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Anders Bateva

buscando o porquê das coisas

Anders Bateva

buscando o porquê das coisas

Lutero - "A Lei não foi Feita para o Justo": o Reino do Mundo versus o Reino de Deus

Fonte: Martinho Lutero. A Liberdade do Cristão. Editora Escala, São Paulo, 2007. Texto III: Da Autoridade Temporal e em que Medida se Deve Obedecer a Ela; Primeira Parte.
Terceiro - É necessário separar os filhos de Adão, os homens, em duas partes: uns, que são do reino de Deus e outros, que são do reino do mundo. Aqueles que fazem parte do reino de Deus são todos aqueles que, como verdadeiros crentes, estão em Cristo e submissos a Cristo. [...] Ora, vejam: esses não têm necessidade da espada nem das leis temporais. E se o mundo inteiro fosse feito de verdadeiros cristãos, isto é, de verdadeiros crentes, não seriam necessários nem seriam úteis os príncipes, os reis, os senhores, as espadas e as leis. De fato, que poderiam fazer com isso, porquanto levam em seu coração o Espírito Santo que os instrui e que faz com que não sejam injustos para com ninguém, que amem a todos e a cada um e suportem de bom grado e com alegria, da parte de todos e de cada um, a injustiça, até mesmo a morte? Se suportamos tudo o que é injusto e se fazemos somente o que é justo, não haverá necessidade de disputas, querelas, tribunais, juízes, castigos, leis nem espada. É por isso que é impossível que a espada e a lei temporais encontrem algo a fazer entre os verdadeiros cristãos, visto que fazem por si mesmos muito mais do que podem exigir todas as leis e doutrinas. É nesse sentido que Paulo diz na 1ª Carta a Timóteo, I, 9: "A lei não foi feita para o justo, mas para os injustos."Por que isso? Porque o justo, por sua própria conta, faz tudo e até mais do que todas as leis exigem, ao passo que os injustos não fazem nada de justo e é por isso que têm necessidade da lei, para instruí-los, para obrigá-los e pressioná-los a agir corretamente. Uma árvore boa não tem necessidade de ensinamentos nem de lei para produzir bons frutos; pelo contrário, é sua própria natureza que faz com que, sem lei nem doutrina, produza os frutos que correspondam ao que ela é. De fato, seria bem tolo, acredito, o homem que, para uma macieira, elaborasse um livro cheio de leis e decretos, prescrevendo-lhe de produzir maçãs e não espinhos. A árvore não o faz por sua natureza própria melhor do que o homem lhe pudesse descrever e ordenar por meio de todo tipo de livros? Assim também, com relação ao espírito e à fé, está realmente na natureza dos cristãos agir bem e de modo justo, melhor do que se pudesse lhes ensinar por todo tipo de leis. Não necessitam para si mesmos nem de leis nem de decretos.A isso se poderia objetar: Por que, pois, Deus deu tantas leis a todos os homens e por que, no Evangelho, Cristo dá tantos ensinamentos sobre o que se deve fazer? - Sobre este assunto já escrevi muito em meus Sermões (Kirchenpostille) e em outros locais. Por ora, vou dizer brevemente isto: quando Paulo diz que a lei foi dada para os injustos, isso signfica que aqueles que não são cristãos são eximidos exteriormente das más ações pela coação da lei, como veremos mais adiante. Ora, visto que nenhum homem é por natureza cristão ou homem de bem, mas que, ao contrário, todos são pecadores e maus, Deus põe obstáculos a todos pela lei, a fim de que não tenham a audácia de pôr em ação sua maldade segundo seus caprichos nas obras exteriores.

[...]

