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Anders Bateva

Clippings / recortes de não-ficção: prospecções literárias, de tudo um pouco.

Anders Bateva

Clippings / recortes de não-ficção: prospecções literárias, de tudo um pouco.

Libido: "castrada" por antidepressivos

Fonte: Farmacodermia induzida por Bupropiona em paciente com transtorno depressivo maior - Revista de Medicina e Saúde de Brasília, 2017. Autores: Izabela Rodrigues Figueiredo, Ana Raquel Souza Azevedo, Larissa Araújo Dutra Carvalho, Ana Raquel Nascimento Lawall,Daniele Oliveira Ferreira Silva, e Ulysses Rodrigues Castro.

O efeito de disfunção sexual decorrente do uso de antidepressivos considerados com[o de] primeira e segunda linha no tratamento do Transtorno Depressivo maior, tem como efeito adverso bem documentado a indução da saciedade sexual central, apresentando com sintomas a diminuição da libido, da excitação e do orgasmo. Esses efeitos variam de acordo com o fármaco e com a dose administrada.

Referências

  • Portman, DJ; Kaunitz, AM; Kazempour, K; Mekonnen, H; Bhaskar, S; et al. Effects of low-dose paroxetine 7,5 mg on weight and sexual function during treatment of vasomotor symptom associated with menopause. Menopause, 2014.
  • Reed, SD; Mitchel, CM; Joffe, H; Cohen, L; Shifren, JL; et al. Sexual Function in Women on Estradiol or Venlafaxine for Hot Flushes: A Randomized Controlled Trial. Obstet Gynecol. 124 (201): 233-241.

Sobre primeiros amores

Fonte: Cristiane Costa. Amor sem Beijo - Global Editora.

Ficamos lado a lado [vendo o pôr-do-sol], em silêncio, durante muito tempo. O sol foi embora e a noite veio trazendo uma lua cheia. O céu escuro se encheu de estrelas. Ali, no alto da pedra ainda quente [na beira da praia], éramos só nós e o universo. Senti uma enorme vontade de me soltar, de me lançar nos braços do vento morno e me deixar levar. Marcos deitou a cabeça no meu colo. Estávamos muito próximos. Lentamente, ele se sentou e me olhou bem nos olhos. Depois, falou bem suavemente:

-- Me dá um beijo?

Eu sorri. Sua boca estava a centímetros da minha. Eu não posso, pensei. Eu sou forte, não tem essa de que o sangue é fraco. Eu sei me controlar. Eu não cedo. Não pode ser. Não, eu não posso, dizia a parte mais forte de mim. Marcos também resistia e esperava. Tão próximo que se quisesse teria me roubado aquele beijo e me deixado sem reação a não ser me entregar aos meus sentimentos. Mas não, ele já tinha ido até onde podia. Agora, queria que eu continuasse.

-- Diz que você não quer esse beijo, Cristiane.

O tempo parou enquanto tudo passou pela minha cabeça. Eu hesitei durante um segundo que parecia interminável. Então, fui mais forte do que eu e disse:

-- Não.

No mesmo instante, a mágica se rompeu. Alguém acendeu as luzes - e acho que fui eu. As estrelas se desfizeram, nuvens pesadas se formaram em seu lugar. A música suave das ondas desapareceu. Só sobrou o mundo real e desencantado de que voltamos a fazer parte.

[...]

Demorou muito tempo, muito mais do que eu pensava, para juntar de novo essas duas partes de mim: meu corpo foi para um lado e meu coração para outro. Como numa estrada, um pequeno erro no início, uma decisão equivocada, pode levar o viajante a caminhos cada vez mais distantes de onde planejava chegar. Às vezes, descobre-se um atalho para voltar ao caminho certo. Outras, é preciso refazer todo o trajeto até o ponto de partida. Mas, e quando não há volta?

Aí, o desamor se forma como um lago de águas paradas. O amor não vivido corrói os laços. Os corações feridos vão se distanciando lentamente. Quando se toma consciência, já perdemos o companheiro de vista. Um oceano nos separa.

Pouco a pouco Marcos foi parando de falar comigo. Até o dia em que passou por mim como por uma estranha. Só nesse momento, me dei conta do quanto gostava dele. Depois que ele saiu definitivamente da minha vida é que vi o tamanho do vazio que deixou.

Tudo foi acontecendo gradualmente. Primeiro, jogamos um balde de água fria em nossa amizade. Ele já não me levava para casa, não andávamos mais de bicicleta juntos. E eu não tinha mais ninguém com quem me abrir. Depois, sepultamos nossos sentimentos sob uma pedra de gelo, evitando todos os lugares onde pudéssemos nos encontrar. Marcos não ia mais à praia, nem nos dias mais bonitos de sol. Eu mudei de colégio. Ele parou de andar com nossa turma. Acho que só não mudou de cidade porque era demais. De vez em quando, eu perguntava por ele, com jeito para que não desconfiassem de nada.

[...]

Mas, um dia, decidi quebrar o muro que nos separava. Levantei-me e fui atrás dele. Segurei seu braço, quase implorando por uma palavra, um segundo de atenção. Isso o surpreendeu. Sem saber como reagir, continuou andando, cada vez mais rápido. E eu, passo a passo ficando para trás, insistia numa conversa inútil. Numa resposta que estava na cara e nem precisava de pergunta.

-- O que houve? Por que você não fala mais comigo? - disparei.

