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Anders Bateva

Clippings / recortes de não-ficção: prospecções literárias, de tudo um pouco.

Anders Bateva

Clippings / recortes de não-ficção: prospecções literárias, de tudo um pouco.

Economia planificada, um fiasco

Fonte: RationalWiki (artigo de bronze).

Você consegue forçar pobres pedintes em fábricas para que produzam mais produtos, mas um fazendeiro não consegue forçar o solo a produzir. Ele não pode pregar Marx para o tempo, de forma que chova na hora certa. E desconhece-se, em toda a União Soviética, um dia sequer aonde o Sol tenha dado ouvidos à economia de Joseph Stalin.
—Leonard Wibberley, The Mouse that Roared

Uma economia centralizada, também chamada de economia planificada, é um modelo econômico aonde uma autoridade central coerce à ponta do fuzil informa às fazendas, fábricas, escolas e companhias:

  • quais e quantos bens, serviços, e profissionais produzir;
  • onde distribuí-los e quem poderá recebê-los;
  • quais serão seus preços e valores, de forma semi-arbitrária ('por decreto').

Para que estes processos sejam realizáveis em escala nacional, faz-se necessário controle centralizado com amplo alcance — tipicamente, possuindo controle total da indústria, educação, e trabalho, juntamente das maquinações internas requeridas para garantir, de cima-para-baixo, a obediência de cada engrenagem nesta máquina pessoa neste sistema.

Isto contrasta-se fortemente com o espectro de economias de livre mercado, onde cada indivíduo é teoricamente livre para decidir, em seus próprios termos, questões de produção e comércio.

Fracasso

'Planejada' não é equivalente a 'perfeita' alocação de recursos, nem alocação 'científica', nem mesmo alocação 'mais humana'. Significa simplesmente alocação 'direta', ex ante. Desta forma, é o oposto de alocação de mercado, que é ex post.
—Ernest Mandel, In Defence of Socialist Planning

A economia centralizada é conhecida por dois grandes feitos:

  1. por ter sido tentada em inúmeros regimes comunistas durante o Século XX;
  2. por eventualmente estagnar a economia e retardar o desenvolvimento do país.

Devido a esta capacidade, o modelo centralizado tem sido repetidamente o alvo de forte crítica de todos os lados do espectro político (com exceção de entusiastas do autoritarismo, em ambas as extremidades). Quem se identifica "de direita" critica este modelo devido a ele capar a livre iniciativa e os valores tradicionais, enquanto quem se identifica "de esquerda" protesta que a hierarquia centralizada inerente a este modelo não apenas vai contra a visão original do Marx a respeito de 'comunismo sem Estado', mas também confronta com força uma ampla gama de ideais socialistas desejados. As pessoas e instituições, ao longo de todo o espectro político, têm expressado veemente ceticismo em relação ao conceito Stalinista de entregar de bandeja todas as funções de auto-determinação econômica para um distante conchavo de "experts" politicamente intocáveis -- que na realidade de nada entendem.

Fora do contexto de início do desenvolvimento industrial, e de tempos difíceis de guerra, o modelo de economia centralizada nunca foi promovido por economistas que estivessem fora de ditaduras totalitaristas, tendo tal modelo adquirido um certo 'reconhecimento geral' em ser completamente ineficiente - a ponto de ser contraprodutivo - na gerência de qualquer economia em tempos de paz. Ao invés disto, as atuais disputas de macro-economia ficam entre doutrinários de livre-mercado (Escola Austríaca) e promotores de intervenção estatal (Keynesianismo), uma discussão bem distante dos terrenos fantásticos dos 'grandes saltos adiante' e 'planos quinquenais'.

Historicamente, dois grandes países a possuir econimias planificadas foram a China e a União Soviética. Embora demonstravelmente capazes de colher resultados a curto prazo — uma característica em comum com certo número de economias não-planificadas — ambos os experimentos foram, no fim das contas, afligidos por: perda de mobilidade social; grandes flutuações na disponibilidade de produtos e serviços; formação de mercados negros imensamente maiores que os que se formaram na época da Lei Seca nos EUA; pseudociência patrocinada pelo Estado; fomes (tanto intencionais quanto acidentais); devastação ambiental sem precedentes; falha humana sem limites; e insanidade ideológica generalizada.

Ao fim da década de 1970, a necessidade inadiável levou ambos países a remodelar suas economias. Enquanto a China é hoje ainda nominalmente comunista, sua economia diverge dramaticamente da auto-suficiência introvertida implícita nos velhos ideais (ao invés disto, expandiu-se fortemente em direção ao livre mercado internacional). Quanto à União Soviética, não mais existe — em parte, como resultado de sua economia planificada muito mais 'ideologicamente pura' ter se tornado completamente decrépita por essa exata razão. Exemplificando a falácia dos custos irrecuperáveis, mais de uma década ininterrupta mantendo o sistema vivo 'com ajuda de aparelhos' provou não surtir qualquer efeito na compensação das falhas sistêmicas que são endêmicas de enconomias planificadas.

Licença Creative Commons

Este post de Anders Bateva está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.Baseado no trabalho disponível em Rational Wiki - Command economy.

A Bulgária

Resumido de: Wikipedia, the free encyclopedia.

A República da Bulgária (Република България) é um país do sudeste europeu, membro da União Europeia desde 2007. Faz fronteira ao sul com Grécia e Turquia, ao norte com a Romênia, no oeste com a Sérvia e Macedônia, e no leste com o Mar Negro. Sua capital é Sofia (София) com 1.238.438 habitantes em 2017, o que equivale a 17,5% da população nacional.

Apesar de fazer parte da União Europeia, sua moeda é o lev (лев), não o Euro, donde 1.95583 leva = 1 euro (taxa de conversão fixa). A adoção do Euro era pretendida, mas tem sido adiada por fatores econômicos tanto na União Europeia em geral quanto na Bulgária em si.

A produção de energia é dividida da seguinte forma: 40% carvão, 35% energia nuclear, e 20% fontes renováveis.

