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Anders Bateva

Clippings / recortes de não-ficção: prospecções literárias, de tudo um pouco.

Anders Bateva

Clippings / recortes de não-ficção: prospecções literárias, de tudo um pouco.

Superinteressante - drogas mais usadas no mundo: total de usuários e risco de dependência

Donde se demonstra que a criminalização de uma droga não se baseia no risco de dependência (perigo à saúde).

Total de usuários

Tarso Araujo. Superinteressante, edição especial "A Revolução da Maconha: o mundo começou a ver a planta de outro jeito. Entenda por quê.", 2014. Artigo "Nos Quatro Cantos: apesar de proibida há mais de 50 anos, a Maconha é produzida e consumida em quase todo o mundo"
Total de usuários de cada droga ilícita no mundo (em milhões)
Maconha 180
Anfetaminas 34
Opioides* 32
Ecstasy 19
Cocaína e Crack 17
Opiáceos* 16
Tabela 1.

* Opiáceos são o ópio e seus derivados naturais (morfina e Heroína). Opioides também incluem medicamentos sintéticos que imitam a ação dos opiáceos.

Risco de dependência

Carol Castro. Superinteressante, edição especial "A Revolução da Maconha: o mundo começou a ver a planta de outro jeito. Entenda por quê.", 2014. Artigo "Mitologia Canábica: nem tudo que se diz por aí sobre os males da Maconha para a saúde é verdade. Saiba o que diz a ciência sobre algumas das afirmações mais comuns - e falsas - sobre a erva".
Risco de dependência de algumas drogas lícitas e ilícitas
Maconha 9%
Anfetaminas 11%
Álcool 15%
Cocaína 17%
Heroína 23%
Nicotina 32%
Tabela 2.

Planeta: lixo não é produto, é matéria-prima!

Renata Valério de Mesquita. Revista Planeta nº 502, de setembro de 2014. Artigo Jogue Dinheiro no Lixo.
Combustível Derivado de Resíduo

Uma parte dos desperdícios encaminhados para o Aterro de Paulínia (SP), da empresa Estre Ambiental, passa por uma seqüência de separações mecânicas e segue para um maquinário importado da Finlândia, único na América Latina. Apelidado de “tiranossauro”, seu sistema de trituração reduz um sofá a pedaços menores de seis centímetros. O resultado final é um massa de alto poder inflamável capaz de substituir combustíveis fósseis (como carvão e madeira), usada em caldeiras da indústria de cimento.

Com capacidade para gerar até sete mil toneladas por mês de CDR, o tiranossauro não só vai gerar novos ingressos para a empresa, como estender a vida útil do seu aterro que deixa de receber esses volumes diários de resíduos. A valorização do resíduo é uma mudança de paradigma que está acontecendo agora. Seu benefício ambiental é claro e transforma custo em rendimento.

☞ Leia mais sobre Combustível Derivado de Resíduo no site da Estre Ambiental.

Eletricidade a partir do Biogás

Em meados de agosto [de 2014], a Estre inaugurou, na unidade de Guatapará (SP), uma usina de energia elétrica por biogás, a primeira das dez planejadas até 2017. Com capacidade para gerar 3 mil megawatts por hora (MWh), a planta pode abastecer uma cidade de 18 mil habitantes.

☞ Leia mais sobre conversão de biogás em eletricidade no site da Estre Ambiental.

A Biogás Energia Ambiental, que já atua no mercado há dez anos, tem hoje as usinas de Gramacho, no Rio de Janeiro, e São João e Bandeirantes, ambas em São Paulo. A São João, em São Miguel, opera no limite máximo de geração, 20 MWh (gerando energia para 150 mil habitantes). A usina extrai gás do aterro de mesmo nome – que recebeu 28 milhões de toneladas de resíduos até ser fechado em 2009, e vai gerar metano por de duas décadas – e da Central de Tratamento de Resíduos Leste (CTL), aberta em 2010 logo ao lado, também na estrada do Sapopemba.

Enquanto aguarda a construção do gasoduto que ligará o Aterro Dois Arcos, em São Pedro da Aldeia (RJ), à rede da Companhia Estadual de Gás do Rio de Janeiro (CEG-Rio), previsto para 2015, a Usina de Tratamento de Biogás dará outro fim para o biogás. Além de comprimir e entregar o gás gerado a um consumidor industrial, vai usá-lo como gás natural veicular (GNV) na sua frota de carros e caminhões de lixo. Os oito municípios da Região dos Lagos, atendidos pelo aterro, representam melhor a realidade do mercado de lixo brasileira do que as grandes capitais do país.

☞ Leia mais sobre a Usina de Biogás do Aterro Dois Arcos no site da Ecometano.

Construção civil

Embora se possa aproveitar de diferentes formas o gás dos aterros, é crucial fazer cada vez mais materiais retornarem à cadeia de produção. Constituído em 2007, o Consórcio Pró-Sinos, que reúne 27 dos 32 municípios da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos (RS) – onde vivem 1,7 milhão de pessoas – apostou em outra solução para outro grande problema ambiental: construiu uma usina de beneficiamento de resíduos da construção civil, em São Leopoldo. A construção civil é o maior gerador de lixo da economia moderna.

O entulho levado para lá é processado para se tornar brita, areia reciclada, bica corrida (brita com granulação maior) e material para aterro. O produto mais barato é a areia, que custa[va, em 2014] R$ 28 por metro cúbico para particulares, R$ 24 para municípios em geral e R$ 20 para municípios associados. Desde que a usina entrou em operação, em dezembro de 2013, o consórcio recebe 16% do faturamento da empresa que ganhou a concessão de 20 anos do negócio.

☞ Leia mais sobre a Usina de RCC no site do Consórcio Pró-Sinos.

Compostagem: biofertilizantes

A compostagem transforma os restos orgânicos em biofertilizantes e é indicada para municípios pequenos, pelo tipo de lixo que geram e pela maior demanda por adubo. Segundo Kozerski, isso não traz lucro direto, principalmente sem bioaceleradores e biodigestores (tecnologias mais novas nessa área), mas aumenta a vida útil do aterro e sobretudo o retorno do investimento feito nele. Outra forma de estender a vida útil do aterro é fazer uma boa coleta seletiva para reciclagem, porque assim as prefeituras podem levar menos coisa ao aterro e reduzir seus gastos com transporte.

Rubem Alves: "as escolas dão a faca e o queijo, mas não dão a fome"

Ricardo Prado. Revista Nova Escola nº 152, de maio de 2002. Artigo Só aprende quem tem fome.

O psicanalista e educador [Rubem Alves] diz que nossas escolas dão a faca e o queijo mas não despertam a curiosidade das crianças. Para ele é preciso fugir dos programas rígidos.

[...] Rubem Alves recebeu o editor especial Ricardo Prado em Campinas para falar sobre a perda de tempo nos programas curriculares escolares e sobre como transformar pequenos assombros em aulas produtivas.


NOVA ESCOLA - Nós vivemos uma época de muita violência, com atentados e guerra lá fora e assassinatos e seqüestros aqui no país. Como o professor pode trabalhar essa questão?