Quarto - Fazem parte do reino do mundo ou se colocam sob sua lei todos aqueles que não são cristãos. Visto que muito poucos crêem e que somente a minoria se comporta de maneira cristã, não resistindo ao mal, ou seja, não fazendo eles próprios o mal, Deus criou para os outros, ao lado da condição de cristão e do reino de Deus, outro reino e os submeteu à espada, a fim de que, por mais que o desejem, não possam agir segundo sua natureza má e a fim de que, se o fizerem, não possam fazê-lo sem temor, nem em toda tranqüilidade e com sucesso. Do mesmo modo que se acorrenta e se doma um animal feroz, para que não possa morder nem dilacerar segundo sua natureza, por mais que o deseje, assim também um animal dócil e domesticado não tem necessidade disso e é inofensivo, mesmo sem correntes ou laços.Na verdade, se assim não fosse, visto que todos são maus e que se encontra apenas um verdadeiro cristão entre mil seres humanos, eles se devorariam mutuamente, de modo que não haveria ninguém capaz de mostrar às mulheres e às crianças como se alimentar de Deus e como servi-lo; e o mundo se tornaria um deserto. É por isso que Deus instituiu os dois reinos: o espiritual que, pelo Espírito Santo e sob a lei de Cristo, faz cristãos e homens de bem; e o temporal, que obstaculiza os não-cristãos e os maus, a fim de que sejam obrigados, por obrigações exteriores, a respeitar a paz e a ficar tranqüilos, quer queiram quer não. Essa é a interpretação que são Paulo dá, na Carta aos Romanos, XIII, da espada temporal, ao dizer que essa espada não deve ser temida para as boas ações, mas para as más. E Pedro diz que foi instituída para que a vingança atinja os maus.Se alguém, portanto, querendo governar o mundo segundo o Evangelho, optasse por suprimir toda lei e toda espada temporais, sob pretexto de que todos são batizados e todos são cristãos, para os quais o Evangelho não prevê nem leis nem espada, porquanto não são necessárias, o que faria esse, pergunto? Libertaria de seus laços e de suas correntes os animais ferozes, permitindo-lhes assim de morder e dilacerar a todos e a cada um, e julgaria, além do mais, que são gentis animais realmente meigos e domesticados. Mas eu sentiria em minhas feridas o que eles realmente são. Assim, os maus, acobertados pelo nome de cristãos, assumiriam a liberdade evangélica e cometeriam suas patifarias dizendo que são cristãos e, desse modo, não estariam sujeitos a nenhuma lei, a nenhuma espada, como já o fazem em nossos dias certos loucos e furiosos.A esse homem seria necessário dizer: 'Certamente, é verdade que os cristãos não são por si mesmos sujeitos a nenhuma lei ou espada e não tem necessidade delas. Mas olhe à sua volta e comece a fazer com que o mundo fique repleto de verdadeiros cristãos, antes de pretender governá-los de modo cristão e segundo o Evangelho.' Mas jamais haverá de chegar a isso, porque o mundo e o povo em geral são e continuam não-cristãos, embora sejam todos batizados e levem o nome de cristãos. Quanto aos cristãos (como se diz) habitam distantes uns dos outros. Aí está porque é impossível que um reino cristão se estenda pelo mundo inteiro e mesmo num só país ou num grande número de pessoas. De fato, há sempre mais pessoas más que pessoas de bem. É por isso que tentar governar todo um país ou o mundo com o Evangelho é como se um pastor colocasse juntos, no mesmo estábulo, lobos, leões, águias e ovelhas, e deixasse cada um deles andar livremente no meio dos outros e dissesse: "Comam, sejam bons e pacíficos entre todos; o estábulo está aberto; têm alimento suficiente; não devem temer nem os cães nem o cajado." Sem dúvida, as ovelhas observariam a paz e se deixariam assim pastar e governar pacificamente; mas não viveriam muito tempo e não restaria nem uma só delas.É por isso que é necessário distinguir cuidadosamente esses dois reinos e fazer com que subsistam os dois: um, que torna bom e o outro, que cria a paz de maneira exterior e que dificulta as más ações. No mundo, nenhum dos dois é suficiente sem o outro, pois, sem o reino espiritual de Cristo, ninguém pode tornar-se bom diante de Deus somente por meio do reino temporal. Assim, o reino de Cristo não se estende sobre todos os homens; os cristãos são sempre a menor parte e estão no meio dos não-cristãos. Ora, onde só governa o reino temporal ou a lei, ali só pode haver hipocrisia, mesmo que se tratasse dos próprios mandamentos de Deus. De fato, sem o Espírito Santo no coração, ninguém se torna verdadeiramente bom, por mais obras boas que possa realizar. Onde, porém, só o reino espiritual governa o país e as pessoas, a rédea é afrouxada para a maldade e é dado livre curso a toda velhacaria, pois o mundo comum não pode admitir isso nem compreendê-lo.Ora, é nisso que se vê que intenção há nas palavras de Cristo, na passagem do Evangelho de Mateus V, que citamos há pouco, e que dizem que os cristãos não devem reclamar seus direitos nem ter entre eles a espada temporal. Propriamente falando, só o diz para seus caros cristãos; e somente eles fazem suas essas palavras e agem de acordo com elas; não fazem delas "conselhos", como os sofistas. Pelo contrário, em seu coração, por intermédio do Espírito Santo, são feitos assim por natureza e não causam mal a ninguém, estando dispostos a suportar o mal que vier de outrem. Se o mundo fosse composto somente de cristãos, essas palavras lhe diriam respeito por inteiro e agiria em conformidade com elas. Ora, como é composto também de não-cristãos, essas palavras não se referem a ele e não age em conformidade a elas. Ao contrário, o mundo faz parte do outro reino, daquele no qual os não-cristãos são obrigados à paz e ao bem por imposições exteriores.É por isso também que Cristo não carregou a espada e não instituiu uma em seu reino. Porque ele é um rei que reina sobre cristãos e governa sem lei, unicamente por meio de seu Espírito Santo. E, embora tenha confirmado a espada, ele próprio não fez uso dela, pois, a espada não serve para nada em seu reino, onde só há pessoas de bem. É por isso que outrora Davi não teve o direito de construir o templo, porque tinha derramado muitas vezes o sangue e tinha carregado a espada (Ver 2º Livro de Samuel, capítulo VII; e 1º Lvro dos Reis, V, 17). Não que não tivesse razão se o construísse, mas porque não podia ser uma prefiguração de Cristo pelo fato de que este devia ter um reino de paz, sem espada. Em contrapartida, é a Salomão - ou seja, Friedrich ("rico de paz": rich = rico, fried = paz) ou Friedsam ("cheio de paz", "pacífico"), em alemão - que devia caber a responsabilidade de executar essa obra, porque tinha um reino de paz, pelo qual o verdadeiro reino de paz de Cristo, o verdadeiro "Friedrich" e o verdadeiro "Salomão" podia ser prefigurado. [...]É isso que querem dizer os profetas, no Salmo 109: "Teu povo será feito de voluntários" e em Isaías I, 9: "Não se matará nem se causará dano algum em toda a minha montanha santa"; e ainda em Isaías II, 4: "De suas espadas forjarão pás de arados e de suas lanças, foices. Uma nação não desembainhará mais a espada contra outra e ninguém mais se exercitará para a guerra." Quem quisesse estender essas palavras, e outras semelhantes, a todos os locais onde o nome de Cristo é citado, esse compreenderia a Escritura pelo avesso, pois elas são ditas unicamente a respeito dos cristãos que, certamente, se comportam entre si em conformidade com elas.
Fonte: Martinho Lutero. A Liberdade do Cristão. Editora Escala, São Paulo, 2007. Texto III: Da Autoridade Temporal e em que Medida se Deve Obedecer a Ela; Segunda Parte.
Entretanto, poderiam dizer: "Visto que não deve haver espada temporal entre os cristãos, como se pode, pois, governá-los exteriormente? É necessária, portanto que haja uma autoridade superior, mesmo entre os cristãos."- Resposta: Entre os cristãos não pode nem deve haver autoridade superior; pelo contrário, cada um é submisso a todos os outros ao mesmo tempo. Assim Paulo diz na Carta aos Romanos, XIII, 3: "Que cada um tenha os outros como superiores a si próprio." E na 1ª Carta de Pedro, V, 5: "Sejam todos submissos uns aos outros." É também o que Cristo quer, segundo o Evangelho de Lucas, XIV, 10: "Quando o convidarem a bodas, tomo assento no último lugar." Não há entre os cristãos ninguém que seja superior aos outros, a não ser unicamente Cristo. Que espécie de autoridade pode haver, pois, quando todos são iguais e têm o mesmo direito, o mesmo poder, o mesmo bem e a mesma honra e quando ninguém cobiça ser superior aos outros, mas cada um quer ser subordinado aos outros? Certamente, onde houver seres desse gênero, seria impossível estabelecer uma autoridade superior, nem mesmo alguém haveria de querer, pois, sua maneira de ser e sua natureza não suportam ter um superior, uma vez que nenhum deles quer e pode ser superior. Mas onde não houver seres desse gênero, não há tampouco verdadeiros cristãos.