Demografia

A Bulgária possuía 7.050.034 habitantes em 2017, dos quais 72,5% viviam em áreas urbanas. Desde o início da década de 1990, a população tem encolhido, dada a forte emigração causada pela crise econômica, junto da menor taxa de natalidade do mundo, mais a maior taxa de mortalidade do mundo. A maioria das crianças nasce de mulheres solteiras. A taxa de mortalidade é alta em parte devido ao fraco sistema de saúde local.

A literacia é de 98.4%, sem diferença significativa entre os sexos, mas o analfabetismo funcional é alto.

Mais de 3/4 da população segue a Igreja Ortodoxa.

Crime

É o país mais corrupto da União Europeia, o que gera profundo descontentamento público. Este problema, bem como o crime organizado, tem afastado investimentos estrangeiros, e causou a rejeição do pedido para participar da Área Schengen (abolição de controles de fronteira, permitindo livre tráfego dentro da U.E.). Os outros países-membro, entretanto, não tomam medidas contra a Bulgária por depender do suporte deste último.

A taxa de homicídios é baixa; a maioria dos crimes é relacionada a transportes, seguido de roubo, e drogas.

História

O território hoje ocupado pela Bulgária teve suas primeiras sociedades em 6500 a.C., no período neolítico. Foi conquistado pelo Império Romano no ano 45, domínio que durou até o Século VII, quando uma horda de proto-búlgaros tomou parte do território, fundaram o primeiro Estado búlgaro, e expandiram seu controle sobre os bálcãs, influenciando as culturas eslavas e desenvolvendo o alfabeto cirílico. Este Primeiro Império durou até o início do Século XI, quando foi tomado pelos bizantinos. Após uma revolta, o Segundo Império foi criado ainda no século XI, e desintegrou-se no Século XV após exaustivas batalhas. Por quase 5 séculos, o território ficou sobre controle otomano.

O atual Terceiro Estado Búlgaro formou-se após a guerra da Rússia com a Turquia, que ocorreu de 1877 a 1878. Porém, as fronteiras definidas nesta época acabaram deixando muitas pessoas etnicamente búlgaras fora do território da Bulgária, o que gera problemas étnicos com outros países.

Em 1946, a Bulgária tornou-se um estado socialista de partido único, membro do bloco soviético, o que perdurou até 1989, quando o Partido Comunista abriu mão de seu monopólio após as revoluções ocorridas naquele ano, e convocou eleições livres. A Bulgária então fez transição para uma democracia, com economia de mercado.

Desde a adoção de uma constituição democrática em 1991, a república é parlamentarista unitária com grande nível de centralização política, administrativa, e econômica.

Licença Creative CommonsO texto deste post de Anders Bateva está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição 4.0 Internacional. Deriva-se do artigo na Wikipedia anglófona Bulgaria

Assexual arromântica: a identidade que me tornou mais resiliente

Autora: Sara K., em 24/06/2016. Tradução: Anders Bateva.

A um longo tempo atrás, eu acreditava que iria eventualmente terminar num relacionamento sexual/romântico, e que era apenas questão de encontrar a pessoa certa. Ao longo do tempo, eu gradualmente me dei conta de que isto a) não estava acontecendo e b) havia mais sobre não estar acontecendo do quê simplesmente não estar encontrando "a pessoa certa".

ntificar como arromântica).Eu tive mais sorte do que outras pessoas, por isto nunca ter sido uma grande fonte de stress em minha vida. Porém, eu realizei algumas tentativas mal-feitas de busca do tipo de pessoa que ao menos me interessasse em tentar sexo/romance. Identificar-me como assexual pôs um fim nisto (foi anos depois que comecei a me identificar como arromântica).

rmitiu-me focar mais em coisas que contribuíram muito mais para me desenvolver enquanto pessoa.O que teria me acontecido se eu não houvesse me identificado como assexual naquele tempo? Eu não sei. Eu não me arrependo das tentativas (fúteis) que fiz de tentar ter qualquer romance/sexo na minha vida, mas eu creio que não teria me beneficiado de novas tentativas, então eu penso que veio a calhar que eu parasse justamente quando parei. Apenas isto - parar de tentar ter sexo e romance na minha vida - aumentou minha resiliência pessoal, dado que permitiu-me focar mais em coisas que contribuíram muito mais para me desenvolver enquanto pessoa.

Minha identidade também me ajuda a lidar com a maneira pela qual as pessoas reagem à ausência de sexo e romance na minha vida. Antes de eu assumir uma identidade assexual, as pessoas frequentemente teciam comentários sobre sexo e/ou romance que me deixavam desconfortável. Mas eu não entendia o porquê de ficar desconfortável. Agora, eu compreendo que eu tenho uma perspectiva bem diferente da maioria das pessoas, em questão de sexo e romance. Isto explica um bocado da dissonância que eu sentia entre meus pensamentos e o das outras pessoas, nestes temas. Independente do que as pessoas pensem de mim, minha perspectiva sobre minha própria vida sem-sexo é 100% válida. Isto torna-me mais resiliente perante comentários ignorantes que outras pessoas fazem.

E finalmente, eu sei, graças a outras pessoas assexuais e arromânticas que discutiram suas identidades, que eu não estou sozinha. Eu não sei porquê as pessoas sentem uma necessidade de encontrarem-se nas outras para poderem sentirem-se bem consigo mesmas, com o que são, mas é assim que a natureza humana, e eu não sou uma exceção. Saber que isso não se dá apenas comigo me dá um tiquinho adicionar de resiliência psicológica.

CC0O texto deste post de Anders Bateva está liberado sob domínio público.
Baseado no trabalho disponível no The Notes Which Do Not Fit.

Assexualidade versus expectativas alheias

Autora: Pegasus, em 31/05/2014. Tradução: Anders Bateva.

Nós vivemos em uma sociedade onde ser sexual é a norma. A vasta maioria das pessoas considera óbvio que, quando duas pessoas estão em um relacionamento, elas estarão fazendo sexo. Mesmo da perspectiva mais socialmente conservadora, é esperado que casais farão sexo.

A possibilidade de que uma pessoa saudável poderia simplesmente não querer sexo é raramente levada em conta em discussões de sexualidade. E modelos de relacionamentos felizes, de sucesso, sem sexo, são largamente ausentes na mídia e na educação sexual. Se a ausência de vontade sexual é mencionada na cultura popular, é inevitavelmente associada a problemas psicológicos, abuso, desequilíbrios hormonais, ou necessidade de Viagra.