-- Eu? Mas eu acabei de falar com você.

-- Sei, um oi e basta.

-- O que você queria?

-- Conversar.

-- Sobre o quê?

-- Tudo, como antigamente.

-- Não dá para ser como antes.

-- Por quê?

-- Tem gente me esperando.

-- Pois que fiquem esperando. Eu preciso falar com você!

-- Fala então.

-- Andando assim não dá. Por que a gente não pára um pouco?

-- Já disse que tem gente me esperando.

-- Mas que droga de gente é essa que não pode esperar? Eu sou sua melhor amiga.

-- Isso já faz muito tempo.

-- O que você quer dizer com isso?

-- Que as coisas mudam.

-- Por que você está chateado comigo? O que foi que eu te fiz?

-- Nada. E você sabe muito bem.

-- Então o que é?

-- Nada, já disse.

-- Por que você se afastou?

-- A vida é assim mesmo. Mais dia, menos dia, acaba indo cada um para o seu lado.

E foi isso o que aconteceu. Sem forças, fui ficando para trás - minhas perguntas pairando no ar. De costas, o silêncio como resposta.

Quando a gente é jovem, os machucados se fecham rápido. As cicatrizes são imperceptíveis. Ninguém dá muito valor a nada, porque as coisas mudam muito rapidamente. Logo se está pronto para outra. E outra. E mais outra. A gente procura a dor mais leve para se distrair da mais profunda.

Mas certas cicatrizes não fecham nunca.

Elas voltam com outros nomes, em outros lugares, mas voltam. Até que a gente aprenda a não ter medo dos próprios sentimentos. Até o dia em que a gente tenha a coragem de olhar o amor nos olhos e dizer: sim.

Erich Fromm: em amor e sexo, nem tudo o que reluz é ouro!

Fonte: Erich Fromm. A Arte de Amar - 1991 - Editora Itatiaia. Capítulo II: "A Teoria do Amor", seção 3: "Dos Objetos do Amor", item c: "Amor erótico".

O amor erótico é o anseio de fusão completa, de união com um outra pessoa. É, por sua própria natureza, exclusiva e não universal; é também, talvez, a mais enganosa forma de amor que existe.

Antes de tudo, confunde-se ele muitas vezes com a experiência explosiva de "cair" enamorado, o súbito colapso das barreiras que até certo momento existiam entre dois estranhos. Mas, como já antes apontamos, esta experiência de súbita intimidade é, por sua própria natureza, de vida curta. Depois que o estranho se tornou pessoa intimamente conhecida, não há mais barreiras a superar, não há mais proximidade súbita a ser realizada. A pessoa "amada" fica sendo tão bem conhecida como a gente mesma. Ou talvez seja melhor dizer: tão pouco conhecida. Se houvesse mais profundidade na experiência da outra pessoa, se se pudesse experimentar a infinidade de sua personalidade, a outra pessoa nunca seria tão familiar -- e o milagre de superar as barreiras poderia ocorrer de novo a cada dia. Mas, para a maioria, a própria pessoa, assim como as outras, é logo explorada e logo exaurida. Para a maioria, a intimidade se estabelece antes de tudo pelo contacto sexual. Desde que primeiramente se experimente a separatividade de outra pessoa como separatividade física, a união física significa a superação da separação.

Além disso, há outros fatores que, para muitos, denotam a superação da separação. Falar da própria vida pessoal, das próprias esperanças e ansiedades, mostrar-se nos seus aspectos infantis ou pueris, estabelecer um interesse comum em face do mundo -- tudo isso é tomado como superação da separação. Mesmo mostrar cólera, ódio, falta completa de inibição, é tomado por intimidade, e isso pode explicar a atração pervertida que casais muitas vezes sentem um pelo outro, só parecendo íntimos quando se achem na cama ou quando dêem expansão a seu ódio e raiva mútuos. Todos esses tipos de proximidade, entretanto, tendem a reduzir-se cada vez mais com o correr do tempo. A consequência é buscar-se amor em outra pessoa, em novo estranho. E de novo o estranho se transforma em pessoa "íntima", de novo a experiência de cair enamorado é jubilosa e intensa, e de novo, vagarosamente, vai perdendo intensidade, para terminar no desejo de nova conquista, novo amor -- sempre com a ilusão de que o novo amor será diferente dos anteriores. Essas ilusões são grandemente incentivadas pelo caráter enganador do desejo sexual.

O desejo sexual objetiva a fusão -- e não é, de modo algum, apenas um apetite físico, o alívio de uma tensão dolorosa. Mas o desejo sexual pode ser estimulado pela ansiedade da solidão, pela vontade de conquistar ou ser conquistado, pela vaidade, pelo gosto de ferir e mesmo destruir, assim como pode ser estimulado pelo amor. Parece que o desejo sexual pode ser misturado facilmente a qualquer emoção forte, nela encontrando incitamento; e o amor é apenas uma dessas emoções. Por estar o desejo sexual emparelhado na mente de muitos com a idéia de amor, são eles com facilidade levados à má conclusão de que amam um ao outro quando se querem um ao outro fisicamente.