Bom Leitor vs Mau Leitor

Fonte: Ani Sobral Torres. Apostila "Metodologia científica", Editora Sol, São Paulo, 2012. Unidade II, Capítulo 3: "Princípios de Metodologia Científica", Seção 3.2: "Leitura crítica".


A seguir, são apresentadas algumas dicas para leitura no contexto do mau e do bom leitor, segundo Salomon (1974).

O bom leitor lê rapidamente e entende bem o que lê. Tem habilidades e hábitos como:

  1. Ler com objetivo determinado – exemplo: aprender certo assunto, repassar detalhes, responder a questões.
  2. Ler unidades de pensamento – abarca, num relance, o sentido de um grupo de palavras. Relata rapidamente as ideias encontradas numa frase ou num parágrafo.
  3. Tem vários padrões de velocidade – ajusta a velocidade da leitura com o assunto que lê. Se ler uma novela, é rápido. Se for um livro científico, para guardar detalhes, lê mais devagar para entender bem.
  4. Avalia o que lê – pergunta‐se frequentemente: que sentido tem isso para mim? Está o autor qualificado para escrever sobre tal assunto? Está ele apresentando apenas um ponto de vista do problema? Qual é a ideia principal desse trecho? Quais seus fundamentos?
  5. Possui bom vocabulário – sabe o que muitas palavras significam. É capaz de perceber o sentido das palavras novas pelo contexto. Sabe usar dicionários e o faz frequentemente para esclarecer o sentido de certos termos, no momento oportuno.
  6. Tem habilidades para conhecer o valor do livro – sabe que a primeira coisa a fazer, quando se toma um livro, é indagar do que trata mediante o título, subtítulos encontrados na página de rosto e não apenas na capa. Em seguida, lê os títulos do autor. Edição do livro. Índice. “Orelha do livro”. Prefácio. Bibliografia citada. Só depois é que se vê em condições de decidir pela conveniência ou não da leitura. Sabe selecionar o que lê. Sabe quando consultar e quando ler.
  7. Sabe quando deve ler o livro até o fim, quando interromper a leitura definitivamente ou periodicamente – sabe quando e como retomar a leitura, sem perda de tempo e sem perder a continuidade.
  8. Adquire livros com frequência e cuida de ter sua biblioteca particular – quando é estudante, procura os livros de textos indispensáveis e se esforça em possuir os chamados clássicos e fundamentais. Tem interesse em fazer assinaturas de periódicos científicos. Formado, continua alimentando sua biblioteca e restringe à aquisição dos chamados “compêndios”. Tem o hábito de ir direto às fontes; de ir além dos livros de texto.
  9. Lê assuntos vários – livros, revistas, jornais. Em áreas diversas: ficção, ciência, história etc. Habitualmente, nas áreas de seu interesse ou especialização.
  10. Lê muito e gosta de ler – acha que ler traz informações e causa prazer. Lê sempre que pode.
  11. O bom leitor é aquele que não é só bom na hora da leitura – é bom leitor porque desenvolve uma atitude de vida: é constantemente bom leitor. Não só lê mas sabe ler.
O mau leitor lê vagarosamente e entende mal o que lê. Tem hábitos como:
  1. Ler sem finalidade – raramente sabe por que lê.
  2. Ler palavra por palavra – pega o sentido da palavra isoladamente. Esforça‐se para ajuntar os termos para poder entender a frase. Frequentemente, tem de reler as palavras.
  3. Só tem um ritmo de leitura – seja qual for o assunto, lê sempre vagarosamente.
  4. Acredita em tudo que lê – para ele, tudo que é impresso é verdadeiro. Raramente confronta o que lê com suas próprias ideias, experiências ou com outras fontes. Nunca julga criticamente o escritor ou seu ponto de vista.
  5. Possui vocabulário limitado – sabe o sentido de poucas palavras. Nunca relê uma frase para pegar o sentido de uma palavra difícil ou nova. Raramente consulta o dicionário. Quando o faz, atrapalha‐se em achar a palavra. Tem dificuldade em entender a definição das palavras e em escolher o sentido exato.
  6. Não possui nenhum critério técnico para conhecer o valor do livro – nunca ou raramente lê a página de rosto do livro, o índice, o prefácio, a bibliografia etc., antes de iniciar a leitura. Começa a ler a partir do primeiro capítulo. É comum até ignorar o autor, mesmo depois de terminada a leitura. Jamais seria capaz de decidir entre leitura e simples consulta. Não consegue selecionar o que vai ler. Deixa‐se sugestionar pelo aspecto material do livro.
  7. Não sabe decidir se é conveniente ou não interromper uma leitura – ou lê todo o livro ou o interrompe sem critério objetivo, apenas por questões subjetivas.
  8. Não possui biblioteca particular – às vezes, é capaz de adquirir “metros de livro” para decorar a casa. É frequentemente levado a adquirir livros secundários em vez dos fundamentais. Quando estudante, só lê e adquire compêndios de aula. Formado, não sabe o que representa o hábito das “boas aquisições” de livro.
  9. Está condicionado a ler – sempre a mesma espécie de assunto.
  10. Lê pouco e não gosta de ler – acha que ler é ao mesmo tempo um trabalho e um sofrimento.
  11. O mau leitor não se revela apenas no ato da leitura, seja silenciosa ou oral – é constantemente mau leitor, porque se trata de uma atitude de resistência ao hábito de saber ler.
Referências:
  • SALOMON, D. V. Como fazer uma monografia: elementos de metodologia de trabalho científico. 4 ed. Belo Horizonte: Interlivros, 1974.