Este é o ambiente no qual assexuais têm de entender sua assexualidade, descobrir o que querem em matéria de intimidade, e navegar através de seus primeiros relacionamentos. Nós até podemos ter progredivo como sociedade quando a frase não é não torna-se familiar à maioria das pessoas (mesmo que nem sempre seja levada a sério), e quando a ideia mais positiva do sim é sim, de consentimento estusiasmado ganha espaço. Mas nestes casos, a opção de dizer nunca para o sexo com um(a) parceiro(a) raramente ganha séria atenção.

A respeito disto, até mesmo a ideia de sentar-se junto de um(a) parceiro(a) ou potencial parceiro(a) e discutir os desejos, necessidades, e limites de cada um(a) em matéria de sexo e intimidade, é somente posta em prática por uma minoria. A maioria de nós simplesmente segue a ideia de que falar de sexo é esquisito, embaraçoso, e simplesmente não-sexy. Sexo e intimidade é tido como algo que resolve-se sozinho, e negociar de verdade é geralmente deixado na mão da telepatia e da adivinhação.

Isto, com uma frequência demasiadamente grande, deixa os/as assexuais sem uma maneira simples de dizer o que querem ou não, devido à expectativa de comportarem-se sexualmente em um relacionamento. Para sermos claros, não estou falando da pressão que um(a) parceiro(a) faz para que se aja sexualmente - isto é uma questão à parte. Estou falando da pressão que vem da mídia e de nossa cultura para conformarmo-nos a um estilo sexual específico de relacionarmo-nos. Isto pode manifestar-se na forma de uma pessoa ter medo de não ser capaz de encontrar um(a) parceiro(a) se não estiver disposto(a) a fazer sexo. Ou internalizar a ideia de que existe algo de errado consigo se não estiver querendo fazer sexo. Ou, até mesmo, acreditar que o(a) parceiro(a) tem um direito inerente de fazer sexo, e devido a isto sentir-se culpado(a) quando sente vontade de dizer não (ou nunca) para o sexo.

Mesmo se um(a) assexual entender seus sentimentos a respeito do sexo, e tiver certeza suficiente para declarar o que quer e o que não quer sexualmente, ainda terá de disputar com outras pessoas que presumem por padrão que o(a) assexual não é assexual. Por exemplo, se alguém tem interesse em iniciar um relacionamento com um(a) assexual - ou deus que me livre, um(a) assexual flertar com alguém - o ônus da prova sempre recai no(a) assexual, que tem então de se revelar e explicar seu posicionamento sobre sexo. Caso não faça isto, corre o risco de ser acusado(a) de estar enrolando, brincando com os sentimentos alheios, ou até pior. Allosexuais (pessoas interessadas em sexo) não enfrentam este tipo de expectativa de serem transparentes a respeito do que esperam ou não sexualmente - as expectativas-padrão da sociedade, sem serem ditas, são o suficiente para preencher as lacunas.

Este padrão duplo de tratamento deposita sobre os(as) assexuais uma pressão para que assumam-se para quem tiver interesse neles(as), querendo ou não se assumir, e também, o estresse de determinar quando e como fazê-lo. Isto deposita inteiramente o fardo de discutir compatibilidade sexual, ou rejeitar tentativas, na pessoa assexual. Por outro lado, uma pessoa assexual é capaz de não precisar proferir seus desejos e expecativas sexuais, e simplesmente seguir o fluxo do que é norma (seguindo o roteiro-padrão determinado pela sociedade para encontros sexuais), deixando a negociação explícita como um extra opcional.

Similarmente, existe uma pressão para assexuais evitarem flertar, ou de qualquer outra maneira darem qualquer sinal que possa ser interpretado equivocamente como sendo sexual. A prática-padrão da sociedade de não ser transparente a respeito do que nós queremos ou esperamos sexualmente significa que flertar, beijar, dançar, comprar uma bebida, ou até mesmo simplesmente conversar podem ser entendidos (em contextos específicos) como um código informal de querer sexo. Assexuais (e qualquer um) que queiram beijar, flertar, ou dançar sem que isto signifique qualquer outra coisa além de querer beijar, flertar, ou dançar, não têm muita opção. São forçados(as) a escolher entre ignorar estes desejos, ou arriscar ter seus comportamentos interpretados equivocamente como brincar com os sentimentos alheios.

Consciência acerca da assexualidade está aumentando lentamente, o que sem dúvida irá tornar mais fácil a vida dos(as) assexuais e de qualquer pessoa incerta acerta de sua assexualidade. Mas, no fim das contas, até que nós enquanto sociedade possamos de fato discutir rotineiramente o sexo e o desejo sexual abertamente - sem precisarmos depender de normas não-ditas de comunicação sobre sexo - qualquer pessoa que não deseja os estilos de relacionamentos sexuais "típicos" estarão em desvantagem perante o que socialmente presume-se por padrão para sexo, relacionamentos, e expectativas sexuais.

Licença Creative CommonsEste post de Anders Bateva está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.Baseado no trabalho disponível em Beyond the Rainbow.

Diversidade sexual versus militância pró-sexo

Post adaptado por Anders Bateva a partir do original publicado em The Notes Which Do Not Fit, de 30/09/2016.

Quando ouço pessoas favoráveis-ao-sexo defenderem que sexo é algo bom, em resposta a certos grupos religiosos, coço minha cabeça. A mim, parece que estão usando a falácia do espantalho contra as pessoas que tentam criticar, isto é, atribuem aos religiosos uma posição que eles não defendem. Afinal, realmente existe algum grupo religioso defendendo que sexo é ruim e que nunca deve-se fazê-lo? Existe realmente muita gente da sociedade comum que discorde da afirmação sexo é bom? Essa militância do não tem nada errado em fazer sexo não estaria, por acaso, chovendo no molhado?