Rubem Alves - Nossos professores são de matérias e a violência não faz parte de nenhum currículo; então, ele diz: Isso não está no programa e nós precisamos cumpri-lo. Essa é uma das aberrações do nosso sistema educacional. Tudo vai depender da sensibilidade do profissional, de sua capacidade de pensar outras coisas que não sejam os conteúdos. Se ele for extremamente competente só na sua disciplina, será incapaz de responder às questões provocadas pela onda de violência. A grande pergunta é a seguinte: nós estamos formando educadores com competência para lidar com situações não previstas? Conhecer o programa é fácil; complicado é conhecer a vida.

 

NE - O senhor acha que os programas são muito limitadores?

Alves - Sim. Se alguém que leciona Matemática dissesse que sua cabeça só sabe pensar números estaria fazendo uma declaração de incompetência humana para viver. A Matemática é apenas uma pequena ferramenta para lidar com certos problemas. Sou a favor de acabar com os programas. Estou voltando de Alagoas, onde fiquei observando uns meninos lidando com pescadores. Andando pela praia comecei a pensar o currículo que eu montaria para estudar com aqueles garotos a estrutura das pedras, das conchas, as águas-vivas, os peixes, as redes, os barcos, o vento, a meteorologia. Se você chega lá e diz hoje vamos estudar análise sintática, não tem nada a ver com a vida deles, eles não vão se interessar. Por esse mesmo motivo, sou contra laboratórios dentro de escolas. Na verdade, eles são uma boa maneira de enganar os pais, que ficam impressionados com os aparelhos, as luzes etc. Mas contam uma mentira, porque ciência não se faz dentro de um quartinho; se faz em todas as situações da vida, com cérebro e olho. Aquele monte de instrumentos e frascos só tem a função de melhorar o olho, mais nada! É preciso que os aprendizados estejam ligados às situações vividas, caso contrário tudo é esquecido.

NE - Os pais colocariam seus filhos num colégio com um modelo de ensino baseado em situações vividas, como o senhor defende?

Alves - Os pais, muitas vezes, são os piores inimigos da educação. A maioria não está interessada no aprendizado dos filhos. Só querem que eles passem no vestibular. Eu até compreendo, porque eles são movidos pela ilusão de que entrando na universidade seus filhos terão um diploma e isso vai garantir uma sobrevivência econômica digna - o que, aliás, não é verdade. O Ministério da Educação registra o aumento de matrículas nas universidades. Por quê? Porque educação é um negócio muito bom, todo mundo quer ter educação, ganhar dinheiro. Só que não há emprego para todo esse pessoal que está se formando. Veja o caso dos médicos aqui na região de Campinas, onde existem cursos na PUC Campinas, Unicamp, Universidade de Bragança e Jundiaí. Por ano, elas devem colocar no mercado uns 400 médicos - e eles não encontrarão trabalho.

NE - Voltando à questão da aprendizagem, como nós descartamos aquilo que é inútil?

Alves - Eu costumo brincar que o corpo é muito mais inteligente que a cabeça e ele carrega duas caixas. Uma é a "caixa de ferramentas", com tudo de que precisamos para resolver questões práticas. Só carregamos as ferramentas necessárias para as situações que estamos vivendo. Por exemplo, é idiotice um sujeito levar um furador de gelo para o deserto. Então, o corpo seleciona o que é realmente útil. Na segunda caixa estão os brinquedos, tudo aquilo que, não sendo útil, nos dá prazer e alegria: música, poesia, literatura, pintura, culinária, a capacidade de contemplar a natureza, de identificar a beleza nos jardins. Essas coisas não servem para nada, mas compõem a felicidade humana. Quem não as tem é uma pessoa bruta, estúpida, sem sensibilidade. Tudo o que não é ferramenta nem brinquedo é esquecido. Isso faz parte da sabedoria do corpo.

NE - Nossos professores trabalham mais com a "caixa de ferramentas"?

Alves - Eles nem sequer fazem a seleção correta das ferramentas. Como a gente aprende a lidar com elas? Eu aprendi a manejar um canivete porque vi meu pai descascando uma laranja e tive inveja daquilo. Ele então me ensinou a fazer o mesmo. Quando você busca ferramentas como resposta para problemas vitais, elas são maravilhosas e necessárias - e você percebe que não pode viver sem elas. Na escola, porém, o aluno entra numa oficina e dizem para ele: Vamos aprender o que é martelo, serrote e prego. As ferramentas são apresentadas de maneira abstrata e divorciada da vida e isso é chato.

NE - Se a "caixa de ferramentas" é mal trabalhada, que dizer da "caixa de brinquedos"? Ela poderia trazer mais alegria à aprendizagem?

Alves - Na realidade, nossa educação dá atenção praticamente zero à "caixa de brinquedos". Mas note que a alegria não está só nela. É uma delícia saber usar uma ferramenta. Quando a gente era pequeno achava maravilhoso bater um prego na madeira. Usar o martelo com competência dava alegria. Um cozinheiro quando corta uma cebola chora, mas se sente feliz porque está usando com competência uma ferramenta. Nietzsche dizia que todos nós temos desejo de poder e isso não significa querer ser um general ou o presidente da República. Ele está dizendo que o homem quer ter habilidades para controlar a vida. E quanto mais você domina o poder, mais pode viver. As ferramentas dão esse poder e, sendo assim, são fonte de alegria. Mas eu preciso desejar fazer a coisa. Se for obrigado, não terei prazer.

NE - Essa alegria nascida da manipulação do conhecimento pode ser também física ou é apenas intelectual?

Alves - O filósofo francês Gaston Bachelard tem um texto que diz que somos uma civilização ocular. Trabalhamos e conhecemos com os olhos, não com as mãos. Às vezes eu brinco que os pensamentos começam com as mãos, estão ligados àquilo que a gente faz. As escolas, porém, estão concentradas apenas em atividades cerebrais. Falam em construtivismo, mas não o praticam. Aliás, todo mundo acha que isso é uma novidade, mas o Giambattista Vico, um filósofo do século 16, já falava que só podemos conhecer aquilo que construímos, com as mãos ou com a cabeça. Se a questão é essa, eu devo construir não só intelectualmente mas também de forma prática. É isso que desenvolve o prazer de fazer as coisas.

NE - Uma boa aula começaria, então, com um enigma?

Alves - Antes de mais nada é preciso seduzir. Eu posso iniciar uma aula mostrando uma casca vazia de caramujo. Normalmente ninguém presta atenção nela, mas é um assombro de engenharia. Minha função é fazer com que os alunos notem isso. Os gregos diziam que o pensamento começa quando a gente fica meio abobalhado diante de um objeto. Eles tinham até uma palavra para isso - thaumazein. Nesse sentido, a resposta é sim, pois aquele objeto representa um enigma. Você tem a mesma sensação de quando está diante de um mágico, ele faz uma coisa absurda e você quer saber como ele conseguiu aquilo. Com as coisas da vida é o mesmo. Ficamos curiosos para entender a geometria de um ovo ou como a aranha faz a teia. Estou me lembrando da Adélia Prado, que diz assim: Não quero faca nem queijo, eu quero fome. É isso: a educação começa com a fome. Acontece que nossas escolas dão a faca e o queijo, mas não dão a fome para as crianças.

NE - O hábito da leitura é um "estimulante de apetite"?