  • Se o desejo da união física não for estimulado pelo amor, se o amor erótico também não for amor fraterno, nunca levará à união mais do que num sentido orgíaco e transitório. A atração sexual cria, no momento, a ilusão de união, mas, sem amor, essa "união" deixa os estranhos tão afastados quanto antes se achavam; muitas vezes, faz com que se envergonhem um do outro, ou mesmo faz com que mutuamente se odeiem, pois, partida a ilusão, sentem sua estranheza ainda mais acentuadamente do que antes.
  • O amor pode inspirar o desejo de união sexual; neste caso, falta à relação física a avidez, a vontade de conquistar ou ser conquistado, mas mistura-se nela a ternura. A ternura de modo algum é, como acreditava Freud, uma sublimação do instinto sexual; é o produto direto do amor fraterno e existe tanto nas formas físicas do amor quanto nas não-físicas.

Erich Fromm: sexo, drogas, e rock'n roll?

Fonte: Erich Fromm. A Arte de Amar - 1991 - Editora Itatiaia. Capítulo II: "A Teoria do Amor", seção 1: "Amor, Resposta ao Problema da Existência Humana".

O homem é dotado de razão; é a vida consciente de si mesma; tem, consciência de si, de seus semelhantes, de seu passado e de seu futuro. Essa consciência de si mesmo como entidade separada, a consciência de seu próprio e curto período de vida, do fato de haver nascido sem ser por vontade própria e de ter que morrer contra sua vontade, de ter de morrer antes daqueles que ama, ou estes antes dêle, a consciência de sua solidão e separação, de sua impotência ante as forças da natureza e da sociedade, tudo isso faz de sua existência apartada e desunida uma prisão insuportável. Ele ficaria louco se não pudesse libertar-se de tal prisão e alcançar os homens, unir-se de uma forma ou de outra com êles, com o mundo exterior.

[…]

Um meio de alcançar esse objetivo [isto é, fugir à separação] está em todas as espécies de estados orgíacos. Podem ter eles a forma de um transe auto-provocado, às vezes com a ajuda de drogas. Muitos ritos de tribos primitivas oferecem vivo quadro dêsse tipo de solução. Num estado transitório de exaltação, o mundo externo desaparece, e, com ele, o sentimento de estar dele separado. E como esses ritos são praticados em comum, acrescenta-se uma experiência de fusão com o grupo que dá a tal solução o máximo de eficiência.

Sociedades tribais

Estreitamente relacionada com essa solução orgíaca está a experiência sexual. O orgasmo sexual pode produzir um estado semelhante ao produzido por um transe, ou pelos efeitos de certas drogas. Ritos de orgias sexuais comunitárias faziam parte de muitos rituais primitivos. Parece que, depois da experiência orgíaca, o homem pode continuar por algum tempo sem sofrer demais com sua separação. Vagarosamente, a tensão da ansiedade sobe, e é de novo reduzida pela realização repetida do rito.

Enquanto esses estados orgíacos forem motivo de prática comum numa tribo, não produzem êles ansiedade ou culpa. Agir de tal modo é reto, virtuoso mesmo, pois é um modo de que todos compartilham, aprovado e requerido pelo pagé ou pelos sacerdotes; daí não haver razão para que alguém se sinta culpado ou envergonhado.

Nossa sociedade

Bem diferente é o caso quando a mesma solução é escolhida por um indivíduo em uma cultura que deixou para trás essas práticas comuns. O alcoolismo e o uso de drogas são as formas que o indivíduo escolhe numa cultura não-orgíaca. Em contraste com os que tomam parte na solução socialmente modelada, tais indivíduos sofrem sentimentos de culpa e remorso. Ao tentarem fugir da separação pelo refúgio no álcool e nos entorpecentes, sentem-se ainda mais separados depois que terminam a experiência orgíaca, e assim são levados a recorrer a ela com frequência e intensidade aumentadas.

Poquíssimo diferente disso é o recurso a uma solução orgíaca sexual. Até certo ponto, é uma forma natural e normal de superar a separação, e uma resposta parcial ao problema do isolamento. Mas, em muitos indivíduos em que a separação não é aliviada por outros meios, a procura do orgasmo reveste-se de uma função que não a faz muito diferente do alcoolismo e do vício das drogas. Torna-se uma tentativa desesperada para fugir à ansiedade engendrada pela separação e resulta sempre num sempre crescente sentimento de separação, visto como o ato sexual sem amor nunca lança uma ponte sôbre o abismo entre dois seres humanos, senão momentaneamente.

Assexualidade: FAQ

Este post consiste de um trecho do artigo a seguir:

O trecho passou por edições de formatação visual para que fosse mais adequado ao formato de um blog.


Introdução

Assim como outras orientações sexuais, a assexualidade – ou a falta de desejo sexual não patológica -, sempre existiu, mas diferentemente da homossexualidade, por exemplo, nunca foi ilegal, imoral ou controversa. Até o advento da internet, os indivíduos assexuais relatam ter vivido em seu isolamento demográfico, desconhecendo a existência de outras pessoas que, como eles/as, travavam uma luta consigo mesmos/as e com a sociedade por serem diferentes da maioria. A partir do início do século XXI, a popularidade das redes sociais na internet facilitou a formação de comunidades construídas em torno de identidades assexuais.

As considerações preliminares sobre assexualidade apresentadas neste artigo – fundamentadas na perspectiva da AVEN – Asexual Visibility and Education Network -, mostram o baixo grau de visibilidade no qual vivem os indivíduos que não têm interesse na prática do sexo, assim como seus esforços no sentido de construir uma identidade sexual que seja legitimada, reconhecida e aceita pela sociedade.