Acredito até que é um problema maior, com os favoráveis-ao-sexo tendo internalizado a ideia totalmente lugar-comum de que sexo é algo bom, e repetem isso como papagaios para mostrar à sociedade comum que eles são pessoas respeitáveis, razoáveis, progressistas; ao invés de estarem realmente tentando mudar algum valor, fazendo algum ativismo.

rna a aplicação desse princípio um pouco complicada.Sabe o que seria realmente chocante para a sociedade comum? O que seria realmente radical? Defender que aceite-se a diversidade sexual. Uma aceitação que englobe todas as orientações sexuais e gêneros, e tolere todos os comportamentos sexuais, incluindo nunca fazer sexo, desde que isso não causem dano injusto aos outros. Claro, nem todos irão concordar com o que seja "dano injusto", o que torna a aplicação desse princípio um pouco complicada.

Note que esse princípio é neutro a respeito de sexo ser ou não algo bom; a mensagem central é "diversidade sexual" e não sexo é bom.

Há também um problema no lema sexo é natural e normal, não tem nada de errado em fazê-lo: e como ficam os assexuais? Eles são anormais e não-naturais então? Pois é a decorrência lógica do lema que as pessoas defendem. Isso gera/reflete preconceito contra pessoas que não estão fazendo nada de danoso aos outros, mas que simplesmente estão desviando da norma social. A mesma coisa se aplicaria a homossexuais celibatários.

Por tudo isto, fico com a impressão que os militantes pró-diversidade sexual muitas vezes revelam-se afundados nos próprios conceitos que procuram alterar, agindo completamente no lugar-comum, e eu diria, até mesmo de forma conservadora. O caminho para ajudar às minorias sexuais é aceitar a diversidade, não juntar-se ao coro dos comuns em dizer que sexo é algo maravilhoso.

CC0O texto deste post de Anders Bateva está liberado sob domínio público.
Baseado no trabalho disponível no The Notes Which Do Not Fit.

Algumas questões que afligem os/as assexuais

Autora: Pegasus, em 26/10/2013. Tradução: Anders Bateva.

Existe uma visão de que os/as assexuais não têm nada a demandar para si, diferente dos/das LGBT, afinal, se os/as assexuais não querem sexo, basta que eles/elas não façam sexo, certo? Porém, isto é equivocado, e aqui está uma lista curta com alguns problemas que afetam os/as assexuais.

Invisibilidade

A assexualidade é quase nunca exibida na cultura e mídia comuns, e raramente é questionada a afirmação de que todas as pessoas sentem atração sexual. Com frequência, quando o sexo é tema na sociedade, presume-se sem dizer que isto se dá através de um processo linear: flerte -> beijos -> preliminar -> sexo penetrativo (pênis-na-vagina). Isto ignora que podem existir roteiros alternativos, ou que de fato, você pode simplesmente conversar com seu/sua parceiro/parceira e determinar o que funcionar melhor para sua interação/relacionamento particularmente. A possibilidade que algum tipo de relacionamento sem sexo possa ser saudável e feliz, e tão séria quanto um relacionamento convencional, é raramente levada a sério. Isto é também com frequência o caso na educação sexual, onde lésbicas, gays, e bissexuais não recebem muita atenção, quem dirá assexualidade.

O resultado disto é um generalizado desconhecimento da existência da assexualidade na sociedade, tornando mais difícil para as pessoas entenderem seus amigos/parceiros que não experienciam atração sexual. E com frequência, deixa os/as assexuais sentindo-se confusos/confusas a respeito de suas sexualidades, ou pensando que há algo de errado com eles/elas. Além do sentimento de isolação que isto pode causar, algumas vezes pode levar os/as assexuais a receberem uma pressão social para agirem de forma sexual, ou terem sexo em seus relacionamentos independente do quão confortáveis sintam-se com isto. Também, a expectativa da sociedade de que estes relacionamentos e interações sexuais devam seguir um caminho padrão - e a falta de modelos para comunicar limites, desejos, e necessidades - pode tornar difícil que se negociem relacionamentos que sejam mutuamente satisfatórios e respeitosos dos limites de todos os/as envolvidos/envolvidas.

Expectativa/obrigação sexual

Isto merece um post inteiro, no mínimo devido ao gênero também ter um papel imenso neste aspecto, que eu não quero subestimar.

Mas, em resumo, presume-se normalmente na sociedade que, se uma Pessoa A beijar/flertar com/vertir-se provocativamente/namorar com uma Pessoa B, então esta Pessoa B pode ter a garantia de que a Pessoa A vai querer sexo consigo. Então a Pessoa B poderia até mesmo forçar a barra e pressionar a Pessoa A a fazer sexo, mesmo sem consentimento da Pessoa A (estupro).

Devido à sociedade presumir que é mais aceitável para um homem comportar-se sexualmente ou ser um babacão, acontece muito mais frequentemente que a Pessoa B seja um homem e a Pessoa A seja uma mulher, e por isto acaba sendo uma questão recorrente feminista. Porém, nem sempre é este o caso, já que mulheres e homossexuais também podem ser babacas, e este problema pode ocorrer em qualquer relacionamento onde as pessoas tenham diferentes níveis de interesse em sexo.

Para muitos/muitas assexuais em relacionamentos mistos (onde estão se relacionando com pessoas sexuais), o interesse sexual de ambas as partes não está no mesmo nível. Então, a expectativa da sociedade, de que o/a assexual deve atender às necessidades sexuais de seu parceiro/sua parceira leva a pressão para fazer sexo, e então algumas vezes leva seu parceiro/sua parceira a ser babaca - ao invés das opções saudáveis: negociar um relacionamento mutualmente respeitoso; ou cair fora do relacionamento.

Homofobia e bifobia

Não ser lésbica, gay, ou bissexual não faz ninguém 100% imune às fobias dos outros. Se eu der as mãos ou beijar uma pessoa de mesmo sexo em público, nós corremos risco de sermos assediados/assediadas em público. Se alguém pensar que sou bissexual devido a eu ir em encontros com pessoas de qualquer gênero, então corro risco de discriminação. E assim por diante. O que eu faço ou deixo de fazer no quarto, sobre a cama, com outra pessoa, não faz muita diferença: as pessoas intolerantes não têm como saber com 100% de certeza, e tampouco se importam sobre como você se identifica ou sente-se a respeito de sua sexualidade ou gênero.