Alves - Eu digo que a educação teria completado sua missão se conseguisse despertar o prazer de ler. Por que os alunos não gostam de leitura? Primeiro porque a escola faz questão de estragá-la. E a leitura deve ser uma coisa solta, vagabunda, sem ter de fazer relatório. Ler um texto só para responder a um questionário de compreensão é horrível, estraga tudo. Eu tenho aconselhado as prefeituras e as instituições a desenvolver concertos de leitura, como existem os de piano. Para um concerto, todos têm de saber o texto praticamente de cabeça e para isso têm de ensaiar. Lendo, aprendem a gostar.

NE - Certa vez o senhor fez uma metáfora entre culinária e texto, mostrando que tem gente que presta mais atenção no prato lascado do que no sabor da comida. Isso vale para os professores?

Alves - Essa coisa que eu contei do sujeito que prestava atenção na lasca do prato e não no sabor da comida é verdade. Tem uma pessoa aqui em Campinas cujo esporte preferido é escrever longas cartas para os cronistas de jornal corrigindo os erros de português. Para mim, a questão da grafia certa ou errada é acidental. Penso como o Patativa do Assaré, que diz: Eu acho melhor falar errado dizendo a coisa certa do que falar certo dizendo a coisa errada. A grande preocupação de quem educa deve ser o aluno, não a disciplina. E ele deve estar atento não às palavras, mas ao movimento do pensamento da criança. Mas esse negócio de prestar atenção no vôo do pensamento me leva a outra questão. Nossas autoridades educacionais acham que vão melhorar a qualidade do ensino com cursos de capacitação que, sistematicamente, dão mais conhecimento para os professores. O que é preciso mudar é a cabeça deles. Nietzsche, meu filósofo favorito, dizia que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. Ou seja, o educador é parte de uma tarefa mágica, capaz de encantar crianças e adolescentes, o que é bem diferente de simplesmente dar aula. Dar aula é só dar alguma coisa. Ensinar é muito mais fascinante.

Quer saber mais?

Livros de Rubem Alves:

  • Entre a Ciência e a Sapiência, 148 págs., Ed. Loyola;
  • Filosofia da Ciência, 221 págs., Ed. Loyola;
  • A Escola com que Sempre Sonhei sem Imaginar que Pudesse Existir, 120 págs., Ed. Papirus.

Nova Escola: "é errando que a gente aprende"

Ricardo Prado. Revista Nova Escola nº 144, de agosto de 2001. Artigo É errando que a gente aprende.

O sociólogo e escritor [Pedro Demo] diz que os professores brasileiros ainda acham que seu papel é esclarecer dúvidas, não provocá-las

Saído da rigidez de um seminário de franciscanos, o sociólogo catarinense Pedro Demo chegou à Alemanha para estudar na Universidade de Saarbrücken. Deixou no caminho um violino e a vocação religiosa -- e caiu no ambiente acadêmico libertário da década de 60, no qual nem as aulas eram obrigatórias. Para sua surpresa, tamanha liberdade não atrapalhou o doutorado. Ao contrário. Provou-lhe, do ponto de vista do aluno, que o conhecimento se forma de dentro para fora. Retornou ao Brasil e, durante algum tempo, escandalizou os bispos da CNBB ao revelar dados sociais do país -- era pago para isso, embora alguns religiosos conservadores pudessem imaginá-lo como o próprio "demo" nessa função. Migrou para o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e se tornou professor titular da Universidade de Brasília. Nos mais recentes de seus 48 livros, ele vem pregando a reforma radical de nossas escolas, que considera demasiado instrucionistas. Com seu jeito provocador, garante que errar é mais que humano, é pedagógico.


NOVA ESCOLA -- Por que o senhor usa o termo reconstrutivismo, em vez do construtivismo proposto por Jean Piaget?

Pedro Demo -- Porque as pessoas sempre recriam algum conhecimento. Ele é criado sobre algo que já existe. Nós não podemos colocar o conhecimento dentro da cabeça do aluno, pois o processo informativo se dá de dentro pra fora. O professor deveria ter, na verdade, uma função de motivação, de estímulo, de avaliação e de orientação. E, se estamos falando em reconstrutivismo, é preciso fazer uma crítica à aula que é meramente expositiva, que nada mais é que um café velho passado para a frente.

Demo -- A aula precisa ser colocada em seu devido lugar. É um instrumento de organização, introdução e arrumação das coisas. Deveria ser um elemento didático supletivo, não o centro da aprendizagem. O aluno só aprende se ler, pesquisar e elaborar. Com isso, vem à tona também o jeito como ele vê o mundo e, conseqüentemente, forma-se sua autonomia, à medida que mexe com o conhecimento. E nós sabemos hoje que conhecimento é vantagem comparativa. Eu costumo brincar que enquanto o Primeiro Mundo pesquisa, o Terceiro Mundo dá aulas.

Demo -- Nós precisamos criar um ambiente de aprendizagem na classe, onde o aluno possa reconstruir experimentos ou até mesmo conceitos. Imaginemos, por exemplo, o professor que está dando uma aula sobre a Guerra do Paraguai. Ele pode oferecer aos alunos vários livros didáticos ou históricos sobre a guerra, inclusive um publicado no Paraguai, para ter um ponto de vista completamente diferente. Se aqui nós temos a Guerra do Paraguai patrioteira, certamente eles têm versões bem diversas. E também existem as interpretações mais recentes, feitas por historiadores brasileiros, que contestam a visão ufanista que era dominante até pouco tempo atrás. Se você dá material para o aluno comparar e interpretar, já criou um ambiente de aprendizagem centrado na dúvida -- que pode incluir as do próprio professor.

Demo -- Não é possível retirar da aprendizagem o sentido intensamente participativo de quem aprende. Aprender é estar completamente envolvido naquilo, é estar presente -- não ser um objeto da fala do outro, das idéias do outro. Isso não tem nada de novo, Sócrates já falava disso. Para criar mentes autônomas, é preciso aprender a pensar. Por isso, é inacreditável que, depois de Piaget, a escola ainda prossiga meramente dando aulas. O professor está cuidando mais do currículo do que da aprendizagem do aluno, porque ele raramente parte das necessidades desse aluno. Por exemplo, um professor de Matemática do 1º ano do Ensino Médio que começa dando a matéria sem antes avaliar quanto seus alunos sabem, certamente já excluiu, numa tacada, metade da classe. Em vez de partir do aluno, ele despeja o currículo. Isso é reflexo de uma escola que se organizou unicamente para dar aulas.

Demo -- O professor deve deixar seus alunos "quebrarem a cabeça" em vez de oferecer a solução. É como fazem os japoneses, que praticam brilhantemente a argumentação. Apresenta-se um problema e os alunos tentam achar a solução por diferentes percursos. Às vezes, aquele que nao conseguiu encontrar a solução descobre um percurso interessante, que pode ser explorado didaticamente. Dificilmente um professor brasileiro age assim, até porque carrega dois grandes problemas, dos quais não tem culpa nenhuma. Primeiro, as nossas faculdades de Pedagogia são fraquíssimas, não trabalham com profundidade a questão da aprendizagem nem estão centradas nos três grandes eixos, formados pelo ensino de Filosofia, Linguagem e Matemática. Em segundo lugar, o professor tem uma remuneração extremamente baixa e desmotivante. Com o que ganha, não consegue se informar nem aprender.

NE -- Em seu livro Conhecer & Aprender, ao comparar os sistemas de ensino da Alemanha, dos Estados Unidos e do Japão, o senhor comenta a atitude favorável do professor japonês diante do erro do aluno. Como age o professor brasileiro na mesma situação?

