos prazeres exibicionistas, o parceiro ou observador é indefinido e, até certo ponto, indiscriminado. É tudo bem diferente; acredito mesmo que se possa pensar em amor e sexo como impulsos, em muitos instantes, antagônicos. Ternura é a manifestação física do amor; são abraços, beijos, tudo enfim muito parecido com os gestos eróticos; mas a sensação subjetiva é completamente diferente. Ternura é aconchego; tesão é inquietação e tem, com frequência, até mesmo uma pitada de violência.

[...]

O pavor do desamparo persiste mesmo quando se atinge a auto-suficiência [durante a transição de criança para adulto] e, de certo modo, nos persegue como resíduo, cicatriz do que já foi vivido, ao longo da vida adulta. Se sentir tratado com ternura, olhado com carinho, persiste como o grande atenuador do nosso desamparo.

[...]

O pavor da rejeição de deixarmos de ser objeto do amor de determinada pessoa que nos é muito significativa e especial, nos acompanhará ao longo de toda a vida a menos que sejamos capazes de tolerar melhor o desamparo que é próprio de nossa condição. É só nestas condições que poderemos nos livrar daquelas pessoas que usam nossa fraqueza sentimental como meio de nos tiranizar. O esforço é enorme e os obstáculos difíceis de serem ultrapassados, uma vez que a grande maioria de nós foi educado para ser fraco e dependente.

[...]

No envolvimento amoroso, por exemplo, se estabelece uma importante dependência psíquica. O abandono e o desamparo que nos acompanha, como sensação ou como fato, desde o nascimento, encontram na realização deste impulso um importante atenuador, nos sentimos aconchegados quando estamos amando e sendo amados; e isto é bom, apaziguante. Quanto maior nossa incompetência para suportar a sensação de desamparo, maior será nossa dependência do vínculo amoroso. Nestas condições, uma eventual ruptura determinará enorme dor; dor da morte. Experimentaremos enorme depressão, de longa duração. A lembrança dos momentos de aconchego nos acompanhará em quase todas as horas e a consciência de que ele não existe trará de volta a dor. O processo só será menos dramático se, por sorte, se constituir um novo vínculo afetivo, que tratá de volta a sensação apaziguante de harmonia. Quanto maior a dependência que uma pessoa tem deste afeto, mais ela agirá de modo estabanado e mais será apavorada com a rejeição sempre temida; agirá de modo exageradamente possessivo e com isto estará mais sujeita a decepcionar o amado; como regra, é justamente para quem não suporta a ruptura amorosa que ela se torna mais frequente em virtude dos erros cometidos pela própria pessoa.

[...]

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