Assexuais heterorromânticos ou aromânticos também não escapam dessa. Não estar sexualmente interessado em pessoas do gênero oposto pode bem facilmente levar as pessoas a presumir que você é gay/lésbica, pois as pessoas confundem sexo (macho ou fêmea) com orientação sexual, e concluem que quem "não gosta" de homem necessariamente gosta de mulher, e quem "não gosta" de mulher necessariamente gosta de homem. Afinal, só existem 2 sexos, certo? 'Se você não gosta de um, é porquê gosta do outro!'

Pressão para ficar no armário

Mas é claro, existe a opção aberta para as pessoas de diversas sexualidades: permanecer no armário. 'Keep calm'(mantenha a calma) e finja ser heterossexual (ou homossexual, se você estiver numa comunidade LGBT). Não sair do armário funciona bem para alguns assexuais, mas fingir ser algo que você não é, devido a fobias dos outros, não é uma situação agradável de se estar. E realmente, as pessoas deveriam ter a liberdade de escolher com quem serão, ou não, abertas a respeito de suas sexualidades, sem nenhum medo de assédio.

Ninguém lhe acreditar

Outro problema compartilhado com as pessoas LGBT, é sair do armário e deparar-se então com uma resposta de:

  • você só não encontrou o homem/mulher certo/certa para você ainda
  • você deve realmente ser gay, mas enrustido
  • eu não acredito que isto seja possível/moral/saudável/natural
  • deve haver algo errado com seus hormônios/você deve ser broxa/você é sexualmente reprimido
  • absurdo, você faz X/Y/Z, então você de fato deve ser sexual

Há pessoas que vão mais além, e bullinam ou assediam pessoas que saem do armário.

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Baseado no trabalho disponível em Beyond the Rainbow.

O Perigo da Assexualidade

Autor: Onychoprion, em 22/08/2015. Traduzido por Anders Bateva.

Eu apenas recentemente descobri que sou assexual, e tenho estado re-avaliando minhas experiências de vida sob estas lentes. Para esclarecer, eu apenas recentemente descobri que a assexualidade era alguma coisa existente, após isto, eu quase imediatamente percebi que eu muito provavelmente era um - eu não acordei um dia e decidi que era assexual, ao invés disto, eu descobri um rótulo que coincidia com minhas próprias experiências e sentimentos. Até que eu me deparasse com um artigo de enciclopédia sobre isto, eu me considerava um heterossexual "quebrado", como falarei mais adiante.

Este texto não é uma reclamação sobre como é dura a vida de um assexual, e como o mundo precisa mudar, ou algo desse tipo. Eu sei (ou melhor, eu presumo) que minha condição é rara, tão rara que eu nem ao menos sabia que ela existia até que eu tivesse 23 anos de idade, e seria incrivelmente injusto se eu solicitasse que a vasta maioria dos seres humanos se adaptasse à minha situação "quebrada". Ao invés disto, este text tem um simples propósito de informar. Conhecimento e compreensão nunca são coisas ruins. Dito isto, eu absolutamente não posso declarar que estou falando em nome de todos os assexuais (se é que uma coisa desses pudesse alguma vez ser declarada); o conteúdo deste texto é simplesmente minha experiência e meus pensamentos sobre este tema.

Para ser mais específico, eu vou falar sobre como eu aprendi e fui introduzido lentamente à realidade da cultura sexual, minhas experiências de relacionamento, e alguns pensamentos a respeito do atual estado das coisas.

Crescendo em um mundo não-relacionável

Eu nasci e fui criado como um Adventista de Sétimo Dia, e como tal, fui mais blindado contra sexualidade durante meus anos iniciais. Até tivemos educação sexual no ensino fundamental, e olhando em retrospectiva, isto foi notavelmente progressistas, devido a se tratar de uma instituição religiosa, mas ao ir para o ensimo médio, eu realmente não tinha ideia de quão essencial o sexo é na cultura moderna.

Uma de minhas memórias mais vívidas em meu ano inicial do ensino médio foi a professora de Inglês trazendo a boa-nova de que basicamente tudo resume-se a sexo. Na época eu pensava que eu era um humano macho típico e honestamente não acreditei em uma palavra do que ela disse. Eu me lembrei de ter assistido Friends quando era criança, e apresentei isso como contra-argumento para a declaração dela, ao que ela respondeu Friends é totalmente sobre quem vai conseguir uma transa. O que eu novamente não acreditei, até que eu assisti um episódio de Friends após a aula, e descobri que ela estava certa.

Após isto, eu comecei a reparar em tudo. Parecia que todo enredo de um show de TV dava-se em torno de machos cortejando fêmeas. Eu percebi que a maioria dos livros que eu lia envolviam, de uma forma ou de outra, sexo, com frequência sendo esta a motivação principal de alguns dos personagens. Como uma criança, eu não dava muita atenção a isto, mas conforme fiquei mais velho, eu comecei a perceber que isto provavelmente não era uma coincidência. Histórias são mais engajadoras se é possível estabelecer relações com os personagens, e eu comecei a perceber que sexo-como-força-motriz era aparentemente o aspecto mais relacionável, pelo menos para machos.

Isto me confundiu imensamente. Novamente, eu me considerava um macho típico, porém não conseguia me relacionar com nenhum desses personagens. Mas eu continuei vendo isto em todo lugar. Outro momento que marcou-se em minha memória foi ler um livro designado para informar adolescentes de ambos os gêneros sobre como relacionar-se com o gênero oposto. Um capítulo basicamente resumia-se à ideia de que qualquer coisa que um rapaz faz para uma garota é, de alguma forma, um esforço para conseguir transa ou ganhar prazer sexual de outras maneiras. Por exemplo, manter uma porta aberta para garotas era uma maneira de checar as bundas delas. Isto me deixou desconfortável, pois na época eu mantinha as portas abertas para as garotas devido a acahar que era uma coisa polida a se fazer. Eu não tinha interesse em checar as bundas delas; depois disto, eu sempre senti que eu não podia nem mesmo sorrir para uma garota sem me preocupar se elas estavam pensando que esta era simplesmente uma maneira de levá-las para a cama.

Eu comecei a me perguntar se isto era uma coisa somente com adolescentes, ou se estes livros talvez estavam enviesados contra os homens (novamente, eu me considerava um homem típico), ou informando todos das piores características do gênero masculino em um esforço para evitar situações de estupro, ou algo assim. Mas novamente, minhas experiências me ensinaram o oposto. Eu ouvia homens, adultos, dizerem coisas como Tudo o que eu faço é, de certa forma, feita na expectativa de que levará a sexo.

