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Anders Bateva

Clippings / recortes de não-ficção: prospecções literárias, de tudo um pouco.

Anders Bateva

Clippings / recortes de não-ficção: prospecções literárias, de tudo um pouco.

Mudanças climáticas: culpa nossa?

Fonte: Roberto Giansanti. "O Desafio do Desenvolvimento Sustentável" - 6ª edição - 1998 - Atual Editora. Capítulo 4: Impactos ambientais no mundo moderno; seção "Poluição atmosférica".

Hipótese

A hipótese de intensificação do efeito estufa é bastante simples: quanto maior for a concentração de gases, maior será o aprisionamento de calor, e consequentemente, mais alta a temperatura do globo terrestre, explica Molion. No entanto, é justamente essa previsão alarmista o ponto central das discordâncias. Alguns pesquisadores questionam em que medida o aquecimento global, caso esteja ocorrendo, resulta do efeito estufa provocado pelo homem.

O CO2 é apontado como o principal responsável pelo provável aquecimento global. Trata-se do segundo gás em importância na atmosfera (atrás somente do vapor d'água) e sua concentração, embora ainda seja baixa, vem crescendo a uma taxa de 0,4% ao ano. Estima-se que são lançados 7 bilhões de toneladas de CO2 a cada ano na atmosfera, sendo cerca de 75% devido à queima de combustíveis fósseis (como petróleo e carvão mineral) e 25% pela queima de florestas, sobretudo as tropicais.

Simulações apontam que, se a quantidade de CO2 na atmosfera duplicasse, a temperatura média na Terra aumentaria entre 1,5 e 4,5°C. Essa situação poderia provocar o degelo parcial de geleiras e calotas polares, elevando o volume de água dos oceanos em até 1,5 metro e comprometendo 60% das áreas litorâneas. Também são previstas alterações nos ritmos de precipitação e umidade e a redução da biodiversidade, pois algumas espécies não resistiriam às mudanças.

Contraponto

No entanto, há controvérsias nas previsões. O único fato concreto e demonstrável é que houve um incremento de 25% nas taxas de CO2 nasa atmosfera ao longo dos últimos 150 anos, com notável acréscimo a partir dos anos 50. Atribui-se esse fato à expansão industrial pós-Segunda Guerra. Mas não se pode afirmar com segurança que esteja havendo aquecimento global. Há bons argumentos que dizem o contrário. Estaríamos entrando em um período pré-glacial, com tendência a rebaixamento das médias térmicas.

Estudos realizados por pesquisadores eutropeus e norte-americanos demonstram que o aquecimento global estaria entre 0,3°C e 0,6°C, valores situados no limite inferior das demonstrações de intensificação do efeito estufa feitas em laboratório. A década de 80 teve os cinco anos mais quentes das séries globais. Porém, ao mesmo tempo, observou-se um resfriamento sobre os oceanos Pacífico e Atlântcos de até -1,5°C e, na parte continental dos Estados Unidos, essa não foi a década mais quente do século, perdendo para a de 30 e superando por pouco a de 50. Estudos feitos também na parte continental dos Estados Unidos mostram variações térmicas de grande amplitude e períodos de pequena alteração. Por exemplo, entre 1920 e 1940, quando as atividades industriais ainda não eram tão intensas e disseminadas, houve um significativo aumento de temperatura; o período posterior, entre 1940 e 1970, apresentou sensível doiminuição das médias térmicas.

É preciso considerar que há problemas para a obtenção de dados para fazer aquelas previsões. Os métodos de aferição das temperaturas foram muito variados nos últimos 150 anos. Além disso, as estações metereológicas sofreram mudanças (de lugar, de ocupação do entorno) que comprometem alguns resultados. Naquelas que se mantiveram mais ou menos inalteradas, as variações encontradas são insignificantes. De outro lado, as experiências feitas em laboratório não captam aspectos importantes para as variações térmicas na atmosfera, como a forma e distibuição das nuvens, as correntes de ar, o ciclo hidrológico, as diferenças térmicas entre equador e pólos, etc.

Assim, se existe um aquecimento global, ele não possui distribuição uniforme na superfície da Terra. Há até mesmo lugares que têm apresentado diminuição das médias de temperatura. A hipótese de que estamos chegando ao final de um período interglacial, segundo Molion, é reforçada pelo avanço de geleiras nos pólos e invernos cada vez mais rigorosos, particularmente no Hemisfério Norte. A Pequena Idade do Gelo, ocorrida entre 1650 e 1850, pode ser também um prenúncio dessa nova fase. Deve-se levar em conta que um eventual resfriamento poderia ser até mais catastrófico do que a intensificação do efeito estufa, pela diminuição das áreas agrícolas, períodos mais secos nos trópicos e inviabilidade de ocupação das áreas de altas latitudes.