O objetivo deste artigo é descrever e analisar a assexualidade – aqui compreendida como a sexualidade dos indivíduos que não têm interesse pela prática do sexo-, conforme apresentada pela comunidade assexual norte-americana AVEN – Asexual Visibility and Education Network, a partir do estudo do material contido no sítio virtual da organização.

A AVEN – Asexual Visibility and Education Network foi fundada em 2001 pelo jovem norte-americano David Jay, o qual relata que, desde sua adolescência nos anos 1990, sentia-se diferente de seus pares, não compartilhando suas expectativas em relação à atividade sexual e aos relacionamentos amorosos. A partir da percepção de sua falta de interesse por sexo e da falta de interlocutores sobre o assunto, decidiu, iniciar um fórum virtual de discussão sobre a falta de desejo sexual, buscando, desta forma, agregar outras pessoas que se sentissem como ele. Para sua surpresa, descobriu que eram muitas as pessoas que não se identificavam com os modelos de sexualidade existentes na sociedade. E, assim, nasceu a AVEN, que viria a se tornar, nos anos seguintes, a maior e mais importante comunidade de assexuais do mundo.

FAQ

Segundo a AVEN:

  • celibato: assexualidade e celibato são conceitos diferentes. Para a AVEN e seus membros, celibato é a escolha consciente pela abstinência sexual. Na assexualidade, porém, não existe a atração sexual por outras pessoas, portanto não há repressão ao desejo. Os/as assexuais fazem questão de enfatizar que a assexualidade não é uma escolha, sendo a falta de interesse por sexo uma característica do sujeito assexual, daí o caráter reivindicado de orientação sexual semelhante à heterossexualidade, à homossexualidade ou à bissexualidade.
  • sexo e masturbação: a assexualidade não diz respeito ao comportamento do indivíduo assexual – lembrando que os/as assexuais são perfeitamente capazes de engajar-se em atividade sexual, mesmo sem atração -, mas refere-se exclusivamente à existência ou não de interesse por atividade sexual com parceiro/a. Neste sentido, a masturbação, por tratar-se de prática autoerótica, não entra em conflito com a definição de assexualidade proposta pela AVEN. Sabe-se que parte dos/as assexuais pratica a masturbação, sem que haja a necessidade ou a vontade de evoluir para a prática sexual com parceiro/a. Outros/as a praticam como alívio a uma necessidade fisiológica, sem estabelecer uma associação entre a prática da masturbação e o contexto mais amplo da sexualidade com parceiro/a.
  • amor: os/as assexuais da AVEN fazem distinção muito clara entre amor e sexo. Parte dos/as assexuais sente interesse amoroso e deseja estar em relacionamentos românticos, preferencialmente sem atividade sexual; porém, também existem aqueles/as que não têm interesse nem mesmo por parcerias amorosas. A AVEN chama de românticos/as os assexuais que desejam um relacionamento amoroso, e de arromânticos/as, aqueles/as que não desejam. Outra constatação entre os membros da AVEN, é que alguns/mas assexuais românticos/as estão envolvidos/as em relacionamentos com pessoas não assexuais, surgindo a necessidade de negociação da existência ou frequência da atividade sexual, ou da formação de relacionamentos não monogâmicos.
    A atração afetiva dos/as assexuais românticos/as pode ser direcionada ao mesmo sexo, a sexo diferente, a qualquer dos sexos, ou ser independente de sexo ou identidade de gênero; em relação ao alvo de interesse romântico, a AVEN classifica os assexuais como homorromânticos/as, heterorromânticos/as, birromânticos/as ou panromânticos/as, respectivamente. Foi necessária a criação de um novo vocabulário para descrever as experiências assexuais. Essas experiências parecem mostrar que existe uma orientação afetiva adicionalmente à orientação (as)sexual. Isso coloca assexuais homorromânticos/as e birromânticos/as na mesma arena de disputa por direitos do movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros), e também os/as transforma em alvo da mesma discriminação que esse grupo experimenta.
    Além da experiência da homofobia relatada por assexuais de orientação afetiva diferente da heteronormativa nos fóruns da AVEN, mesmo os/as assexuais classificados como heterorromânticos/as relatam experiências de discriminação, pois a eles/as é atribuída socialmente uma homossexualidade presumida, por conta da não conformidade com os padrões heterossexuais dominantes na sociedade, sobretudo os padrões de masculinidade. Assexuais transexuais também relatam experiências de transfobia. Essas experiências discriminatórias têm na escola seu lócus privilegiado. Muitos dos relatos nos fóruns de discussão da AVEN apontam a escola como a primeira instituição na qual jovens e adolescentes assexuais tomam consciência de sua diferença em relação aos pares, bem como local da ocorrência de episódios de discriminação homofóbica e transfóbica.

Assexual arromântica: a identidade que me tornou mais resiliente

Autora: Sara K., em 24/06/2016. Tradução: Anders Bateva.