Demo -- O erro não é um corpo estranho, uma falha da aprendizagem. Ele é essencial, é parte do processo. Ninguém aprende sem errar. O homem tem uma estrutura cerebral ligada ao erro, é intrínseco ao saber-pensar a capacidade de avaliar e refinar, por acerto e erro, até chegar a uma aproximação final. Para quem tem uma idéia da aprendizagem como produto final, o erro está fora dela; mas para quem a vê como um processo, ela faz parte. O professor brasileiro tenta, em geral, expelir o erro, lutar contra ele. A própria existência da prova demonstra que não se sabe trabalhar o erro. Quem errou na prova deve fazer outra em vez de receber uma nota pelo que apresentou nela.

NE -- Muitos professores argumentam que, sem o poder da nota, vão perder a autoridade diante de seus alunos...

Demo -- Quem lida com conhecimento, lida com poder. Então, pela própria posição que tem na escola, o professor maneja o poder. O que nós, professores, devemos combater é o poder prepotente, que faz da prova uma arma e da presença em aula, uma exigência para o aluno não rodar. Nós não temos a coragem de dizer "vem para a minha aula quem gostar", porque temos medo de ficar falando sozinhos. Então, o professor precisa desse tipo de cavalo de Tróia.

[...]

NE -- Qual deve ser a postura correta diante da dúvida do aluno?

Demo -- Piaget dizia uma coisa que ainda hoje escandaliza muita gente: se você responde à dúvida da criança, evita que ela aprenda. Veja, é uma idéia preciosa. No Brasil, se acredita que professor existe para tirar dúvida. É preciso conviver com a dúvida, pois ela está no centro da aprendizagem. Isso não quer dizer aceitar qualquer erro, mas saber que você não pode pensar pelo aluno. Isso o imbeciliza. Quando o professor, em vez disso, incentiva a busca de argumento e contra-argumentos, ele desenvolve várias coisas, desde a autonomia até o respeito ao outro, pois é preciso parar e escutar o argumento do colega. Aprender a criticar o outro com base lógica ou aceitar a crítica -- tudo isso é um enorme exercício de cidadania. O bom professor não é aquele que soluciona os problemas, mas justamente o que ensina seus alunos a problematizarem.

[...]

Quer saber mais?

  • Conhecer & Aprender - Sabedoria dos Limites e Desafios, Pedro Demo, 152 págs., Ed. Artmed;
  • Ironias da Educação - Mudanças e Contos sobre a Mudança, Pedro Demo, 102 págs., Ed. DP&A;
  • Educação e Desenvolvimento, Pedro Demo, 96 págs., Ed. Papirus;
  • Saber Pensar, Pedro Demo, 159 págs., Ed. Cortez.

Psique - Vagas nas universidades versus vagas no Mercado de Trabalho

Roberta de Medeiros (jornalista). Artigo "Caos Urbano - O médico, psicoterapeuta e mestre em Neurociências e Comportamento pela USP, Geraldo Possendoro, comenta o impacto da ansiedade crônica na população urbana". Revista Psique Ciência & Vida nº 75, de março de 2012. Editora Escala, São Paulo-SP.

Psique - Uma pesquisa mostrou que a maior causa de depressão em jovens universitários era o medo de não conseguir uma colocação no mercado de trabalho após a conclusão do curso...

Possendoro - Vejo uma nuvem imensa de frustração dos jovens hoje formados nas diversas especialidades, que não terão acesso ao mercado de trabalho, que não é capaz de absorver tantos profissionais. A realidade deles será o desemprego. Com isso, essas pessoas serão apartadas da sociedade de consumo, o que é desfavorável, porque a saúde mental depende do sentimento de pertencimento a um grupo, da inclusão na vida social. A sensação de inclusão contribui para garantir a proteção psicológica do indivíduo e a manutenção de sua segurança interna. Do contrário, o resultado é uma busca perigosa de fontes de alívio autodestrutivas, o que se configura como uma doença psicossocial [que são as compulsões alimentares, adição a drogas, compulsão por trabalho, a promiscuidade, etc].

Superinteressante: maconha faz mal? Vicia?

Denis Russo Burgierman. Superinteressante, edição especial "A Revolução da Maconha: o mundo começou a ver a planta de outro jeito. Entenda por quê.", 2014. Artigo "Uma História Simples -- e Errada: por 40 anos acreditamos que a questão da maconha era simples e criamos regras simples para lidar com ela. Deu muito errado. Não é assim que se lida com complexidade"

Maconha mata? Não mata, nunca. Faz mal, sim, para alguns; para uns poucos, ela é perigosíssima: pode aumentar o risco de surtos psicóticos e atrapalhar muito a vida. Mas, para outros, ela faz até bem. Para uns poucos, maconha é um remédio, fundamental para viver. E, para muita gente, quando usada de maneira responsável, maconha não faz nem mal nem bem. Quimicamente, ela se revelou muito mais complexa do que se imaginava -- é uma mistura complicadíssima de dezenas de diferentes substâncias, e cada uma delas age de maneira diferente em cada pessoa. Maconha não é inerentemente má -- ela é, como qualquer objeto complexo, um vasto conjunto de coisas boas e ruins.

"Maconha não vicia"? Mito!

Carol Castro. Superinteressante, edição especial "A Revolução da Maconha: o mundo começou a ver a planta de outro jeito. Entenda por quê.", 2014. Artigo "Mitologia Canábica: nem tudo que se diz por aí sobre os males da maconha para a saúde é verdade. Saiba o que diz a ciência sobre algumas das afirmações mais comuns - e falsas - sobre a erva".

Cerca de 9% das pessoas que experimentam maconha acabam se tornando dependentes em algum momento da vida, segundo um estudo realizado em 2006. Essas pessoas não conseguem controlar sua vontade de fumar. O risco de dependência aumenta para 17% se o uso começa na adolescência. O estudo comparou a maconha com outras drogas e chegou ao resultado da Tabela 1.

Interromper o uso causa síndrome de abstinência em pelo menos metade dos dependentes. Quando isso acontece, os sintomas mais comuns são: ansiedade; insônia; irritabilidade; distúrbios de apetite; e depressão (nada de tremedeiras ou convulsões). Eles surgem entre o segundo e sexto dia sem a droga e desaparecem até o fim da segunda semana.

Risco de dependência
Maconha 9%
Anfetaminas 11%
Álcool 15%
Cocaína 17%
Heroína 23%
Nicotina 32%
Tabela 1.

Fonte: James Anthony, The Epidemiology of Cannabis Dependence (2006)

Planeta - Fracking e Gás de Xisto: porquê estão sendo usados?

Eduardo Araia. Revista Planeta, nº 491, de setembro de 2013. Artigo Esta Pedra Vai Mudar o Mundo?, originalmente patrocinado pela Chevrolet (General Motors, EUA).

Quem diria que os Estados Unidos, o maior consumidor de energia do mundo, poderiam se tornar autossuficientes em 2035? Pois esse foi o prognóstico da Agência Internacional de Energia (IEA, em inglês) no seu relatório de 2012, o World Energy Outlook, ao analisar as transformações por que o país vem passando desde que uma rocha -- o xisto -- e um polêmico meio de extrair petróleo e gás -- o fraturamento hidráulico, mais conhecido como fracking -- ganharam peso na produção energética americana. [...]