Maquiavel: mundo ideal vs mundo real

Fonte: Nicolau Maquiavel. O Príncipe - 15ª edição - 1996 - Editora Paz e Terra. Capítulo XV: "As qualidades pelas quais os homens, sobretudo os príncipes, são louvados ou vituperados".


Como tenho a intenção de escrever algo útil para quem a queira entender, pareceu-me conveniente ir atrás da verdade efetiva da coisa, ao invés da imaginação. Muitos imaginaram repúblicas e principados que nunca se viu nem se soube que fossem verdadeiros, por serem tão diversos de como se vive para como se deveria viver.

Mas, aquele que deixa o que se faz pelo que se deveria fazer aprende a se arruinar em vez de se preservar. Pois o homem que queira professar o bem em toda parte é natural que se arruíne entre tantos que não são bons.

Para um príncipe que queira se manter, então, é necessário aprender a poder ser não-bom, e usar ou não usar isso, conforme precisar.

Descartes: PT versus PSDB

Fonte: René Descartes. Livro "Discurso do Método para Bem Conduzir a Própria Razão e Procurar a Verdade nas Ciências", Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2011. Primeira parte.


O bom senso é a cousa mais bem-repartida deste mundo, porque cada um de nós pensa ser dele tão bem-provido, que mesmo aqueles que são mais difíceis de se contentar com qualquer outra cousa não costumam desejar mais do que o que têm. Não é verossímil que todos se enganem; ao contrário, isto mostra que o poder de bem julgar e de distinguir o verdadeiro do falso, que é propriamente o que se chama o bom senso ou a razão, é naturalmente igual em todos os homens; e, assim, a diversidade de nossas opiniões não resulta de serem umas mais razoáveis do que outras, mas somente de conduzirmos nossos pensamentos por diversas vias, e de não considerarmos as mesmas cousas. Porque não basta ter o espírito bom, o principal é aplicá-lo bem. As grandes almas são capazes dos maiores vícios como das maiores virtudes; e os que andam lentamente podem avançar muito mais, se seguirem o caminho direito, do que os que correm e dele se afastam.

Nota do tradutor (João Cruz Costa): Descartes considera o bom senso na sua origem, antes de sofrer as deformações do seu mau emprego.

Quimioterapia: origem nas guerras mundiais

Fonte: Thierry de Lestrade. Livro "Jejum: Uma Nova Terapia?". L&PM Editores, 2015, Porto Alegre - RS. Capítulo 9: "Jejuando Contra o Câncer: as Descobertas de Valter Longo". Seção "Diante das temíveis armas da célula cancerosa, a arma de guerra da quimioterapia".


Para combater a célula que, ao se replicar por milhões, se torna um tumor, os médicos por muito tempo dispuseram de duas "armas" principais: a cirurgia e as radiações -- bisturi e fogo. Essas armas, eficazes quando o tumor é localizado, deixam de ser quando a célula cancerosa começa a se deslocar no corpo. A descoberta da quimioterapia ofereceu um novo método de ação: o veneno.

Estamos em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial. Dois biólogos da Universidade de Yale, Alfred Gilman e Louis Goodman, fazem testes de toxicidade com gás mostarda, o mesmo utilizado nas trincheiras de 1917 pelo exército alemão e responsável por fazer milhares de vítimas. As experiências dos dois pesquisadores são financiadas pelo exército dos Estados Unidos, que explora todas as possibilidades oferecidas pelas armas químicas na guerra travada contra os nazistas e os japoneses. Coelhos são submetidos a diferentes doses para se determinar o limite a partir do qual o gás se torna letal. Curiosos em obter resultados com outras espécies, os bioquímicos confiam algumas doses de gás a um jovem colega, Thomas Dougherty, que trabalha com camundongos. Na falta de animais, este experimenta o produto em roedores com leucemia, cujo tempo de vida ele sabe que é pequeno. Surpresa! Não só os camundongos não sucumbem ao gás de mostarda, como seus tumores dimunuem. Alguns deles chegam até a ter uma cura completa. O efeito é espetacular. Ele teria encontrado um tratamento contra esse câncer inoperável que é a leucemia?