Foi por aí que eu percebi que eu não podia me relacionar com este mundo, esta cultura que me cerca. A sociedade inteira tem este "complô", esta piada interna com o sentimento de "você tem de estar lá para entender", para o qual eu fui, e sempre serei, perpetuamente ausente.

Relacionamentos e agir normal

Pela minha infância inteira, eu vi a sexualidade humana como uma barra bi-dimensional. De um lado, você tinha os homossexuais, e do outro, os heterossexuais, e todo mundo se encaixaria nesta linha. Como eu não tinha interesse em garotos, mas eu tinha interesse em garotas, eu supus que eu estava do lado heterossexual. No ensino fundamental eu tinha aquele "gostar" ingênuo e descompromissado com algumas garotas, no sentido de que eu sabia que garotos gostavam de garotas, e isto era o que supunha-se que eu fizesse para me encaixar. Dado que tratava-se do ensino fundamental, eu não me sentia muito fora d'água, e foi fácil para mim presumir que todo mundo era que nem eu, e só seguir o fluxo de como as coisas supostamente deveriam ser.

Quando eu entrei no ensino médio, eu fui para um internato que, fora o fato de tomar-me de todos os conhecidos do ensino fundamental, pôs-me em uma posição onde eu estava com meus pares todo o tempo. Foi durante estes quatro anos que eu desenvolvi meus relacionamentos interpessoais mais fortes. Eu encontrei metade de meus atuais amigos nesta escola.

Note porém, que internato é diferente de uma escola que funciona só durante o dia: você não pode pôr uma máscara durante 8h/dia e então ir para casa e ser você mesmo. Ou você usa a máscara todo o tempo, ou você não a usa simplesmente, e no processo de fazer de uma forma ou de outra, você aprende muito mais sobre você mesmo. Para mim, eu aprendi - apesar de que principalmente após os ocorridos - o que um relacionamento significa para mim.

Eu encontrei e cortejei 2 garotas durante meu tempo ali: uma autora (chamarei-a "Emma") e uma artista ("Olivia"), ambas as quais eu ainda considero excelentes amigas. Emma estava ali por um semestre apenas, porém nossa amizade me pôs em contato próximo com a amiga e colega de quarto dela Olivia, com quem eu namorei por mais tempo.

Lembre-se de que, nesta mesma época, eu estava aprendendo que o cara estereotípico estava fazendo de tudo para conseguir transa. Eu fiz o meu melhor para afastar este estereótipo, apesar de que não a partir de uma escolha consciente qualquer, simplesmente devido a eu não sentir nenhuma dessas urgências. Eu gostava da companhia da Emma e da Olivia, até buscava por isto, mas nem uma vez eu senti uma necessidade real de tornar nosso relacionamento mais físico. Abraçar era o contato mais físico que eu desejava.

Após o ensino médio, eu fui para uma universidade , onde minhas únicas interações com meus pares resumiam-se a mais ou menos uma hora em que estávamos na mesma turma juntos. Eu nunca desenvolvi amizades, quem dirá relacionamentos, pois eu tinha tudo que eu precisava simplesmente mantendo contato com Olivia. As coisas com a Olivia culminaram quando ela veio me visitar. Meu padrasto ofereceu, se não diretamente comprar para mim, me direcionar a um lugar onde eu poderia obter preservativos, antes da chegada dela. Eu recusei, já que eu ainda não sentia absolutamente nenhum desejo de ter sexo. Olivia e eu, naquela época, já nos conhecíamos há uns 6 anos, estávamos namorando pela maior parte deste tempo, e esta visita foi a primeira vez que nós ao menos nos beijamos. Um ato iniciado por ela...

Foi então que eu me dei conta que algo estava drasticamente errado comigo, e nosso relacionamento lentamente morreu. Eu estava satisfeito com nossa conexão emocional. Eu gostava de estar com ela, ir em viagens pela costa, conversar e jogar jogos e assistir filmes. Mas eu não tinha nenhum desejo de fazer nada além disto, nenhuma pulsão para complementar o relacionamento com intimidade física. Em resumo, eu não poderia ser um bom namorado.

Após Olivia e eu terminarmos, eu estupidamente tentei reconstruir um relacionamento com Emma. Felizmente para ambos de nós, não tomou 6 anos para este relacionamento morrer também. Como eu não consigo prover adequada conexão física, eu não deveria me engajar em tais relacionamentos, tal qual alguém que não sabe nada sobre medicina não poderia se tornar médico.

O agora e o depois

Se eu tentasse encontrar um rótulo para minha sexualidade, seria "Assexual Hetero-romântico". Eu sou emocionalmente atraído por fêmeas, mas não sinto absolutamente nenhuma atração sexual por elas ou por qualquer outra pessoa. Uma boa forma de explicar a diferença entre os dois é conversar pela internet, onde eu posso me sentir em casa. Em um sistema de chat baseado em texto, eu posso conversar, e posso sentir conexão emocional com pessoas sem nenhuma forma da biologia se intrometer. Eu desejo companheirismo intelectual e intimidade mental.

Isto não exclui proximidade física, porém. Conversar online não é, de forma alguma, uma substituição de estar na mesma sala, ou viajar juntos, ou escalar até uma cachoeira. Mas o aspecto físico de um relacionamento que eu desejo é aquém do que a maioria das pessoas considerariam que é necessário para um relacionamento saudável. Eu sou forçado a concluir que eu provavelmente serei incapaz de formar qualquer conexão significativa e profunda com alguém sem forçar algum de nós a uma situação desconfortável - ou minha parceira será forçada a aceitar algo muito menos do que uma conexão física completa, ou eu serei forçado a fingir isto. Nenhum dos casos é aceitável para mim, já que em qualquer um deles, o relacionamento como um todo está fundamentado sobre falsos alicerces.