A um longo tempo atrás, eu acreditava que iria eventualmente terminar num relacionamento sexual/romântico, e que era apenas questão de encontrar a pessoa certa. Ao longo do tempo, eu gradualmente me dei conta de que isto a) não estava acontecendo e b) havia mais sobre não estar acontecendo do quê simplesmente não estar encontrando "a pessoa certa".

ntificar como arromântica).Eu tive mais sorte do que outras pessoas, por isto nunca ter sido uma grande fonte de stress em minha vida. Porém, eu realizei algumas tentativas mal-feitas de busca do tipo de pessoa que ao menos me interessasse em tentar sexo/romance. Identificar-me como assexual pôs um fim nisto (foi anos depois que comecei a me identificar como arromântica).

rmitiu-me focar mais em coisas que contribuíram muito mais para me desenvolver enquanto pessoa.O que teria me acontecido se eu não houvesse me identificado como assexual naquele tempo? Eu não sei. Eu não me arrependo das tentativas (fúteis) que fiz de tentar ter qualquer romance/sexo na minha vida, mas eu creio que não teria me beneficiado de novas tentativas, então eu penso que veio a calhar que eu parasse justamente quando parei. Apenas isto - parar de tentar ter sexo e romance na minha vida - aumentou minha resiliência pessoal, dado que permitiu-me focar mais em coisas que contribuíram muito mais para me desenvolver enquanto pessoa.

Minha identidade também me ajuda a lidar com a maneira pela qual as pessoas reagem à ausência de sexo e romance na minha vida. Antes de eu assumir uma identidade assexual, as pessoas frequentemente teciam comentários sobre sexo e/ou romance que me deixavam desconfortável. Mas eu não entendia o porquê de ficar desconfortável. Agora, eu compreendo que eu tenho uma perspectiva bem diferente da maioria das pessoas, em questão de sexo e romance. Isto explica um bocado da dissonância que eu sentia entre meus pensamentos e o das outras pessoas, nestes temas. Independente do que as pessoas pensem de mim, minha perspectiva sobre minha própria vida sem-sexo é 100% válida. Isto torna-me mais resiliente perante comentários ignorantes que outras pessoas fazem.

E finalmente, eu sei, graças a outras pessoas assexuais e arromânticas que discutiram suas identidades, que eu não estou sozinha. Eu não sei porquê as pessoas sentem uma necessidade de encontrarem-se nas outras para poderem sentirem-se bem consigo mesmas, com o que são, mas é assim que a natureza humana, e eu não sou uma exceção. Saber que isso não se dá apenas comigo me dá um tiquinho adicionar de resiliência psicológica.

CC0O texto deste post de Anders Bateva está liberado sob domínio público.
Baseado no trabalho disponível no The Notes Which Do Not Fit.

Assexualidade versus expectativas alheias

Autora: Pegasus, em 31/05/2014. Tradução: Anders Bateva.

Nós vivemos em uma sociedade onde ser sexual é a norma. A vasta maioria das pessoas considera óbvio que, quando duas pessoas estão em um relacionamento, elas estarão fazendo sexo. Mesmo da perspectiva mais socialmente conservadora, é esperado que casais farão sexo.

A possibilidade de que uma pessoa saudável poderia simplesmente não querer sexo é raramente levada em conta em discussões de sexualidade. E modelos de relacionamentos felizes, de sucesso, sem sexo, são largamente ausentes na mídia e na educação sexual. Se a ausência de vontade sexual é mencionada na cultura popular, é inevitavelmente associada a problemas psicológicos, abuso, desequilíbrios hormonais, ou necessidade de Viagra.

Este é o ambiente no qual assexuais têm de entender sua assexualidade, descobrir o que querem em matéria de intimidade, e navegar através de seus primeiros relacionamentos. Nós até podemos ter progredivo como sociedade quando a frase não é não torna-se familiar à maioria das pessoas (mesmo que nem sempre seja levada a sério), e quando a ideia mais positiva do sim é sim, de consentimento estusiasmado ganha espaço. Mas nestes casos, a opção de dizer nunca para o sexo com um(a) parceiro(a) raramente ganha séria atenção.

A respeito disto, até mesmo a ideia de sentar-se junto de um(a) parceiro(a) ou potencial parceiro(a) e discutir os desejos, necessidades, e limites de cada um(a) em matéria de sexo e intimidade, é somente posta em prática por uma minoria. A maioria de nós simplesmente segue a ideia de que falar de sexo é esquisito, embaraçoso, e simplesmente não-sexy. Sexo e intimidade é tido como algo que resolve-se sozinho, e negociar de verdade é geralmente deixado na mão da telepatia e da adivinhação.

Isto, com uma frequência demasiadamente grande, deixa os/as assexuais sem uma maneira simples de dizer o que querem ou não, devido à expectativa de comportarem-se sexualmente em um relacionamento. Para sermos claros, não estou falando da pressão que um(a) parceiro(a) faz para que se aja sexualmente - isto é uma questão à parte. Estou falando da pressão que vem da mídia e de nossa cultura para conformarmo-nos a um estilo sexual específico de relacionarmo-nos. Isto pode manifestar-se na forma de uma pessoa ter medo de não ser capaz de encontrar um(a) parceiro(a) se não estiver disposto(a) a fazer sexo. Ou internalizar a ideia de que existe algo de errado consigo se não estiver querendo fazer sexo. Ou, até mesmo, acreditar que o(a) parceiro(a) tem um direito inerente de fazer sexo, e devido a isto sentir-se culpado(a) quando sente vontade de dizer não (ou nunca) para o sexo.