Um teste em ser humano é realizado em sigilo absoluto, muito rapidamente, em dezembro de 1942. Assim, o gás mostarda é injetado por via intravenosa em um paciente com câncer nos gânglios. É o primeiro tratamento quimioterápico do câncer e é executado com uma arma. Depois de dez dias de tratamento, os tumores do paciente diminuem, antes de crescer de novo alguns meses mais tarde. Ainda assim, essa tentativa muda o método de tratar o câncer. Passa a se ver aí uma maneira de lutar contra as leucemias, os tipos de câncer do sangue contra os quais a cirurgia nada pode fazer, e de frear as metástases, essas células que migram para outras partes do corpo. Desde o final dos anos 1940, farmacêuticos e toxicologistas testam todos os produtos tóxicos, em geral oriundos de plantas naturais, que podem combater os tumores.

Os produtos mais eficazes são aqueles que agem contra a divisão celular. Isso é fácil de se entender: como a célula cancerosa se divide muito mais do que as outras, ela será tomada como alvo pelo veneno. Infelizmente, ela não é a única, pois outras células se dividem com frequência. Elas também serão atacadas e destruídas em grande parte. Citemos por exemplo as células dos bulbos capilares, as da mucosa da boca e do trato digestivo -- que se renovam a cada 48 horas--, os glóbulos sanguíneos, brancos ou vermelhos... Isso explica os efeitos colaterais durante o tratamento: perda temporária de cabelo, boca seca, aftas bucais, diarreias, fadiga... Além disso, as quimioterapias também atingem células de divisão lenta ou madura e estão, infelizmente, na origem de problemas cognitivos.

Maquiavel: Temer Jamais?

Fonte: Nicolau Maquiavel. O Príncipe - 15ª edição - 1996 - Editora Paz e Terra. Capítulo XVII: "A crueldade e a clemência: se é melhor ser amado do que temido, ou o contrário".

É melhor ser amado do que temido, ou o contrário?

Responde-se que se quer ser tanto um quanto o outro. Mas como é difícil reuni-los, é muito mais seguro ser temido do que amado, no caso de ser preciso renunciar a um dos dois.Isto pois, geralmente, pode-se dizer que os homens são ingratos, volúveis, mentirosos, traiçoeiros, covardes, ávidos por dinheiro. Se lhes fazes o bem, todos estão contigo. Oferecem-te o sangue, as coisas, a vida, os filhos -- como disse antes, quando a necessidade está longe de ti. Mas quando a necessidade chega perto, eles se rebelam. E o príncipe que havia se baseado completamente nas palavras deles, se não tiver outras defesas, arruína-se. Pois as amizades que se conquistam com dinheiro e não com grandeza e nobreza de alma não são certas, não podem ser usadas.Os homens têm menor pudor em ofender alguém que se faça amar do que alguém que se faça temer. O amor é mantido por um vínculo de obrigação, que os homens, sendo malvados, rompem quando melhor lhes servir. Mas o temor é mantido pelo medo de ser punido, o que nunca termina.Todavia, o príncipe deve se fazer temer de um modo que, se não conquista o amor, evita o ódio. É possível ser, ao mesmo tempo, temido, mas não odiado.

Mudanças climáticas: culpa nossa?

Fonte: Roberto Giansanti. "O Desafio do Desenvolvimento Sustentável" - 6ª edição - 1998 - Atual Editora. Capítulo 4: Impactos ambientais no mundo moderno; seção "Poluição atmosférica".

(Seccionei o texto para facilitar a identificação dos trechos por tema.)


Hipótese

A hipótese de intensificação do efeito estufa é bastante simples: "quanto maior for a concentração de gases, maior será o aprisionamento de calor, e consequentemente, mais alta a temperatura do globo terrestre", explica Molion. No entanto, é justamente essa previsão alarmista o ponto central das discordâncias. Alguns pesquisadores questionam em que medida o aquecimento global, caso esteja ocorrendo, resulta do efeito estufa provocado pelo homem.

O CO2 é apontado como o principal responsável pelo provável aquecimento global. Trata-se do segundo gás em importância na atmosfera (atrás somente do vapor d'água) e sua concentração, embora ainda seja baixa, vem crescendo a uma taxa de 0,4% ao ano. Estima-se que são lançados 7 bilhões de toneladas de CO2 a cada ano na atmosfera, sendo cerca de 75% devido à queima de combustíveis fósseis (como petróleo e carvão mineral) e 25% pela queima de florestas, sobretudo as tropicais.

Simulações apontam que, se a quantidade de CO2 na atmosfera duplicasse, a temperatura média na Terra aumentaria entre 1,5 e 4,5°C. Essa situação poderia provocar o degelo parcial de geleiras e calotas polares, elevando o volume de água dos oceanos em até 1,5 metro e comprometendo 60% das áreas litorâneas. Também são previstas alterações nos ritmos de precipitação e umidade e a redução da biodiversidade, pois algumas espécies não resistiriam às mudanças.

Contraponto

No entanto, há controvérsias nas previsões. O único fato concreto e demonstrável é que houve um incremento de 25% nas taxas de CO2 nasa atmosfera ao longo dos últimos 150 anos, com notável acréscimo a partir dos anos 50. Atribui-se esse fato à expansão industrial pós-Segunda Guerra. Mas não se pode afirmar com segurança que esteja havendo aquecimento global. Há bons argumentos que dizem o contrário. Estaríamos entrando em um período pré-glacial, com tendência a rebaixamento das médias térmicas.