[...]

Os norte-americanos possuem enormes reservas do mineral, mas até 2006 os métodos disponíveis para extrair combustível da rocha eram muito caros. Naquele ano, porém, empresas de petróleo e gás começaram a usar o fracking: o fraturamento hidráulico, ou fracking, é conhecido desde os anos 1940, mas nos últimos anos o aumento nos custos da exploração de petróleo e gás viabilizou economicamente seu uso. O resultado não tardou: já existem mais de 20 mil poços em operação no país, e o gás natural, que até 2000 representava 1% da produção de energia do país, saltou para 30% em 2010 e poderá chegar a 50% em 2035.

[...] Os suprimentos de gás natural agora economicamente recuperáveis do xisto nos EUA poderiam acomodar a demanda doméstica do país por gás natural nos níveis atuais de consumo por mais de 100 anos, anunciam os pesquisadores Michael McElroy e Xi Lu, da Universidade de Harvard, no artigo Fracking's Future, publicado na edição de fevereiro de 2013 da Harvard Magazine.

Embora favorável à energia renovável, o governo do presidente Barack Obama apoia[va] a produção do gás de xisto, mesmo com a controvérsia ambiental que cerca a questão, por três motivos:

  1. Em primeiro lugar, o gás natural é o menos poluente dos combustíveis fósseis, uma vantagem para um país que usa carvão e petróleo para gerar energia. A Agência Ambiental Americana (EPA, na sigla em inglês) credita a melhora geral da poluição atmosférica no país nos últimos anos ao aumento no aumento do uso do gás de xisto;
  2. Em segundo lugar, há vantagens econômicas indiscutíveis: o gás de xisto fez o preço do insumo cair nos EUA de US$ 12 para US$ 3 por milhão de BTU; para comparar, o preço do gás convencional no Brasil custa entre US$ 12 e US$ 16 por milhão de BTU (sigla para British Termal Unit, "unidade térmica britânica", medida para gás). A queda de preços faz os EUA importarem menos petróleo, explica o físico José Goldemberg, uma vez que o gás vem substituindo derivados do petróleo tanto na indústria quanto no transporte. Os americanos passaram até a exportar gás de xisto;
  3. A terceira razão é geopolítica: a autossuficiência energética livraria os EUA da dependência de fornecedores problemáticos e/ou potencialmente hostis, como os países árabes e a Venezuela. Como efeito colateral, a saída do megacomprador norte-americano baixaria os preços do petróleo e até poderia inviabilizar alguns projetos de produção, salienta Goldemberg: Até a exploração do pré-sal no Brasil poderia ser afetada pela queda dos preços produzida pelo gás do xisto.

Paraná, Brasil

O Brasil explora o xisto em escala industrial desde 1972, quando a Petrobrás abriu uma refinaria de Industrialização do Xisto, a SIX, em São Mateus do Sul (PR). A cada dia, cerca de 7 mil toneladas da rocha são retiradas do solo por técnicas de mineração, moídas e submetidas a altas temperaturas. Desse processo são obtidos diariamente 4 mil barris de petróleo, além de derivados como o enxofre.

A atividade apresenta 2 impactos ambientais salientes:

  1. processo de abertura das minas: implica a retirada da vegetação e do solo;
  2. processamento e refino: emite gases-estufa.
Revista Planeta. Edição nº 512, de agosto de 2015.

A matéria "Esta pedra vai salvar o mundo?", sobre o xisto, publicada na edição 491 de PLANETA (setembro de 2013), rendeu à revista o Prêmio Petrobras de Jornalismo, na categoria Petróleo, Gás e Energia -- Regional São Paulo e Sul. O editor executivo da revista, Eduardo Araia, que assina o texto, recebeu o troféu das mãos de Marcos Ramos, gerente setorial da imprensa nacional da Petrobras, em cerimônia realizada na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, em 30 de junho.

Superinteressante - Alcoolismo: malefícios para a saúde

Carol Castro. Superinteressante, edição especial "A Revolução da Maconha: o mundo começou a ver a planta de outro jeito. Entenda por quê.", 2014. Artigo "Mitologia Canábica: nem tudo que se diz por aí sobre os males da maconha para a saúde é verdade. Saiba o que diz a ciência sobre algumas das afirmações mais comuns - e falsas - sobre a erva".

Todos os problemas são decorrentes do uso quase diário ao longo de anos, a não ser no caso do item "comportamento violento".

Sistema cardiovascular
Fator de risco importante para:
Doenças mentais
Aumenta em oito vezes a incidência de doenças psicóticas em homens.
Em mulheres, três vezes.
Gravidez
Causa síndrome alcoólica fetal, quadro que inclui retardo mental, limitações de crescimento e diversas deformações na face. Mais comum no caso de consumo pesado no primeiro trimestre de gestação, mas não há dose segura.
Fígado
Produz:
Principal causa de mais de 30% dos casos de câncer hepático.
Pâncreas
Causa de cerca de 70% dos casos de pancreatite. A versão aguda pode ser fatal.
Sistema reprodutor
Fator de risco de disfunção erétil.
Reduz a fertilidade de homens e mulheres.
Câncer
Causa comprovada de diversos tipos de câncer:
Sistema respiratório
Causa alterações nos alvéolos que podem causar síndromes respiratórias agudas em caso de pneumonia.
Comportamento violento
Pode ser relacionado à maior agressividade, especialmente em pessoas com tendência para reprimir sentimentos negativos.
Está associado à violência doméstica em diversos estudos.

Fontes

  • Robert O'Shea e outros. Aasld Practice Guidelines, Alcoholic Liver Disease (2010);
  • Arthur Klatsky. Alcohol and Cardiovascular Health (2010);
  • M. Herreros-Villanueva e outros. Alcohol Consumption on Pancreatic Diseases (2013);
  • Robert Gable. Comparison of Acute Lethal Toxicity of Commonly Abused Psychoactive Substances (2004);
  • A. Bortolotti. The Epidemiology of Erectile Disfunction and its Risk Factors (2003);
  • A.Y. Tien. Epidemiological Analysis of Alcohol and Drug Use as Risk Factors for Psychotic Experiences (1990);
  • K.R. Muthusami. Effect of Chronic Alcoholism on Male Fertility Hormones and Semen Quality (2005);
  • Jan Eggert. Effects of Alcohol Consumption on Female Fertility During an 18-Year Period (2004);
  • OMS. Alcohol and Mental Health Fact Sheet;
  • Paolo Boffetta. Alcohol and Cancer - Review (2006);
  • Thor Norström. Alcohol, Suppressed Anger and Violence (2010).

Superinteressante - maconha medicinal: aplicações

Tarso Araujo. Superinteressante, edição especial "A Revolução da Maconha: o mundo começou a ver a planta de outro jeito. Entenda por quê.", 2014. Artigo "Tarja Verde: cada vez mais pesquisas confirmam a utilidade da maconha para o tratamento de uma grande variedade de doenças. Apesar de a lei brasileira prever o uso medicinal, a falta de regulamentação impede sua aplicação no Brasil."

As aplicações da maconha medicinal podem ser divididas em três níveis, segundo a qualidade das evidências disponíveis em cada caso.