Mesmo se um(a) assexual entender seus sentimentos a respeito do sexo, e tiver certeza suficiente para declarar o que quer e o que não quer sexualmente, ainda terá de disputar com outras pessoas que presumem por padrão que o(a) assexual não é assexual. Por exemplo, se alguém tem interesse em iniciar um relacionamento com um(a) assexual - ou deus que me livre, um(a) assexual flertar com alguém - o ônus da prova sempre recai no(a) assexual, que tem então de se revelar e explicar seu posicionamento sobre sexo. Caso não faça isto, corre o risco de ser acusado(a) de estar enrolando, brincando com os sentimentos alheios, ou até pior. Allosexuais (pessoas interessadas em sexo) não enfrentam este tipo de expectativa de serem transparentes a respeito do que esperam ou não sexualmente - as expectativas-padrão da sociedade, sem serem ditas, são o suficiente para preencher as lacunas.

Este padrão duplo de tratamento deposita sobre os(as) assexuais uma pressão para que assumam-se para quem tiver interesse neles(as), querendo ou não se assumir, e também, o estresse de determinar quando e como fazê-lo. Isto deposita inteiramente o fardo de discutir compatibilidade sexual, ou rejeitar tentativas, na pessoa assexual. Por outro lado, uma pessoa assexual é capaz de não precisar proferir seus desejos e expecativas sexuais, e simplesmente seguir o fluxo do que é norma (seguindo o roteiro-padrão determinado pela sociedade para encontros sexuais), deixando a negociação explícita como um extra opcional.

Similarmente, existe uma pressão para assexuais evitarem flertar, ou de qualquer outra maneira darem qualquer sinal que possa ser interpretado equivocamente como sendo sexual. A prática-padrão da sociedade de não ser transparente a respeito do que nós queremos ou esperamos sexualmente significa que flertar, beijar, dançar, comprar uma bebida, ou até mesmo simplesmente conversar podem ser entendidos (em contextos específicos) como um código informal de querer sexo. Assexuais (e qualquer um) que queiram beijar, flertar, ou dançar sem que isto signifique qualquer outra coisa além de querer beijar, flertar, ou dançar, não têm muita opção. São forçados(as) a escolher entre ignorar estes desejos, ou arriscar ter seus comportamentos interpretados equivocamente como brincar com os sentimentos alheios.

Consciência acerca da assexualidade está aumentando lentamente, o que sem dúvida irá tornar mais fácil a vida dos(as) assexuais e de qualquer pessoa incerta acerta de sua assexualidade. Mas, no fim das contas, até que nós enquanto sociedade possamos de fato discutir rotineiramente o sexo e o desejo sexual abertamente - sem precisarmos depender de normas não-ditas de comunicação sobre sexo - qualquer pessoa que não deseja os estilos de relacionamentos sexuais "típicos" estarão em desvantagem perante o que socialmente presume-se por padrão para sexo, relacionamentos, e expectativas sexuais.

Licença Creative CommonsEste post de Anders Bateva está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.Baseado no trabalho disponível em Beyond the Rainbow.

Amor e sexo: diferenças qualitativas

Fonte: Flávio Gikovate - "Vício dos Vícios: um estudo sobre a vaidade humana", MG Editores Associados, 1987. Capítulo VII - A vaidade e o amor.

[...]

O objetivo da reconstrução do vínculo dual [perdido com o nascimento] é, pois, a recuperação da paz, da harmonia interior, da serenidade. A sensação derivada do se perceber sozinho é terrível e a palavra que tenho usado para descrevê-la é desamparo. Não são poucas as pessoas que experimentam estas sensações dolorosas do desamparo quando se reconhecem sem companhia mesmo nas fases adultas da vida; nestas condições, costumam usar o termo solidão. Mesmo para aqueles que aprendem a conviver bem consigo mesmos e a suportar a dor do desamparo - que, ao longo dos anos, para elas se atenua - sobra o desejo de reconstrução de um vínculo, de um elo especial com uma outra criatura. Devido às conhecidas dificuldades práticas inerentes aos vínculos afetivos adultos, algumas pessoas optam por uma vida individual; e isto tem sido cada vez mais frequente. Mas o sonho de algum tipo de relacionamento capaz de gerar aconchego existe em todas as pessoas que tive oportunidade de conhecer.

[...]

O amor busca a paz, a harmonia; o encontro deste estado depende desde o início da aproximação com outra pessoa, sendo portanto um fenômeno essencialmente interpessoal; esta outra pessoa é sempre uma criatura muito específica, um objetivo definido do desejo. O sexo busca a excitação, o movimento; este estado se obtém, ao menos nos primeiros anos de vida, através da manipulação de certas partes do corpo, sendo pois uma manifestação essencialmente pessoal; mesmo nas trocas de carícias e nos prazeres exibicionistas, o parceiro ou observador é indefinido e, até certo ponto, indiscriminado. É tudo bem diferente; acredito mesmo que se possa pensar em amor e sexo como impulsos, em muitos instantes, antagônicos. Ternura é a manifestação física do amor; são abraços, beijos, tudo enfim muito parecido com os gestos eróticos; mas a sensação subjetiva é completamente diferente. Ternura é aconchego; tesão é inquietação e tem, com frequência, até mesmo uma pitada de violência.

[...]

O pavor do desamparo persiste mesmo quando se atinge a auto-suficiência [durante a transição de criança para adulto] e, de certo modo, nos persegue como resíduo, cicatriz do que já foi vivido, ao longo da vida adulta. Se sentir tratado com ternura, olhado com carinho, persiste como o grande atenuador do nosso desamparo.