Estudos realizados por pesquisadores eutropeus e norte-americanos demonstram que o aquecimento global estaria entre 0,3°C e 0,6°C, valores situados no limite inferior das demonstrações de intensificação do efeito estufa feitas em laboratório. A década de 80 teve os cinco anos mais quentes das séries globais. Porém, ao mesmo tempo, observou-se um resfriamento sobre os oceanos Pacífico e Atlântcos de até -1,5°C e, na parte continental dos Estados Unidos, essa não foi a década mais quente do século, perdendo para a de 30 e superando por pouco a de 50. Estudos feitos também na parte continental dos Estados Unidos mostram variações térmicas de grande amplitude e períodos de pequena alteração. Por exemplo, entre 1920 e 1940, quando as atividades industriais ainda não eram tão intensas e disseminadas, houve um significativo aumento de temperatura; o período posterior, entre 1940 e 1970, apresentou sensível doiminuição das médias térmicas.

É preciso considerar que há problemas para a obtenção de dados para fazer aquelas previsões. Os métodos de aferição das temperaturas foram muito variados nos últimos 150 anos. Além disso, as estações metereológicas sofreram mudanças (de lugar, de ocupação do entorno) que comprometem alguns resultados. Naquelas que se mantiveram mais ou menos inalteradas, as variações encontradas são insignificantes. De outro lado, as experiências feitas em laboratório não captam aspectos importantes para as variações térmicas na atmosfera, como a forma e distibuição das nuvens, as correntes de ar, o ciclo hidrológico, as diferenças térmicas entre equador e pólos, etc.

Assim, se existe um aquecimento global, ele não possui distribuição uniforme na superfície da Terra. Há até mesmo lugares que têm apresentado diminuição das médias de temperatura. A hipótese de que estamos chegando ao final de um período interglacial, segundo Molion, é reforçada pelo avanço de geleiras nos pólos e invernos cada vez mais rigorosos, particularmente no Hemisfério Norte. A Pequena Idade do Gelo, ocorrida entre 1650 e 1850, pode ser também um prenúncio dessa nova fase. Deve-se levar em conta que um eventual resfriamento poderia ser até mais catastrófico do que a intensificação do efeito estufa, pela diminuição das áreas agrícolas, períodos mais secos nos trópicos e inviabilidade de ocupação das áreas de altas latitudes.

Não se pode esquecer do papel da natureza nas variações de elementos climáticos, como as mudanças nos índices de albedo (refletividade média da superfície) do planeta e no sistema El Niño-Oscilação Sul (ENOS), além de erupções vulcânicas (que podem provocar resfriamento no período subsequente à sua ocorrência) e alterações nas correntes oceânicas.

Conclusão

Assim, a única conclusão plausível em toda essa discussão, além do aumento das emissões de CO2, é que há incertezas na velocidade e no efeito global e regional do enriquecimento de gases-estufa na atmosfera. A polêmica também serve para chamar a atenção para a crescente capacidade do ser humano de realizar transformações de grande monta em curto espaço de tempo. Muitos efeitos naturais e humanos ainda precisam ser mais bem estudados.

Erich Fromm: Narcisismo vs Objetividade

Fonte: Erich Fromm. A Arte de Amar - 1991 - Editora Itatiaia. Capítulo IV: "A Prática do Amor".


A orientação narcisista é aquela em que só se experimenta como real o que existe dentro da pessoa, ao passo que os fenômenos do mundo exterior não têm realidade em si mesmos, mas são experimentados somente do ponto de vista de serem úteis ou perigosos. O polo oposto ao narcisismo é a objetividade; é a faculdade de ver pessoas e coisas tais como são, objetivamente, é a capacidade de separar esta imagem objetiva de uma imagem formada pelos desejos e temores que se tenham.

Todas as formas de psicose mostram a incapacidade de ser objetivo, em extremo grau. Para a pessoa insana, a única realidade que existe está dentro dela, é a de seus temores e desejos. Vê o mundo externo como símbolo de seu mundo interno, como criação sua. Todos fazemos a mesma coisa, quando sonhamos. No sonho, produzimos acontecimentos, encenamos dramas, que são a expressão de nossos desejos e temores (embora às vezes também de nossas penetrações e julgamentos) e, enquanto dormimos, estamos convencidos de que o produto de nossos sonhos é tão real como a realidade que percebemos estando acordados.

A faculdade de pensar objetivamente é a razão; a atitude emocional por trás da razão é a da humildade. Ser objetivo, usar a razão, só é possível quando se consegue uma atitude de humildade, quando se emerge dos sonhos de onisciência e onipotência que se tem quando criança.

A pessoa insana, ou o sonhador, falha completamente em ter uma visão objetiva do mundo exterior; mas todos nós somos mais ou menos insanos, ou mais ou menos adormecidos; todos nós temos uma visão não-objetiva do mundo, falseada pela nossa orientação narcisista. Necessito dar exemplos? Qualquer um pode encontrá-los facilmente, observando-se, observando os vizinhos, lendo os jornais. Variam no grau de adulteração narcisista da realidade.

Exemplos

Uma mulher, por exemplo, telefona a um médico, dizendo que quer ir ao seu consultório nessa mesma tarde. O médico responde que não tem tempo livre nessa tarde, mas poderá vê-la no dia seguinte. A resposta dela é: "Mas doutor, eu moro só a cinco minutos de seu consultório...". Ela não pode compreender a explicação do médico de que o fato de ser a distância tão curta para ela não economizará o tempo dele. Experimenta ela a situação narcisisticamente: uma vez que ela poupa tempo, ele poupará tempo; a única realidade, para ela, é ela mesma.