Nível A: recomendação baseada em consistentes evidências científicas, com testes em pacientes
Nível B: recomendação baseada em evidências científicas limitadas, com testes em pacientes
Nível C: recomendação baseada em consenso médico ou pela prática clínica, sem testes em humanos
Futuro: possíveis recomendações, em fase de pesquisa básica

Fonte: JABFM - Journal of the American Board of Family Medicine.

Editora Monstro dos Mares: conheça!

Agência de Notícias Anarquistas, em 29 de novembro de 2018.
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Criamos a Monstro dos Mares dentro de uma garagem numa noite fria de inverno

Trocamos uma ideia com Vertov Rox, que faz parte da Editora Monstro dos Mares. Confira a seguir!

Agência de Notícias Anarquistas > Como se deu a formação da Editora Monstro dos Mares? Fale um pouco sobre sua trajetória…

Vertov Rox < Em Florianópolis participávamos de uma iniciativa que se chamava “Centro de Inovação Social dos Araçás”, um espaço que reunia pessoas e comunidades em torno do uso de tecnologias livres para o bem-comum. Nessa oportunidade realizamos diversas conversas sobre segurança, privacidade de dados, etc. Era uma época quente, onde pipocavam notícias sobre a Wikileaks, Marco Civil da Internet no Brasil, Sopa/Pipa e com isso realizamos algumas oficinas de WordPress para Movimentos Sociais e ativistas. Foi então que surgiu a necessidade de imprimir materiais e fizemos a tradução do “Cultura de Segurança: Um manual para ativistas” logo depois disso fui para Cachoeira do Sul, onde junto com algumas amizades criamos a Monstro dos Mares dentro de uma garagem numa noite fria de inverno.

ANA > Em que ano foi isso?

Vertov Rox < Essa parada em Florianópolis foi entre os anos 2009 e 2011, nessa época havia o CMI-Floripa bem ativo e a Rádio Tarrafa FM Livre, duas iniciativas que nos ajudaram e inspiraram muito, com pessoas que temos muito carinho e gratidão por apresentar coletivos e redes horizontais, autogestionárias e de inspiração libertária. A criação da editora em Cachoeira do Sul foi no inverno de 2012 com alguns compas: Khynhu (In Memorian), Lerônimo Burns, Patrick e eu (Vertov Rox.) e de lá pra cá várias pessoas se somaram e outras partiram também, mas cada uma deixou sua contribuição e sua marca.

ANA > O porquê do nome, “Monstro dos Mares”?

Vertov Rox < A ideia surgiu porque estávamos buscando textos que tirassem os pensamentos da espuma da superficialidade e trouxessem para o fundo. É uma analogia ao que esperamos que os livros façam nas nossas cabeças e práticas. Claro que por ter surgido na “ilha”, a piada ficava mais engraçada. (risos)

ANA > E onde ela funciona?

Vertov Rox < A editora é meio nômade assim como cada uma de nós. Já estivemos em Florianópolis (SC), Cachoeira do Sul (RS), Porto Alegre (RS) e União da Vitória (PR). Nos próximos meses partimos para Ponta Grossa também no Paraná. Mas várias pessoas colaboram com as tarefas de revisão por pares, traduções e com textos originais de várias partes do país. A maioria de nossas impressões partem daqui, fazemos tudo o que é possível, tradução, revisão, diagramação, impressão, corte, cola, grampo, finalização, etc. Faz 14 meses que trocamos de impressora e ela realiza a contagem: foram 114.208 impressões (contagem em 24 de novembro de 2018). Para os eventos de Novembro nós fizemos no mês de Outubro cerca de 380 livros para vender e distribuir gratuitamente. Curiosamente voltamos para casa sem praticamente nada já no primeiro evento, o “I Colóquio de Pesquisa e Anarquismo”, na cidade de Florianópolis e infelizmente não deu tempo para rodar mais livros e chegar em SP, Curitiba e no DF onde estão acontecendo eventos anarquistas.

ANA > Há ponto de venda física? E loja virtual?

Vertov Rox < Com muita dificuldade ao longo dos anos estamos tentando nos habituar com essa coisa de vender livros, já utilizamos diversas ferramentas para isso e nos últimos tempos decidimos abrir mão de manter servidores próprios, ficar alimentando plugins, verificando segurança e essas coisas todas. Decidimos utilizar uma lojinha virtual bem comum e canalizar nossos esforços para produzir mais materiais. Então, por enquanto as vendas são somente de mão em mão ou online na nossa página, onde quase todos os títulos estão com o link para donwload ou com a origem dos textos para quem prefere ler o PDF. A loja reúne textos de outros coletivos publicadores como a Editora Subta, Deriva, Raividições, Contraciv e sempre que possível recebemos livros e zines de nossas amizades para vender e distribuir gratuitamente.

ANA > Como funciona o processo de produção editorial da Monstro dos Mares?

Vertov Rox < O material produzido por nós, onde recebemos textos de minas, manos e monas, coletivos e singularidades passam por nosso conselho editorial onde as pessoas apresentam e discutem os textos. Atualmente somos três editores e dez integrantes científicos do conselho editoral. Na medida do possível dividimos as tarefas de preparação do texto, revisão, diagramação, etc.

Estamos tentando colocar a editora como uma alternativa de publicação de baixo e baixíssimo custo para quem produz textos acadêmicos sobre epistemologias dissidentes do século 21 que de alguma maneira se relacionam as questões anárquicas de nosso tempo. Teoria Queer, Feminismos, Giro Decolonial, Anticivilização, Cultura Hacker e outros.

Tudo isso surgiu porque percebemos que infelizmente muitas pessoas só estão encontrando espaço e disposição para suas produções dentro dos muros das universidades e todo os seus esforços para realizarem seus registros teóricos e práticos sobre o nosso tempo, o tempo que há, estão sendo lidos somente por seus orientadores, membros de bancas de avaliação e eventuais pesquisadoras que procuram por esses temas em repositórios acadêmicos.

Nossa editora está disposta em dar divulgação para esses trabalhos que podem contribuir na formação de pessoas interessadas num modo de compreensão de mundo autônomo, libertário, não-binário e anárquico. Reconhecemos que esse não é o processo mais simples, mas que garante a possibilidade de estabelecer vínculos com a tarefa de registrar o nosso tempo e fazer o livro impresso chegar para mais pessoas, preferencialmente grátis (temos uma rede de apoio onde as pessoas contribuem mensalmente para que possamos imprimir e enviar livros grátis para coletivos e singularidades). Ou em edições artesanais de baixo ou baixíssimo custo, para que a informação possa circular mais e mais.

ANA > Quais linhas editoriais orientam o catálogo da Monstro dos Mares? Priorizam a edição de textos marcadamente anarquistas?

Vertov Rox < No site, temos mais de 110 títulos divididos entre os livros e zines de nossa editora e aqueles arquivos marotos que se chegam até nós. Numa observação mais distraída, nem é possível perceber que há uma certa unidade de pós-anarquismo nos títulos que estão lá na lojinha, mas fazem parte de nossas escolhas e preferências que buscam compreender a anarquia não através de uma pecha pós-moderna ou pós-estruturalista, mas que se localiza dessa maneira em nossas pesquisas e interesses. Recentemente publicamos textos originais enviados ou selecionados por nós sobre Pixação, Geografia e Antropologia, sempre com uma relação próxima com uma escolha epistemológica pela anarquia, ainda que isso não passe por um entendimento de anarquismo ou mesmo de uma organização anarquista.