[...]

O pavor da rejeição de deixarmos de ser objeto do amor de determinada pessoa que nos é muito significativa e especial, nos acompanhará ao longo de toda a vida a menos que sejamos capazes de tolerar melhor o desamparo que é próprio de nossa condição. É só nestas condições que poderemos nos livrar daquelas pessoas que usam nossa fraqueza sentimental como meio de nos tiranizar. O esforço é enorme e os obstáculos difíceis de serem ultrapassados, uma vez que a grande maioria de nós foi educado para ser fraco e dependente.

[...]

No envolvimento amoroso, por exemplo, se estabelece uma importante dependência psíquica. O abandono e o desamparo que nos acompanha, como sensação ou como fato, desde o nascimento, encontram na realização deste impulso um importante atenuador, nos sentimos aconchegados quando estamos amando e sendo amados; e isto é bom, apaziguante. Quanto maior nossa incompetência para suportar a sensação de desamparo, maior será nossa dependência do vínculo amoroso. Nestas condições, uma eventual ruptura determinará enorme dor; dor da morte. Experimentaremos enorme depressão, de longa duração. A lembrança dos momentos de aconchego nos acompanhará em quase todas as horas e a consciência de que ele não existe trará de volta a dor. O processo só será menos dramático se, por sorte, se constituir um novo vínculo afetivo, que tratá de volta a sensação apaziguante de harmonia. Quanto maior a dependência que uma pessoa tem deste afeto, mais ela agirá de modo estabanado e mais será apavorada com a rejeição sempre temida; agirá de modo exageradamente possessivo e com isto estará mais sujeita a decepcionar o amado; como regra, é justamente para quem não suporta a ruptura amorosa que ela se torna mais frequente em virtude dos erros cometidos pela própria pessoa.

[...]

Diversidade sexual versus militância pró-sexo

Post adaptado por Anders Bateva a partir do original publicado em The Notes Which Do Not Fit, de 30/09/2016.

Quando ouço pessoas favoráveis-ao-sexo defenderem que sexo é algo bom, em resposta a certos grupos religiosos, coço minha cabeça. A mim, parece que estão usando a falácia do espantalho contra as pessoas que tentam criticar, isto é, atribuem aos religiosos uma posição que eles não defendem. Afinal, realmente existe algum grupo religioso defendendo que sexo é ruim e que nunca deve-se fazê-lo? Existe realmente muita gente da sociedade comum que discorde da afirmação sexo é bom? Essa militância do não tem nada errado em fazer sexo não estaria, por acaso, chovendo no molhado?

Acredito até que é um problema maior, com os favoráveis-ao-sexo tendo internalizado a ideia totalmente lugar-comum de que sexo é algo bom, e repetem isso como papagaios para mostrar à sociedade comum que eles são pessoas respeitáveis, razoáveis, progressistas; ao invés de estarem realmente tentando mudar algum valor, fazendo algum ativismo.

rna a aplicação desse princípio um pouco complicada.Sabe o que seria realmente chocante para a sociedade comum? O que seria realmente radical? Defender que aceite-se a diversidade sexual. Uma aceitação que englobe todas as orientações sexuais e gêneros, e tolere todos os comportamentos sexuais, incluindo nunca fazer sexo, desde que isso não causem dano injusto aos outros. Claro, nem todos irão concordar com o que seja "dano injusto", o que torna a aplicação desse princípio um pouco complicada.

Note que esse princípio é neutro a respeito de sexo ser ou não algo bom; a mensagem central é "diversidade sexual" e não sexo é bom.

Há também um problema no lema sexo é natural e normal, não tem nada de errado em fazê-lo: e como ficam os assexuais? Eles são anormais e não-naturais então? Pois é a decorrência lógica do lema que as pessoas defendem. Isso gera/reflete preconceito contra pessoas que não estão fazendo nada de danoso aos outros, mas que simplesmente estão desviando da norma social. A mesma coisa se aplicaria a homossexuais celibatários.

Por tudo isto, fico com a impressão que os militantes pró-diversidade sexual muitas vezes revelam-se afundados nos próprios conceitos que procuram alterar, agindo completamente no lugar-comum, e eu diria, até mesmo de forma conservadora. O caminho para ajudar às minorias sexuais é aceitar a diversidade, não juntar-se ao coro dos comuns em dizer que sexo é algo maravilhoso.

CC0O texto deste post de Anders Bateva está liberado sob domínio público.
Baseado no trabalho disponível no The Notes Which Do Not Fit.

Algumas questões que afligem os/as assexuais

Autora: Pegasus, em 26/10/2013. Tradução: Anders Bateva.

Existe uma visão de que os/as assexuais não têm nada a demandar para si, diferente dos/das LGBT, afinal, se os/as assexuais não querem sexo, basta que eles/elas não façam sexo, certo? Porém, isto é equivocado, e aqui está uma lista curta com alguns problemas que afetam os/as assexuais.