Assim, sou posto em uma posição difícil a respeito de minhas interações diários com outros. Eu me importo com a felicidade das pessoas, e tenho como meu objetivo melhorar as vidas das pessoas que eu encontro. Eu busco sempre ser uma influência positiva nos humores dos outros, de forma que ninguém se arrependesse de me encontrar. Porém, este objetivo é abortado pelo conhecimento de que, como um macho, se sou gentil com mulheres, sempre parecerá haver o entendimento de que estou fazendo isto somente para cortejá-las. Não me parece justo ter que andar todos os dias como uma camiseta ou plaquinha escrito Eu sou assexual, se eu estiver sendo legal com você não é para levá-la para a cama, mas não seria justo solicitar a todos que ajustem seus paradigmas de todo o gênero masculino para aqueles de nós que são assexuais.

Eu tenho tentado encontrar maneiras de abordar o tema com minhas amigas, na esperança de que eu possa ser gentil com elas sem que elas um dia esperem que eu cobre retribuição e solicite favores sexuais ou algo do tipo, mas mesmo se isto funcionar, esta cultura ainda contamina minha experiência com as pessoas aleatórias que encontro, para as quais eu desfilar por aí com uma plaquinha declarando minha ausência de sexualidade seria estranho, na melhor das hipóteses.

Quebrado e não-humano

Como meus amigos podem certificar, eu com frequência brinco a respeito de ser um robô. Eu existo, e posso percorrer a vida completamente alheio a este aspecto da humanidade que eu nunca serei capaz de entender ou mesmo compreender mais do quê uma pessoa cega não conseguiria entender ou compreender cores. Eu ainda pego-me no pensamento de que a importância que as pessoas dão ao sexo é imaginária, que o mundo inteiro está apenas seguindo o status quo. Isto alcançou um ponto onde eu estou perto de legitimamente perguntar O que é esta coisa que vocês humanos chamam de amor?.

Isto soa engraçado, e a primeira vez que eu percebi que meus amigos não pensariam que eu perguntar isto seria estranho, eu até ri sozinho. Mas então eu dei um passo para trás e me dei conta do horror por detrás disto: eu não me percebo como sendo humano.

Isto não é devido a alguma agenda anti-assexual, ou algum tipo de discurso de ódio. Não é resultado de intolerância ou mesmo de pessoas me des-humanizando. É o resultado de eu estar em uma cultura que eu não consigo entender. Toda a cultura me diz que há este aspecto fundamental de ser humano - diacho, mesmo de estar vivo - que eu não possuo. Por toda minha vida adulta, eu me identifiquei como uma máquina não-viva, o que é completamente falso.

Eu sou humano. Eu desejo relacionamentos íntimos. Eu sou uma criatura social (porém muito menos social do que a maioria), e ainda assim eu sinto-me como um alien mesmo em minha própria família. E isto, para mim, é o maior perigo. Alienação não através de intolerância, mas de uma cultura tão dedicada ao sexo que eu legitimamente vejo-me como inumano.

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Alemanha Socialista e sua Polícia Secreta

Tradução parcial do texto "The Lives of Others, the Movie", publicado originalmente no site "Media Influencer" em 01/07/2007. Tradução por Anders Bateva.

Um dos protagonistas (há 3, creio eu) do filme "A Vida dos Outros", é um capitão na Stasi, a polícia secreta da Alemanha Socialista. Sempre fiel em sua dedicação ao regime - devido a seu idealismo, somos levados a crer - e portanto incorruptível, persistente ao ponto de ser inumano, e sozinho. Um especialista em destruir as pessoas e extrair informação delas sobre quaisquer atividades 'subversivas', ele usa privação do sono, e justifica sua brutalidade através de observações pseudo-científicas da psicologia humana. Em resumo, coisas horrendas. Capitão Gerd Wiesler.

Ele recebe a missão de monitorar um dos principais poetas e roteiristas de teatro do país (Georg Dreyman). Não porquê houvessem dúvidas da lealdade deste homem - ele é um amigo próximo de Margot Honecker, a esposa do Erich Honecker (presidente da Alemanha Socialista). O plano é desenterrar algo que possa desacreditar seus protetores, para ser usado em jogos internos de poder do Partido Socialista. O escritor vive com uma das principais atrizes do país, Christa-Maria Sieland. Ela é parte da razão pela monitoração, e é uma pessoa complexa, com suas lealdades e força de caráter não muito claras. Vale destacar aqui que qualquer um de importância em um regime socialista deve seu sucesso aos poderosos, sem exceções.

Durante sua missão, porém, o Capitão Gerd Wiesler envolve-se na vida do casal, o que é facilitado pela sua fascinação pela atriz. Ele começa a encobrir as atividades do poeta, que vira-se contra o regime após o suicídio de um amigo próximo que também era roteirista de teatro, após este ter sua carreira bloqueada pelo Partido Socialista, e não conseguir mais suportar a isolação. O enredo fica mais profundo, o comportamento das pessoas fica mais complexo e distorcido, mas o tema central é a transformação de um burocrata cinzento, solitário, e sem vida própria, em alguém com simpatia. Sua própria carreira é destruída como resultado de ter protegido o casal. A mensagem do filme, creio eu, é que alguém que seja movido por idealismo e pelo que crê, pode cometer grande mal, mas também grande bem. Os que não tinham nada em que acreditar é que se saíam pior no filme.

Como me sinto a respeito disto? Penso que não haviam muitas pessoas idealistas trabalhando para o regime no mundo real, que era abertamente totalitário/autoritário por décadas. Quando você entrava para o Partido Socialista, não era para construir uma utopia. Pelo menos, não para outras pessoas; talvez para si próprio, mas isto era uma ilusão. E, na década de 1980, não havia realmente muito espaço para idealismo mais. Também, ser um especialista em interrogatório da Stasi não exatamente deixa muito espaço para justificar a motivação de cada um. E, ainda assim, o personagem é de alguma forma credível: as pessoas são mais complexas do quê quaisquer '-ismos' gostariam que fossem. A vida é cheia de surpresas, e mesmo nos momentos mais sombrios, os seres humanos podem subir a alturas inesperadas (e descender a profundidades inmencionáveis).

Entretanto, mesmo com seu final humano e animado, a história não pode compensar a tragédia dos milhares, milhões, que não foram poupados da brutalidade do socialismo... Ainda assim, é um excelente filme, que vale muito a pena ver.