ANA > E quais gêneros vocês publicam?

Vertov Rox < Estamos em lançamento do livro “Manifesto Anarquista e outros escritos” do poeta espanhol Jesús Lizano, um anarquista que produziu muito e nosso amigo Jonas Dornelles realizou um trampo bacana de seleção dessas mais de mil páginas do autor e fez a tradução. Nossas editoras Claudia Mayer e Lívia Segadilha viraram o texto e tornaram esse título nosso segundo trabalho que problematizou a marcação binária de gênero e buscou por outras possibilidades linguísticas. Foi um desafio e tanto publicar um texto de literatura e estamos felizes por isso. Mas no geral, a Monstro dos Mares se posiciona como uma ferramenta de divulgação acadêmica e anárquica de epistemologias dissidentes, independente dos seus formatos.

ANA > Quais os principais títulos e autores publicados por vocês até agora?

Vertov Rox < A editora em sí possui poucos títulos e claro que na lojinha existem uma infinidade de textos. Da Monstro dos Mares, os títulos que despertam mais interesse são “Pixação: a arte em cima do muro”, “Ciberfeminsimo: Tecnologia e Empoderamento” e “Geografias Subterrâneas: Para ensinar uma prática geográfica nas trincheiras da anarquia”. Já os títulos que nós somente fazemos a impressão são: “Anarquismo no Século 21” do David Graeber por Coisa Preta Edições; “Bruxas parteiras e enfermeiras: Uma história de mulheres curandeiras” de Barbara Ehrenreich e Deirdre English por Bruxaria Distro e Editora Subta; e “Como a não-violência protege o estado” de Peter Gelderloos por Editora Subta.

ANA > No geral, publicar livros no Brasil não é fácil, os livros são caros, faltam leitores, livrarias… Editar livros anarquistas é mais complicado ainda, uma aventura constante?

Vertov Rox < De fato não é muito fácil, principalmente na questão de distribuição. Por mais que estejam surgindo diversas distribuidoras de livros independentes no Brasil, tem muita picaretagem também, gente que está nessa só porque a publicação independente é modinha para hipsters e tão aí explorando pequenos editores. Já fomos procurados por distribuidoras que exigem um desconto de 50% no preço de capa, a editora paga o frete pra enviar os livros para a distribuidora e o acerto é realizado 30 dias após a venda (se vender). Para quem depende dos livros para existir é impossível. Esse tipo de negociação é uma exploração e não concordamos nem um pouco com isso. Inclusive escrevemos um manifesto chamado “Não se corromper pra nóis já é vitória! Sobre o processo em curso de gourmetização dos livros independentes.”

Tá certo que tem um monte de playboy pagando de gatinho e criando editoras descoladas, com super acabamentos, edições luxuosas, etc. Algumas dessas novas editoras até que são bem ativistas e possuem catálogos invejáveis, mas será que não seria melhor se fizessem livros mais baratos?

Outra questão importante é que esses números sobre leitores, vendas e tudo mais são bem deficitários, pois computam somente os editores que fazem parte de associações de grandes editores de livros, números de grandes redes de varejo e não contemplam a quantidade de registros ISBN na Biblioteca Nacional, tampouco as editoras que não tem e não querem pagar 2.000 reais para serem associadas de uma entidade que só serve de grife ou formação de cartel. Também não estão nesses dados a quantidade de empréstimos em bibliotecas públicas, bibliotecas universitárias e quanto menos as bibliotecas independentes como são as comunitárias e de organizações sindicais, ocupas, federações, entre outras. E por fim e não menos importantes, nessa conta não entram os sebos, livros usados, vendedoras e vendedores ambulantes e gente como a gente que faz impressões domésticas, corta, cola e bota o livro para circular.

É lógico que gostaríamos de ter mais livrarias e que os livros fossem mais baratos, mas esta é uma crise do capital, não uma crise da cultura anarquista. Nós optamos por publicar livros anárquicos, onde ninguém está ganhando grana, estamos fazendo livros de baixo e baixíssimo custo para que mais pessoas possam ler e se cada militante que tiver uma impressora em casa e um pouco de paciência para lidar com ela, pode ter uma editora anarquista. Com isso poderíamos romper com a lógica de dependência das distribuidoras comerciais ou fantasiadas de independentes. Se cada rolê militante tivesse seu comitê de divulgação, impressão e banquinha de livros e zines, a nossa cultura libertária poderia chegar em mais mãos. Mas é uma questão de consciência e organização.

ANA > O panorama editorial anarquista vai bem, está crescendo? Nos últimos anos temos visto “muitos” lançamentos e iniciativas editoriais Brasil afora…

Vertov Rox < Tem rolado muita coisa mesmo e ficamos bem felizes com isso e tem muito espaço ainda. Vi recentemente numa entrevista que segundo dados da Unesco o ideal é uma livraria para cada 20.000 habitantes. Se quiser saber como isso funcionaria na prática, basta dar uma chegada na América Latina e ver a quantidade de centros sociais ocupados, livrarias independentes e libertárias que existem. A companheirada enche a mochila de livros e vai para o Uruguai, Chile, Peru, Argentina, trocam ideias e materiais, as editoras libertárias são bem próximas. Aqui, mal e mal a galera se conhece, quem dirá montar um foro de editoras libertárias ou uma rede. Acabamos fazendo isso meio que de ponta a ponta, trocando materiais com a Subta, Deriva, Bruxaria Distro, Heretica Editorial Lésbico-Feminista Independente, Nenhures, Edições Baratas e rolês que conhecemos as pessoas. Então se as pessoas se apropriarem dos processos tecnológicos de fazer livros e zines (acreditem, não é difícil, já foi muito pior), poderemos ter mais dezenas de editoras anarquistas ou de inspiração libertária.

ANA > Já pensaram em ter uma livraria própria, um local fixo, como vemos na Europa, Estados Unidos…?

Vertov Rox < Junto com algumas amizades já tentamos manter um espaço e foi um lindo desastre, conheço outros rolês que já tentaram também. Penso que é necessário mais envolvimento na manutenção e existência do espaço do que muitas pessoas estão dispostas. A grande máquina fumegante do capital arrebenta a capacidade de mobilização de muita gente e por fim vira um espaço tocado e frequentado sempre pelas mesmas pessoas. No momento estamos animadas em produzir mais livros. Para 2019 teremos um espaço livre de aluguel para colocar a impressora e a guilhotina. Acreditamos que isso já é um grande passo!

ANA > Vocês acham que os e-books eventualmente substituirão os livros impressos? Ou eles se completam?

Vertov Rox < Sobre os arquivos digitais, não somente os e-books como formato específico, são fundamentais para a difusão das ideias anárquicas e anarquistas, pois muita gente que está na guerra social realiza consultas e autoinstrução através desses textos antes de formar um grupo de afinidade, conhecer um coletivo ou se somar em alguma organização autônoma ou específica. Porém muitas vezes esses arquivos só fazem volume nos computadores das pessoas, pois aquela coleção “baixei mas nunca li” é uma das mais encontradas. Como disse Aragorn em seu maravilhoso manifesto “A necessidade de tinta no papel nas publicações anarquistas da atualidadeum livro ou zine impresso no fundo da mochila de anarquistas é mais importante para a difusão do anarquismo do que qualquer post no Facebook. Encontrar formas de divulgação do anarquismo que chegam efetivamente nas pessoas é passar pela tinta no papel.