Menos extremas -- ou talvez apenas menos evidentes -- são as distorções que constituem lugares-comumns nas relações interpessoais.

  • Quantos pais não experimentam as reações do filho em termos de ser-lhes obediente, de dar-lhes prazer, de sentirem orgulho dele, e assim por diante, em vez de perceber, ou mesmo interessar-lhes, aquilo que o filho sente, por si e para si mesmo?
  • Quantos maridos não formam uma imagem de suas esposas como sendo dominadoras, porque seu próprio apego à mãe os leva a interpretar qualquer solicitação como uma restrição à sua liberdade?
  • Quantas esposas não acham seus maridos ineficientes ou estúpidos, porque não correspondem à imagem fantasiosa de um brilhante cavaleiro que elas podem ter formado quando crianças?
A falta de objetividade, no que se refere às nações estrangeiras, é notória. De um dia para outro, uma nação se transforma em extremamente depravada e diabólica, ao passo que a nação do julgador se ergue como modelo de tudo quanto é bom e nobre. Cada ação do inimigo é julgada por um padrão, -- cada uma das próprias, por outro. Mesmo os atos bons praticados pelo inimigo são considerados um sinal de particular satanismo, com o intuito de enganar-nos e ao mundo, ao passo que nossas más ações são necessárias e justificadas pelos nobres alvos a que servem. Na verdade, quando se examinam as relações entre nações, assim como entre indivíduos, chaga-se à conclusão de que a objetividade é exceção, e um grau maior ou menor de distorção narcisista é a regra.

Sobre primeiros amores

Fonte: Cristiane Costa. Amor sem Beijo - Global Editora.
Ficamos lado a lado [vendo o pôr-do-sol], em silêncio, durante muito tempo. O sol foi embora e a noite veio trazendo uma lua cheia. O céu escuro se encheu de estrelas. Ali, no alto da pedra ainda quente [na beira da praia], éramos só nós e o universo. Senti uma enorme vontade de me soltar, de me lançar nos braços do vento morno e me deixar levar. Marcos deitou a cabeça no meu colo. Estávamos muito próximos. Lentamente, ele se sentou e me olhou bem nos olhos. Depois, falou bem suavemente:- Me dá um beijo?Eu sorri. Sua boca estava a centímetros da minha. "Eu não posso", pensei. "Eu sou forte, não tem essa de que o sangue é fraco. Eu sei me controlar. Eu não cedo. Não pode ser". "Não, eu não posso", dizia a parte mais forte de mim. Marcos também resistia e esperava. Tão próximo que se quisesse teria me roubado aquele beijo e me deixado sem reação a não ser me entregar aos meus sentimentos. Mas não, ele já tinha ido até onde podia. Agora, queria que eu continuasse.- Diz que você não quer esse beijo, Cristiane.O tempo parou enquanto tudo passou pela minha cabeça. Eu hesitei durante um segundo que parecia interminável. Então, fui mais forte do que eu e disse:- Não.No mesmo instante, a mágica se rompeu. Alguém acendeu as luzes - e acho que fui eu. As estrelas se desfizeram, nuvens pesadas se formaram em seu lugar. A música suave das ondas desapareceu. Só sobrou o mundo real e desencantado de que voltamos a fazer parte.

[...]

Demorou muito tempo, muito mais do que eu pensava, para juntar de novo essas duas partes de mim: meu corpo foi para um lado e meu coração para outro. Como numa estrada, um pequeno erro no início, uma decisão equivocada, pode levar o viajante a caminhos cada vez mais distantes de onde planejava chegar. Às vezes, descobre-se um atalho para voltar ao caminho certo. Outras, é preciso refazer todo o trajeto até o ponto de partida. Mas, e quando não há volta?Aí, o desamor se forma como um lago de águas paradas. O amor não vivido corrói os laços. Os corações feridos vão se distanciando lentamente. Quando se toma consciência, já perdemos o companheiro de vista. Um oceano nos separa.Pouco a pouco Marcos foi parando de falar comigo. Até o dia em que passou por mim como por uma estranha. Só nesse momento, me dei conta do quanto gostava dele. Depois que ele saiu definitivamente da minha vida é que vi o tamanho do vazio que deixou.Tudo foi acontecendo gradualmente. Primeiro, jogamos um balde de água fria em nossa amizade. Ele já não me levava para casa, não andávamos mais de bicicleta juntos. E eu não tinha mais ninguém com quem me abrir. Depois, sepultamos nossos sentimentos sob uma pedra de gelo, evitando todos os lugares onde pudéssemos nos encontrar. Marcos não ia mais à praia, nem nos dias mais bonitos de sol. Eu mudei de colégio. Ele parou de andar com nossa turma. Acho que só não mudou de cidade porque era demais. De vez em quando, eu perguntava por ele, com jeito para que não desconfiassem de nada.

[...]