Não se pode esquecer do papel da natureza nas variações de elementos climáticos, como as mudanças nos índices de albedo (refletividade média da superfície) do planeta e no sistema El Niño-Oscilação Sul (ENOS), além de erupções vulcânicas (que podem provocar resfriamento no período subsequente à sua ocorrência) e alterações nas correntes oceânicas.

Conclusão

Assim, a única conclusão plausível em toda essa discussão, além do aumento das emissões de CO2, é que há incertezas na velocidade e no efeito global e regional do enriquecimento de gases-estufa na atmosfera. A polêmica também serve para chamar a atenção para a crescente capacidade do ser humano de realizar transformações de grande monta em curto espaço de tempo. Muitos efeitos naturais e humanos ainda precisam ser mais bem estudados.

Agricultura sustentável na China

Fonte: Roberto Giansanti. "O Desafio do Desenvolvimento Sustentável" - 6ª edição - 1998 - Atual Editora. Capítulo 6: O uso sustentável dos recursos; seção "Sistemas agrícolas sustentáveis".

Uma experiência de uso sustentável dos recursos em comunidades agrícolas foi desenvolvida na China. Nesse país, a revolução socialista de 1949 colocou o desafio de alimentar a enorme população, hoje na casa de 1,1 bilhão de habitantes. Foram implementadas então comunas agrícolas auto-suficientes. Não obstante as dificuldades impostas pela rigidez do regime político, muitas delas puderam desenvolver práticas sustentáveis.

Em comunas de até 90 mil habitantes situadas nas planícies orientais do país, foram criados sistemas integrados de culturas agrícolas, pecuária, psicultura e formas renováveis de energia. Cada equipe de produção, composta em média por 90 famílias, produz toda a energia, os alimentos e os fertilizantes necessários, colocando o excedente nas cidades vizinhas. Nada é desperdiçado: folhas de bananeira e fibras de cana-de-açúcar servem de alimento para os peixes e de combustível para estufas de gás biológico; as estufas e os biodigestores, que funcionam com excrementos humanos e do gado e com vegetais (como os jacintos aquáticos), decompõem a matéria orgânica, gerando o gás metano, utilizado na cozinha e na geração de energia elétrica.

Essa opção energética diminuiu a pressão sobre as matas nativas e as plantadas para a obtenção de lenha. Desde 1968, uma rede de 90 mil miniusinas hidrelétricas complementam a demanda de energia no país. De custo relativamente mais baixo, dispensam as redes de distribuição da energia elétrica produzida e são ideais para abastecer indústrias rurais, escolas e hospitais.

A criação de peixes é realizada em tanques com espécies que se alimentam de plantas aquáticas, folhas de cana, ervas e algas, na parte superficial, e outras que absorvem resíduos, na parte inferior. Esse pequeno ecossistema funciona em águas residuais, usando-se o limo resultante como fertilizante. O sistema rende, em média, cerca de 4,5 toneladas de peixes ao ano por hectare, com índice de proteínas cinco vezes maior do que a pesca convencional. Já nas culturas agrícolas, a suficiência da mão-de-obra permite o cultivo em fileiras alternadas, com benefícios simbióticos para as plantas e para o solo. Algumas leguminosas, por exemplo, suprem o nitrogênio exigido pela cultura de trigo.

O sistema de comunas, se não permitiu uma superabundância, propiciou níveis razoáveis de alimentação para a gigantesca população da China. Graças ao sistema de irrigação construído, o país é responsável por um terço da produção mundial de arroz, o equivalente à produção conjunta da Índia, Indonésia, Bangladesh, Japão e Tailândia. Os chineses produzem 2 milhões de toneladas de peixes de água doce ao ano, em 6 milhões de toneladas anuais no mundo.

Assim, mesmo considerando a eventual perspectiva de desestruturação do sistema de comunas pela abertura econômica da China (com a criação das Zonas Econômicas Especiais, que demandam mão-de-obra), permanece a importante experiência de uso sustentável dos recursos. Enfatizando o uso intensivo da mão-de-obra, o país dispensa a maquinaria cara e inacessível. Ao optar por fontes alternativas de energia, elimina a dependência dos combustíveis fósseis. Os chineses desenvolveram também outras práticas sustentáveis, como a seleção de variedades de sementes para o cultivo, o controle biológico de pragas e o terraceamento para conservação dos solos.