Creative Commons LicenseEste post de Anders Bateva está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-PartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.Baseado no trabalho disponível em Media Influencer.

O que é o Dieselgate (escândalo das emissões Diesel da Volkswagen)?

Resumido de: Wikipedia, the free encyclopedia.

Iniciado em 18/09/2015, quando a EPA dos EUA emitiu uma notificação de violação para o Volkswagen Group. Foi constatado pela agência que a Volkswagen havia programado motores Diesel TDI, intencionalmente, para ativar alguns controles de emissões somente durante os testes de emissões em laboratório. Tal fraude fazia os veículos cumprirem as normas de emissões de NOx os EUA, ao mesmo tempo em que, em condições reais de uso, emitiam até 40x além do permitido. Tal programação fraudulenta foi aplicada em cerca de 11 milhões de carros mundialmente, sendo 500 mil deles nos EUA, entre 2009 e 2015.

O caso todo veio à tona devido a discrepâncias nos resultados das emissões dos veículos nos EUA e na Europa, conforme medido de forma independente por múltiplos indivíduos ao longo do tempo, e compilado por estudo encomendado pelo ICTT (Concelho Internacional em Transporte Limpo). As conclusões foram entregues para o CARB (Autoridade Californiana de Poluição Aérea) em maio de 2014.

Múltiplas autoridades reguladoras, de vários países, abriram investigação contra a Volkswagen. As ações da empresa perderam 1/3 do valor imediatamente, o CEO Martin Winterkorn se demitiu, e vários diretores foram suspensos.

O caso da Volkswagen teve o efeito interessante de revelar que os outros fabricantes estavam fazendo a mesma burla, e até com muito mais intensidade... Outro estudo, encomendado pela ICTT, mostrou que Volvo, Renault, Jeep, Hyundai, Citroën, e FIAT, todos fabricam carros Diesel que, em condições reais, poluem mais que o permitido, e mais que a Volkswagen. Isto pode levar a novos escândalos... O da Volkswagen continua sendo o principal, no momento.

Houve um ponto debatido, nisto tudo, de que maquinário controlado por software seria geralmente propenso a abusos, e que a solução seria abrir o código-fonte para inspeção geral pelo público.

Dinheiro

Em abril de 2017, um juiz federal decretou multa de US$2.8 bilhões para a Volkswagen, por preparar motores Diesel diretamente para o objetivo de fraudar testes federais de emissões. A Volkswagen, em algum momento, anunciou planos de gastar US$7,3 bilhões na retificação dos problemas de emissões, incluindo campanha de recall dos veículos em fraude. O valor planejado depois foi ampliado para US$18.32 bilhões.

Licença Creative CommonsO texto deste post de Anders Bateva está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição 4.0 Internacional. Deriva-se do artigo na Wikipedia anglófona Volkswagen Emissions Scandal

GNU Social: como começou

Este post é baseado no artigo What is GNU social and is Mastodon Social a “Twitter Clone”?, por Robek World.

Em 2007, Evan Prodromou desenvolveu o "esqueleto" do que eventualmente se tornaria o GNU Social. Na época de sua concepção, ele era conhecido como Laconica, e era utilizado em um serviço de microblogging chamado Identi.ca. Após ser financiado, Prodromou renomeou Laconica para StatusNet e começou o desenvolvimento do serviço. A ideia por detrás da StatusNet era que qualquer um pudesse baixar o software e rodar seu próprio serviço de microblogging. O nobre objetivo estava embrulhado em estratégia de marca, e buscas corporativas, na esperança de um dia levar o microblog para as massas (tanto marcas quanto indivíduos) tal qual WordPress fez para os blogs.

Várias pessoas contribuíram código para a StatusNet e o projeto cresceu. Em 2010, Prodromou documentou o protocolo OStatus que ele criou e fez a StatusNet usar, e conseguiu levar este protocolo para o W3C, para que fosse mais desenvolvido (o que não ocorreria até 6 anos depois). OStatus tornou-se o padrão sucessor do protocolo OpenMicroBlogging. Esta foi uma grande conquista, pois o OStatus é a tecnologia que o W3C mantém e desenvolve, e é basicamente o procedimento operativo padrão para comunidades coesas de microblog. A maioria destas comunidades OStatus podem comunicar-se umas com as outras (Federação).

Em algum momento por aqui, Matt Lee começou a explorar opções para ferramentas sociais para o GNU FM, e a StatusNet capturou sua atenção. Algum interesse continua a crescer, mas nade demais acontece. Prodromou eventualmente perde seu financiamento em 2012, e o desenvolvimento real da StatusNet parece estar condenada à morte, apesar de continuar um pouco.

Devido ao projeto usar uma licença livre, as pessoas tinham a capacidade de fazer "forks" (ramificações do desenvolvimento), e Mikael Nordfeldth havia feito um fork da StatusNet para um projeto chamado Free Social. O projeto de Mikael era "por diversão", mas após Prodromou ter decidido seguir adiante com o pump.io, Matt e Mikael oferecem a ideia de fundir o projeto StatusNet em um novo, nomeado GNU Social (já que os desenvolvedores em questão eram desenvolvedores e apoiadores do Projeto GNU / Fundação do Software Livre). Mikael continua a manter e dar suporte ao GNU Social em 2017, mas houveram vários forks que constroem por sobre seu próprio trabalho, enquanto tentam seus próprios objetivos.

Existe um rumor de que a Identi.ca era um serviço de microblogging independente, e não federava com os nos StatusNet. Este rumor está errado: a companhia StatusNet fazia ser fácil criar seu nó "nome.status.net", de graça para nós de usuário único, e também provia vários nós com nomes como "240.status.net", "unlimited.status.net", para que se experimentasem diferentes tamanhos de mensagem. Prodromou realmente tentou fazer com que pessoas mesclassem-se com a Federação e saíssem do nó com o nome da empresa. Mas Identi.ca era a face da StatusNet, e continuou crescendo. Não foi até o "pumpocalypse" que sites alternativos como Quitter.se realmente deslanchassem, no grande êxodo da Identi.ca por pessoas que estavam confusas ou não gostavam no novo software (pump.io).

Licença Creative CommonsEste post de Anders Bateva está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.Baseado no trabalho disponível em Robek.World.

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