Mas, um dia, decidi quebrar o muro que nos separava. Levantei-me e fui atrás dele. Segurei seu braço, quase implorando por uma palavra, um segundo de atenção. Isso o surpreendeu. Sem saber como reagir, continuou andando, cada vez mais rápido. E eu, passo a passo ficando para trás, insistia numa conversa inútil. Numa resposta que estava na cara e nem precisava de pergunta.- O que houve? Por que você não fala mais comigo? - disparei.- Eu? Mas eu acabei de falar com você.- Sei, um oi e basta.- O que você queria?- Conversar.- Sobre o quê?- Tudo, como antigamente.- Não dá para ser como antes.- Por quê?- Tem gente me esperando.- Pois que fiquem esperando. Eu preciso falar com você!- Fala então.- Andando assim não dá. Por que a gente não pára um pouco?- Já disse que tem gente me esperando.- Mas que droga de gente é essa que não pode esperar? Eu sou sua melhor amiga.- Isso já faz muito tempo.- O que você quer dizer com isso?- Que as coisas mudam.- Por que você está chateado comigo? O que foi que eu te fiz?- Nada. E você sabe muito bem.- Então o que é?- Nada, já disse.- Por que você se afastou?- A vida é assim mesmo. Mais dia, menos dia, acaba indo cada um para o seu lado.E foi isso o que aconteceu. Sem forças, fui ficando para trás - minhas perguntas pairando no ar. De costas, o silêncio como resposta.Quando a gente é jovem, os machucados se fecham rápido. As cicatrizes são imperceptíveis. Ninguém dá muito valor a nada, porque as coisas mudam muito rapidamente. Logo se está pronto para outra. E outra. E mais outra. A gente procura a dor mais leve para se distrair da mais profunda.Mas certas cicatrizes não fecham nunca.Elas voltam com outros nomes, em outros lugares, mas voltam. Até que a gente aprenda a não ter medo dos próprios sentimentos. Até o dia em que a gente tenha a coragem de olhar o amor nos olhos e dizer: sim.

Erich Fromm: em amor e sexo, nem tudo o que reluz é ouro!

Fonte: Erich Fromm. A Arte de Amar - 1991 - Editora Itatiaia. Capítulo II: "A Teoria do Amor", seção 3: "Dos Objetos do Amor", item c: "Amor erótico".


O amor erótico é o anseio de fusão completa, de união com um outra pessoa. É, por sua própria natureza, exclusiva e não universal; é também, talvez, a mais enganosa forma de amor que existe.

Antes de tudo, confunde-se ele muitas vezes com a experiência explosiva de "cair" enamorado, o súbito colapso das barreiras que até certo momento existiam entre dois estranhos. Mas, como já antes apontamos, esta experiência de súbita intimidade é, por sua própria natureza, de vida curta. Depois que o estranho se tornou pessoa intimamente conhecida, não há mais barreiras a superar, não há mais proximidade súbita a ser realizada. A pessoa "amada" fica sendo tão bem conhecida como a gente mesma. Ou talvez seja melhor dizer: tão pouco conhecida. Se houvesse mais profundidade na experiência da outra pessoa, se se pudesse experimentar a infinidade de sua personalidade, a outra pessoa nunca seria tão familiar -- e o milagre de superar as barreiras poderia ocorrer de novo a cada dia. Mas, para a maioria, a própria pessoa, assim como as outras, é logo explorada e logo exaurida. Para a maioria, a intimidade se estabelece antes de tudo pelo contacto sexual. Desde que primeiramente se experimente a separatividade de outra pessoa como separatividade física, a união física significa a superação da separação.

Além disso, há outros fatores que, para muitos, denotam a superação da separação. Falar da própria vida pessoal, das próprias esperanças e ansiedades, mostrar-se nos seus aspectos infantis ou pueris, estabelecer um interesse comum em face do mundo -- tudo isso é tomado como superação da separação. Mesmo mostrar cólera, ódio, falta completa de inibição, é tomado por intimidade, e isso pode explicar a atração pervertida que casais muitas vezes sentem um pelo outro, só parecendo íntimos quando se achem na cama ou quando dêem expansão a seu ódio e raiva mútuos. Todos esses tipos de proximidade, entretanto, tendem a reduzir-se cada vez mais com o correr do tempo. A consequência é buscar-se amor em outra pessoa, em novo estranho. E de novo o estranho se transforma em pessoa "íntima", de novo a experiência de cair enamorado é jubilosa e intensa, e de novo, vagarosamente, vai perdendo intensidade, para terminar no desejo de nova conquista, novo amor -- sempre com a ilusão de que o novo amor será diferente dos anteriores. Essas ilusões são grandemente incentivadas pelo caráter enganador do desejo sexual.

O desejo sexual objetiva a fusão -- e não é, de modo algum, apenas um apetite físico, o alívio de uma tensão dolorosa. Mas o desejo sexual pode ser estimulado pela ansiedade da solidão, pela vontade de conquistar ou ser conquistado, pela vaidade, pelo gosto de ferir e mesmo destruir, assim como pode ser estimulado pelo amor. Parece que o desejo sexual pode ser misturado facilmente a qualquer emoção forte, nela encontrando incitamento; e o amor é apenas uma dessas emoções. Por estar o desejo sexual emparelhado na mente de muitos com a idéia de amor, são eles com facilidade levados à má conclusão de que amam um ao outro quando se querem um ao outro fisicamente.

  • Se o desejo da união física não for estimulado pelo amor, se o amor erótico também não for amor fraterno, nunca levará à união mais do que num sentido orgíaco e transitório. A atração sexual cria, no momento, a ilusão de união, mas, sem amor, essa "união" deixa os estranhos tão afastados quanto antes se achavam; muitas vezes, faz com que se envergonhem um do outro, ou mesmo faz com que mutuamente se odeiem, pois, partida a ilusão, sentem sua estranheza ainda mais acentuadamente do que antes.
  • O amor pode inspirar o desejo de união sexual; neste caso, falta à relação física a avidez, a vontade de conquistar ou ser conquistado, mas mistura-se nela a ternura. A ternura de modo algum é, como acreditava Freud, uma sublimação do instinto sexual; é o produto direto do amor fraterno e existe tanto nas formas físicas do amor quanto nas não-físicas.

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