ANA > Os livros históricos são muito importantes, mas os e as anarquistas não escrevem muito sobre história, e pouco sobre o mundo atual? E isso acontece não só no Brasil, no mundo todo…

Vertov Rox < É curioso, pois a maioria do que se tem publicado é sobre um anarquismo histórico e ainda há muito para pesquisar e publicar. Existe toda uma tentativa de resgate da história e da memória da presença de anarquistas no século 20. Ao mesmo passo, episódios importantes do nosso tempo já estão completando décadas como exemplo o surgimento da EZLN, Seattle, Gênova… Penso que ainda temos muito para descobrir da história do anarquismo e dos anarquismos, um exemplo interessante é a recente publicação sobre o processo da “Revolução Anarquista na Manchúria” de Emilio Crisi, publicado pela Faísca e também tem livros e zines sobre o que está acontecendo hoje em Rojava, como por exemplo o maravilhoso “Şoreşa Rojavayê: Revolução, uma palavra feminina” pela Biblioteca Terra Livre e o Comitê de Solidariedade à Resistência Popular Curda de São Paulo. E tem muito mais ainda para ser dito sobre diversas experiências, práticas, éticas e inspirações anarquistas de ontem e de hoje.

ANA > É possível traçar o perfil do “consumidor” de literatura anarquista hoje? No auge do anarquismo o trabalhador comum, o braçal, lia muito, não?

Vertov Rox < Não sei o que você quer dizer com “no auge do anarquismo”, pois na minha humilde opinião estamos vivendo um tempo muito frutífero do anarquismo e de inspirações anárquicas pelo mundo todo e que se fizermos o registro de nossas lutas poderemos escrever novos capítulos na história do anarquismo.

Mas voltando à sua pergunta, penso que as pessoas estão interessadas em descobrir as respostas para aquilo que elas acreditam como sociedade e que o anarquismo e as epistemologias dissidentes podem apresentar como chave de leitura. Vários reformismos já foram tentados, várias “mudanças por dentro” frustraram, várias “vanguardas”. Como disse aquele filósofo da fenomenologia, “permanecem como fantasmas as perguntas: Para quê? Para onde? E agora?”.

Os estudos marxistas, marxianos e pós-marxistas estão presentes nas universidades com um solo bem pavimentado e penso que as pessoas que se definem como anarquistas estão encontrando um espaço de articulação de mundo dentro da academia como pouco pudemos ver antes. É lógico que aqui precisamos fazer uma pausa e falar muito sobre nossos próprios privilégios e sobre as terríveis exclusões implicadas nessa juventude branca de classe média que vai às universidades estudar teóricos que em sua grande maioria são homens, cis, brancos, europeus e falecidos. Talvez este seja um bom momento para que as pessoas não-binárias e todas as dissidências possam ocupar as salas das universidades e torcer, sacudir, arejar e trazer novas pesquisas, novo fôlego para a academia. E se há um perfil, posso pensar que são minas, manos e monas que estão na batalha de sobreviver, resistir e permanecer nas classes do ensino superior, mesmo com todos os desafios epistemológicos, má vontade de alguns professores, muita indisposição de colegas de classe e pouquíssimas políticas que possam efetivamente garantir a permanência dessas pessoas. A dúvida é sempre entre existir, pagar o aluguel ou seguir com a matrícula no curso.

ANA > Quais têm sido as principais dificuldades enfrentadas nesses anos de trabalho editorial?

Vertov Rox < Faltam pessoas dispostas em escrever conteúdo não-acadêmico. Grandes obras anarquistas não foram escritas para engordar o Lattes de ninguém, tampouco para garantir o Qualis do seus programas de pós-graduação. Mas neste momento, parece que é somente o que temos (salvo raríssimas exceções). Outro desafio é o de ter que fazer tudo ao mesmo tempo e relativamente sozinhos, nós anarquistas sempre fomos poucos, mas percebo que por vezes nos articulamos em rede somente para realizar divulgações e pouco para falar de nossos sonhos, compartilhar nossos anseios e sobre como é prazeroso produzir os livros que eu quero ler e poder compartilhar com mais gente.

ANA > As feiras de livros anarquistas têm sido importantes para vocês?

Vertov Rox < Sempre que possível estamos presentes nas feiras, antigamente era só SP e POA, este ano pipocaram eventos em toda parte e isso é maravilhoso. Infelizmente não podemos estar em todos os eventos, quando possível enviamos os livros para algum coletivo fazer a frente, vender e distribuir gratuitamente os livros, tirar algum troco para fortalecer seus espaços, etc. É muito bacana estar presencialmente lá, conhecendo as pessoas, vendo que algumas arrobas que a gente conhece são pessoas de verdade, conhecer caras novas, diversos rolês. Infelizmente viajar com livros dentro das malas requer alguma programação e algum dinheiro. Tem sido bem difícil conquistar esses dois itens para estarmos presentes em mais lugares. Mas de 2013 pra cá já estivemos três vezes na feira de SP, três vezes em Porto Alegre e agora recentemente em Florianópolis. Já temos ótimas lembranças de todos esses rolês.

ANA > E o que vocês estão preparando para 2019?

Vertov Rox < É para dar Spoiler? (risos) Bem, vamos intensificar os lançamentos do final de 2018, principalmente o “Trilhas dos imaginários sobre indígenas e demografia antiautoritária: um experimento de antropologia anarquista” que a antropóloga Carolina Sobreiro realizou junto aos Mebengokré. Eu estou trabalhando na tradução de algumas cartas dos chamados “quatro de Madrid“, que são presas e presos anarquistas submetidas aos regimes especiais de isolamento. Temos um grande lançamento sobre pixação que vamos precisar da ajuda de todas as pessoas para fazer um financiamento coletivo e rodar o livro, nossa compa Lucimar Braga está fazendo a editoração dos capítulos que o autor nos enviou sobre a representação do indígena no cinema latino-americano. Já falei demais! Tem bastante coisa acontecendo e gostaríamos de estar em tempo integral nesse projeto, mas cada pessoa faz aquilo que pode nos horários disponíveis, pois a vida não para pra gente poder fazer livros.

ANA > Tens algum livro anarquista de cabeceira?

Vertov Rox < Bhá! É uma sacanagem essa pergunta! Até bem pouco tempo era o “Dias de Guerra, Noites de Amor” da Crimethinc, publicado pela Editora Deriva e que agora está disponível pela Coisa Preta Edições. Mas um livro fininho chamado “Ai Ferri Corti: Confronto mortal com o existente, os seus defensores e os seus falsos críticos.”, edição portuguesa da editora Textos Subterrâneos tem me feito pensar sobre uma ontologia anárquica e propõe novas reflexões em cada leitura.

ANA > Algum toque final? Valeu, longa vida à Monstro dos Mares!

Vertov Rox < Agradeço a oportunidade de poder falar publicamente sobre como o anarquismo, as ideias de inspirações anárquicas e as epistemologias dissidentes mudam a minha vida todos os dias em que abro um livro, me ponho a ler, pensar sobre como posso compreender o mundo e agir. Espero que mais pessoas possam parar um pouco de assistir suas séries favoritas e tirem um tempinho para ler, escrever, traduzir, editar, imprimir e distribuir ideias que possam fazer emergir algo novo.

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Editora Monstro dos Mares