Invisibilidade

A assexualidade é quase nunca exibida na cultura e mídia comuns, e raramente é questionada a afirmação de que todas as pessoas sentem atração sexual. Com frequência, quando o sexo é tema na sociedade, presume-se sem dizer que isto se dá através de um processo linear: flerte -> beijos -> preliminar -> sexo penetrativo (pênis-na-vagina). Isto ignora que podem existir roteiros alternativos, ou que de fato, você pode simplesmente conversar com seu/sua parceiro/parceira e determinar o que funcionar melhor para sua interação/relacionamento particularmente. A possibilidade que algum tipo de relacionamento sem sexo possa ser saudável e feliz, e tão séria quanto um relacionamento convencional, é raramente levada a sério. Isto é também com frequência o caso na educação sexual, onde lésbicas, gays, e bissexuais não recebem muita atenção, quem dirá assexualidade.

O resultado disto é um generalizado desconhecimento da existência da assexualidade na sociedade, tornando mais difícil para as pessoas entenderem seus amigos/parceiros que não experienciam atração sexual. E com frequência, deixa os/as assexuais sentindo-se confusos/confusas a respeito de suas sexualidades, ou pensando que há algo de errado com eles/elas. Além do sentimento de isolação que isto pode causar, algumas vezes pode levar os/as assexuais a receberem uma pressão social para agirem de forma sexual, ou terem sexo em seus relacionamentos independente do quão confortáveis sintam-se com isto. Também, a expectativa da sociedade de que estes relacionamentos e interações sexuais devam seguir um caminho padrão - e a falta de modelos para comunicar limites, desejos, e necessidades - pode tornar difícil que se negociem relacionamentos que sejam mutuamente satisfatórios e respeitosos dos limites de todos os/as envolvidos/envolvidas.

Expectativa/obrigação sexual

Isto merece um post inteiro, no mínimo devido ao gênero também ter um papel imenso neste aspecto, que eu não quero subestimar.

Mas, em resumo, presume-se normalmente na sociedade que, se uma Pessoa A beijar/flertar com/vertir-se provocativamente/namorar com uma Pessoa B, então esta Pessoa B pode ter a garantia de que a Pessoa A vai querer sexo consigo. Então a Pessoa B poderia até mesmo forçar a barra e pressionar a Pessoa A a fazer sexo, mesmo sem consentimento da Pessoa A (estupro).

Devido à sociedade presumir que é mais aceitável para um homem comportar-se sexualmente ou ser um babacão, acontece muito mais frequentemente que a Pessoa B seja um homem e a Pessoa A seja uma mulher, e por isto acaba sendo uma questão recorrente feminista. Porém, nem sempre é este o caso, já que mulheres e homossexuais também podem ser babacas, e este problema pode ocorrer em qualquer relacionamento onde as pessoas tenham diferentes níveis de interesse em sexo.

Para muitos/muitas assexuais em relacionamentos mistos (onde estão se relacionando com pessoas sexuais), o interesse sexual de ambas as partes não está no mesmo nível. Então, a expectativa da sociedade, de que o/a assexual deve atender às necessidades sexuais de seu parceiro/sua parceira leva a pressão para fazer sexo, e então algumas vezes leva seu parceiro/sua parceira a ser babaca - ao invés das opções saudáveis: negociar um relacionamento mutualmente respeitoso; ou cair fora do relacionamento.

Homofobia e bifobia

Não ser lésbica, gay, ou bissexual não faz ninguém 100% imune às fobias dos outros. Se eu der as mãos ou beijar uma pessoa de mesmo sexo em público, nós corremos risco de sermos assediados/assediadas em público. Se alguém pensar que sou bissexual devido a eu ir em encontros com pessoas de qualquer gênero, então corro risco de discriminação. E assim por diante. O que eu faço ou deixo de fazer no quarto, sobre a cama, com outra pessoa, não faz muita diferença: as pessoas intolerantes não têm como saber com 100% de certeza, e tampouco se importam sobre como você se identifica ou sente-se a respeito de sua sexualidade ou gênero.

Assexuais heterorromânticos ou aromânticos também não escapam dessa. Não estar sexualmente interessado em pessoas do gênero oposto pode bem facilmente levar as pessoas a presumir que você é gay/lésbica, pois as pessoas confundem sexo (macho ou fêmea) com orientação sexual, e concluem que quem "não gosta" de homem necessariamente gosta de mulher, e quem "não gosta" de mulher necessariamente gosta de homem. Afinal, só existem 2 sexos, certo? 'Se você não gosta de um, é porquê gosta do outro!'

Pressão para ficar no armário

Mas é claro, existe a opção aberta para as pessoas de diversas sexualidades: permanecer no armário. 'Keep calm'(mantenha a calma) e finja ser heterossexual (ou homossexual, se você estiver numa comunidade LGBT). Não sair do armário funciona bem para alguns assexuais, mas fingir ser algo que você não é, devido a fobias dos outros, não é uma situação agradável de se estar. E realmente, as pessoas deveriam ter a liberdade de escolher com quem serão, ou não, abertas a respeito de suas sexualidades, sem nenhum medo de assédio.

Ninguém lhe acreditar

Outro problema compartilhado com as pessoas LGBT, é sair do armário e deparar-se então com uma resposta de:

  • você só não encontrou o homem/mulher certo/certa para você ainda
  • você deve realmente ser gay, mas enrustido
  • eu não acredito que isto seja possível/moral/saudável/natural
  • deve haver algo errado com seus hormônios/você deve ser broxa/você é sexualmente reprimido
  • absurdo, você faz X/Y/Z, então você de fato deve ser sexual

Há pessoas que vão mais além, e bullinam ou assediam pessoas que saem do armário.

Licença Creative CommonsEste post de Anders Bateva está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em Beyond the Rainbow.

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